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sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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O ‘novo normal’: Reviravolta no perfil do consumidor

Como a pandemia mudou o ensino, as consultas médicas, a mobilidade e os nossos hábitos de higiene, e o que deve continuar daqui para a frente

Além das mudanças ocorridas na economia, no mundo do trabalho e no consumo, a pandemia provocou ou acelerou uma profunda transformação no nosso cotidiano. O ensino a distância e a telemedicina, que já vinham ganhando espaço antes da crise, ainda que em ritmo mais lento, entraram de vez no dia a dia de professores e alunos, médicos e pacientes. O interesse pelo carro próprio, que vinha caindo nos últimos anos, em benefício do transporte coletivo, de aplicativos como o Uber e até de veículos compartilhados, voltou a crescer. As máscaras e o álcool gel passaram a fazer parte do nosso dia a dia, apesar de muita gente já ter deixado de usá-las como deveria, em desacordo com as recomendações sanitárias.

Confira, a seguir, na terceira e última reportagem da série Pandemia: O ‘Novo Normal’, quatro grandes mudanças que ocorreram no nosso cotidiano durante a pandemia e como elas deverão afetar a nossa vida daqui para a frente.

Expansão do ensino virtual  

Antes do coronavírus, muitos cursos livres já eram realizados de forma 100% virtual, embora ainda fossem raras as experiências do gênero na educação formal do País. De repente, com a pandemia e o fechamento das escolas e universidades, as aulas digitais tornaram-se uma realidade para alunos, professores e instituições de ensino. Mesmo diante das dificuldades trazidas por uma mudança desta natureza, os resultados foram promissores e transformaram para sempre a educação no País.

Hoje, apesar de a maioria das escolas e universidades já ter retomado as aulas presenciais em vários estados, a situação ainda está longe de voltar à normalidade. Para garantir o distanciamento mínimo em sala de aula, as escolas ainda não estão recebendo os alunos e só depois da vacinação, prevista para começar no final deste mês, é que será possível um diagnóstico de como ficará a situação. Muitas instituições estão mantendo, em alguma medida, o ensino virtual e deverão incorporar o sistema em definitivo, como uma ferramenta preciosa de ensino, quando a pandemia passar.

“Acredito que o ensino a distância, acelerado pela pandemia, é uma tendência sem volta”, afirma a empresária Ana Maria Diniz, uma das fundadoras do Movimento Todos pela Educação, parceria público-privada que visa a melhorar a qualidade da educação básica, e presidente do Conselho do Instituto Península, braço social dos negócios de sua família, que mantém o Instituto Singularidades, voltado para a formação de professores.

Segundo Ana Maria, daqui para a frente, deverá predominar o ensino híbrido, que combina a educação presencial e a distância. “As atividades individuais, como fazer pesquisa e assistir vídeos, usando a tecnologia para isso, poderão ser feitas remotamente”, diz.

“Agora, o desenvolvimento da criatividade coletiva e da parte socioemocional das crianças, depende do contato com os colegas, com o professor e com a hierarquia das escolas. Isso é muito importante para a formação do caráter. Terá de ser presencial”.

No caso das universidades, a legislação só permite hoje que até 20% dos cursos sejam dados a distância, mas esse percentual tem de ser ampliado, de acordo com Ana Maria, para 40% ou 50% ou até mais. “Esse limite não faz sentido”, afirma. “O ensino a distância funciona, é produtivo e permite que o aluno possa estudar na hora que lhe convém e quem trabalha passa a administrar melhor a sua agenda”.

Em sua avaliação, há duas questões relevantes que surgiram durante a quarentena e que terão de ser endereçadas a partir de agora: o treinamento de professores, para que haja melhor uso da tecnologia no ensino, e o aumento da desigualdade entre os estudantes das escolas privadas e os das escolas públicas que não têm computadores ou tablets nem conexão à internet.     

A ampliação do ensino a distância nos próximos anos, de acordo com Ana Maria, deverá levar também a um questionamento sobre o tamanho das escolas. Como as crianças não precisam ir todas à escola ao mesmo tempo, os prédios e as salas de aulas poderão ser menores. Isso permitirá a expansão do ensino em período integral, especialmente nas escolas públicas que não têm recursos para implementar o sistema de forma 100% presencial.

Adesão à telemedicina 

Com o coronavírus à espreita e a multiplicação de casos graves de contágio no País, o acompanhamento dos portadores de doenças crônicas e as consultas presenciais de quem estava com um problema ocasional de saúde viraram atividades de altíssimo risco para médicos, pacientes e suas famílias. Mas graças à telemedicina foi possível contornar as dificuldades e prestar algum tipo de assistência médica à população, mesmo que fosse apenas para monitorar o quadro clínico dos pacientes, dar alguma orientação ou solicitar exames que permitissem um diagnóstico mais preciso de sintomas apresentados por ele.

Embora muitas organizações do setor de saúde resistissem há anos à adoção de consultas remotas de forma massificada, elas se transformaram subitamente na única opção segura para o sistema continuar funcionando e para que pacientes e médicos evitassem o contato físico na pandemia.

Sem alternativa, o Conselho Federal de Medicina (CFM) não teve outra saída a não ser a de reconhecer, em 19 de março, a necessidade de ampliar a prática da assistência médica no País, o que levou o Ministério da Saúde a publicar no dia seguinte uma portaria liberando, em “caráter excepcional e temporário o uso da telemedicina.

Com a popularização de seu uso na quarentena, a telemedicina mostrou que muitas das restrições contra ela tinham mais a ver com preconceitos contra a tecnologia do que com problemas concretos apresentados pelo atendimento remoto. Deu também para a telemedicina mostrar sua eficácia para quem ainda tinha dúvida sobre o papel que ela pode representar no sistema de saúde.

“Houve uma grande aceitação da telemedicina não só por parte dos pacientes mas também dos médicos”, afirma Fernando Pedro, diretor técnico da Amil, uma das principais empresas de assistência médica do País, que adotou o sistema de forma ampla na pandemia. “A telemedicina contribuiu muito para garantir tranquilidade e segurança na prestação de assistência médica durante a crise”.    

Segundo Pedro, a Amil completou recentemente meio milhão de acessos no sistema de consulta digital. Os atendimentos diários passaram de 15 antes do coronavírus, quando o sistema estava em fase experimental, para quase 3 mil. Até os pacientes com mais de 65 anos, que em geral, são mais resistentes ao uso da tecnologia, passaram a recorrer à telemedicina na pandemia, representando 16% do total de atendimentos remotos da Amil. “A gente está vivendo outra realidade”, diz Pedro.

Além de garantir o acesso de pacientes ao sistema de saúde durante a pandemia e de mantê-los distantes de quem foi contagiado pelo vírus, a telemedicina apresentou outras vantagens. Ao evitar os deslocamentos e as longas jornadas na sala de espera de consultórios, otimizou o tempo de médicos e pacientes. Trouxe também maior conveniência para ambos, ao permitir que pacientes de outros municípios ou de determinado bairro das grandes cidades tivessem o acesso facilitado aos médicos de sua preferência que atendem em outras localidades. Contudo isso, a telemedicina levou à redução geral de custos e a um aumento de produtividade no sistema.

Na avaliação de Pedro, porém, a telemedicina deve ser vista como “mais um canal de comunicação” entre médico e pacientes e não como uma solução única, que sirva para todas as ocasiões e substitua a consulta presencial. Ele diz que, para garantir qualidade e segurança aos usuários, a telemedicina ainda carece de regulamentação adequada.

Em sua visão, a telemedicina deve ser entendida como um ato médico, com toda a liturgia a ela associada. “O médico tem de estar num ambiente em que o paciente se sinta seguro e crie um elo de confiança com ele”, afirma. “O médico não pode prestar um atendimento e de repente o paciente ver que está atendendo ao telefone ou respondendo mensagens de WhatsApp. A gente também não pode correr o risco de o médico fazer um atendimento remoto no carro ou de a consulta virtual ser interrompida pelo seu filho ou por sua mulher”.

Opção pelo carro próprio

A pandemia provocou uma inversão radical de comportamento em relação à mobilidade. Ao contrário do que acontecia antes, quando se observava uma tendência de aumento no uso do transporte coletivo, de aplicativos como o Uber e até de veículos compartilhados, o interesse pelo carro próprio voltou a crescer.

De repente, a preocupação de muita gente com o efeito das emissões de carbono no aquecimento global cedeu lugar à busca por segurança e proteção contra o contágio pela covid-19. Quem tinha condições de fazer seus deslocamentos diários com carro próprio passou a fazê-lo. Não só em deslocamentos urbanos do dia a dia, mas também nas viagens de lazer e de trabalho mais curtas, para reduzir o risco de uma exposição ao vírus em aviões e até em ônibus interurbanos e interestaduais usados nas viagens mais longas. O carro virou até opção de entretenimento, com o renascimento dos cinemas drive-in.

É difícil dizer no momento se essa tendência vai durar, mas não há dúvidas de que, ao menos por mais alguns meses ou enquanto o coronavírus estiver por aí, quem puder vai continuar a dar preferência para o transporte individual.

Muitas pessoas usam máscaras até em seus próprios carros, como recomenda o protocolo. Se nos primeiros meses, a pandemia levou ao fechamento de revendedores e derrubou as vendas de carros particulares, agora ela está estimulando, junto com os juros baixos, os negócios. Segundo informações da Federação Nacional de Distribuição de Veículos (Fenabrave), a venda de veículos registrou a oitava alta mensal consecutiva em novembro, apesar de o resultado acumulado no ano ainda ser  7,1% menor do que no mesmo período de 2019.

Esta condição, no entanto, não contribuiu para que a Ford demovesse da ideia de fechar suas portas no Brasil. Em outros países, a tendência de alta nas vendas é semelhante, para desespero dos ecologistas. De acordo com uma pesquisa feita pela consultoria francesa Capgemini com 11 mil pessoas em 11 países, 35% dos entrevistados disseram que queriam comprar um carro no ano passado. Na China, epicentro da crise, um levantamento feito pelo Instituto Ipsos mostrou que 66% dos chineses que não têm veículo próprio querem comprar um carro, quase o dobro do índice registrado antes da crise.

Higienização contínua

Com a pandemia, os hábitos de higiene e limpeza ganharam ainda mais importância para reduzir as chances de contágio de cada um de nós e daqueles com os quais mantemos contato. Alguns produtos, como as máscaras, que eram usados principalmente por profissionais de saúde, tornaram-se acessórios indispensáveis da noite para o dia.  O álcool gel, que tinha uso limitado, virou artigo de primeira necessidade e passou a ser oferecido em locais públicos, lojas, escritórios e em bares e restaurantes.

Embora muita gente se comporte como se a pandemia tivesse passado, mesmo com centenas de mortes e milhares de novos casos de contaminação registrados a cada dia, os novos hábitos de higiene e limpeza foram incorporados por uma parcela significativa da população e deverão prosseguir depois que a crise passar.

“Percebemos uma mudança de comportamento tanto dentro de casa como na retomada gradual das atividades nas empresas”, afirma João Carlos Basílio, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal (Abihpec).

No primeiro semestre de 2020, segundo a entidade, houve um crescimento de 2.067% no consumo de álcool em gel ante igual período de 2019. Outros itens da chamada “cesta covid-19 de consumo” também tiveram aumento expressivo, como lenços e toalhas de papel, papel higiênico e sabonete líquido, com altas de 75%, 39,5%, 20,5% e 18,2%, respectivamente, nas vendas.

A preocupação em reduzir o risco de contágio ainda se refletiu no maior uso de produtos para limpeza doméstica, como desinfetantes e o próprio álcool gel, e para higienização coletiva, como ônibus e supermercados. “Acredito que as pessoas agregaram ao seu cotidiano um cuidado maior com a higiene pessoal e limpeza do ambiente doméstico e de trabalho, e deverão manter isso nos próximos anos”, diz Paulo Engler, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes, que reúne os fabricantes de produtos do ramo.

Segundo ele, mesmo que a volta dos profissionais às empresas provoque queda no uso de produtos de uso doméstico, ela será compensada pelo aumento do consumo de itens de uso profissional e empresarial.