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terça-feira, 23 de junho de 2026
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Afinal de contas, quem mente?

Afinal de contas, quem mente?

Cresci ouvindo minha mãe reafirmar que “mentira tem perna curta”. Contudo, em tempos de redes sociais, imediatismo, furos jornalísticos e muito fake news (notícia falsa), vale estar atenta à sabedoria popular: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”.

Para engrossar o caldo, estamos em período eleitoral, tempo em que todo candidato fica parecido. E é justamente nesse momento que precisamos exercitar nosso lado racional, deixar os sorrisos cativantes de lado e analisar o legado e propostas daqueles em quem depositaremos o voto.

Minhas vivências e história de vida são a base de meus posicionamentos ideológicos e políticos. Tenho lado e nunca escondi de ninguém! E é justamente por isso que sempre me proponho ouvir, busco assistir e ler as entrevistas dos inúmeros candidatos. Mas como disse, nesse período todo mundo é “benevolente”, por isso, vale mergulhar no passado e analisar os projetos já implementados por quem está há anos na política, mas se identifica como novo. Afinal, estamos falando do futuro, e eu, assim como você, também quero viver num país menos desigual, economicamente equilibrado, composto por um parlamento honesto, e num Acre cada dia melhor.

Nessa minha maratona de análises políticas, assisti recentemente a uma entrevista concedida pelo senador e candidato ao governo do Acre pelo Partido Progressista (PP), Gladson Cameli, a uma emissora local. Dos diversos posicionamentos do parlamentar que me chamaram atenção, grifei os de maior relevância, ao menos para mim, para refletirmos juntos.

“A transparência do Estado não existe”, afirmou, sem titubear, o candidato. Tendo em vista o total desconhecimento de Gladson sobre assunto, o que me espanta, pois ele ocupa o cargo de senador da República, tomei a liberdade de esclarecer a falsa afirmação, evitando assim novas situações públicas vexatórias. Com um mês de campanha pela frente, muita água ainda pode rolar.

De acordo com a Controladoria Geral da União (CGU), o Acre foi o quarto estado que mais avançou em transparência pública na terceira edição da Escala Brasil Transparência (EBT), obtendo 9,3 de nota – a EBT mede a transparência pública em estados e municípios brasileiros. A metodologia foi desenvolvida para subsidiar o Ministério da Transparência, Fiscalização e CGU nas suas competências.

Como podemos constatar, estamos entre os estados que mais se destacaram no crescimento daquilo que Gladson irresponsavelmente disse não existir. O Acre cresceu 5,97 pontos somente em 2016, desbancando unidades federativas como Rio de Janeiro, Amazonas e Paraná, para citar apenas esses três.

Na gestão de Marcus Alexandre, candidato ao governo do Estado pela Frente Popular do Acre (FPA), a Prefeitura de Rio Branco ganhou o Prêmio de Transparência e Fiscalização Pública 2016, na categoria Governamental, concedido pela Câmara dos Deputados às instituições e pessoas que se destacaram na transparência pública naquele ano, realidade não constatada entre os anos de 1995 e 1999, período em que os trabalhadores acreanos tiveram que conviver com salários atrasados e escândalos de corrupção como o do Banacre (Banco do Estado do Acre).

A sabatina seguiu seu fluxo e o senador do PP declarou que “os dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] são mentirosos”, pois em sua análise rasa e preconceituosa, o “Acre não tem um PIB [Produto Interno Bruto] de R$ 13 bilhões”, que na verdade é de R$ 13,64 bilhões. A afirmação de Gladson deixa claro seu descredito no trabalhador acreano e no potencial produtivo do Acre. Sem falar da sua falta de confiança no IBGE, instituto público federal criado em 1934.

A incredulidade do candidato me leva ao seguinte questionamento: se ele não acredita nos dados oficiais da União, como pode querer que o leitor acreano acredite em suas cantigas? Vale a reflexão!

Há outro ponto que não podemos deixar de analisar juntos, pois envolve a boa-fé de gente humilde e honrada. Em uma atitude leviana de desconstruir o irrestrito apoio do governador Tião Viana aos produtores rurais do Acre, o senador afirmou que o Estado, “por falta de gestão”, não recebeu recursos de emendas para melhoramento dos ramais. Por má-fé, ignorância ou ambas, Gladson omitiu que os recursos na ordem de R$ 154 milhões foram contingenciados por seu presidente Michel Temer, restando R$ 94 milhões.

O montante até hoje não foi liberado pela Caixa Econômica Federal (CEF), pois a emenda destinada pelos parlamentares da oposição não permite a inclusão de serviços de drenagem (obra de melhoramento dos ramais), apenas investimentos. Desde então, o Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (Deracre) aguarda o posicionamento favorável da CEF para dar continuidade ao projeto. Vale salientar que em 1999 o Acre só tinha 400 quilômetros de ramais. Nos governos da FPA a malha de ramais cresceu para 15 mil quilômetros.

A entrevista rende muitos outros questionamentos, como a proposta de “concluir as obras” do Hospital de Brasileia – inaugurado há uma semana por Tião Viana –, sem falar no ctrl+c, ctrl+v dado pelo candidato do PP em cima das propostas do Plano de Governo de Marcus Alexandre para área de segurança pública ou no seu total desconhecimento sobre as contas do fundo previdenciário do Acre e suas problemáticas.

Afinal de contas, quem mente? Gladson Cameli, que votou a favor da PEC da Maldade, congelando investimentos em saúde, educação e no serviço público, e mesmo assim promete melhorias nessas áreas, ou Marcus Alexandre, que consolidou investimentos na educação, possibilitando a Rio Branco ocupar a terceira melhor nota do Ideb entre as capitais brasileiras?

O estudo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, divulgado nesta semana pelo Ministério da Educação (MEC), coloca o Acre no primeiro lugar do ranking da Região Norte, no ensino de 1◦ ao 5◦ ano, e segundo lugar do 6◦ ao 9◦ ano. No cenário nacional, estamos entre os dez mais bem avaliados quando o assunto é educação básica.

É provável que o candidato que defende as reformas Trabalhista e da Previdência, defendidas por Michel Temer, e que não acredita no IBGE, também não dê credibilidade ao MEC, à CGU e aos demais órgãos renomados e idôneos que comprovam os avanços alcançados nos últimos anos. Mas você e eu, usuários do serviço público, sabemos o que é verdade.

Afinal de contas, quem mente?


PERFILMaria Meirelles é jornalista e feminista