O desmatamento no Acre em 2021 foi o pior em dez anos, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
De acordo com dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do órgão, que monitora a região com imagens de satélites, 889 km² de mata nativa foram destruídos de janeiro a dezembro do ano passado no estado acreano, o que equivale a 90 mil campos de futebol.
A devastação em 2021 foi 28% maior que no ano anterior, quando 694 km² de floresta foram destruídos e o desmatamento no Acre já havia registrado a maior área desde 2012, aponta o instituto.
Em nota enviada ao g1, o secretário de Estado do Meio Ambiente e das Políticas Indígenas, Israel Milani, afirmou que é importante ponderar que toda a Amazônia Legal brasileira está enfrentando problemas quanto ao desmatamento. “Os índices vêm aumentando e estamos traçando estratégias conjuntas para tentar reduzir esse impacto.” (Veja a nota na íntegra abaixo)
“A atuação do governo do Acre nas nove Unidades de Conservação estaduais, bem como nas comunidades rurais tem sido constante. A presença do governo, com projetos itinerantes inovadores, como a Carreta Ambiental e as Ações Humanitárias nas UCs, têm aproximado a população, especialmente os produtores rurais do Sistema de Meio Ambiente. Nosso papel vai além da notificação e punição por ilícitos ambientais, ele passa primeiro pela educação ambiental, para explicar para as pessoas o que é certo e o que é errado, falar a linguagem das pessoas”, diz a nota.
Apesar do mês de dezembro ter apresentado uma redução de 83% no desmatamento, passando de 6 km² em 2020 para 1 km² em 2021, o recorde negativo anual é “extremamente grave” diante das consequências dessa destruição.
Entre as consequências graves “estão a alteração do regime de chuvas, a perda da biodiversidade, a ameaça à sobrevivência de povos e comunidades tradicionais e a intensificação do aquecimento global”, aponta o Imazon.
A ONG SOS Amazônia analisou os dados e afirmou que chama atenção o fato de que os estados menores da Amazônia Legal também contribuem para a destruição da floresta.
No Acre, a curva do desmatamento tem se mostrado ainda mais acentuada desde 2018 e agora o estado ocupa a terceira posição do ranking, empatado com Roraima (28%) e atrás apenas do Mato Grosso (38%) e Amazonas (49%).
Para o secretário geral da SOS Amazônia, Miguel Scarcello o cenário atual é o mais catastrófico dos últimos três anos e remete à década de 1970, conhecida como a década da destruição, marcada pela invasão de terras, pelo desmatamento e pela anuência do poder público.
“Estamos diante de um quadro de total descontrole e também de afrouxamento das ações ilegais. Sabemos que não há um mecanismo oficial e efetivo de controle das autorizações de desmatamento e não temos informação a respeito. Isso favorece e estimula a ocupação de florestas públicas e a prática do desmatamento sem autorização”, avalia Scarcello.
Nas florestas públicas federais do Acre (como Reservas Extrativistas e Florestas Nacionais), o desmatamento cresceu 18% no último ano, passando de 288 Km² em 2020 para 339 km² em 2021. Nas florestas públicas estaduais, a destruição saltou de 24 km² em 2020 para 30 km² em 2021, um aumento de 28%.
Segundo a SOS, os dados evidenciam que as áreas protegidas por lei, de âmbito federal ou estadual, também sofrem pressão do desmatamento, o que coloca em risco o modo de vida de comunidades tradicionais, como ribeirinhos, extrativistas e povos indígenas.
Scarcello considera que o governo do Acre não tem uma proposta afirmativa de conservação florestal e uso sustentável dos recursos da natureza, com metas para o desenvolvimento das áreas protegidas. “A política que prevalece hoje no estado é uma política falsa de conservação ambiental que promove a agropecuária. A gente não vê por parte do poder público uma ação organizada para o enfretamento do desmatamento e fortalecimento das áreas protegidas. A prioridade é viabilizar a ocupação de áreas com pastagem, independente de ser uma prática legal ou ilegal”, afirmou.
Plano de enfrentamento
Por conta dos dados alarmantes, a SOS Amazônia encaminhou ofício à Secretária de Meio Ambiente e Políticas Indígenas do Acre (Semapi) e a autoridades competentes pedindo esclarecimentos sobre o aumento do desmatamento no estado.
Além disso, foi solicitado que seja elaborado um plano de enfretamento para 2022. O ofício propõe ainda que seja realizada reunião extraordinária do Conselho Estadual de Meio Ambiente e Florestas (Cemaf) para colocar o assunto em pauta.
A organização afirmou que desde 2019 tenta, sem retorno do governo estadual, a realização de reuniões periódicas do Cemaf para divulgar quantas autorizações de desmatamento foram concedidas, quantas ações foram ilegais, qual o contingente de fiscais disponíveis para o monitoramento e qual é o protocolo para licenciamento ambiental.


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