Rio Branco
23°C
domingo, 2 de agosto de 2026
05:45

FICANDO VEACO COM A VELHACARIA

Dia desses tive uma conversa, altamente filosófica, sobre o termo “veaco”, que ouvi pela primeira vez de um tio. Na verdade, eu falava com a minha namorada, Paula Schroeder, que muitas vezes nós acreanos utilizamos a palavra “veaco” (que quer dizer esperto, ágil) com o sentido de “velhaco” (que quer dizer mau pagador, caloteiro).

O certo é que, como o título da coluna diz, estou ficando veaco com a velhacaria para com a advocacia. A meu sentir, no Brasil as pessoas não valorizam os serviços. São capazes de pagar um milhão de reais em um apartamento, mas se um pintor cobrar vinte mil reais para pintar esse mesmo apartamento, acham caro!

Dia desses recebi uma proposta, indecente, com a devida vênia, de um potencial cliente que queria me contratar para determinada demanda e só me pagaria: 1) se ganhássemos o processo; 2) se a casa que é objeto da demanda fosse vendida (aí ele me daria um percentual da eventual venda da casa). Ele me disse que estava desconfiado dos advogados daqui porque pagou um outro profissional que tinha feito a demanda errada. E ele agora está “veaco”, e só aceita pagar no final (e se ganhar).

Veja só: primeiro, não posso garantir que a demanda terá êxito, pois a atividade da advocacia não é de resultado, é de meio. E mesmo ganhando…até a casa ser vendida, quanto tempo iria durar? A minha estimativa é de que desde o ajuizamento da demanda até que fosse vendida a bendita casa, iria durar um ano e meio (sendo bem otimista). E nesse intervalo de tempo, quem me remuneraria pela confecção da petição inicial, das audiências que eu iria comparecer, dos recursos, das ligações que eu iria atender (às vezes até em momentos e dias inoportunos) para responder sobre o andamento do processo, enfim?

Será que eu posso falar aos meus credores que ano que vem eu pago? Com certeza não, né!

As pessoas têm que entender que o serviço do advogado deve ser remunerado, independentemente do resultado do processo. Se o advogado foi antiético, imperito, negligente, errou a demanda, enfim, existem órgãos que podem (e devem) fiscalizar e punir eventuais ilícitos profissionais. Isso é outra coisa!

Claro que, por exemplo, em demandas previdenciárias e trabalhistas, os colegas costumam não cobrar nada no início, cobrando apenas um percentual do resultado no final. Porém, essas demandas possuem uma grande, uma enorme, uma gritante possibilidade de êxito financeiro. Agora, em outras demandas, meus amigos e amigas, isso não é possível.

É só você pensar o seguinte: se você trabalha com vendas, imagine que todos os seus clientes adquirissem os seus produtos e você só recebesse, efetivamente, depois de um ano. Como ficaria o pagamento aos seus fornecedores? E o aluguel, luz, alimentação, gasolina etc?

Antes de reclamar, ou cometer qualquer ato de velhacaria para com um colega advogado, pense: você aceitaria trabalhar por meses, ou por mais de um ano, para só receber o seu justo pagamento depois?

Valorize o seu advogado, pois às vezes ele é o único que te defende mesmo sem acreditar em você…