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sexta-feira, 26 de junho de 2026
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A saúde em tempos de guerra ideológica

Vivemos tempos obscuros. Tempos em que estamos mais preocupados em vencer uma disputa política, em saber de quem é a culpa da catástrofe de Brumadinho, dos deslizamentos que assolam o país e vitimizam centenas de brasileiros, em apontar o que o governo atual fez a mais que aquele que o antecedeu.

Poucos se dispõem a trazer propostas efetivas para esse cenário drástico e vexaminoso. Parece que estamos em plena disputa eleitoral, enquanto muitos de nossos conterrâneos não têm o que comer, o que beber, onde morar.

Nossa vizinha Venezuela talvez seja o exemplo mais cristalino dessa discórdia: o apagão vivenciado pelos nossos irmãos venezuelanos já sentenciou de morte dezenas de pessoas e, certamente, esse número só crescerá caso as forças políticas não priorizem a vida humana.

A falta de luz é capaz de colapsar o já combalido sistema público de saúde venezuelano e a prova disso é que pacientes em Unidades de Terapia Intensiva (incluindo Neonatal, Pediátrica e de Adultos) e em hemodiálise já foram alvejados.

Não há como imaginar uma ventilação mecânica, um monitor cardíaco ou mesmo um aparelho de hemodiálise funcionando sem energia! Não importa a estes pacientes a causa do apagão ou o responsável direto pela falência energética.

A quem só resta um fio de esperança, interessa saber da solução. É inimaginável pensar que governantes e opositores se preocupam em achar responsáveis de imediato… é momento de salvar vidas!

De buscar alternativas para os profissionais de saúde continuarem seu trabalho num contexto caótico em que remédios são insuficientes, recursos humanos são escassos e insumos são escandalosamente limitados. E como se não bastasse sobreviver às custas de miséria e sofrimento humano, a ditadura chavista ainda tem dificultado o fluxo da ajuda humanitária internacional para o já desenganado povo venezuelano.

Do lado de cá da fronteira, de forma não muito diferente, as notícias policiais ainda dominam os telejornais, regadas a um bom grau de sensacionalismo, enquanto nossos líderes em Brasília discutem nomeações, trocam acusações e disputam espaço na mídia.

A oposição, pra piorar esse inferno dantesco, prefere enaltecer um artista global que se autoproclamou Presidente do Brasil e perder precioso tempo condenando a (infeliz) publicação de carnaval do presidente.

O Ministro da Saúde, de quem se espera uma mudança estrutural no SUS, limitou-se a dizer que o Mais Médicos priorizará as áreas mais necessitadas (não é isso que se espera do programa, motivo pelo qual foi criado?) e condenar o programa anterior criado pelo governo petista.

Até agora, senhor Ministro, aqui nos rincões do Brasil, em municípios distantes como Santa Rosa do Purus, Marechal Thaumaturgo e comunidades ribeirinhas, só chegaram as críticas… os tais médicos prometidos, não. Enquanto isso, o povo sofre com mais deslizamentos, mais inundações, mais desabamentos, mais mortes, mais desilusão.

Não podemos compactuar com essa guerra ideológica que vitimiza tantos inocentes.  Precisamos todos descer do palanque e construir o país que realmente merecemos.

Guilherme Pulici – Médico especialista em Alergia, Imunologia e Pediatria, Diretor do Sindicato dos Médicos do Acre  (Sindmed) e da Federação Médica Brasileira (FMB)