A eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo certamente frustrou a expectativa de muitos torcedores que sonhavam com o tão esperado hexacampeonato.
Nos próximos dias, o assunto dominará as conversas, as redes sociais e os programas esportivos. Depois, como acontece em todo campeonato, a vida seguirá. Restará apenas a lembrança amarga da eliminação, assim como ainda nos recordamos do histórico 7 a 1 sofrido contra a Alemanha, em 2014.
No futebol, quando o juiz apita o fim da partida, o resultado está definido. Perder faz parte do jogo. Há um vencedor e um derrotado, e o natural é que ambos aceitem o resultado e se preparem para uma nova oportunidade.
Se fizermos uma comparação com os conflitos envolvendo o Direito de Família, veremos que a situação é bem diferente. Ao contrário de uma derrota no futebol, que tende a ser superada com o passar dos dias, uma decisão judicial nem sempre encerra o conflito.
O processo pode chegar ao fim, mas os desentendimentos frequentemente permanecem fora do Judiciário. Isso acontece porque existe um vínculo anterior entre as partes que, muitas vezes, continuará existindo após a sentença. Pais continuarão sendo pais dos mesmos filhos, irmãos continuarão sendo irmãos e familiares seguirão convivendo.
Quando o conflito é conduzido apenas sob a lógica de vencedores e vencidos, a consequência é uma relação familiar definitivamente abalada, com reflexos que ultrapassam o processo e atingem toda a família.
Diante do fim de um casamento, por exemplo, é comum que as pessoas procurem o Poder Judiciário acreditando que o processo judicial servirá para apontar quem está certo e quem está errado e, ao final, dizer quem venceu e quem perdeu. Mas essa não é a função da Justiça.
Em um divórcio, não se busca investigar quem deu causa ao término do casamento, tampouco existe uma espécie de premiação para compensar um dos cônjuges. O objetivo é colocar fim ao vínculo conjugal, definir as questões jurídicas decorrentes da separação e permitir que cada um possa seguir sua vida.
Em uma separação, não existem campeões. Ainda que um dos cônjuges obtenha uma decisão favorável, o rompimento da família representa uma mudança profunda para todos os envolvidos.
Da mesma forma, em uma ação de guarda ou de alimentos, o foco deve ser garantir o melhor interesse das crianças e dos adolescentes, e não alimentar disputas entre os pais.
O mesmo acontece nos inventários. Em muitos casos, a divisão do patrimônio deixado por quem faleceu acaba gerando desentendimentos familiares e despertando ressentimentos antigos. Nessas situações, a maior perda nem sempre é financeira, mas a ruptura definitiva dos vínculos entre irmãos, filhos e demais parentes.
Por isso, antes de enxergar o processo judicial como uma disputa em que alguém precisa sair vencedor, é importante compreender a necessidade de encontrar uma solução que preserve direitos e, da melhor forma possível, reduza os impactos do conflito, especialmente quando há crianças e adolescentes envolvidos.
Há, ainda, um detalhe que poucas pessoas percebem: muitas decisões judiciais não deixam ninguém verdadeiramente satisfeito. Mesmo quem “ganha” o processo sai com a sensação de que perdeu alguma coisa, seja tempo, dinheiro, tranquilidade ou até relações familiares.
Por isso, sempre que possível, o melhor caminho é a construção de um acordo. Negociar uma solução consensual não significa abrir mão dos próprios direitos, mas entender que toda composição exige concessões mútuas. Quando cada parte cede um pouco, aumenta a chance de encontrar um ponto de equilíbrio capaz de atender aos interesses de todos e, principalmente, preservar vínculos que continuarão existindo depois do fim do processo.
Nem toda derrota pode ser evitada. Mas a forma como escolhemos enfrentá-la faz toda a diferença.
Em 2030, a Seleção Brasileira voltará a disputar uma Copa do Mundo e terá uma nova oportunidade de buscar o hexacampeonato. Já as decisões tomadas durante um divórcio, uma disputa de guarda ou um inventário podem produzir efeitos por muitos anos e, em alguns casos, repercutir por toda a vida, alcançando inclusive as próximas gerações.
Enquanto uma eliminação esportiva costuma ser superada com o tempo, alguns conflitos familiares deixam marcas que somente o diálogo, a responsabilidade e a busca por soluções equilibradas conseguem amenizar.
Rodrigo Aiache Cordeiro
Presidente da OAB/AC
Mariana Castro de Souza
Advogada especialista em Direito de Família e Sucessões


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>