Será que estou vivendo ou apenas pagando boletos? O questionamento é tão legítimo e cruel que faz até o adulto ter vontade de chorar. A vida frenética vai acontecendo enquanto chegam as contas de água, luz, aluguel, internet e cartão de crédito. O gás que acaba à noite, no momento em que se prepara uma comidinha rápida, é a piada mais trágica que pode ser contada pelo Universo.
As inúmeras responsabilidades, quase sempre, nos fazem cair no looping acordar-trabalhar-comer-trabalhar-dormir-acordar, na espera ansiosa pelos suados 30 dias de férias, para depois recomeçar o esforço por mais um ano. Por isso, é comum nos vermos preenchidos por dúvidas em relação à realização pessoal, felicidade, destino. Algumas vezes, até mesmo o barzinho ou a baladinha com os amigos se tornam rotina e motivo de desconforto com a vida.
Como viver de forma plena e feliz é uma preocupação que pode já ter feito você – assim como eu – perder horas de sono. Acredito que nenhuma outra geração antes da nossa perdeu tanto o sossego refletindo sobre ter um propósito de vida. Em uma realidade perfeita, não teríamos menos que uma boa moradia, bem decorada, um trabalho que nos deixasse realmente felizes, que pagasse o suficiente para os boletos e garantisse experiências inesquecíveis em viagens a lugares igualmente especiais.
Durante a história do mundo, a noção de felicidade sofreu diversas modificações. Na Idade Média, por exemplo, com a forte influência religiosa, a felicidade esteve intimamente ligada ao Paraíso, à plenitude de uma vida abundante após a morte. Não que este pensamento tenha sido totalmente descaracterizado – o “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”, de Jesus Cristo, ainda funciona como importante combustível cristão para aguentar os perrengues terrenos com foco em um descanso eterno.
Atualmente, a ansiedade da busca de uma vida feliz é alimentada pelo “céu” mostrado nas redes sociais, na perfeição do lifestyle de blogueiros. Como grandes consumidores de tecnologia, facilmente introjetamos o fator “comparação” à nossa rotina maluca, por meio do passar do feed infinito e dos stories descontraídos. É quase natural – na pós-modernidade – associarmos a tal da felicidade com o sucesso material. A pressão está na obrigação de sermos felizes.
O exercício que eu proponho é pensar a origem das características desse futuro idealizado. Sim, porque é uma imensa idealização! Talvez – e só talvez – já tenhamos bem mais do que o suficiente para viver com contentamento. A cantora Maria Bethânia, uma das minhas preferidas, disse uma vez em uma entrevista algo que me marcou bastante e me deixou bolado: “Felicidade não há. Existe alegria e coragem”. Pode ser urgente a necessidade de começarmos a desconstruir essa ideia fixa de uma vida adulta perfeita, cientes de que as privações são também importantes no processo.
Para terminar, faço um alerta. Segundo a psicanalista Maria Lúcia Homem, doutora pela Universidade de São Paulo (USP), a nossa atual representação de felicidade se assemelha a prazer e entretenimento irreais, fora de uma escala humana. Para a especialista, essa sede insaciável tem chances de encontrar tristeza profunda, com a sensação de que a vida não vale a pena. Então, muito cuidado com as armadilhas! Precisamos lembrar que felicidade só existe no campo subjetivo e confrontar as “verdades” impostas pela internet é fundamental. É hora de cultivar o amor e a paciência diante da jornada que estamos trilhando. E não deixe para amanhã!
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