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quinta-feira, 2 de julho de 2026
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A sina e a saga dos heróis anônimos da Amazônia

Fotos: Mardilson Gomes

O mês é maio. O ano é 2018. O verão amazônico dá os primeiros sinais da sua anunciação. Mas o rio Iaco, que nasce em terras peruanas e atravessa o Acre em sentido sul-norte e deságua no Purus, já no município de Sena Madureira, ainda permite certa trafegabilidade.

Do improvisado porto no centro da cidade está a embarcação sob o comando do experiente Agersilau Dias de Oliveira para singrar suas águas, subindo, se possível, até a sua extremidade. Mas, se ao chegar em Sena você perguntar por este nome, ninguém saberá quem é. Aos 59 anos, 40 dos quais como barqueiro, ele é mais conhecido pela alcunha de “Bilau”.

Chegar ao destino não foi possível dessa vez. O nível do rio, que em alguns pontos não chegava a um metro de profundidade, interrompeu a viagem naquele tipo de barco. Foi preciso mudar de embarcação até chegar à aldeia Santa Cruz, de onde não foi mais possível prosseguir a viagem.

Em alguns trechos é preciso descer para desencalhar a embarcação.

O objetivo da equipe responsável pela entrega de merenda da Secretaria de Educação (SEE) era chegar na Aldeia Sete Estrelas (fronteira com o Peru). O barco do “Bilau” já tinha ficado em uma localidade chamada “´Planeta”. De lá, seguiu-se em dois barcos menores. Um comandado pelo Pablo, o “faz tudo” da viagem e o outro barco pelo seu Joaquim que, soubemos depois, afundou nas águas do próprio Iaco.

A missão do grupo era uma das mais nobres: garantir a entrega de merenda escolar em algumas comunidades rurais, mas sobretudo, fazer ela chegar nas aldeias indígenas ao longo do rio. Ao todo foram 8 toneladas, quantidade suficiente para 4 meses, quando outra remessa seria realizada.

Julho de 2019. O Iaco já não permite caminhar sobre suas águas. E agora? O jeito é encarar o ramal do Icuriã.    E a geografia acreana é ímpar. Para chegar à localidade Boca do Icuriã é necessário ir até Assis Brasil e de lá encarar um percurso de 73 km, 23 dos quais sem quaisquer tipos de manutenções, já dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Agora, o herói da vez é o seu Robson Dias da Silva, motorista de um caminhão F 11000, ano 1985, comprado na gestão do ex-governador Nabor Júnior e que, graças a sua dedicação, permite seu pleno funcionamento até os dias de hoje. Quebrou várias vezes, outras tantas foi para a oficina, mas seu Robson não desistiu dele. Amor incondicional.

Mesmo no início do verão, o ramal do Icuriã possui diversos pontos de atoleiro.

Nesse período, as chuvas do inverno amazônico já quase cessaram. O ramal, em grande parte, permite boa trafegabilidade, mas os últimos quilômetros experimentaram da bravura e destreza do “azulão”, como o caminhão é carinhosamente chamado. Não fosse ele, o outro (caminhão), um Baú Agrale, não chegaria ao seu destino. Na ida, atolou pelo menos em três oportunidades.

De uma forma ou de outra, no verão ou no inverno amazônico, pela água por ou terra, o importante é que a “missão merenda” seja cumprida. E no caso, nossos heróis não usam capas, não estão em nenhuma revista em quadrinhos e nem em nenhum outdoor convidando para assistir a algum filme de Hollywood. Os heróis, da terra de Galvez, são os trabalhadores destemidos que não medem esforços para realizar suas tarefas. São de carne e osso, anônimos que fizeram do perigo suas profissões.

O barqueiro “Bilau”

Se você chegar no porto de Sena Madureira e perguntar por Agersilau Dias de Oliveira, 59 anos, vai sair sem a informação. Mas se quiser contratar os serviços do barqueiro “Bilau” para subir e/ou descer os rios da região (Iaco, Caeté, Macauã) vai fazer uma viagem tranqüila. São 40 anos conhecendo cada curva, cada localidade e fazendo muitas amizades.

O comandante Bilau acompanhado sempre do prestativo Pablo

Não são apenas muitos anos de experiências, são também anos de histórias para contar. Algumas verídicas, outras de “pescador”, mas todas elas carregando o sentimento de quem tem a missão de levar e trazer pessoas, mercadorias, e até gado, pelas estradas em forma de rio.

Com o “Beija-Flor”, o nome da sua embarcação, afundou apenas uma vez segundo ele mesmo. E isso foi lá na comunidade Santa Luzia. Pelo timão do seu barco criou cinco filhos, sendo três homens e duas mulheres, hoje todos formados e cada um cuidando da sua própria vida.

O velho Joaquim

Mas navegar e levar pessoas pelos rios da Amazônia acreana não é privilégio apenas do “Bilau”. Verdade que seu Joaquim Vieira trabalha há apenas quatro anos como barqueiro, mas, da mesma forma, conhece cada curva, cada praia, cada palmo desse vasto ecossistema.

Decidiu se tornar barqueiro desde que ficou viúvo. Atualmente conta 68 anos e tem uma “colocação” ao longo do Iaco. Por longos 42 anos trabalhou como seringueiro, profissão que preferiu não mais exercer. Justifica a aposentadoria: “não estava dando mais nada”.

Seu Joaquim carrega na alma tudo aquilo que o homem da Amazônia representa

Sua embarcação, uma Ubada (como a chamam na região), é menor do que a do “Bilau”, uma baleeira, mas mesmo assim garante o sustento da família. Esta, aliás, bastante numerosa. São ao todo 13 filhos e mais uma “penca” de netos. Tem uma vida dedicada à região. Seu trabalho não permitiu ainda, sequer, conhecer outras localidades acreanas como o Juruá.

O faz-tudo

Há os experientes, mas também há os novos, aqueles que permanecerão na missão de continuar singrando as águas não apenas do Iaco, mas dos rios de toda a região de Sena Madureira. Pablo da Silva Lima, do alto dos seus 28 anos, é um deles e já possui muitas histórias para contar.

Ele acompanhou a equipe que transportava a merenda e suas habilidades ajudaram as embarcações chegar em seus destinos. Morador da Comunidade Nova Olinda, se formou em Biologia por um programa de formação superior financiado pelo governo federal, o Parfor.

Além de professor, ele também é agente comunitário de saúde do município de Sena Madureira, mas durante a expedição, primordiais mesmo foram seus conhecimentos com a embarcação e sua experiência em navegar pelo bom e velho Iaco.

O azulão

“Azulão” não é a alcunha de Robson Dias da Silva, motorista da Secretaria de Educação há mais de trinta anos. É como ele faz questão de chamar o caminhão pelo qual é responsável e uma espécie de “dono”, um F 11000, modelo 1985, adquirido na gestão do ex-governador Nabor Júnior.

Caminhão quebrado e improviso para chegar ao destino.

Robson tem todos os motivos para chamar seu caminhão pelo nome. Não fosse sua dedicação e destreza certamente o Azulão já estaria aposentado. Era a vontade de muitos. Mas graças ao amor que possui ao equipamento, não apenas ele segue rodando, como é o único capaz de chegar onde muitos não chegam.

No ramal do Icuriã, para se ter uma idéia, o “Azulão” quebrou a barra de direção. O jeito foi improvisar o conserto com uma “liga” de borracha. O que antes havia sido uma câmara de ar, agora se transformara em “peça de reposição”. E Robson não anda sem ao menos uma meia dúzia em suas viagens. “Serve para quase tudo”, relata.

O caminhão, agora, está na oficina, se preparando para outras viagens e outras aventuras. A próxima, se tudo der certo, será para o ramal do Oriente, na região da rodovia AC 090, a Transacreana.

Um ponto de apoio

Não fosse a logística permitida pelo seu Aldemir Batista de Araújo, a entrega da merenda, pelo ramal do Icuriã, seria mais difícil de realizar. É em sua propriedade para onde as comunidades indígenas se deslocam para buscar a merenda dos alunos.

Seu Aldemir é um homem da terra, literalmente. Aos 60 anos, poucas vezes saiu da localidade. Nasceu na região e quase não vai à cidade. Já chegou a ficar dois anos sem ir à Assis Brasil, o município mais próximo. Em Rio Branco nem lembra a última vez que veio.

Há 20 anos, quando ainda não existe o ramal do Icuriã, seu contato era com o município de Sena Madureira, para onde ia apenas durante o inverno, quando o rio Iaco permite a trafegabilidade.  E ao contrário do que se possa imaginar, ele não se sente isolado. “Estou em casa”, comenta.

Não é para menos. Ele vem “na rua” poucas vezes, quando precisa comprar algo que não consegue produzir. E são poucas as coisas que não tem em sua colocação. Desde a criação de gado, passando por porco, galinha, peixe, uma pequena horta, as mais diversas fruteiras, de tudo tem um pouco para que de quase nada ele possa sentir falta.