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domingo, 5 de julho de 2026
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Com diferentes estilos, ‘Histórias Acreanas no Miolo de Pote’ resgata formação social e cultural do estado

Prosa literária, poesia, conto, artigo e diversos outros estilos. É com essa miscelânea de escrita que o historiador Marcos Vinicius Neves pensou e elaborou o livro “Histórias Acreanas no Miolo de Pote”. A proposta é resgatar por meio da História a formação social e cultural do Acre desde as civilizações pré-ocupação do território, passando pela posse do perímetro pela Bolívia, a chegada dos brasileiros a região, a disputa conhecida como Revolução Acreana e a formação social e cultural do estado. A obra é financiada pelo edital de cultura da Fundação Elias Mansour (FEM).

Com o lançamento programado para a próxima quinta-feira, 4, no Loft Bar e Restaurante, os exemplares do produto serão comercializados a R$ 40 e os locais de venda ainda não foram definidos pelo autor. Por ser financiado por edital público estadual, das 500 unidades produzidas 20% delas serão destinadas a órgãos púbicos, como as bibliotecas Pública e da Floresta, e outras instituições para alcance gratuito do público em geral. Em uma longa conversa regada a café e muitos causos de diferentes momentos da história acreana, Neves falou ao Jornal Opinião sobre o projeto.

O escrito é a reunião de diversos textos produzidos pelo historiador em colunas de jornais impressos locais, revistas especializadas e outros meios desde a chegada dele no estado. Além de não seguir um único estilo de escrita, a metáfora é a principal característica do livro que é dividido nos seguintes, a grosso modo, tópicos: Terra, Tempero, Mãos, Fogo e Pote. Eles remetem ao processo de produção de cerâmica – que resulta no dito pote de onde os contos surgem e se propagam – a obra não segue uma linha cronológica e linear levando os leitores a diferentes épocas.

“Publiquei muita coisa como funcionário público atuando no Estado e no Município de Rio Branco. Além disso, fiz muitas colaborações para revistas nacionais, livros em parcerias com outras pessoas e trabalhos institucionais. Mas como o ofício de historiador é contar histórias e com esse gosto que tenho pela escrita no papel, comecei a produzir e passei por vários periódicos da capital. A expressão miolo de pote foi utilizada no livro porque a principal proposta dele é ser uma boa conversa descontraída e agradável com o leitor, como o termo acreano descreve”, diz Neves.

Miolo de Ponte era o nome de uma coluna dominical que o historiador teve 2006 a 2012 no Jornal Página 20. De lá vieram a maioria dos relatos – que tiveram que ser readequados para o novo formato, mas sem alterar a forma de escrita, – ou atualizados pela necessidade que alguns temas necessitaram – descritos pelo autor nas mais de 250 páginas que poderão ser encontradas nas livrarias e outros espaços de Rio Branco a partir da próxima semana. A concretização do projeto é uma realização pessoal do autor de elaborar algo independente e despretensioso no que ele mais gosta de fazer.

“O impresso, a palavra no papel, é mais permanente de qualquer maneira e continuará sendo. Mesmo cedendo a pressão de alguns amigos para abrir um blog com a popularização da internet no Acre, a escrita impressa sempre me atraiu e me deu a possibilidade de ter convivência com redações de jornais, o que me possibilitou aproximar a História da população por meio da Comunicação. No Acre, jornal é uma escola fortíssima e é uma tradição que sempre existiu”, reforça Neves. Na entrevista a seguir ele conta as inspirações para o livro e episódios da história acreana.

Jornal Opinião – Quando surgiu a ideia de fazer o livro e como foi o processo de elaboração?

Marcos Vinicius Neves – O gosto que tenho pela escrita, que me levou a vários diários impressos de Rio Branco, foi o principal fator para idealizar esse projeto, que surgiu em 2017. Assim como na Miolo de Pote, o livro também traz uma liberdade completa de fazer o que quis. Quando fui elaborar esse manuscrito peguei 255 textos da coluna que consegui numerar e separei por temas que abordava. Isso me fez enxergar com mais clareza a diversidade de temáticas abordadas. O fio da meada são abordagens relacionadas a História e Cultura a partir de diversos e diferentes aspectos.

Do jeito que a coluna se propunha a ser uma conversa descontraída e não coisas tradicionais da historiografia – era algo que eu não queria porque se fosse seguir essa linha não teria escrito em jornais, mas em revistas temáticas, científicas ou especializadas -, o livro também segue a mesma linha de proximidade. Ele possui vários estilos de linguagens como artigos que escrevi como ficção, mas baseados em fatos reais, mitos indígenas tradados como poesia, a forma mais interessante para falar sobre, sínteses de episódios importantes na história do Acre entre outros tipos de textos.

Durante a leitura as pessoas vão conhecer personagens particulares como a Rosalina da Silveira, a Laélia de Alcântara, o mestre Irineu Serra, Manoel Urbano da Encarnação e outra multidão de pessoas que ajudaram a construir a história daqui. Foi um drama grande separar textos para um espaço determinado do livro, muita coisa que escrevi na coluna, como uma série sobre os rios do Acre e da Amazônia, por exemplo, precisaram ficar de fora. Mas a essência continuou sendo a mesma.

Jornal Opinião – A partir da idealização do projeto, o que foi feito para concretizá-lo?

Marcus Vinicius Neves – Depois que tive a ideia de fazer o livro a gente [uma equipe trabalhou arduamente para concretizar essa ideia] fez um projeto para o edital do Fundo Estadual de Cultura, que seleciona e financia diversas ideias nessa área. Isso foi em 2017, quando apresentamos e submetemos ele ao processo. Durante a concorrência fomos agraciados pelo financiamento da Fundação de Comunicação e Cultura Elias Mansour. Foi uma conquista maravilhosa para todos.

Jornal Opinião – Por que a opção de não seguir uma linha temporal cronológica na obra?

Marcus Vinicius Neves – Quis manter a mesma linha da coluna, onde a cada semana um estilo textual diferente era usado. E como os temas são diversos e de diferentes épocas, não quis trazer um engessamento para o livro. Pelo agrupamento feito, ele começa pela Terra, matéria prima para fazer o pote, passa pelo Tempero, uma casca da árvore cariapé, Mãos, que moldam o formato do pote, Fogo, que transforma todos esses ingredientes em uma coisa que não existe na natureza [a cerâmica], e o próprio Pote, que é a finalização de todo o processo onde se reúnem todos os episódios.

Para ter uma metáfora que juntasse todas essas partes, eu contei uma história inédita, que nunca saiu na coluna. Ela fala sobre a ceramista apurinã que fabrica o pote, o miolo do ditado popular acreano é o conteúdo. É como se o Acre fosse o pote, que foi construído a partir da argila, e o miolo é a História, que é tirada do interior do recipiente. É uma brincadeira para agrupar de uma forma diferente os temas separados por tópicos ao longo do livro. Em linhas gerais, esses temas abordam a época da formação do Acre, o Primeiro Ciclo da Borracha, Revolução Acreana, Pré-História do Acre, que fala sobre as comunidades indígenas nesse território há três mil anos antes da ocupação.

Cidades como Rio Branco, Xapuri e Cruzeiro do Sul são personagens do livro. Também é abordada a Arqueologia, História Indígena – contando como as populações daqui se relacionavam com os Incas e outras civilizações andinas – e diversos outros temas. Adiantando o resultado do livro, falo que a história do Acre de três mil anos atrás é tão forte que a nossa tríplice fronteira – Brasil, Peru e Bolívia – não é resultado de disputa entre três países, mas sim de uma definição territorial indígena milenar. É uma questão cultural que separou os Andes, as terras baixas amazônicas e as terras alagadas do pantanal boliviano há três mil anos antes dos estabelecimentos legais.

Na última parte do livro, o Pote, as pessoas vão descobrir que no fundo o recipiente é a própria ceramista. A mulher fabrica o próprio útero, o vaso primordial da cultura. Com essa metáfora da ceramista indígena, que vem do mito até a realização concreta da vida de uma mulher, faço uma tentativa de juntar essas partes em que as histórias do livro foram agrupadas e distribuídas.

Jornal Opinião – Além de você, quem trabalhou na construção do manuscrito?

Marcos Vinicius Neves – Foi um processo que envolveu várias pessoas. No projeto e todo o processo de elaboração, submissão ao edital do Fundo Estadual de Cultura e prestação de contas foi de responsabilidade da Flávia Burlamaqui, ela executou o projeto executivo. Já o jornalista Helder Cavalcante executou a revisão editorial, ortográfica e fechamento de algumas partes. O projeto gráfico e de responsabilidade do Ulisses Lima. A capa, que ficou muito bonita e bem feita, foi criada pelo Deniken Lopes. Além disso, o jornalista Antônio Alves, o Toinho, fez a apresentação. É um produto coletivo construído por várias pessoas, assim como na própria História.

Jornal Opinião – Quais surpresas os leitores encontrarão durante a leitura da obra?

Marcos Vinicius Neves – Vou dizer o que eles não vão achar: não é um livro de história tradicional. Ela foge do oficial e do sentido acadêmico da coisa. Não é uma obra voltada para a academia. Nesse sentido, ele está mais próximo da arte do que da ciência. “Se os rigores da Ciência são grandes, maiores são as torturas da Arte”, diz o Toinho Alves durante a apresentação do livro. No Acre a história é viva e está na memória dos pais e avós, é um jeito de ser muito acreano. Aqui as pessoas gostam da história e fazem a defesa do Acre e de seu legado de uma forma apaixonante e contundente, uma necessidade de afirmar e reafirmar esse lugar. As pessoas vão ter o gosto de conhecer muitos episódios que não são tão difundidos publicamente no dia a dia.

Jornal Opinião – O que você espera após o lançamento do livro? Está ansioso ou nervoso?

Marcos Vinicius Neves– Espero que ele cumpra o objetivo de ser um papo descontraído, com o leitor sentindo isso ao consumir as páginas. Sempre bate aquele frio na barriga pensando em como as pessoas vão receber algo novo e que ninguém conhece. Se os exemplares que sobrarem, após aquela distribuição de 20% das 500 unidades em órgãos públicos e outras entidades, venderem bem, o dinheiro arrecado com a comercialização será investido para fazer uma segunda edição. Se for bem vendido e esgotar rápido, vai ser sinal de que as pessoas estão precisando dele.

Se realmente acontecer uma demanda alta de mercado, talvez haverá a segunda edição onde vou reunir todos os textos que ficaram de fora desse livro recém elaborado. Optei por não fazer o lançamento em uma livraria ou espaço público porque a gente quer fazer uma festa para celebrar essa conquista e reunir todo o tipo de público, sem restrição alguma. Haverá atrações musicais, ainda não confirmamos quais, e uma boa recepção as pessoas com happy hour. Essa é a última etapa de um processo muito legal e prazeroso para todo mundo que se envolveu no projeto.

Cheguei no Acre em 1994 e, por coincidência, o livro será lançado no ano em que completo 25  anos nessa terra que escolhi me fixar de uma vez por todas, já tinha vindo várias vezes antes. É uma realização pessoal/profissional muito satisfatória porque é uma produção própria em que eu elaborei da forma que quis e independente de qualquer instituição, seja ela qual for. É a primeira obra que pude pensar e construir de uma maneira totalmente diferente do que já fiz até aqui. Para mim é muito importante porque deixa claro a minha marca e linha de trabalho. Estou muito feliz!