O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) anunciou uma nova linha de investigação relacionada ao Caso Orelha, cão comunitário que morreu após ser encontrado debilitado na Praia Brava, em Florianópolis. Desta vez, o foco será a apuração de publicações feitas nas redes sociais que podem ter disseminado informações falsas ou sem comprovação com objetivo de gerar engajamento e monetização.
O trabalho será conduzido pelas Promotorias de Justiça com apoio do CyberGAECO, núcleo especializado em crimes cibernéticos.
Investigação busca identificar exploração do caso nas redes
Segundo o Ministério Público, a nova frente pretende avaliar conteúdos publicados durante a repercussão do caso, especialmente aqueles que teriam impulsionado acusações sem respaldo técnico ou provas concretas.
A morte do cão Orelha gerou forte comoção popular no início do ano e levou a manifestações, campanhas virtuais e acusações direcionadas a adolescentes apontados nas redes sociais como responsáveis pelas supostas agressões.
No entanto, após análise de quase dois mil arquivos digitais, o MPSC concluiu que não existem provas suficientes para vincular os investigados à morte do animal e pediu o arquivamento do caso.
Parecer aponta influência de boatos e redes sociais
O parecer elaborado por três Promotorias de Justiça possui 170 páginas e está sob análise da Vara da Infância e Juventude da Capital.
De acordo com o documento, parte da narrativa construída em torno do caso teve origem em comentários de terceiros, boatos e publicações disseminadas nas redes sociais.
As Promotorias afirmam que expressões como “ouvi dizer” e “vi nas redes sociais” apareceram repetidamente nos depoimentos reunidos durante a investigação.
Segundo o MPSC, isso contribuiu para uma “fixação precoce e equivocada de autoria”, direcionando as suspeitas para hipóteses que posteriormente não foram confirmadas pelas evidências técnicas.
Divergência em câmeras mudou linha do tempo do caso
Um dos principais elementos que levaram ao pedido de arquivamento foi a reconstituição da cronologia dos fatos.
Inicialmente, a investigação apontava que o adolescente investigado e o cão teriam permanecido juntos na praia por cerca de 40 minutos. Porém, uma nova análise identificou divergência de aproximadamente 30 minutos entre os horários registrados pelas câmeras privadas de um condomínio e o sistema público Bem-Te-Vi.
Conforme a perícia da Polícia Científica, as câmeras privadas estavam adiantadas em relação ao sistema oficial de monitoramento.
Após a correção da linha do tempo, o Ministério Público concluiu que, no momento em que o adolescente esteve próximo ao deck da praia, o cão estava cerca de 600 metros distante do local.
Laudos veterinários descartaram sinais de agressão
Outro ponto central destacado pelo MPSC envolve os laudos periciais e veterinários.
Segundo o órgão, a exumação do corpo do animal não encontrou fraturas ou lesões compatíveis com agressão física.
Os exames identificaram sinais de osteomielite na região maxilar esquerda — uma infecção óssea grave e crônica possivelmente relacionada a doenças periodontais avançadas.
O parecer aponta ainda que imagens anexadas ao processo mostravam lesões antigas e inflamações compatíveis com um quadro infeccioso prolongado.
Para o Ministério Público, o conjunto de provas indica que o cão morreu em decorrência de um quadro clínico severo e preexistente, e não por maus-tratos.
A morte da cadela Pretinha, companheira do cão Orelha, dias depois em decorrência da doença do carrapato, também foi citada como elemento que reforça o estado de vulnerabilidade sanitária dos animais.


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