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domingo, 5 de julho de 2026
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Universitária tem desenho usado como encarte de single de vinil por banda de SC

Desenhar sempre foi um hobby para a universitária Beatriz de Oliveira, 22 anos, estudante do curso de Direito da Universidade Federal do Acre (Ufac). O passa tempo nascido aos 8 anos de idade, época em que ela começou a fazer os primeiros traços coloridos, levou a jovem a se aperfeiçoar a ponto de ela ter um dos milhares de desenhos utilizado como encarte de um disco de vinil, lançado em janeiro deste ano, pelo grupo musical underground Irmão Victor, de Santa Catarina.

Com a preferência de retratar sentimentos, pensamentos e outras questões abstratas com tom surrealista, o desenho da estudante veio após ele ouvir a música “Reflexões Navais”, do álbum Cornópio. Ela afirma que teve contato com a música após a indicação de alguns amigos sobre a banda, que ela não conhecia até então. A melodia, os riffs e a letra mexeram com os sentimentos da jovem, ela afirma que entrou em uma espécie de epifania do começo ao fim da música sugerida.

“Essa é uma música muito psicodélica, surreal. Ela fala umas palavras que, inicialmente, não fazem sentindo algum, disse até para o meu amigo que ela era maluca. Mas conforme fui ouvindo repetidas vezes, com a intenção de decifrar a mensagem contida na letra, fui sentindo a mensagem e as imagens do que a letra fala vieram à minha cabeça. E de repente me veio a vontade de desenhar aquilo porque o que é cantado eu não consigo descrever em palavras”, afirma Beatriz.

De acordo com a graduanda, a maioria de suas obras são feitas com o mesmo sentido, descrever em imagens o que ela não consegue retratar com palavras. A imagem construída por Beatriz mostra o esqueleto de uma pessoa, como se estivesse vida, navegando em um pequeno barco em uma noite estrelada de lua de crescente no que parece ser um mar, ou oceano, infinito. A arte acompanha ainda os dizeres “se eu fosse um barquinho todo fudido… você caminharia nas minhas tábuas”.

O resultado da obra agradou Beatriz e ela resolveu compartilha-la com os amigos. A reação foi tão boa que eles a incentivaram a enviar o desenho para os integrantes da banda. E a acolhida do grupo musical não foi nada diferente do que a dada pelos amigos da artista plástica. Depois de verem a arte, os integrantes da Irmão Victor entraram em contato com a universitária solicitando autorização dela para usá-la com encarte da música que inspirou os traços profundos feitos por ela.

“Quando ela mandou o desenho e eu vi, fiquei muito feliz por tê-la inspirado com uma música a fazer algo muito bonito e bacana. A arte pegou muito bem a vibezinha da música, principalmente aquele esqueleto. O encarte com o desenho dela foi colocado mesmo no centro do vinil, curti muito e achei que ficou perfeito da forma que utilizamos. Eu e ela conversamos um pouco sobre essa inspiração e até o momento mantemos contato”, relata Marco Antônio, um dos integrantes Irmão Victor.

Beatriz relembra que ficou muito feliz quando soube que os integrantes da banda gostaram do desenho e pediram para utilizar no encarte. “Quando o Marco me mandou mensagem dizendo que tinha gostado muito eu fiquei muito feliz. Depois de um tempo ele me falou que estava produzindo o vinil e me pediu autorização para usar a arte, isso foi muito incrível e bacana. Foi algo que fiz despretensiosamente e resultou nisso. É uma satisfação muito grande, principalmente porque o som deles é bom”, comemora a jovem.

A universitária diz que se sentiu contemplada ao ver o seu trabalho ser utilizado pelo grupo musical, principalmente quando visualizou o resultado final, o que a deixou conectada com as músicas do álbum e de outros trabalhos. Para ela, a banda valorizou a arte como forma de reconhecimento e apoio. Em abril ela viaja a São Paulo e pretende ir em um show da Irmão Victor programado para ser realizado na capital paulista no mesmo período de viajem da graduanda.

“Se acontecer mesmo, pretendo ir para esse show. Estou super ansiosa para que role esse encontro com eles. É uma banda incrível com músicas muito boas, principalmente devido a pegada psicodélica que eles têm nas composições. Também pretende ganhar um vinil para guardar de recordação e como um troféu no cantinho do meu quarto. Essa atitude deles mostra que nem todo mundo desvaloriza a arte, muito pelo contrário é uma valorização”, observa a desenhista.

Profissionalismo e carreira

Apesar de cursar Direito, o sonho de Beatriz Oliveira é estudar Artes Visuais, que não é ofertada por nenhuma faculdade particular no Acre e nem na Ufac. Devido a essa carência, as únicas alternativas que a jovem teve para aperfeiçoar a técnica foram os tutoriais na internet, que ela acompanha desde o primeiro desenho que ela fez aos oito anos de idade, que retravava a capa de um jogo de videogame. O apoio da família sempre foi essencial no processo vivido por ela.

O pai de Beatriz foi o maior incentivador do hobby, ele sempre adquiriu os materiais pedidos pela universitária. O talento levou a jovem a desenhar sob encomenda após as pessoas conhecerem o trabalho, que é divulgado nas redes sociais, principalmente Instagram. Ela relembra que o primeiro trabalho pago foi o pedido de um retrato feito por um casal de namorados a ela como presente em alusão ao Dia dos Namorados. O serviço rendeu outros pedidos feitos por encomenda.

“Um trabalho muito interessante que fiz foram alguns desenhos para a decoração de um consultório médico de uma endocrinologista. Foi um pedido da mãe da médica responsável pelo espaço e ela queria que eu fizesse algo a ver com a área de atuação da filha dela, mas com traços do meu estilo. Foi um desafio grande que me fez pensar e pesquisar muito e um dos resultados finais foi o desenho com formato de estômago repleto de flores. Elas gostaram muito”, conta feliz a desenhista.

Beatriz também produz esculturas dos desenhos feitos por ela utilizando argila. Além disso, a universitária também faz pinturas de quadros utilizando a técnica de aquarela, ela chegou a fazer um curso com o pintor Jorge Rivasplata. Apesar de na maioria das vezes desenhar para materializar e lidar com os próprios sentimentos e aliviar o pensamento de acontecimentos ruins, a estudante pretende cursar Artes Visuais para seguir uma carreira com profissionalismo e explorar as diversas áreas do ramo.

“Quando finalizar o curso de Direito a minha intenção é ir para fora e investir nisso. Sempre usei a arte para lidar com meus sentimentos, quando fico muito tempo sem produzir me sinto cheia de uma coisa que não sei o que é. Aí quando faço me sinto melhor, mais aliviada e livre. É uma forma de compreender as coisas que sinto. Mas o que acho mais incrível é como as pessoas interpretam meus desenhos. Elas veem óticas que até mesmo eu que fiz não consigo associar”, confessa a artista.

Beatriz diz que o diálogo que a arte mantém com as pessoas, principalmente quando amigos e conhecidos atribuem sentidos aos desenhos dela em uma forma de projeção de toda a experiência de vida que carregam, faz ela se sentir bem e no caminho certo. Para ela, mesmo havendo conexão com as pessoas ela se sente ‘nua’ ao perceber que elas analisam trabalhos que saíram de pensamentos íntimos, tanto que alguns trabalhos nunca foram mostrados a ninguém além dela.

“A arte é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, ela me faz sentir bem e a lidar com minhas reações diante do cotidiano e de vivência do mundo. Tenho muitas inspirações, inclusive de artistas incríveis aqui de Rio Branco. Acho que a arte precisa ser bem mais valorizada aqui na cidade e que precisa haver um espaço para esses artistas. Eles são muitos bons e a maioria deles não ficam aqui devido essa desvalorização. É uma área que pretendo seguir como profissão e me conhecer melhor”, finaliza Beatriz.