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terça-feira, 18 de agosto de 2026
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Medicinas do povo Shanenawa atraem turistas internacionais em retiro no Acre

Apesar de não terem o reconhecimento que merecem, os saberes dos povos originários são a base da sociedade. Visando fortalecer a luta dos povos indígenas do Acre, a cultura e a tradição ancestral, os proprietários do Jardins Guesthouse, Rosiany Albuquerque e Victor Pontes, promoveram o Primeiro Retiro Cultural Shanenawa.

O evento reuniu, em Rio Branco, no último fim de semana, turistas acreanos, do Canadá, da Rússia e de vários estados brasileiros. O retiro está entre as inúmeras ações de valorização da cultura acreana, prevista no projeto Aldeia Urbana.

“Devido a pandemia, nós não temos acesso as aldeias. Porém, como os indígenas já receberam a segunda dose da vacina contra a contra a Covid-19, eles podem vir até a gente. De modo que essa iniciativa do Jardins Guesthouse fomenta a promoção da cultura, da gastronomia, da nossa arte, vivenciando a tradição e os saberes que vêm da ancestralidade”, explica Victor.

A cerimônia de cura da alma foi conduzida pelo cacique da Aldeia Morada Nova, Carlos Brandão Shanenawa. A vivência proporcionou aos participantes o contato com as medicinas da floresta: ayahuasca (uni – na língua Shanenawa), rapé, sananga e pintura corporal.

Gerações que curam

Na Aldeia Morada Nova, situada em Feijó, os saberes das medicinas da floresta são repassados de geração para geração, de modo que a maioria das cerimonias de cura são dirigidas pelo grupo jovem Ixtī Naranahī Shane Keneya, que me português significa Várias Estrelas Encantadas do Povo Shanenawá.

O coletivo jovem é coordenado por Vakaynu Shanenawa, 24 anos. “Estamos na luta para que os nossos jovens indígenas valorizam ainda mais a nossa cultura, nossos rezos, nossa língua, nossos valores, costumes e a espirtulidade do nosso povo”, explica.

Os saberes das medicinas da floresta são repassados de geração para geração (Foto: Thays Cavalcante)

O pajé jovem do povo do Pássaro Azul, como se denominam os Shanenawa, é Xanupá Shanenawá. Com apenas 30 anos, o jovem já desponta como uma grande liderança.

“A gente agradece muito as pessoas que abrem as portas para nós mostrarmos nossa cultura, nossa medicina, nossas brincadeiras e convidamos todos a caminharem com a gente. Estamos passando por um momento muito difícil, enfrentando a PL 490, que tenta roubar o pouco de território que ainda temos”, explica Xanupá.

Em tramitação no Congresso Nacional, o Projeto de Lei 490/2007 abre as terras indígenas para a exploração econômica predatória e inviabiliza, na prática, as novas demarcações.

“O índio é a floresta, ele fala com o vento, com a água, com o fogo e se tirarem a floresta da gente, vão promover um verdadeiro genocídio e extinguir da identidade brasileira. Por isso, chamamos todos a estarem nessa luta coma gente porque se acabarem com a natureza, fará falta para mim e para você. Mais ainda para você, porque eu morro com a floresta, porque eu sou a natureza”.

Pajé Xanupá

Experiência única

Visitando o Acre pela primeira, a turista russa Tatiana Perkova saiu de Cruzeiro do Sul para Rio Branco para participar do Retiro Cultural Shanenawa.

A expriência contou com a participação de 15 indígenas da Aldeia Morada Nova (Foto: Thays Cavalcante)

“Estou no estado há um mês e meio, visitando diferentes povos e participando de várias vivências. E esse retiro foi, sem dúvidas, uma das melhores experiências que eu tive com a medicina. Já utilizo a medicina há três anos, mas essa vez aconteceu algo mágico.”

Tatiana Perkova

A cura para as doenças da alma

O uni, rapé e ayahuasca são produzidos a partir de plantas medicinais. Quem experimenta, durante os ritos indígenas, relata uma verdadeira cura de doenças da alma.

“Esse trabalho promove um benefício espiritual do qual nós, o povo Shanenawa, realizamos através do conhecimento que temos. Quando você bebe o uni, você está retirando os pensamentos negativos que geram dor, por isso o nome retiro espiritual”, explica a liderança indígena Pedro Finá Shanenawá.

Sopro do cacique Carlos Brandão em uma aplicação de rapé (Foto: Thays Cavalcante)

Povo do Pássaro Azul

A história do povo Shanenawa é de luta e resistência. No início do século 20 foram vítimas violenta ocupação da região do Tarauacá/Envira em função do extrativismo de caucho e da seringa.

E apesar de terem sido privados de falar sua língua, que pertence ao tronco linguístico Pano, e de praticarem a sua cultura, os Shanenawa resistiram e seguem um processo de fortalecimento de sua cultura, identidade e tradições.

Na Aldeia Morada Nova, as lideranças jovens são empoderadas pelos mais antigos. As mulheres, por sua vez, são as grandes detentoras das mensagens e comunicação com a espiritualidade, liderando e dirigindo rituais de cura com a medicina.

Outras vivências

O projeto Aldeia Urbana do Jardins Guesthouse já prevê uma nova edição do Retiro Cultural Shanenawa, desta vez, coordenado pelas mulheres indígenas e voltado para o Sagrado Feminino.