Uma punção na região do quadril, 24 horas de internação e pronto: você acabou de salvar uma vida. Mas, até chegar a esse ponto, há um longo e doloroso caminho, para quem espera pelo transplante de medula óssea. Espera que chegou ao fim para um receptor do Rio Grande do Norte, o paciente recebeu no início do mês passado, a medula doada pela funcionária pública, Josielma Oraquis.
Josy, como é mais conhecida, tem 32 anos e é moradora do município de Porto Acre, interior do estado do Acre, ela conta que fez o cadastro de doadores de medula óssea em 2015 após um procedimento rotineiro de doação de sangue.
“Em 2015 eu fui ao Hemocentro, sou doadora de sangue há 10 anos e aí quando eu fui doar sangue e vi o papelzinho sobre doação de medula óssea, me informei, me interessei e preenchi o cadastro e fiz a coleta para verificar o tipo da minha medula e pronto fiquei aguardando”, conta.
Em outubro de 2018, o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula (Redome) entrou em contato com a servidora informando de uma possível compatibilidade com um o paciente do RN e perguntaram se ela ainda tinha interesse em fazer a doação.
A partir disso, a doadora realizou novamente a coleta do sangue para atestar a compatibilidade. Após este procedimento ela passou por vários exames na capital acreana e depois por mais exames em Natal capital do RN. Concluída a fase de exames, ela voltou ao Rio Grande do Norte para fazer a doação.
“Retornei a Natal, fui internada e no mesmo dia eles já fizeram a coleta, é um procedimento tranquilo, os médicos são muito cuidadosos, toda a equipe é muito atenciosa. É um procedimento tranquilo, é feito uma punção no osso da ‘bacia’ furam os dois lados, a gente toma uma anestesia, não senti nada em relação a dor”, garante.
Segundo Josy, a recuperação também é rápida, 15 dias após ter feito a doação ela já estava liberada para voltar ao trabalho. No caso dela foram retirados um litro e meio de medula.
As duas viagens com acompanhante que a doadora fez ao estado do paciente que recebeu a medula foram custeadas pela Redome.
O que é medula óssea e como o transplante pode salvar vidas
Segundo o Redome, a medula é um tecido líquido-gelatinoso que ocupa o interior dos ossos, sendo conhecido popularmente por ‘tutano’. “A medula óssea desempenha um papel fundamental no desenvolvimento das células sanguíneas, pois é lá que são produzidos os leucócitos (glóbulos brancos), as hemácias (glóbulos vermelhos), e as plaquetas”.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, a probabilidade de encontrar um doador de medula óssea compatível é de 30% entre irmãos, no caso de doadores sem grau de parentesco a chance é muito menor, um para cada 100 mil.
Os principais beneficiados com o transplante são pacientes com leucemias originárias das células da medula óssea, linfomas, doenças originadas do sistema imune em geral, dos gânglios e do baço, e anemias graves (adquiridas ou congênitas).
Além destas, outras doenças, não tão frequentes, também podem ser tratadas com transplante de medula, como as mielodisplasias, doenças do metabolismo, doenças autoimunes e vários tipos de tumores.
Cadastro: a importância da atualização
Atualmente, conforme dados do Redome, no Brasil existem 4. 843.557 pessoas cadastradas para doação e 850 pacientes aguardam por um transplante de medula. No Acre existem 12.379 pessoas cadastradas, 09 pacientes esperam por um doador compatível, a maioria são crianças.
Para a gerente-geral do Hemoacre, Josiane Amorim, o número ainda é pequeno. “Raramente chega alguém que vem especificamente para fazer o cadastro de medula, geralmente a pessoa vem doar sangue e a gente pega a ficha e explica para eles a importância disso, e eles se sensibilizam e acabam fazendo a ficha” explica.
A gerente acredita que ainda falta divulgação e conscientização das pessoas. Outro problema apontado por Josiane como sendo um fator que dificulta ainda mais as doações, é a falta de atualização cadastral. Segundo ela, no Acre uma jovem compatível não foi encontrada para fazer a doação por estar com o cadastro desatualizado.
“Nós tivemos duas pessoas que foram compatíveis no nosso Estado, e uma infelizmente a gente não localizou de jeito nenhum, isso porquê não fazem a atualização cadastral, a pessoa vem uma vez e faz aquela ficha, mas, a gente sabe a rotatividade de número de telefones que existe”, alerta.
A responsável pelo Hemoacre diz que não é necessário ir ao Hemocentro para atualizar a ficha cadastral, basta informar a atualização ligando para o telefone 3248-1380, que é fornecido pelo órgão. Além disso, na página do Redome na internet é possível atualização do cadastro. “Do que adianta eu encontrar um potente doador, porém eu não localizo, nós ficamos super arrasados”, lamenta.
Para fazer o cadastro é muito simples: basta comparecer ao hemocentro com documento de identificação em mãos, e preencher uma ficha e coletar uma amostra de 5ml de sangue, a partir disso o cadastro vai para o Redome. Diferente da doação de sangue, os critérios para ser um doador de medula óssea não exige peso mínimo.
Outro problema, está relacionado ao medo das pessoas de passar por intervenção cirúrgica, mas a gerente explica que o procedimento é pouco invasivo e a recuperação é rápida. “Não tira um pedaço de você, não existe um corte, o doador que doa hoje, amanhã ele vai embora para casa, é muito simples e ele salva a vida, realmente”, diz.
A doadora Josy, conta que agora pretende incentivar mais pessoas a fazer o cadastro de doadores. “O que eu quero agora é incentivar as pessoas a irem lá e se cadastrarem e ser um doador. Porque é tão difícil encontrar um doador pela questão de compatibilidade, é um para cada 100 mil, é muito raro. Nós que temos saúde somos a esperança dessas pessoas”, diz Josy.
Hospital Rio Grande agradece
Nas redes sociais do Hospital Rio Grande, a servidora recebeu homenagens e agradecimentos pelo gesto de solidariedade ao próximo. Na ocasião ela recebeu um certificado de super doador.
“Sua atitude ajudou a salvar vida! O procedimento foi realizado no hospital Rio Grande, que é o único do Rio Grande do Norte habilitado pelo ministério da saúde para este transplante! Toda nossa equipe parabeniza e agradece a Josy Oraquis por esse lindo gesto”, escreveu a instituição hospitalar.
Nas redes sociais da doadora, ela também postou vídeos e compartilhou a experiência, com mensagens de incentivo às pessoas para que entrem para o cadastro nacional de doadores, com intuito de ampliar as chances de se encontrar pessoas compatíveis.






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