Em Rio Branco, os avisos nem sempre agradáveis de que é preciso racionar água, feitos pelo Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento do Acre, o Depasa, revelam uma realidade até pouco tempo despercebida por muita gente: a de que o Poder Público deve contar com o apoio da população para que o saneamento não seja estancado.
Rio Branco já teve um dos mais caóticos abastecimentos de água do País, segundo o instituto Trata Brasil, que monitora a qualidade desses serviços em território nacional. Em 2008, apenas 3% do esgoto da cidade era tratado, quando a cidade ocupava a 7ª posição entre as dez piores em esgotamento sanitário.
Melhoramos, e muito. Em 2017, a capital dos acreanos ocupa a 90ª posição no ranking das condições de saneamento entre as 100 maiores cidades brasileiras, mas está à frente de três capitais da região Norte: Manaus (97ª), Macapá (98ª) e Porto Velho (99ª). Ananindeua, no Estado do Pará, ocupa a última posição.
A cidade cresceu e precisa da conscientização de seus habitantes para o uso inteligente da água.
Se em 2010, todos os dias, 86 milhões de litros de água potável eram produzidos pelo então Serviço de Água e Esgoto, o Saerb. Hoje, segundo o Depasa, considerando que a capacidade de captação de água bruta média é de 1.520 litros por segundo e levando em consideração todas as etapas do processo de tratamento, a estimativa é a de que o sistema para atender toda a cidade de Rio Branco coloque 98,1 milhões de litros d’água para distribuição.
É muita água, e desde que seja usada com racionalidade, não haveria risco de desabastecimento, mesmo no verão intenso como agora.
Segundo explica Anderson Mariano, diretor-técnico do Depasa Rio Branco, em 2015 a empresa começou o seu Programa de Atenção ao Consumidor.
“Essa ação tem como objetivo aproximar o Depasa da população com a conscientização sobre a importância da eficiência e operacionalidade do Sistema de Abastecimento de Água e Tratamento de Esgoto”, explica o executivo.
Segundo ele, a política de corte nunca é prioridade para a instituição.
“Nosso desafio é a conscientização sobre a utilização racional da água. Temos um dos maiores custos de produção (distância para o transporte de produtos químicos, turbidez elevada da água bruta captada) e em contrapartida uma das menores tarifas (R$ 14,00 a cada 10 m3 ou 10.000 litros). O não desperdício de água através do uso racional e adimplência com o Depasa permitem investimentos diretos na melhoria e modernização Sistema”, explica Mariano.
Educação ainda é a melhor arma para estancar falhas
O saneamento básico em Rio Branco ainda vive uma realidade distante de várias cidades do País. No entanto são meritórias algumas iniciativas educacionais, que se ampliadas, poderiam colaborar para um sistema mais justo, organizado e uniforme.
A conscientização e mobilização social, informando a população sobre as dificuldades para produção e distribuição de água é uma delas. Em 2015, o Depasa executou mutirões nos bairros, na chamada Caravana contra o Desperdício, com ações de combate aos vazamentos, a instalação de hidrômetros, e o contato social, entre outras.
O programa Ruas do Povo, em execução desde 2011, promoveu a expansão da rede necessária para o crescimento da cidade com os dados populacionais disponíveis naquele momento.
Segundo o Depasa, estima-se que foram executados cerca de 90 quilômetros de rede água, somente na capital, entre 2011 e 2016.
“Essas redes por si mesmo são modernas e apresentam baixos índices de vazamento. Todavia, pela natureza heterogênea do Sistema (vários reservatórios, adutoras antigas, intermitência de abastecimento em algumas localidades e presença de manobra manual) os vazamentos ainda são sensíveis. A modernização do Sistema é a grande aliada para a minimização de problema”, explica Mariano.
Na cidade existem poucos com muito e muitos com tão poucos
Para tentar entender o abastecimento de água em Rio Branco houve um tempo em que era preciso dividir a cidade em categorias. Havia áreas “muito privilegiadas”, as “pouco favorecidas” e aquelas “quase sem nenhum abastecimento”.
No grupo da primeira estavam os moradores do Centro, de parte do Aviário e do Bosque, da região da Morada do Sol, e até de algumas áreas altas, como é o caso do Montanhês e do Adalberto Sena.
Estes dois últimos bairros, que um dia já foram conhecidos como piores em captação, há algum tempo já estão entre os que recebem água direto da produção, com a ajuda de motores potentes e a curtos intervalos de 24 horas.
A mais emblemática delas era a do bairro São Francisco, quando sete anos atrás onde o reservatório local recebia água todos os dias, de pelo menos quatro caminhões pipas fretados pelo então Saerb e abastecidos na própria ETA 2.
Mesmo com capacidade total limitada a 30 mil litros, a mesma de 36 anos, quando foi construído, o reservatório do São Francisco ganhou bomba de elevação na entrada do bairro Aviário, para eliminar o transporte pelos caminhões. Na região, a população cresceu 400%.
O reservatório semienterrado foi inaugurado no dia 15 de dezembro de 1981. Entregue pelo então governador Joaquim Falcão Macedo. De lá para cá, passou por algumas reformas, mas não foi ampliado. Na razão inversa, vieram os aglomerados urbanos nos arredores.
Torneiras bóias reduziriam o desperdício pela metade
O uso de torneiras bóias por quem tem cisternas e caixas reduziria sensivelmente o desperdício de água. “Teríamos aí uma redução dos prejuízos de 50%. Os demais poderiam ser complementados com outras ações educativas”, diz um técnico do Depasa que é operador de reservatório.
Em 2005, uma bomba para elevar a água que chegava do reservatório do Horto Florestal até a parte mais alta da cidade, como o bairro Tancredo Neves, por exemplo, acabou com o problema da falta de água na maioria das casas da região.
Mas ainda não seria solução, avalia o técnico ouvido pelo OPINIÃO. “Certamente que a água bombeada para lá desde o Horto causa déficit em outras pontas do sistema”, avalia.
O raciocínio dele é o seguinte: “se uma bomba for ligada enviando água para um determinado local, a parcela desta água enviada por pressão vai ser sempre maior do que aquela enviada por gravidade. Então, quem depende da gravidade fica prejudicado”.
Entenda como a água vai embora antes de chegar à sua casa
1 – Para trabalhar com 8 MCA, é necessário trabalhar com três motores bombas de alta potência e amperagem elevada, além disso, um volume de água altíssimo. Somente desta forma, pode-se ter de seis a oito horas de serviço na parte alta ou na baixa. Com dois cai para 6 MCA.
A falta de critério na coleta de água do consumidor causa transbordamento das cisternas, provocando desperdício. A perda da água se esvai pelo ladrão da cisterna.
2 – Com o transbordo das cisternas, o esvaziamento das redes é imediato; o desperdício esvazia centrais como a do Palheiral, a cada abastecimento, desfazendo o poder de gravidade da água.
As redes secas consomem rapidamente o volume da cuba e sem poder de gravidade, as derivações não deixam o projeto trabalhar na sua totalidade.
3 – A instalação da torneira bóia causará modificação no comportamento do sistema de abastecimento por gravidade ou por bombeamento. Pela ação do processo de retenção, partindo do ponto mais baixo para o mais alto.
Esse comportamento, por efeito de resposta, irá dar maior capacidade ao ponto de saída. Causando uma realimentação do processo geral de abastecimento. Ou seja, haverá uma gravidade para se controlar.


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