REPÓRTER OPINIÃO
Polícia Militar se queixa nos bastidores de que é mal remunerada, embora entenda que esteja sempre ‘fazendo a parte mais dura da Segurança Pública’

O áudio vazado do secretário de Justiça e Segurança Pública, Paulo Cezar Rocha dos Santos, coronel reformado da Polícia Militar do Estado do Acre, ocorrido no sábado, 10, no qual ele aponta que há uma suposta ‘falta de maturidade profissional’ entre os integrantes da própria corporação a que ele pertenceu, revela um contexto muito mais amplo do que o divulgado. Na verdade, mostra um descontentamento da tropa – que se considera injustiçada -, em relação às demais forças policiais na forma como foram valorizadas pelos governos petistas, com bons salários e ótima carreira.
Esse é o entendimento de pelo menos três especialistas em Segurança Pública ouvidos pelo OPINIÃO. “Os policiais militares do Acre têm um profundo rancor pela forma como foram tratados no passado, sobretudo pelo governo Tião Viana (PT), que por meio do então secretário de Segurança Emylson Farias, um delegado de carreira, reestruturou funções e salários da sua classe a Polícia Civil, mas deu de ombros para a outra, da PM”, afirma um dos entrevistados sob condição de anonimato.
Na mensagem vazada, o secretário de Segurança afirma que “a operação envolve as três polícias estaduais e mais o órgão de operação aérea. Esse vitimismo da PM é muito complicado, essa necessidade de tá sempre na defesa. É uma operação conjunta, e é isso que eles têm que entender, isso é falta de maturidade profissional”, diz Paulo Cezar.
A conversa é dentro de um contexto sobre a conduta de oficiais da PM durante um cerco contra pelo menos 27 criminosos que fizeram reféns moradores da estrada Transacreana, há duas semanas, e mataram a tiros um pastor evangélico. O áudio gira em torno de uma possível reclamação de oficiais, principalmente de um major, sobre a necessidade de atuarem com policiais civis e policiais penais, na mesma operação.
Para um dos entrevistados pelo OPINIÃO, a ‘empurradinha na Polícia Civil’, por assim dizer, proporcionada pelo ex-secretário de Segurança de Tião Viana, fez com que a carreira de policial civil fosse mais compensatória em financeiramente que de praças da PMAC: soldados, cabos e sargentos.
Sobre isso, OPINIÃO verificou que enquanto um policial civil do concurso público de 2006 está hoje na classe especial e por isso, recebe algo em torno de R$ 15 mil, praças da PM ainda patinam nos R$ 5 mil.
Para um coronel da força militar reformado também ouvido pelo OPINIÃO, essa diferença salarial tem “um impacto psicológico grandioso na tropa”.

“Hoje, o governador Gladson Cameli tem até boa vontade de equiparar esses salários, mas está impedido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. E as representações dos praças e dos oficiais da ativa sabem disso”, pontua o oficial aposentado.
A análise que ele faz é a de que pior do que ser mal remunerado é se inferiorizar diante das outras forças policiais e descontar na população.
“Para a maioria dos praças e também de muitos oficiais, a Polícia Militar do Estado do Acre trabalha muito mais que as demais. Eles entendem assim: “somos nós que estamos sempre na linha de frente, somos nós os ‘urubus’ das polícias porque chegamos à ocorrência primeiro e para o que der e vier. Então é justo que sejamos mais valorizados. Mas ignoram que a Polícia Civil está mais para ser a polícia judiciária, a que investiga, que instaura inquéritos e que nem sempre estão acionando seus comandos de elite para operações ostensivas”, diz o oficial.
“Quando isso acontece, eles não querem compartilhar o serviço com os colegas das outras forças, o que é errado, porque é somando, com reforço, que se ganha”, completa o ex-policial militar. A situação não atinge diretamente os oficiais, já que entre os postos de major e coronel os salários podem variar de R$ 18 mil a R$ 20 mil. Mas eles colaboram para “entornar o caldo”, segundo o entendimento do entrevistado.
‘Operações tartarugas’ e acomodação de policiais em outros órgãos
Os áudios vazados do secretário geraram repúdio em todas as entidades representativas dos membros da Polícia Militar, que emitirem nota condenando a conversa particular que Santos teve com um interlocutor que vazou a conversa. Por conhecer muito bem como é o sentimento da maioria, o terceiro consultado pelo OPINIÃO diz que “já há algum tempo, a população sente uma quase falta de proatividade da Polícia Militar do Estado do Acre, quando esta é acionada pelo Centro de Operações Integradas, o Ciosp, pelo 190”.
“Situações de menor poder lesivo, como por exemplo, perturbação da ordem pública ou pequenos furtos, geralmente não são atendidos ou quando a guarnição chega, já se passaram até mais de 40 minutos da situação”, afirma. Essa, segundo a fonte do OPINIÃO, seria uma forma de irritar a população ou mesmo de ‘queimar’ as autoridades que estão à frente da gestão da Segurança com prejuízos políticos sérios nas eleições.
“E não se engane se essas declarações do secretário façam aumentar ainda mais esse sentimento e a tropa comece a fazer ‘corpo mole’ com a população pagando o pato”, afirma a terceira fonte.

Ele cita ainda que quantos concursos o governador Gladson Cameli, ou quem vier depois dele, fizer, vai faltar efetivo porque “se se contrata 260 policiais militares hoje, 150 desses vão para debaixo do braço de apadrinhados, em serviços burocráticos ou de menos exposição, sejam nos órgãos do Judiciário, sejam no Legislativo ou em outros serviços públicos diversos.
“E o policiamento ostensivo, que é a verdadeira finalidade do cara que prestou concurso, vai continuar deficiente, e com ainda com um agravante: profissionais ‘fazendo beicinho’ porque entende que o colega de outra corporação ganha mais que ele”.


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