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quinta-feira, 6 de agosto de 2026
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O que ainda é lixo em muitas cidades, em Rio Branco é resíduo transformado em solução

Por Paula Amanda


Não dá para pensar em futuro sem considerar o comportamento da humanidade com o meio ambiente. Mudar a cultura do lixo, por exemplo, é uma das principais e mais desafiadoras bandeiras de luta. Você sabe para onde vai e o que acontece com todo lixo que produz?


Cuidar do lugar em que vivemos pode ser o primeiro passo, como uma responsabilidade compartilhada entre população e poder público. Em Rio Branco, capital do Acre, a transformação começou em 2005 com uma decisão ousada e futurista do então prefeito da cidade, Raimundo Angelim. Para ele “cidade limpa não é a que mais se limpa, mas sim a que menos se suja”, declarou se referindo a época de quando assumiu a prefeitura.

A Utre de Rio Branco é referência na região Norte (Foto: Paula Amanda)

O gestor iniciou um trabalho de conscientização e investimentos, ainda no primeiro ano de mandato, seguindo um esquema de consumo, coleta e destino. Aquisição de veículos e insumos, capacitação de profissionais e disposição de papeleiros em inúmeros postes, foram as principais ações de limpeza da cidade, mas a criação e implementação da Unidade de Tratamento e Disposição de Resíduos Sólidos (Utre) representou o maior dos avanços políticos, sociais e ambientais, não só para o Acre mas para a Amazônia como um todo.


“Visitei experiências em outros estados, enviei uma carta à Caixa Econômica Federal solicitando o empréstimo para construir a Unidade, mas eles me responderam que o município não tinha condições para isso. Então nós trabalhamos para criar essas condições e oito meses depois conseguimos. Foram R$ 10 milhões investidos num projeto que era referência no Brasil. Foi a primeira da região Norte e a terceira no país. Quando pensamos na Utre, não existia nem Política Nacional de Resíduos Sólidos ainda”, recordou Angelim.


A Unidade, que completou dez anos no último 23 de outubro, opera no tratamento de 245 toneladas de lixo orgânico por dia. Depois de ser pesado, todo esse resíduo passa por um processo de compactação, depois segue para uma espécie de lagoa de tratamento do chorume, onde ele é drenado, assim como o gás que também é produzido. Por sua vez, esse gás é queimado de forma controlada, reduzindo consideravelmente os impactos ambientais.


“A Utre é uma referência desde sua implementação. Rio Branco continua sendo o único município acreano a ter uma unidade específica de tratamento de resíduos sólidos. Antes mesmo de existir a Política Nacional nós já tivemos a preocupação com a saúde pública e com os graves impactos ambientais que pode acarretar manter o lixo a céu aberto”, enfatizou o secretário municipal de Meio Ambiente, Aberson Carvalho.

De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, quase 60% dos municípios brasileiros recorrem a depósitos inadequados ao darem destinação ao lixo que produzem.


Catadores

Em 2005 a prefeitura garantiu a construção de um espaço adequado e equipado para os integrantes do Projeto Catar, uma cooperativa de catadores de Rio Branco que por conta própria e, sem saber, já estavam contribuindo de forma significativa para o reaproveitamento do lixo. Francisco Martins, hoje presidente da cooperativa, faz parte dessa história. “Estou há mais de 14 anos nessa luta. O preconceito foi uma das coisas mais difíceis de vencer. Antes da prefeitura nos dar essa oportunidade, nós passávamos de porta em porta pelos sucatões oferecendo nosso trabalho por qualquer trocado”, contou.

Dona Nonata é catadora há mais de dez anos (Foto: Paula Amanda)


Atualmente, são em média 15 catadores cooperados que recebem latinha, garrafa pet, papel, papelão, cobre, metal e plástico em geral, e conseguem ter uma renda em média de R$ 300 por mês, com a revenda desses materiais. Martins explica ainda que há muita procura, mas eles não conseguem dar conta de tudo pois não há oferta. “Tem muita empresa de fora querendo, mas o que a gente recebe aqui não dá pra ofertar na quantidade que eles precisam”, explica.


O material que eles recebem é coletado no Ecoponto do Tucumã, um espaço estratégico criado pela prefeitura para facilitar o recebimento e destinação correta do lixo seco (papel, papelão, garrafas pet e etc). O Plano Municipal de Tratamento de Resíduos Sólidos prevê a construção de mais 13 pontos de coleta.


Além do espaço físico, uma das cooperadas fica na Utre, pois além do resíduo domiciliar, a unidade recebe também de grandes geradores, como por exemplo supermercados, distribuidoras e etc. Quem está lá desde o início neste oficio é a Dona Roseane Nonata Maciel. Casada, mora no bairro Montanhês com o marido, dois filhos e uma neta. O que ela cata é sua única fonte de renda. “Eu faço isso há mais de dez anos, e logo no início já vim aqui para a Utre. Aprendi na prática a separar os resíduos, selecionar e armazenar. Não dá muito dinheiro, mas é o que eu sei fazer e faço com amor”, revelou.


“Estamos fazendo estudos financeiros para ampliarmos os Ecopontos em nossa cidade. O Ecoponto do Tucumã inaugurado em 2017 é uma referência para aquela região, os moradores do entorno podem levar até 1m3 de resíduos ao dia por pessoa. O Ecoponto recebe resíduos de madeira, galho, material de construção civil, restos de eletrodomésticos, plásticos, como também latas, vidros e etc. Sabemos da importância de iniciarmos a coleta seletiva em nossa cidade. Rio Branco se prepara para isso, todas essas ações são etapas desse processo”, declarou a prefeita da cidade, Socorro Neri.


Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil produz quase 37 milhões de toneladas de lixo orgânico anualmente, e apenas 1% é reaproveitado. Convertendo para impactos ambientais, isso quer dizer que se todo lixo descartado em um ano fosse submetido em processo de tratamento, o Brasil conseguiria reduzir em emissões o equivalente à retirada de sete milhões de carros das ruas.


Cada cidadão produz em média 400g de resíduo por dia. Se cada um fizesse a separação correta do lixo em casa, uma célula (espaço onde é compactado e depositado o lixo), passaria a durar quatro anos, e não somente dois como é atualmente.


É exatamente por isso que a Engenheira Florestal Cristina Lacerda faz questão de separar o lixo seco do lixo orgânico. Ela conta que juntamente com mais dois vizinhos, separa o material e quinzenalmente deixam no Ecoponto. “A gente separa, limpa e junta tudo. É um costume antigo. Sempre tive muita angústia com essa questão do lixo, para onde ele vai. Acredito que fazendo a nossa parte colaboramos muito”, enfatiza.


A natureza cumpre um grande ciclo, onde a maior parte do que é descartado volta. O seu lixo pode ser reaproveitado, reutilizado, pode gerar renda para famílias, pode enfeitar sua casa, pode compor seu guarda roupa, mas também pode ser entulhado, demorar séculos para decompor, empobrecer o solo, contaminar os lençóis freáticos, ser vetor de muitas doenças, onerar os cofres públicos e os impostos dos cidadãos. Você decide!