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domingo, 5 de julho de 2026
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Ministério da Saúde diz que vacina HPV é segura e reação em pacientes no Acre foi desencadeada por crise psicogênica

Após estudo em 12 pacientes acreanas que tiveram reações após tomarem a vacina contra o HPV, 10 delas apresentaram a ‘doença psicogênica’, explicaram em entrevista coletiva representantes do Ministério da Saúde, Organização Pan Americana da Saúde (OPAS), Ministério Público do Acre, além de pesquisadores da USP.

Por videoconferência, o psiquiatra e pesquisador da USP Renato Luiz Marcheti afirmou que não existe causa biológica ligada à vacina e que as pacientes apresentaram o que eles chamam de ‘doença psicogênica’.

“Dos 12 pacientes avaliados, 10 deles têm o que nós chamamos de doença psicogênica pós-vacinal. Não existe relação causal de natureza biológica entre a vacina e essa doença. A vacina, no entanto, foi o gatilho para o desencadeamento dos sintomas para os quais os pacientes já eram vulneráveis”, afirma.

De acordo com a secretária-adjunta de Assistência à Saúde do Acre, Paula Mariano, desde que foram disponibilizadas as primeiras doses da vacina, há quatro anos, 82 casos de reações à vacina foram notificados.

Paula informou que, no total, 16 meninas apresentaram sintomas mais graves e, por isso, foram selecionadas pelo Estado para irem a São Paulo se submeter aos exames para diagnósticos por profissionais da Universidade Pública de São (USP).

Entre os sintomas apresentados pelas meninas estão: crises convulsivas, desmaios, fortes dores pelo corpo e vermelhidão.

Desde o início o MPAC vem acompanhando a situação e apurando os relatos que chegaram de adolescentes que apresentaram agravos semelhantes após receber a vacina. Diante das dificuldades para obterem atendimento na rede pública de saúde, a intervenção do MPAC foi crucial para que o Estado desse atenção ao problema com estudos para desvendar as causas dos sintomas e providenciar o devido tratamento.

“Nós acompanhamos o diagnóstico que foi realizado na USP com os profissionais, conversamos diretamente com eles, para elucidar os problemas. O MPAC continuará fazendo esse monitoramento, essa fiscalização e propondo a consolidação dos fluxos de atendimentos, dos algoritmos a serem fechados entre as equipes técnicas do município e do estado, a fim de que se possa resgatar a saúde das famílias que foi de algum modo agravada”, disse o promotor de Justiça Glaucio Oshiro.

O representante do Ministério da Saúde, diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde (DEVIT/SVS/MS), Júlio Croda, explicou como os médicos chegaram ao diagnóstico.

“O consenso que a gente chegou, após um esforço muito grande, juntamos um grupo de médicos psiquiatras do Instituto de Psiquiatria da USP e avaliamos inicialmente 12 meninas para ver o diagnóstico. Dessas, 10 foram diagnosticadas com sinepe – uma doença importante onde é necessário um tratamento, um acompanhamento a longo prazo. Duas pacientes apresentaram crises convulsivas epiléticas, então, a gente conseguiu chegar ao diagnóstico dessas 12 pacientes”, explicou Croda.

Diagnóstico esse que a cabeleireira Bruna Álita, mãe de uma adolescente de 16 anos que tomou a vacina, questiona. Segundo ela, antes de ser imunizada, a filha não tinha nenhum problema de saúde. Ela e outros pais fizeram um protesto em frente à sede do MP-AC para reivindicar a participação na reunião.

“Os sintomas foram dor de cabeça, sangramento nasal e desmaios. Esse quadro dela só evoluiu ao passar dos dias quando ela tomou a segunda dose da vacina, foi quando começaram as crises convulsivas, é difícil de controlar. Ela já foi internada várias vezes e os sintomas só crescem”, disse.

Governo quer treinar equipes dos Estados

Croda disse que o governo federal se coloca à disposição para treinar as equipes de saúde estadual e municipal, no sentido de buscar o diagnóstico e ajudar no tratamento.

“Estabelecemos o diagnóstico para todas essas famílias e o esforço foi enorme. É importante esclarecer que não está relacionado especificamente com a vacina HPV, foi relacionado ao ato de vacinação propriamente dito, mas não especificamente por causa da vacina”, pontua.

Ele reforça ainda a eficácia da vacina. “A vacina é segura e pode ser administrada em crianças e adolescentes e a gente precisa estimular a vacinação no Estado do Acre, pois temos uma queda importante na cobertura vacinal no Estado”, acrescentou.

O gestor disse que agora o próximo passo é fazer uma parceria com o Estado e os Municípios para organizar um fluxo de atendimento de referência dando prioridade de emergência às meninas que estão com a doença.

“Ela [a reação] foi relacionada ao ato de vacina, mas não é culpa dessas meninas ou dessas famílias. Existem condições pré-existentes que são importantes, o ato de vacinação pode favorecer o desencadeamento do sinepe e isso funcionar como uma epidemia, é uma doença que precisa ser acompanhada e tratada. Não há nenhum componente da vacina que causou essa doença e esse adoecimento dessas crianças e adolescentes”, garantiu.

Reunião a portas fechadas e protesto

Enquanto os esclarecimentos aconteciam, do lado de fora do prédio do Ministério Público pais protestavam por terem sido impedidos de participar das discussões.

“A gente está reclamando porque, das 12 mães que foram para a USP, eu sou uma das primeiras, e não foi solicitada uma mãe para estar presente nessa reunião onde eles vão dar, supostamente, o diagnóstico. O diagnóstico que eles querem que nós, mães, aceitemos, é o sinepe – crises não epiléticas psicogênicas -, eles dizem que é tipo como se fosse uma histeria coletiva”, acrescentou Bruna.

Odeilton Oliveira é pai de um casal de filhos que tomou a vacina na escola. Eles têm 10 e 13 anos e, segundo ele, os dois também apresentaram os mesmo sintomas.

“Queremos uma transparência por parte deles, não aceitamos isso, essas reuniões de portas fechadas, por que eles estão fazendo isso? Queremos uma resposta de imediato. Após tomarem as vacinas, meus filhos começaram a sentir muita fraqueza, tontura, desmaio, convulsões é muito difícil ver um filho assim”, lamenta.

Comprovação científica

Croda acrescentou que foi comprovado cientificamente que a vacina não causou esses sintomas. Ele disse que uma equipe de psiquiatria da USP deve vir ao Acre para dar treinamento aos profissionais de saúde para que eles possam estabelecer um diagnóstico em outras adolescentes e crianças.

“O Ministério da Saúde se baseia em evidências e literatura, a equipe da USP é a mais qualificada no Brasil para atendimento desse diagnóstico e é reconhecida mundialmente. Nós, como Ministério da Saúde, apoiamos esse diagnóstico, que foi estabelecido e repudiamos qualquer diagnóstico alternativo que não seja respaldado em evidência científica”, afirmou.

O gestor alertou ainda em relação a tratamentos alternativos para a doença oferecidos por pessoas que podem, de alguma forma, se aproveitar da situação da vulnerabilidade das famílias.

“Não são recomendados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), nós iremos fazer uma denúncia ao CFM de qualquer atividade médica que seja indicada sem respaldo científico”, afirmou Croda.

Sobre a informação de que na bula da vacina consta algum tipo de reação parecida com a que as mães das pacientes relataram, Credo disse que a informação é inverídica.

“Na bula não diz que está associado à sinepe, que é o diagnóstico clínico médico que foi estabelecido pelos profissionais de excelência no Brasil, então, essa afirmação é incorreta. É importante esclarecer a população em relação a isso”, acrescentou.

Sinepe

Quando indagado sobre a possibilidade de a vacina ter despertado a doença Sinepe, o representante do Ministério da Saúde disse que em alguns outros países como a Colômbia já ocorreram casos parecidos.

“Não é coincidência, isso já aconteceu em outros locais do mundo, inclusive na Colômbia, mesmo fato, a mesma doença que a gente está diagnosticando aqui. É um fato extensamente debatido na literatura, então, não existe nenhuma coincidência, é esperado e pode ocorrer em diferentes partes do mundo. Pode estar associado à vacina e a outros tipos diferentes de medicação. O Ministério da Saúde acredita que é necessário um acompanhamento adequado”, acrescentou.

Vacina contra o HPV

De acordo com o Ministério da Saúde, a vacina deve ser aplicada em meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos.

HPV é a sigla em inglês para papilomavírus humano. São vírus capazes de infectar a pele ou as mucosas oral, genital ou anal, tanto de homens quanto de mulheres – provocando, segundo o Ministério da Saúde, verrugas na região genital e no ânus, além de câncer, a depender do tipo de vírus.

Dos mais de 150 tipos diferentes do vírus, 13 são considerados de alto risco, podendo causar, além dos tumores cervicais, câncer de ânus, vulva, vagina e de pênis. (Com informações G1/AC)