Por Tião Vitor*
Vejam como é a natureza, meus amigos: meu sobrinho Diego Vitor, tem uma cobra píton a quem chama de Sofia. Ela, inclusive, é objeto de estudo, já que está concluindo o curso de veterinária. Para alimentá-la, compra sempre ratinhos abatidos. Ela os devora lambendo os beiços. Certo dia, pensando em mudar o cardápio da mascote, resolveu comprar um pinto daqueles de 1 dia que são vendidos nas casas do ramo. Ofereceu a ela a iguaria, mas, para sua surpresa, Sofia quase morre de medo do galináceo. Diego tentou por várias vezes, mas a pobre cobrinha recusava e fazia de tudo para se evadir do local, rápido e de fininho.

O pintinho salvou-se de ser devorado. Minha irmã, Giselda, mãe de Diego, apiedou-se do bichinho, já que teve sua vida poupada por conta da cibofobia que se descobriu que a danada da cobra tem. Cibofobia, gente, é fobia de comida, medo de comida, mesmo!
Giselda resolveu adotar aquela coisinha miúda, o pintinho, e logo deu nome a ele de Obama – nome chique, hein?! O bicho está crescendo e saltita por entre as pernas de todos em sua casa. Já é quase um frangão [aqui pra nós, que ela não saiba, mas já dá um caldo].
Obama é um devorador de tudo que encontra na cozinha e do que é colocado para ele num pratinho todo bonitinho, decorado, que a Giselda comprou pra ele.

Apesar de todo o mimo, de todo o salamaleque dedicado ao pomposo galinho, descobriu-se, também, que o danado adquiriu manias alimentares estranhas. Obama não suporta milho. Nem inteiro, nem quebrado, nem moído em forma de xerém. Quem sabe, talvez, se alguém bolasse um milho gourmet, poderia ele até provar. Mas ponha na frente dele uma saladinha de alface ou de rúcula… ou uma pratada de feijão com arroz… uma lasanha… Pense!
Diego tem outro animalzinho fofo igual a Sofia. É uma tarântula. Ele a cria desde que seu tamanho não ultrapassava o de uma moeda de 25 centavos. Naquela época, vendo que se tornaria um animal bonito e amedrontador, Diego resolveu chamar-lhe de Jack. Olha só que nome bonito. E lhe cabia bem, já que Jack crescia bruto, rústico e sistemático.
Mas, amigos, vejam só como é o destino. Quando Jack cresceu um pouco mais já era possível fazer o teste para identificar o seu gênero. Pois num é que Jack não é ele, é ela?! Agora, já batizada de papel passado, ninguém teve coragem de mudar o nome para Jaqueline. Ficou Jack mesmo.
Nunca vi coisa igual a esses pets criados por Diego e sua mãe Giselda. Se tratassem de gente, crianças, dir-se-ia que “foi a criação”, “é mimo demais que estraga o apetite desses meninos”, mas é bicho. Bicho que deveria comer de tudo (dentro de sua dieta, claro). Penso eu que esses bichos não se sentem mais bichos mesmo. Pensam ser gente de verdade. Acreditam ser membros da família – e o são mesmo, em certa medida.
Na mesma residência têm outros que agem estranhamente, com exceção dos gatos, que já são estranhos por natureza e esperam sempre uma oportunidade para nos dominar e dominar o mundo.
Tem o cachorro Billy que jura ser o proprietário da casa inteira, dos quartos à sala, da varanda à cozinha. Tem o Sebastião, um jabuti que resolveu imitar o comportamento dos gatos e vive se roçando nas pernas de todo mundo. Sebastião tem uma esposa, [poxa, não me lembro o nome dela] um presente que Giselda ganhou de um amigo. Tem três tartarugas que ainda não têm nome e quatro carpas que, da mesma forma, esperam por um nome que lhes caia bem.
No escritório de Giselda, bem em frente à sua mesa de trabalho, tem um aquário em que reside um único peixe. Um peixe betta. E tem nome, sim! Chama-se Lúcifer. E o nome lhe cabe, pois, o que diriam vocês de um peixe que já ficou cerca de doze horas fora d’água e não morreu? Sim, ele ficou. Isso ocorreu quando, não se sabe como, o aquário caiu e quebrou, deixando-o ao ar-livre. A suspeita é de que algum gato tenha derrubado o aquário sem querer [sei…]. Mas a verdade é que, no dia seguinte, quando chegou no escritório, Giselda viu o lindo peixinho se debatendo, provavelmente, para chamar sua atenção.

A casa não é um zoológico, como muitos poderiam supor. É, sim, um manicômio de animais. É tudo doido de pedra. Suspeito até, que os humanos que ali residem também são meio lelés, mas é tudo gente boa. Os bichos e os não-bichos.
Eu, por precaução, tenho visitado pouco meus parentes aqui citados.


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