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quarta-feira, 3 de junho de 2026
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As casas de estilo colonial e cores vibrantes de Boca do Acre

O visitante que desembarga em Boca do Acre, localizado há 1.556 quilômetros da capital Manaus/AM, se encanta com a arquitetura tradicional aplicada às residências e suas cores vibrantes. Os locais chamam esse padrão de estilo colonial. Ele relembra os tempos áureos quando a borracha era a base da economia do Acre e da região sudoeste do Amazonas.

Naqueles anos do final do século XIX e primeira metade do século XX, a maior parte da Amazônia era habitada por seringueiros e extrativistas da castanha-do-Brasil. As cidades eram pequenas ou inexistentes. A vida girava em torno dos seringais onde eram erguidas as mais imponentes habitações. Estas buscavam replicar um pouco da arquitetura das metrópoles Manaus e Belém/PA, que, por sua vez, replicavam a arquitetura barroca europeia.

Essas duas grandes capitais brasileira, à época, figuravam entre as mais ricas do País, graças ao dinheiro da borracha que vinham dos seringais. E quem usufruía dessas fortunas eram os seringalistas. Esses eram milionários e não perdiam oportunidade de gastar milhões com extravagâncias que os fizessem um pouco mais parecidos com os europeus que tanto admiravam.

E assim, os seringalistas tentaram replicar um pouco daquela arquitetura em meio às mais densas florestas do mundo. Mas não podiam contar com o concreto, com o mármore ou com o aço, já que a logística não permitia que esses materiais chegassem aos seringais. Também entendiam esses que valia mais a pena investir nas capitais, onde as famílias residiam, do que no meio do mato, onde apenas os seringueiros e índios os visitariam. Assim sendo, tudo foi construído em madeira, matéria-prima abundante.

Os barracões, que eram as sedes dos seringais, eram construídos com o que há de melhor da carpintaria existente à época na região. E o estilo colonial da metrópole era replicado, principalmente, nos beirais com detalhes de entalhes e chanfros – os chamados buliados-, e paredes erguidas de forma a não deixar cantos retos na divisão dos cômodos. Os artesões disso tudo eram os nordestinos que vieram para a Amazônia fugidos das secas em sua terra natal.

Com o passar dos anos, ou décadas, quando os núcleos urbanos começaram a serem formados, o estilo pomposo dos barracões foi replicado ali também, principalmente, na casa das autoridades como os juízes, delegados, prefeitos e outros ricaços.

E toda essa riqueza arquitetônica foi preservada em Boca do Acre. Mas não se trata, apenas, de edificações antigas. Esse estilo colonial está presente na atualidade em cada nova casa que é erguida na cidade. Uma beleza que agrada os olhos e satisfaz o bom-gosto de quem as observa e as admira por suas formas e cores.

“Já perdi a contas de quantas casas já fiz”

O estilo das casas de Boca do Acre só se mantém porque a prática da carpintaria vem sendo transmitida a gerações, revelando, a cada obra, um profissional habilidoso, um artista que escolhe a madeira que usa como as tintas de uma paleta fornecida pela diversidade que a natureza oferece.

Um desses carpinteiro/artista Geovane da Silva de Souza, 36 anos.

Geovane já tem nome de artista. Seu nome está aportuguesado, mas bem que poderia ser Giovanni de Bellini, Boccaccio, Battista Castagneto ou tantos outros que fizeram fama a partir da Idade Média com suas obras que encantam o mundo até os dias atuais.

O nosso Geovane não chega a tanto, mas trata cada tábua que prega nas paredes de uma casa como uma pincelada que um daqueles dava em uma tela em branco. Obra de arte, sim! Só quem não conhece o trabalho desse homem e de tantos outros carpinteiros locais é que pode negar isso.

“Eu trabalhava, desde cedo, fazendo curral nas fazendas aqui perto. Daí, fui aprendendo com outros carpinteiros a fazer casas como essa e hoje já perdi as contas de quantas casas já fiz”

Carpinteiro Geovane.

Quando foi entrevistado, ele estava construindo mais uma casa em um dos mais belos pontos de Boca do Acre: o encontro das águas dos rios Acre e Purus. A casa estava sendo erguida em cima de enormes vigas de madeira que as deixam acima do chão uns quatro metros. Das alturas, da janela, se pode ver a uns cem metros, os rios, de cores diferentes, que se misturam para seguirem homogeneamente rumo ao grande Amazonas, milhares de quilômetros adiante.

Geovane não revelou quanto cobra para construir uma casa, mas disse que leva, em média, 25 dias para erguer uma e deixar em ponto de ser habitada. Mas grande parte do que antes se fazia de forma manual, hoje é produzida com a ajuda das máquinas. As vistas que vão nas portas e janelas, por exemplo, são feitas em larga escala nas marcenarias da cidade. O carpinteiro também conta, agora, com as serras-circulares elétricas, que faz em minutos ou segundo, o que se levava um bom tempo para fazer com o velho serrote.

A carpintaria trouxe Geovane para a cidade

As habilidades de carpintaria de Geovane as levaram para longe das fazendas, longe dos currais que construía. Ele foi parar na cidade chamado para construir casas.

“Eu cheguei aqui, conheci uma ‘caboca’ e fui ficando. Hoje tenho dois filhos que estão sendo criados com o que eu ganho como carpinteiro. Não é muita coisa, mas eles não passam necessidades”.