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domingo, 5 de julho de 2026
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Cadeirante luta para entrar no mercado de trabalho em Rio Branco

Cadeirante luta para entrar no mercado de trabalho em Rio Branco

Preencher todos os requisitos profissionais, ser apto a assumir uma vaga de trabalho e não poder ser contratado por falta de infraestrutura adequada. Parece surreal, mas essa é a realidade enfrentada pelo cadeirante Fábio Mendes de Souza, 30 anos, há quase um ano. Bacharel em Ciências Contábeis, ele é um dos muitos profissionais que não são contratados pelas empresas pela falta de espaços adaptados a pessoas com deficiência física na maioria dos empreendimentos.

Além da graduação, Souza possui duas especializações: uma em Auditoria em Perícia Tributária e outra em Docência do Ensino Superior. A formação e as duas pós-graduações vieram após ele sofrer um acidente de trabalho que o deixou paraplégico, no ano de 2012. O fato ocorreu quando ele trabalhava como eletricista em uma construtora na edificação de um prédio. Sem ter aviso sobre a intervenção de uma parte do local, ele entrou em uma porta do 4º andar que não tinha escada.

A ação ocasionou uma queda e a fratura da 12ª vértebra da coluna, deixando-o paraplégico com apenas 23 anos. “A porta era do elevador e a proteção foi retirada, mas ninguém foi avisado. Como não sabia e estava escuro, passei por ela e caí em cima de uma quina de concreto. Fiz cirurgia e durante algum tempo recebi benefício do INSS, mas não consegui me aposentar porque a junta médica do órgão alegou que eu era jovem e tinha mobilidade na parte superior”, conta ele.

Sem poder atuar no cargo de carreira, Souza resolveu investir em outra área profissional e no mesmo ano do acidente prestou vestibular de uma faculdade particular da capital e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Com o esforço, ele foi aprovado nos cursos de Matemática da Universidade Federal do Acre (Ufac) e de Ciências Contábeis na Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO). Por dois anos ele conciliou as duas graduações, ofertadas em turnos diferentes.

Mas devido a questões financeiras, ele teve que optar por uma das graduações. A escolha por Ciências Contábeis veio após ele conseguir o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Ele relata que a dificuldade de mobilidade foi uma barreira grande na formação. “Transporte era a minha principal dificuldade. Muitos amigos e parentes me levavam para aula. Mas quando não dava precisava pegar ônibus e o transporte público não funciona, principalmente para cadeirantes”, diz.

A dificuldade, que o levou a se atrasar para várias provas e trazia prejuízos nos estudos, o forçou a comprar um carro usado. Fábio lembra que espaços com acessibilidade era outro ponto de dificuldade durantes as aulas. “O espaço não era preparado para cadeirantes. Das rampas que existem, apenas uma dava acesso para minha sala e secretaria do curso. Mas ela era na saída de emergência e não tinha cobertura. Quando chovia não tinha como fugir e precisava encarar”, afirma.

Mesmo com os empecilhos, o bacharel em Ciências Contábeis relata que a faculdade deu ânimo para superar a tragédia que o afetou. De acordo com ele, o apoio da família, professores e amigos não deixaram com que ele pensasse em voltar atrás. Além disso, o profissional garante que o acidente o fez traçar muitos objetivos para a vida, coisas que ele não prospectava antes, e encarar os contratempos do dia a dia com tranquilidade e entendimento das situações que passa desde então.

Após concluir a graduação, Fábio foi contratado para ser professor do curso em que estudou no mesmo ano. Algum tempo depois, ele também atuou como contador em uma empresa do ramo alimentício. Devido a crise financeira, ele foi demitido no início do ano passado. Apesar de ser capacitado na área de formação, o cadeirante encontra muitas dificuldades para conseguir um novo emprego. Ele chegou a conseguir algumas vagas, mas não foi contratado por falta de acessibilidade.

“Infelizmente o mercado não é receptivo e preparado para pessoas com deficiência. Não estou desempregado por falta de interesse, entrego currículos em todos os lugares e busco falar com os administradores. Além do preconceito de as pessoas acharem que somos incapazes, as empresas acham mais barato contratar uma pessoa sem deficiência do que investir em adequações nos espaços para atender pessoas com necessidades especiais. Não é fácil”, lamenta o bacharel em Ciências Contábeis.