Rio Branco
22°C
sexta-feira, 26 de junho de 2026
21:22

O CANTO DOS RIOS

Em homenagem ao dia mundial da água, comemorado nesta sexta-feira, 22. Quando você decidir sair da rotineira rotina, porque é filho de Deus, sugiro que vá conhecer os caudalosos rios da Amazônia. Pense! Você fará uma viagem terna – eterna. Vá… não por ser um rio a explorar, mas uma história para alma desvendar. Pense bem, o tempo é uma canoa que te faz voltar pra casa, simplesmente, numa remada. Vá! Vá margeando a curva dos índios e dos homens, saboreie o ar puro das manhãs, enquanto as plantas ainda tem flores, frutos e folhas. Vá… enquanto a esperança dorme contigo.

Se durante a viagem você se deparar com uma nuvem carregada, pesada… querendo lhe dizer que na Amazônia a chuva nunca tira folga, é porque os anjos entendem que viajar de rabeta, aumenta o brilho nos olhos. Suaviza a garoa que passa tocando seu rosto. Se um dia você sentir a suavidade da garoa, não se assuste, a umidade na Amazônia é tanta, que num instante a caixa d’água enche até a tampa de umidade.

Se durante a viagem você avistar uma visagem perambulando, mantenha a calma para não ser encantado. Diz a lenda que, quem vai embora com uma visagem, demora muito para voltar. Se é que um dia vai voltar. Na Amazônia, as visagens costumam demorarem frente à árvore de todos os frutos e sonhos. Segundo o Pajé, é para o canoeiro não se sentir enfeitiçado diante da devastadora beleza da natureza.

Vá… só não se esqueça de levar quem te deu asas pra voar. Ah! Lembre sempre, a gente veio ao mundo a passeio. O seu passeio pelos rios da Amazônia, além de permanecer na sua memória por 70 anos ou mais, sua viagem terá um ingrediente a mais, você vai ouvir o canto terno das cheias que se estende por toda terra. Me disse o Pajé, que o tal canto ainda tem hábito noturno, porquê corre e ocorre sobre a memória dos séculos, e por ser tão singelo, só acontece na Amazônia.

Então vá… se imagine num igarapé preservando o peixe boi e o boto-cor-de-rosa. Se imagine cultivando a maior vitória-régia da Amazônia. Se imagine subindo numa castanheira, no olho de um redemoinho, só para ficar mais perto das estrelas. Vá… você vai ouvir as ondas sonoras da natureza, cantarolando músicas românticas, enquanto você aprecia a paisagem. Vá… durma à sombra das árvores e molhe seus pés nos mananciais, como se fosse dançar na varanda dos sonhos.

Um remador Amazonino, me confidenciou agora. Agorinha mesmo, que vai te colocar num alto pódio a declarar, vai fazer você se sentir livre do estresse, e quem sabe, fazer você perder o chão do tempo. Por outro lado, vai fazer você entender que para o descartável, ainda não surgiu iniciativa definitiva.

E sobretudo, os rios na Amazônia correm sobre a calha dos sonhos, das lendas, dos contos e dos pensamentos. Mas, se durante a viagem, você perceber que corre nos rios um progresso estranho, acredite. É porque ainda olhamos para os rios de costas.

Nessa imensa bacia hidrográfica é assim, quando a nuvem desaba, os rios enchem, até a tampa. As curvas desaparecem e se perdem na distância das águas altas. O tempo que dura uma alagação, é o tempo que o ribeirinho não põe os pés no chão. Acho que é um momento de gratidão na vida humana. Lembram o dilúvio. Pois bem, uma alagação é o maior espetáculo que a natureza eterniza na vida humana. Realiza desejos e sonhos. Especialmente quando se pisa na terra prometida.

Ah! Lembre sempre… os rios nos fazem gingantes. Se você decidir viajar no verão, a viagem vai demorar um pouco mais, contudo… você vai descobrir o encanto das praias fluviais mais deslumbrantes que alguém possa imaginar. Vai compreender que nas águas do Rio Negro, o ciúme se cura com uma xícara de café.

Compreenderá, que os rios amazônicos correm caudalosos em todo planeta. De maneira especial, o Rio Purus e o rio Juruá, porque correm da Cordilheira dos Andes exalando o cheiro das flores e das cores acreanas. Você vai sentir em cada curva, o rio molhar o rosto, com as flores de um ipê roxo.

Ao entardecer, o canto dos pássaros faz a Amazônia se tornar um hinário gigante. Muito embora, alguns tratam o assunto como lenda. Eu acho que lenda é coisa séria. Pois bem, com o fim das queimadas e de outros flagelos, os rios e os afluentes se tornarão os maiores criadouros da vida aquática do planeta.

Sem menosprezo pra outros biomas, como alguém pode definir o lugar mágico da Amazônia! Desafio você experimentar e me devolver com palavras de um boto-cor-de-rosa, ou traduzida na voz do Uirapuru, da Iara e do Curupira, com todo cuidado para não se encantar.

Agora, com rugas a menos, vamos pela beirada borbulhando emoção em cada gole d’água, que é capaz de ficar enciumado se alguém deixar profundas pegadas na mata. Se for necessário, acene para a corredeira que seus sonhos, sonham conhecer – os mistérios que submergem no encontro das águas, que ainda tem fé infantil. Mesmo que alguém afirme que um dia elas vão se misturar.

Lembram da Campanha da Fraternidade de 2007 cujo o tema foi a “Amazônia” e a de 2004, cujo o tema foi a “água”. Pois bem, o pajé acha que é preciso insistir com as pregações ecológicas, para a Amazônia não apresentar defeito. Infelizmente é notório o confronto da velha tradição Brasileira “fiscalizar só depois do ato consumado”.

Na despedida, ele me confidenciou uma antiga preocupação! Como estarão os rios em 2080? Como vamos nos livrar das amarras causadas pela mentalidade individualista e consumista? Até parece que rima, ruma e rema, na sociedade consumista, feito tiririca do brejo.

Eis que me chega, lá do aceiro, um apelo. Se formos mais contundentes na defesa dos mananciais, um dia vamos descrever a beleza da natureza, sem vírgula, simplesmente utilizando os nutrientes da longevidade das águas.

*Claudemir Mesquita, é professor, geógrafo, escritor, membro da Academia Acreana de Letras e Presidente da Associação Amigos do Rio Acre