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Aquele de 30

Bloco do eu sozinho

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“A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo e faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração”.

Alceu Valença cantou a solidão com propriedade. Entender-se sozinho, sobretudo na fase adulta, é uma faca de dois gumes. Por um lado, há o prazer em se ter um espaço importante de autoconhecimento. Porém, o outro extremo é a sensação de que algo falta. Por isso, nesta sexta-feira, trago uma reflexão sobre as dores e as delícias de se ver só.

Como não quero correr o risco de dizer bobagem, achei interessante trazer as palavras da minha terapeuta, Mariana Bilia Arthur, que é psicóloga comportamental, especialista em psicologia clínica. Com muita precisão, ela diferencia quando a solidão passa do saudável para preocupante. Então, muita atenção:

Vez ou outra, o tema é trazido às sessões de terapia. É curioso notar que a forma como as pessoas abordam a temática depende da história de vida, do momento pessoal que estão vivendo e do contexto no qual esse tema se insere. Acredite, muitos dos que estão acompanhados também se sentem sozinhos. Mas até que ponto isso é bom ou ruim? Quando começar a se preocupar com o sentimento de solidão?

Mário Sérgio Cortella, em seu livro “Pensar bem nos faz bem” diz que: “Muitas pessoas querem viver em voz alta. Não conseguem ficar sozinho, o que é diferente de ser solitário. Em vários momentos, para pensar sobre si, fazer com que as nossas ideias sobre nós mesmos fiquem adensadas, ganhem certa fruição, é preciso silêncio, ou até algum isolamento. Não é ficar solitário, mas ficar um pouco quieto no canto”.

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O filósofo aponta duas questões muito interessantes: a necessidade de se recolher, de pensar sobre si, mas, ao mesmo tempo, a relevância de fazer esse movimento sem se tornar solitário. Isso é fundamental porque o autoconhecimento é produto social. Aprendemos sobre nós mesmos e sobre nossos comportamentos através do outro, que nos faz olhar para as nossas características e ações. Como seres sociais, precisamos nos sentir pertencentes a algo: o grupo de amigos, a família, o trabalho, etc.

Os momentos em nossa própria companhia, os encontros que agendamos com nós mesmos para ver um filme, apreciar um vinho, dar uma volta no shopping, podem produzir bons frutos se avaliarmos nossas convicções, pensarmos na vida que estamos vivendo e no quanto ela nos traz ou não momentos de felicidade. É enriquecedor olhar para dentro e fazer o exercício do que precisa permanecer conosco e o que exige um ajuste, para que a vida se torne mais leve, mais produtiva ou mais prazerosa. Vai depender do que cada um almeja.

Até esse momento, abordamos a questão do “estar consigo mesmo” como um exercício importante e que pode ser muito prazeroso. Porém, em algumas circunstâncias o “estar só” preocupa. Se ele vier acompanhado de sentimentos de inutilidade, tristeza, baixa autoestima, pensamentos negativos sobre si e sobre a vida, dificuldade para realizar tarefas simples do cotidiano que eram executadas com facilidade, perda de prazer e do sentimento de pertença, precisamos nos atentar.

Rubem Alves, em seu texto “Fazer nada”, descreve o prazer de um momento solitário: “A manhã está do jeito como eu gosto. Céu azul, ventinho frio. Logo bem cedinho convidou-me a fazer nada. Dar uma caminhada – não por razões de saúde, mas por puro prazer. Os ipês rosa floriram antes do tempo – vocês já notaram? E não existe coisa mais linda que uma copa de ipê contra o céu azul”.

Quando estamos bem conosco, a capacidade de contemplação é amiga dos momentos solitários. Quando perdemos a capacidade de admirar o belo, a natureza, as situações que estão ao nosso redor, quando a copa dos ipês rosa parece não ter cor, quando o céu azul não nos desperta a contemplação e a ideia de apreciar um momento com nós mesmos é abolida com facilidade, porque a sensação é a de que “não vale a pena”, “nada está sendo bom”, aí sim a solidão merece uma atenção diferente.

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Será que está tudo bem comigo? Não sinto vitalidade, não aprecio as coisas boas e simples da vida, estou cheio de compromissos, não consigo me sentir em paz, não sinto prazer no que faço, não fico bem sozinho – nem na companhia de pessoas que são relevantes. Diante disso, cabe considerar a possibilidade de ter um apoio emocional especializado, pois em muitos momentos na vida, como nos alerta Rubem Alves, “no lugar dos ipês existe apenas um imenso vazio”.

E-mail: caio.nelio1@gmail.com

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Twitter: @eufulgencio

 

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