Dados do final de outubro do sistema InfoGripe, que monitora os casos de síndrome respiratória aguda grave, apontam um quadro preocupante: nove capitais registram tendência de avanço da pandemia. O InfoGripe reúne informações de todo o Brasil colhidas pelo Ministério da Saúde.
Oito das cidades com tendência de alta estão nas regiões Norte e Nordeste. Florianópolis, em Santa Catarina, é a única capital de fora dessas regiões que também aparece na lista. Ao lado de João Pessoa e Maceió, ela apresenta forte tendência de crescimento de casos, com uma probabilidade acima de 95% de aumento de registros de covid-19.
Até o final de outubro, a capital catarinense acumulava seis semanas consecutivas com sinais de alta. Já as capitais da Paraíba e de Alagoas registraram cinco e quatro semanas, respectivamente, com a mesma tendência. Os dados mais recentes usados como base de comparação pelo sistema são da semana que vai de 25 a 31 de outubro.
As outras capitais — Belém, Fortaleza, Macapá, Natal, Salvador e São Luís — registraram no mesmo período sinais de crescimento moderado da pandemia, com uma probabilidade superior a 75% na tendência de alta de casos da doença a longo prazo.
As síndromes respiratórias agudas graves, conhecidas pela sigla SRAG, são casos de pacientes que tiveram febre, tosse ou dor de garganta e, ao mesmo tempo, apresentaram falta de ar, saturação de oxigênio abaixo de 95% ou dificuldade respiratória, além de terem sido hospitalizados ou morrido devido a esses sintomas.
Nem todas os casos de SRAG são causados pelo Sars-CoV-2, que causa a covid-19. Mas como os registros de síndrome respiratória grave aumentaram muito em 2020 em comparação com os anos anteriores, o excesso tende a ser causado pelo novo coronavírus — o vírus respiratório com maior circulação no momento.
Por isso, a evolução de casos de SRAG acaba servindo como um indicador da pandemia. Muitos pesquisadores consideram esses dados mais fidedignos do que as estatísticas oficiais sobre a covid-19, que estão subestimadas devido à subnotificação causada pela baixa capacidade de testagem de suspeitos no país. Além disso, os dados do Ministério da Saúde ficaram desatualizados no início de novembro devido a um ataque hacker. A pasta informou que o problema seria resolvido até sábado (14).
5.781.582
era o número oficial de infectados pela covid-19 em todo o Brasil até a quinta-feira (12), segundo o Ministério da Saúde
164.281
pessoas morreram em decorrência da doença no país até a mesma data, de acordo com a pasta
Aumento nas internações
Outro fator preocupante é o aumento das internações de pacientes com covid-19. Em São Paulo, hospitais privados já voltaram a ficar lotados. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o Sírio-Libanês tinha até 9 de novembro 120 pacientes hospitalizados (dos quais 50 em UTIs), mesmo número de abril, quando ocorreu um pico de internações no local. Em comparação, 80 pacientes estavam internados com a doença em outubro. Houve aumento também no HCor, de acordo com a publicação.
Ao jornal Valor Econômico, o SindHosp, que representa os estabelecimentos de saúde do estado, afirmou que as informações disponíveis ainda são insuficientes para afirmar que o crescimento é generalizado.
Dados da Fundação Seade, porém, mostram que a taxa de internações por covid-19 em UTIs na Grande São Paulo era de 45,2% na quinta-feira (12), contra 41,2% no fim de outubro. Em todo o estado, a taxa havia subido de 39,5% para 41,4% no mesmo período. Em maio, a ocupação de leitos de internação na Grande São Paulo chegou a passar de 90% (e ultrapassar 70% em todo o estado).
Em 11 de novembro, 677 pessoas estavam internadas devido à covid-19 na Grande São Paulo. Era o maior número desde 30 de setembro — quando 724 pessoas estavam hospitalizadas.
Para pesquisadores, houve uma interrupção na queda das internações, o que pode ser preocupante. Professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador do Observatório Covid-19 BR, Roberto Kraenkel afirmou ao Valor Econômico, na sexta-feira (13), que os dados de hospitalização na Grande São Paulo sinalizam uma estabilidade, mas “as projeções indicam uma leve subida, a ser confirmada nas próximas semanas”.
Na quinta-feira (12), o secretário-executivo do Centro de Contingência do Combate ao Coronavírus no Estado de São Paulo, João Gabbardo, negou que a pandemia estivesse piorando e disse que variações nos dados são comuns. Mas a preocupação com uma segunda onda na Europa fez o governo paulista cancelar, por precaução, a fase azul do plano de reaberturas. Essa etapa permitiria, por exemplo, atividades com aglomerações, como shows e festas. Desde o final de outubro, todas as regiões do estado estão divididas nas fases amarela e verde, as mais brandas antes da azul.
No Rio de Janeiro, o quadro aparenta ser mais grave. Na quarta-feira (11), 95% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de covid-19 da rede municipal de saúde estavam ocupados. Eram 239 pacientes internados, maior número desde março, quando teve início a pandemia.
O diretor da Associação dos Hospitais do Estado do Rio de Janeiro, Graccho Alvim, disse ao jornal O Globo, na sexta-feira (13), que a demanda nas emergências da rede privada por pacientes infectados pelo novo coronavírus subiu 40% em três semanas. Segundo ele, porém, os casos não são tão graves como foram no auge da pandemia.
O risco de novos surtos
O temor entre os pesquisadores é que algumas regiões do Brasil enfrentem uma nova onda da doença, como vem ocorrendo em países europeus como França, Espanha, Reino Unido e Alemanha. Eles haviam conseguido controlar a transmissão do coronavírus em meados de 2020, mas agora enfrentam um novo surto de covid-19. Muitos tiveram de retomar medidas mais restritivas de circulação da população, como toques de recolher e lockdowns.
A segunda onda na Europa tem sido menos letal do que a primeira. Os novos casos têm ocorrido entre os mais jovens, que são mais resistentes ao vírus — o que explicaria uma menor ocorrência de mortes. Avanços na área médica também são apontados como fatores que estão contribuindo para reduzir a letalidade da doença na atual etapa da pandemia.
Como o novo coronavírus atingiu primeiro os países do hemisfério Norte no início de 2020, pesquisadores consideram que a segunda onda na Europa pode ser um prenúncio do que poderia ocorrer nos próximos meses no Brasil.
O novo surto explodiu na Europa após o verão, que terminou oficialmente, no continente, em setembro. Muitos casos se espalharam a partir de uma nova cepa do vírus surgida na Espanha. Ela foi levada para as demais regiões por turistas que passaram as férias de verão no país. No período, as restrições de circulação foram afrouxadas.
No Brasil, os casos de infecção e morte pelo novo coronavírus nunca caíram a um nível suficientemente baixo para caracterizar o final da primeira onda, segundo os epidemiologistas. Em junho, o país passou a registrar uma média de mais de mil mortes por dia. Os casos se estabilizaram nesse patamar, considerado alto, numa espécie de platô, e só começaram a cair lentamente a partir de agosto. No início de novembro, a média era de cerca de 300 mortes causadas pelo coronavírus por dia, ainda considerada alta.
Ao jornal O Globo, o coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes, afirmou na sexta-feira (13) que, se houver uma segunda onda no Brasil, ela poderá ser mais grave do que a registrada na Europa. “Lá [na Europa], o número de casos foi bastante reduzido até a pandemia atingir novamente a população. Aqui, nunca chegamos a um índice confortável. Estacionamos em um nível alto. Então, se houvesse uma nova leva da doença, ela nos pegaria no meio, e não no começo [de uma onda]”, disse.
Para ele, os indicadores nas nove capitais brasileiras devem servir como alerta para que os gestores locais repensem ou revertam políticas de flexibilização das medidas restritivas. Os estados e prefeituras já autorizaram a reabertura de atividades não essenciais, mas ainda há restrições a aglomerações pelo país. O retorno às aulas, por exemplo, não foi autorizado ainda em alguns estados.
No Brasil, devido à sua dimensão continental, a pandemia é caracterizada por diferentes quadros de evolução em cada região, como se existissem várias pandemias dentro de uma só.
As capitais do Norte e Nordeste, onde os sistemas de saúde chegaram a entrar em colapso num primeiro momento, podem sofrer mais com a doença devido à existência de uma estrutura de atendimento mais deficiente (se comparada com estados do Sudeste, por exemplo) e por causa de características socioeconômicas próprias — as populações dessas localidades têm menos possibilidade de trabalhar de casa do que as de outras regiões, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O presidente Jair Bolsonaro, que adotou uma postura negacionista em relação à pandemia desde o seu início, minimizou na sexta-feira (13) uma possível segunda onda da doença no país, em conversa com apoiadores. “Agora tem conversinha de segunda onda. Tem que enfrentar se tiver, porque se quebrar de vez a economia, seremos um país de miseráveis. Só isso”, afirmou.


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