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quinta-feira, 2 de julho de 2026
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Às vezes precisamos colocar a paz no bolso para termos apenas razão

O cenário era o mesmo de várias outras ocasiões em que fiquei desempregada: sala de espera da empresa, uma recepcionista com sorriso amarelo e várias pessoas sentadas esperando por sua vez de serem sabatinadas por um recrutador.

Eu já sabia o que falar em entrevista, afinal trabalhar em erreagá tem suas vantagens, mas sabia lá no fundo que não existiam fórmulas mágicas para conseguir recolocação, algo como:

Eu falo o que você quer ouvir = você me contrata.

Ser contratado não é como uma fórmula matemática que a gente já sabe o resultado que vai dar. Na verdade nunca sabemos o que está se passando pela cabeça do recrutador, o que ele pensa, o que ele espera de mim, o que a empresa espera de mim, o que todos esperam de mim e muitas vezes eu já me peguei pensando se eu sei realmente o que eu espero de mim.

Coincidentemente eu fiquei desempregada na mesma época que 11 milhões de pessoas ficaram. Eu era só mais um número, uma estatística. Estava na época com 32 anos e não podia dizer que estava com a vida ganha. A aposentadoria estava longe e as dificuldades do mercado de trabalho eram uma realidade muito próxima. Salários baixos e poucas vagas, era o que me restava.

A entrevista tinha atrasado uma hora. A empresa era uma loja de moda, local. Os funcionários trabalhavam com horários rígidos, tinham que atender clientes em pé durante todo o dia, não podiam usar celular e tinham uma hora de almoço, mas o local mais próximo para almoçar ficava há 20 minutos da empresa. Almoçar era praticamente fazer uma gincana. Mas ainda existia a opção de trazer uma marmita e comer em uma sala muito quente e cheia. Tudo isso confidenciado por uma funcionária que trabalhava lá há um mês e que parecia estar fazendo um pedido de socorro.

-Preenche pra mim por favor, disse a recepcionista já me entregando um formulário.

Os candidatos tinham que preencher um questionário com perguntas como: aceita usar uniforme? Concorda em não falar ao celular durante o expediente? Você está ciente de que terá que usar o cabelo preso todos os dias? Dentre outras perguntas. Mas uma particularmente me chamou a atenção:

“É proibido fazer fofoca”

Fiquei pensando “Como posso trabalhar em uma empresa que não podemos fazer fofoca? É algo inadmissível para mim!!!”, ahahaha. Mas brincadeiras à parte, seria engraçado se não fosse trágico. Pensar sobre o que levou uma empresa a colocar como regra que os funcionários não poderiam falar uns dos outros era algo jamais imaginado até aquele momento, mesmo atuando na área de Recursos Humanos e já tendo visto de tudo um pouco.

-O salário que você está pedindo está 40% acima do que oferecemos, tudo bem pra você?

A mulher tinha uns 40 anos e não parecia pertencer a área de Recursos Humanos, mas aparentava ter um cargo de comando. Respondi gentilmente que salário não era o mais importante e que priorizava uma proposta que envolvesse crescimento profissional.

Lembro claramente a cara de susto que ela fez quando eu disse que o que mais me fazia falta na minha última empresa era bom relacionamento com meus chefes e o ambiente de trabalho. Aparentemente a palavra “relacionamento” não soou muito bem aos ouvidos dela. Fiquei pensando se tivesse falado “clima organizacional”, será que ela teria entendido ou pensando que era previsão do tempo?

Nos próximos minutos eu tive a sensação que o tempo havia parado. A voz da mulher era um eco soando ao fundo da minha mente.

-Nós estamos pensando em implantar plano odontológico nos próximos anos.

Plano odontológico nos próximos anos? Próximos anos… Naquele momento tudo passou a fazer sentido, trabalhar naquela empresa significava abrir mão da minha felicidade pelos próximos anos. Significava ter que me sujeitar a coisas das quais eu não acreditava, significava abrir …