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sábado, 18 de julho de 2026
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Balcão e o Olimpo: o olhar de um delegado sobre justiça, poder e desigualdade no Brasil

Por Emylson Farias, delegado de polícia

Em 2003, quando assinei meu termo de posse no Estado do Acre, o distintivo no peito pesava menos que a esperança. Havia, confesso, uma vaidade juvenil em ser “autoridade”, mas havia, sobretudo, a crença quixotesca de que a polícia judiciária seria o primeiro degrau na construção de uma sociedade mais justa. Mais de 20 anos depois, a poeira das estradas amazônicas e o mofo dos inquéritos me ensinaram que a justiça não é cega; ela tem um excelente senso de classe e um olfato apurado para o poder.

Minha rotina é o varejo da miséria. Na minha mesa, o Jean Valjean da vez, o homem que a lei nunca perdoou por roubar um pão para saciar a fome, não furta um castiçal; furta um pacote de fraldas, uma bicicleta, fios de cobre. Para ele, o sistema é célere, higiênico e implacável. O rosto vai para o jornal, o nome para o rol dos culpados e o corpo para o moedor de carnes do sistema prisional. Aqui, no balcão da delegacia, a lei é de granito e o erro é fatal.

Mas, enquanto carimbo o destino dos invisíveis, olho para o topo da pirâmide e vejo o Olimpo.

Lá, o Direito deixa de ser punitivo para se tornar coreográfico. É onde escândalos como o das Lojas Americanas, que drenou bilhões de investidores, fornecedores e trabalhadores, ou as manobras de engenharia financeira de instituições como o Banco Master são tratados como meras “inconsistências contábeis”. Sequer cogita-se o indiciamento dos verdadeiros donos do privilégio, que usam sua influência para comprar o silêncio e garantir a invisibilidade de seus esquemas na mídia. Assiste-se, com náusea republicana, às relações promíscuas e escancaradas entre personagens que ocupam o mercado, a política e o Estado, enquanto o orçamento público é subtraído em cifras que minha calculadora de delegacia sequer processa.

Percebi, com a amargura que só o tempo concede, que essa engrenagem não é um defeito local, mas um desenho global. No fundo, a diferença entre o delegado no balcão e o ministro na corte é apenas o preço do adereço. Eles também não passam de capitães do mato. A elite permite que eles usem a toga para manter a senzala em ordem e, em troca, eles recebem as chaves da Casa-Grande. São zeladores de luxo da mesma estrutura.

Somos todos instrumentos de um grande teatro fraudulento: mantemos a plateia distraída com o sangue do varejo enquanto os donos do poder saqueiam o atacado sob o manto de legalidade técnica.

Se a engrenagem é viciada de ponta a ponta, por que ainda insisto em levantar todas as manhãs, carregar o peso do distintivo e caminhar até a delegacia? Por que não sucumbo ao cinismo absoluto que o exemplo vindo de cima tenta impor?

Talvez porque a Justiça, a verdadeira, não habite nos mármores da Praça dos Três Poderes. Ela sobrevive no microcosmo de uma delegacia. Sobrevive quando eu, consciente de ser o “instrumento”, decido que não serei o carrasco. A esperança não é uma abstração jurídica; ela é o ato de resistência de um delegado que se recusa a ser apenas um carimbador de misérias. É olhar para o rosto de uma mãe que teve sua bicicleta subtraída — o único meio de buscar o filho na escola —, empenhar-se para restituir aquele bem e devolver a ela a sua dignidade.

No fim das contas, a resposta para o que os grandes tratados de sociologia não conseguem explicar é muito simples. Está na fresta de decência que a engrenagem, por mais pesada que seja, não consegue esmagar. Nossa força não está em disputar com a grandiosidade do Olimpo, mas em garantir que, no chão batido do balcão, o sol ainda consiga entrar pela janela. É a teimosia de acreditar que um gesto de respeito pode salvar o dia de alguém — e, no processo, salvar a nós mesmos.

Podem os “capitães do Olimpo” se perder em conchavos e as elites saquearem o país com suas luvas de pelica. Enquanto houver um único policial, um único promotor, um único juiz que se indigne, esse teatro não será unânime. Minha vitória não é consertar o mundo, mas impedir que o mundo — com seus maus exemplos do topo — conserte a minha consciência a seu favor. A Justiça dos homens pode ser um mercado; a minha integridade, no entanto, não está à venda. O injustiçado Jean Valjean continua sua fuga pela noite fria, mas hoje, ao menos por um instante, ele encontrou alguém que preferiu não ser o seu Javert.

Emylson Farias
Delegado de Polícia

Jean Valjean (o fugitivo injustiçado) e Javert (o inspetor de polícia implacável e obcecado pelo cumprimento frio da lei) são personagens centrais de Os Miseráveis, obra-prima da literatura mundial publicada pelo escritor francês Victor Hugo em 1862.