O presidente americano Donald Trump afirmou no Twitter no domingo (31) que pretende classificar como organizações criminosas, sob acusação de terrorismo, os movimentos “antifa”, abreviação do antifascismo. Na visão do governo dos EUA, esses grupos estariam se aproveitando dos protestos contra racismo e brutalidade policial para praticar atos de vandalismo.
“Como esse tuíte demonstra, o terrorismo é um rótulo inerentemente político, facilmente abusado e mal utilizado”, afirmou Hina Shamsi, diretora da American Civil Liberties Union, ao jornal New York Times. “Não há autoridade legal para designar um grupo doméstico [como terrorista]. Qualquer designação desse tipo suscitaria preocupações significativas do processo devido e da Primeira Emenda.”
A Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos garante liberdade de religião, expressão, associação política e o direito de organizar petições para fazer reivindicações ao governo.
O tuíte de Trump foi compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro no mesmo dia. Um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmou na mesma rede social que “o Brasil deveria fazer o mesmo” que os Estados Unidos. “Antifas querem o caos. São o ‘braço armado’ dos anarquistas: os black blocs”.
No Brasil, em diversas cidades do país, grupos de torcedores de futebol autodenominados antifascistas tinham saído às ruas no domingo (31) para protestar contra as ameaças de ruptura institucional do governo. Em São Paulo, houve tensão e confronto com a Polícia Militar.
As redes sociais então foram tomadas por posts e hashtags fazendo referência ao movimento antifascista no Brasil. Pessoas criaram imagens de perfil com o logotipo de duas bandeiras (uma preta e uma vermelha) tradicionalmente associado ao antifascismo. Muitos juntaram sua profissão ou categoria ao adjetivo “antifascista”.
Na segunda-feira (1), o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) apresentou um projeto de lei que propõe alterar a Lei Antiterrorismo “a fim de tipificar os grupos ‘antifas’ como organizações terroristas”. Silveira gravou um vídeo em que ameaçou esses grupos, dizendo que eles corriam risco de levar “um tiro na caixa do peito” de um policial durante uma manifestação.
Silveira é um ex-PM e ficou conhecido nacionalmente ao participar de um ato no Rio durante a eleição de 2018 no qual bolsonaristas quebraram uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada meses antes no centro do Rio – as principais suspeitas recaem sobre milícias armadas que atuam na cidade.
A natureza do movimento antifa
Embora se fale muito da existẽncia de um “movimento antifa”, não se trata de uma organização com estrutura, manifesto ou hierarquia.
Manifestantes que se declaram antifas, em geral, seguem ideologias de esquerda e apostam em ação política direta, tanto na internet quanto na rua. Rejeitam agremiações tradicionais e o sistema político estabelecido, sendo comum a presença de discursos e correntes anarquistas. Se opõem ao que consideram encarnações contemporâneas do fascismo, de supremacistas brancos a políticos de extrema direita.
Segundo o historiador americano Mark Bray, autor de “Manual Antifascista”, o antifa é um militante, envolvido em ações e campanhas. Segundo o autor, esse militante “existe no cruzamento de visões políticas de esquerda radicais e estratégias e táticas de ação direta que preferem não depender da polícia, da Justiça ou do Estado para barrar a extrema direita”.
É comum que antifas se vistam de preto em protestos. Muitos empregam a tática black bloc, usando máscaras para evitar que seus rostos sejam vistos ou fotografados.
Historicamente, o antifascismo surgiu como frente de oposição a regimes totalitários europeus na primeira metade do século 20. No fim do século 20, militantes antifas se engajaram em uma ampla diversidade de causas, que vão da defesa de minorias contra racismo e homofobia a protestos antiglobalização.
As raízes históricas no comunismo
Movimentos antifascistas existem desde que existe o fascismo. A ideologia foi concretizada por Benito Mussolini, que chegou ao poder na Itália em 1922, via golpe de Estado. Imediatamente, surgiram grupos de tendência comunista e anarquista que se opunham ao autoritarismo, à centralização de poder e à violência política que caracterizaram o regime de Mussolini.
A contração antifa surgiu na década de 1930 na Alemanha. Era o apelido da Antifaschistische Aktion, uma organização ligada ao Partido Comunista da Alemanha. Esse grupo foi o primeiro a adotar o logotipo com as duas bandeiras dentro de um círculo, utilizado por indivíduos e grupos antifascistas até hoje.
No pós-Guerra, os antifascistas se dissociaram dos socialistas e comunistas, que se organizaram em partidos dentro do sistema político tradicional.
Nos anos 70 e 80, a movimentação antifascista ressurgiu em países europeus como Reino Unido e Alemanha como reação a grupos de extrema direita que voltavam a ganhar relativa força. Os movimentos punk e pós-punk abrigaram muitos discursos e iniciativas antifascistas.
Mais recentemente, nos EUA, adeptos do discurso e práticas antifas se associaram a iniciativas como o Occupy, que protestou contra a desigualdade social, e o Black Lives Matter, mobilização que se opõe à violência pessoal contra pessoas negras.
A segunda metade da década de 2010 foi marcada pela disseminação de ideias e discursos ligados à extrema direita, em especial nas redes sociais. O processo foi importante para a eleição de governos com posicionamentos extremistas como Donald Trump, nos EUA, e Jair Bolsonaro, no Brasil. O crescimento da chamada “alt right”, termo que abrange grupos e pessoas com discursos nacionalistas, xenófobos e racistas, também fez a militância antifa ganhar força.


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