O filme Un poète en Amazonie ou Um poeta na Amazônia, em tradução livre, do Cineasta franco espanhol José Huerta, está sendo apresentado em algumas cidades na França neste final de ano. O longa foi lançado na 13ª edição do festival Latino Docs, em Toulouse, na França.
O novo filme de Huerta foi inspirado no conturbado processo eleitoral brasileiro de 2018. Com a obra, o cineasta joga luz no trabalho do poeta acreano César Félix, que, durante a campanha, propôs literatura e poesia em contraponto ao ambiente violento que predominou nas redes sociais no período que fraturou a sociedade brasileira.
“Para gente foi gratificante, foram dois anos de espera para que o filme saísse, desde quando ele começou a ser gravado em 2019. Era para ter sido lançado antes, em 2020, mas aveio a pandemia e tivemos que recuperar em 2021, uma trabalheira para fazer o filme e agora, pronto para apresentar para as pessoas, foi gratificante estar aqui. Fomos muito bem recebidos aqui na França”, disse César durante a estreia.
Além da estreia no festival, o longa deve ser exibido em um canal na França. A divulgação será feita por meio de projeções cidadãs com a colaboração de coletivos e associações franco-brasileiras.
O filme
Desde 1987 José Huerta faz idas e vindas ao Brasil para trabalhar e produzir documentários engajados, sempre focados em temas sociais, ambientais e nos efeitos da globalização em comunidades mais vulneráveis.
Mas ao acompanhar da França, onde reside, o turbulento processo que culminou na eleição de Jair Bolsonaro, José Huerta decidiu fazer um trabalho de uma perspectiva mais emocional.
“É um documentário baseado na emoção. Ao ver aquele ‘espetáculo’ eu senti muita dor e sofrimento. É um país maravilhoso, mas quando vi aquele processo político em curso, sofria muito porque vi muitas fraturas nas famílias. Ou seja, chegou a um ponto muito grave em que entrou na estrutura mais profunda da sociedade que é a família”, explica o cineasta na entrevista à RFI.
O Acre é valorizado no filme também pela sua beleza. A fotografia apresenta ao mundo a cidade de Rio Branco, as reservas Extrativistas, a floresta, as terras indígenas, os rios e o Mercado Elias Mansour.
O filme tem como cenário também o “Café com Poesia”, um espaço criado por César Félix em Rio Branco, que virou, de acordo com Huerta, “um refúgio para muitas pessoas que se sentem ameaçadas pelas novas políticas do governo atual, como a comunidade LGBT, os indígenas, intelectuais, pesquisadores e até músicos”.
“Esse filme está mostrando outras dimensões da sociedade que eu vivo e que o mundo não conhece”
Poeta Cesar Augusto
O personagem é o que o diretor chama de síntese da preocupação social e ambiental aliada à força da cultura. O argumento central do documentário foi desenvolvido a partir de observações de José Huerta das postagens do poeta em seu perfil nas redes sociais, palco de confrontos ideológicos e de narrativas dos partidos e candidatos durante o conturbado processo eleitoral.
As filmagens foram iniciadas no primeiro semestre de 2019, logo nos primeiros meses da chegada do novo governo. Interrompido pela pandemia, a produção do filme precisou de ajuda de amigos e apoiadores para ser concluído.
Alguns artistas Acreanos também colaboraram e são destaques no filme como Dona Zenaide Parteira, Brenda Wendy, Brem Souza, Matheus Filgueira, César Farias, Charles Sampaio, as POC’s, Cláudio Jr. e Alessandro Gondim estão brilhantes no filme.
Em janeiro o filme será apresentado em Rio Branco e em março começará a ser apresentado para o restante do Brasil e em festivais de cinema.
Interagindo com o público
Nos debates com o público após a veiculação do filme, César Félix tem a oportunidade de falar de seu trabalho artístico e também de temas sociais e políticos que interessam ao público francês, como as ameaças sobre a vida de comunidades locais e indígenas.
“Esse filme está mostrando outras dimensões da sociedade que eu vivo e que o mundo não conhece”, disse o poeta. Segundo César, é importante trazer para o público europeu a realidade de personagens retratados no filme como Dona Zenaide, uma parteira que mora no meio da floresta e é compositora, e Brem, uma travesti que conta as dificuldades da vida de uma pessoa da comunidade LGBTQI+ em Rio Branco.
Em entrevista à imprensa local, César contou um pouco sobre a participação no longa. Ele relembra que já conhecia José Huerta, tendo, inclusive, já participado de outro trabalho dele. “Já conhecia o diretor, quando eu estudava em Florianópolis eu era professor em uma aldeia indígena e ele entrou em contato comigo, nos conhecemos, e eu participei de um filme dele lá. Ele, depois das Eleições de 2018, queria fazer um filme para saber a percepção das pessoas, principalmente da Amazônia, sobre todo o conflito que foi a eleição e a ebulição no Brasil e perguntou se eu não topava fazer e eu aceitei”.
“É um país maravilhoso, mas quando vi aquele processo político em curso, sofria muito porque vi muitas fraturas nas famílias”
Cineasta José Huerta
E acrescentou: “Ele [diretor] queria que eu abordasse minha trajetória, queria fazer um filme poético, e ele disse que já tinha visto as postagens das minhas poesias e que tinha gostado. Minhas poesias são reflexivas, para discutir sobre determinados assuntos, então, ele foi em Rio Branco para pegar as imagens e disse que era para que eu mostrasse meu cotidiano e o que eu queria apresentar do meu estado e foi o que fiz.”















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