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quarta-feira, 3 de junho de 2026
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Cidade com maior incidência de coronavírus do país tem fila da Caixa ao lado de hospital de campanha

Assim como em vários lugares do Brasil, uma fila demorada se formou, ao longo de toda a sexta-feira (24), diante de um posto da Caixa Econômica Federal em Manacapuru (AM) para a retirada do auxílio emergencial.

A diferença é que a aglomeração estava a 15 passos da entrada do hospital de campanha para tratar pacientes da Covid-19. E que Manacapuru, a 98 km de Manaus, registra, de longe, a maior taxa de incidência do novo coronavírus no Brasil.

A algumas quadras dali, na avenida principal, a multidão era várias vezes maior. Parecia a entrada de um show: filas intermináveis diante da Caixa e da lotérica, trânsito desviado por barreiras de metal, funcionários da prefeitura tentando organizar a multidão e vendedores ambulantes.

Diante do posto da Caixa, beneficiários do auxílio emergencial observam a chegada de paciente ao hospital de campanha de Manacapuru (AM)
Diante do posto da Caixa, beneficiários do auxílio emergencial observam a chegada de paciente ao hospital de campanha de Manacapuru (AM) – Fabiano Maisonnave/Folhapress

“Os meus filhos passaram a noite jogados nesse papelão”, diz a dona de casa e beneficiária do Bolsa Família Maria Rosilene de Souza, 52, apontando para os degraus na entrada da casa lotérica. O dois adolescentes, de 14 e 16 anos, chegaram às 19h da véspera para guardar lugar.

Em ambos os locais, a maioria usava máscaras, mas sem manter a distância recomendada de 1 m das outras pessoas. No hospital de campanha, quando uma ambulância chegou para deixar um paciente, as pessoas se aproximaram ainda mais da entrada para acompanhar a cena.

O comércio está apenas parcialmente fechado. Não é difícil encontrar bares e lojas abertas —em uma delas, um manequim usava máscara. Para reforçar o isolamento, a prefeitura determinou um toque de recolher das 20h às 6h, à exceção de quem dorme na fila da Caixa e da lotérica.

Com transmissão comunitária acelerada, Manacapuru registra 416 casos de coronavírus a cada 100 mil habitantes. Em segundo e em terceiro lugar, estão outras cidades do interior do Amazonas: Iranduba (238 por 100 mil) e Carauari (223 por 100 mil)

Em quarto lugar, aparece a primeira cidade fora do Amazonas. Fortaleza (CE), com 214 registros por 100 mil moradores.

Em números absolutos, Manacapuru acumula 405 casos confirmados e 24 mortes. Com 97 mil habitantes, o número de óbitos na cidade supera o de sete estados do país (AC, MT, MS, RO, RR, SE e TO) e empata com o Piauí.

Dos 62 municípios do Amazonas, 49 já registraram coronavírus, entre os quais São Gabriel da Cachoeira, a cidade com maior população indígena do país. A grande maioria só é acessível de barco ou de avião, como Carauari, no rio Juruá, a 790 km de distância de Manaus, a única cidade do estado a contar com leitos de UIT.

Há cerca de duas semanas, o sistema público de saúde de Manaus colapsou, e só há vagas em caso de alta de pacientes ou se morte. Várias prefeituras já relatam mortes de infectados que não puderam ser transferidos para a capital.

“Se a Covid-19 se interiorizar com força, se o pico não chegar rápido a um declínio, você vai ver como vai morrer gente nesse interior. Não tem para onde mandar”, diz o secretário de Saúde de Manacapuru, Rodrigo Balbi. “Estou a 1h30 de carro de Manaus. E quem depende de avião?”

Sobre a aglomeração próxima ao hospital de campanha por causa do posto da Caixa, Balbi admitiu que “existe um risco eminente” no local: “Se é uma falha nossa, teria de ver se existe um mecanismo legal de fazer isso [fechar o posto]”.

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