A vida para quem vive nos rios da Amazônia não é fácil. Nunca foi e nunca será! Para começo de conversa, as distâncias se medem pelo tempo e as intempéries intimidam até os mais fortes. Nada está ao alcance das mãos como nos supermercados das cidades. E quando se trata de serviços, aí é bem-pior. Mas o ribeirinho se adapta e o espírito empreendedor surge com a solução de muitos problemas.
Na desembocadura do rio Acre, a menos de cem metros de onde as águas desse se encontram com as do rio Purus, um pontão atracado à sua margem esquerda, é um exemplo dessa adaptação e do empreendedorismo do qual falamos acima. Ali, Leomar Ferreira, 48 anos, montou sua oficina para o conserto de motores de popa e outras máquinas usadas por quem vive na zona de Boca do Acre e nas regiões ribeirinhas.
Leomar, no entanto, não é apenas um mecânico, é um torneiro mecânico, um oficio que aprendeu sozinho praticando em um torno centenário. Quem depende de motores sabe o quão necessário ter um torneiro mecânico por perto. E os motores de popa são fundamentais para o homem dos rios.
“Eu aprendi sozinho mexendo com esse torno aqui que eu comprei faz um tempo. Hoje eu já faço tudo com ele, até os eixos para todos os tipos de motores”, revela orgulhoso Leomar Ferreira.
No centro do pontão, diversas rolas de toras de cedro. A madeira é ideal para a construção das buchas usadas nas rabetas dos motores. Leomar se especializou na confecção dessas peças.
“Em cada rabeta, vai quatro buchas dessas”, explica o profissional. “Essas buchas têm muita saída, pois todos os barcos precisam delas”, argumenta. “Eu faço um jogo de buchas por 30 reais”, completa.
Leomar nasceu em Lábrea, município vizinho a Boca do Acre, mas que tem cerca de 200 quilômetros de distância entre suas sedes. Já faz dez anos que está na cidade e conta que foi difícil chegar onde chegou.
“Passei muita dificuldade porque tudo é difícil para o trabalhador. Não há ajuda para a gente que busca trabalhar com esse tipo de atividade”, admite.
Mesmo assim, foi do seu oficio de mecânico e daquele pontão que vem tirando os recursos para manter mulher, dois filhos e duas netinhas que moram com ele.
Cliente satisfeito
Entre os muitos clientes de Leomar está Everton de Freitas. Ele levou o seu motor de popa, um Yanmar B12 a diesel. Tinha ido refazer uma peça que havia quebrado e disse que já era cliente de longa data de Leomar.
“Tudo que preciso no motor do meu barco eu faço com ele, principalmente as buchas”, revelou. “Se não tivesse esse serviço aqui na beira do rio, a gente tinha que tirar esse motor pesado e pagar um transporte para leva-lo até um torneiro na cidade. Com ele aqui, fica tudo mais fácil e barato”, finalizou.
O que é um pontão
Para quem não conhece, pontão é uma barca chata e estreita destinada a formar, por si só, ou com outras, as chamadas pontes de barcas. Na Amazônia, formam a base para os comércios que se instalam nas beiras dos rios ou lagos. Os mais comuns são as que abrigam postos de combustíveis que abastecem as embarcações.


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