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Conhecido mundialmente por seu legado, Chico Mendes completaria 77 anos nesta quarta-feira

Foi no Seringal Porto Rico, no município de Xapuri, próxima à fronteira do Acre com a Bolívia, que em 15 de dezembro de 1944 nasceu Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes.

Filho de seringueiro, Chico passou a infância e a juventude ao lado do pai praticando a profissão. Detentor de um legado de resistência e luta em prol da floresta e das populações que nela vivem, o acreano, que ganhou o mundo com seus ideais, aprendeu a ler somente no início da fase adulta.

Defensor da Amazônia, Chico ecoou sua voz pelo mundo (Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes)

Se não tivesse sido assassinado pelo grande latifúndio, Chico Mendes celebraria 77 anos nesta quarta-feira, 15. A liderança deu voz aos povos da floresta, tornando-se mensageiro da defesa de políticas públicas ambientais pautadas no desenvolvimento sustentável, conservação, inclusão social e cidadania.

O legado deixado por ele é o eixo central da Semana Chico Mendes, que é promovida desde o seu assassinato em 22 de dezembro de 1994, há 33 anos. Neste ano [2021], o evento traz para o debate a crise climática e a defesa dos territórios.

“Aproveitamos esse momento para homenagear o nosso companheiro que, apesar de ter sido brutalmente assassinado, permanece vivo em nossa memória, no nosso espírito e na nossa energia. Digo isso porque o Chico foi a pessoa que iniciou, podemos dizer assim, nós começamos essa luta sindical na região do Alto Acre, em meados dos anos 70. Chico foi eleito vereador em Xapuri e trabalhou muito para ajudar a fortalecer a luta sindical, a resistência dos seringueiros contra o desmatamento da nossa floresta e a opressão dos latifundiários daquela época. Outro destaque dele foi a sua fundamental contribuição no processo de fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT)”, relembra Júlio Barbosa de Aquino, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas.

Coragem

Ao ganhar o prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU), Papel de Honra Global 500, entre 1987 e 1988, Chico mostrou para o mundo o conflito que ocorria no Acre até aquele momento, com a expulsão de milhares de seringueiros de suas terras, de suas casas onde viviam há mais de 50 anos, por vezes. Até aquele momento, o sindicalista Wilson Pinheiro já havia sido assassinado em Brasileia, também por estar à frente da luta dos trabalhadores rurais.

O medo e a covardia nunca fizeram parte da história de Chico (Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes)

Chico seria o próximo a ter o sangue derramado, mas em sua fala o medo não tinha vez, apenas a esperança de que seus ideais dessem uma vitória para os moradores da floresta.

“Nós não tememos a morte, porque se matam um de nós, temos cem, duzentas, trezentas lideranças para tocar o trabalho para a frente. Hoje tem milhares de Chico Mendes e outros companheiros.”

Chico Mendes

O objetivo em suas falas, em sua mensagem ao mundo era que cada um que ouvisse sensibilizasse outras pessoas “nesta grande causa que nós defendemos. Pois a Amazônia é uma questão que interessa a todo segmento da sociedade brasileira”. Ao pontuar, de forma objetiva, a visão de sua gente para a vivência nas matas, Chico Mendes explicava o conceito de criação das Reservas Extrativistas, modelo de gestão territorial criado naquela época por diversos companheiros da sociedade que conheceram a luta dos seringueiros.

“Nós não queremos transformar a Amazônia em um santuário, o que não queremos é ela devastada. Por isso, além da luta pela defesa da floresta, começamos a apresentar uma proposta alternativa para conservação da Amazônia”, dizia.

Legado

As ideias revolucionárias do humanista e ambientalista acreano Chico Mendes são a base das políticas públicas de desenvolvimento sustentável no mundo. O movimento que liderou com outros companheiros e companheiras na década de 80 resultou na criação das reservas extrativistas no Brasil, entre outras conquistas.

(Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes)

Chico deu visibilidade às problemáticas envolvendo conflitos fundiários no Acre, especulação fundiária, desmatamento de grandes extensões de terras, que impediam e impedem a permanência de seringueiros e indígenas na floresta.

Ao ecoar sua voz, promoveu a Aliança dos Povos da Floresta – luta pela preservação das florestas e dos povos que habitam a Amazônia [extrativistas, indígenas e ribeirinhas], iniciada em 1985, durante o primeiro encontro nacional dos seringueiros, em Brasília.

Liderada por nomes como Chico Mendes e Ailton Krenak, a Aliança teve repercussão internacional e foi fundamental para a inclusão de políticas de proteção ambiental e direitos a indígenas ao texto da Constituição Federal.

Sobre a herança de Chico, Ângela Mendes, sua filha mais velha, destaca que a principal e mais notável foi a criação das reservas extrativistas e demais unidades de conservação. “Este é o legado visível, palpável, mas também temos o Projeto Seringueiro –de alfabetização de moradores em comunidades isoladas nas matas- e a Aliança dos Povos da Floresta, que foi uma ideia de Chico, de reunir numa mesma causa populações distintas como seringueiros, índios e ribeirinhos”, analisa Ângela, que é presidente do Comitê Chico Mendes, organização encarregada de manter viva a história de vida e resistência em defesa da Amazônia.

Semana Chico Mendes 2021

Em um movimento de resistência aos retrocessos impostos pelos governos federal e estadual, a Semana Chico Mendes 2021 terá sua programação integralmente promovida em Xapuri – berço da luta sindical dos extrativistas.

“Se meu pai estivesse vivo, hoje faria 77 anos. Para mim, é muito importante estar aqui em Xapuri nessa data, iniciando a Semana Chico Mendes com as vozes da juventude, com a força das pessoas que lutaram ao seu lado, as quais ele inspirou nessa luta, nessa resistência, nesse momento de tantos retrocessos e ataques ao seu alegado, que são os reservas extrativistas, que são os territórios de uso coletivo”, enfatiza Angela.

Com o tema “Crise Climática: Vozes das Florestas em Defesa dos Territórios”, a Semana Chico Mendes é uma realização do Comitê Chico Mendes, as atividades começam nesta quarta-feira, 15, com o Encontro Juventudes Amazônidas e Emergência Climática, e se estende até 22 de dezembro.

O evento busca traçar estratégias e alianças para reverter as ações de destruição e ataques à Amazônia, explica Angela. “Vamos contar com a participação de pessoas extremamente importantes na luta para reverter o cenário de crise climática que a gente vive. O formato da Semana Chico Mendes 2021 é de luta, é de resistência, é de defesa do legado e da história da memória do meu pai”, endossou.