Nada de pão com manteiga. Nos mercados, o hábito de muitos acreanos não é tomar o café da manhã, e sim, quebrar o jejum com carne, farofa, arroz e muito cheiro verde. Um costume antigo que trazem dos seringais e colônias.
Na área central da cidade, nas Pensões Raimundo Benício de Melo e área de alimentação do Mercado Aziz Abucater, a procura pelo quebra-jejum começa cedo, a partir das 5h30 da manhã. Para esses fregueses, os mercados têm cardápio variado. Os pratos incluem carneiro guisado, porco no molho, assado de panela, farofa, arroz, cuscuz, ovos e muito mais.
Por garantir sensação de saciedade por longo período, o quebra-jejum reforçado é o preferido por quem pega no pesado, mas também atrai quem exerce trabalho mais leve. O preço praticado nas pensões dos mercados também é atrativo: R$ 6 por um prato servido com fartura e no capricho.
“Só pão não me dá sustança”
Aos 65 anos de idade, o agricultor José Oliveira Vieira, que mora na área rural do Ramal Belo Jardim, diz que o que come em casa cedinho, é a mesma coisa que procura nos mercados centrais quando vem à cidade entregar a produção de frutas e verduras que cultiva em sua localidade. Ele conta que cresceu se alimentando assim pela manhã. Essa é a maneira de aguentar o trabalho pesado da roça. “As quatro horas da manhã, como carne com arroz, feijão, farofa e ovos porque pão não me dá sustança pro trabalho pesado. Quando estou na cidade venho aqui nas pensões e me farto. Aí aguento a manhã toda de muito trabalho”.
Os mais jovens também apreciam o quebra-jejum tipicamente acreano. O vigilante Claudiomar Feitosa também chega cedo nas pensões para quebrar o jejum, e não dispensa um porco guisado com arroz e farofa. Ele ainda põe pimenta no prato. “Eu sempre como porco ou carneiro logo cedo, aí pelas 13 horas é que vou sentir fome para almoçar”, relata Claudiomar, que nasceu na região do Rio Gregório em Tarauacá.
Dona Raimunda Vaz é uma das permissionárias das pensões Raimundo Benício. Acreana, neta e filha de nordestinos, ela trabalha no mercado há mais de 30 anos. Todos os dias, dona Raimunda chega ao local às 5 horas da manhã e já põe a comida no fogo em enormes panelas: chega a fazer mais de 3 quilos de carne só para o quebra-jejum.
Para dona Raimunda, o diferencial do estabelecimento dela é a carne de carneiro. “Sai de tudo: gado, porco e ovos, mas o mais pedido é o carneiro mesmo. Aqui tem muita gente, que como eu, é filho e neto de nordestino e lá se come muita carne de carneiro. Então de dez clientes, oito pedem carneiro guisado”, explica a comerciante.
O auxiliar de escritório, Sebastião Viana, que trabalha no Centro, é um dos que sempre pedem carneiro. Ele diz que a carne é diferenciada: “Um pouco adocicada e muito saborosa”, ressalta.
{gallery}fotos/2018/06-junho/18062016/galeria_mercado:::0:0{/gallery}
“Quebrar o jejum”
O historiador Marcos Vinícius relata que quebrar o jejum é hábito de seringueiros, que saíam para cortar seringa de madrugada ainda em jejum. A estrada de seringa tinha dois rodos: No primeiro rodo, o seringueiro cortava a seringueira e colocava as tigelas para aparar o látex. Depois, ele sentava para quebrar o jejum com carne e farofa. Só depois fazia o segundo rodo, coletando o látex das tigelas.
Como não havia geladeira para conservar carne, o mais usado era o charque – que o seringalista vendia para o seringueiro, e a carne de caça. O costume era secar a carne no sol, salgar ou pôr em lata com banha – que mantinha a carne por muito tempo sem estragar.
Mercados reformados
A gestão do Mercado e Centro Comercial Aziz Abucater e das Pensões Raimundo Benício de Melo é da prefeitura de Rio Branco, responsável pela limpeza, manutenção e segurança dos dois espaços.
Erguido em 1990, o Aziz Abucater, além da área de alimentação, conta com pequenos comércios e box de prestação de serviços, como consertos de celulares, ateliê de costura e sapataria, num total de 144 boxes.
A reforma e revitalização, iniciada na gestão de Marcus Alexandre, foi concluída e entregue pela prefeita Socorro Neri. A intervenção modernizou, embelezou e padronizou 28 boxes comerciais e 18 pensões. A cobertura, o piso, e as estruturas individuais foram feitas de acordo com as normas da Vigilância Sanitária. As paredes e pias foram azulejadas; churrasqueiras, instalação de água e energia passaram a ser individuais, e a ventilação adequada. O espaço passou a se chamar Raimundo Benício de Melo. Depois do incêndio de 2013, que afetou 14 comércios nas proximidades, a prefeitura construiu novos pontos de vendas para os comerciantes e promoveu intervenções que foram gradualmente melhorando as condições gerais do mercado, como a limpeza de uma área onde havia um antigo lixão que funcionava atrás do Aziz Abucater e que foi transformado em área comercial, garantindo um ambiente de trabalho digno aos pequenos empresários do mercado.
Recentemente, um incêndio danificou seis comércios do Aziz Abucater, que por determinação da prefeita Socorro Neri, foram reparados.


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>