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sábado, 13 de junho de 2026
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Neste janeiro branco, conheça o segredo cristão para cuidar da saúde mental

Neste janeiro branco, dedicado à saúde mental, cabe trazer um aspecto pouco visível da vida dos cristãos que os auxilia diante dos desafios cotidianos. Esse segredo está presente em diferentes tradições religiosas, assume vários nomes e formas, mas tem algo em comum: separar diariamente um tempo privado para a leitura da Bíblia e a oração.

Hora silenciosa, hora tranquila, meditação, devoção são alguns dos nomes dados a esse tempo. Eles oferecem pistas do seu significado: silêncio, tranquilidade e profundo afeto. Nisso, evangélicos como eu seguem uma instrução de Jesus:

“Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.” (Mateus 6.6)

A devoção se configura, assim, como uma conversa entre Pai e filho, íntima e sem espectadores. O filósofo Michel Henry afirma, em “Eu sou a verdade” (É Realizações), que esquecemos que nosso estatuto na vida é o de “filho”: não apenas dos pais biológicos, mas da Vida Absoluta, aquela que gera e sustém toda vida.

O psiquiatra Carlos José Hernández, pesquisador há mais de 40 anos do impacto da leitura diária da Bíblia no psiquismo, escreve que, na devoção, o eu autonômico —que governa a vida consciente— é visitado amorosamente por um poder maior, uma realidade invisível. “Em tal situação, começo a perceber que Deus me fala e que eu o escuto com os ouvidos do coração”, afirma (Leiamos a Bíblia, Grafar, p. 25).

Na leitura íntima da Bíblia ocorre uma espécie de reversão, diz Hernández. Não somos apenas nós que lemos a Bíblia; a Bíblia nos lê. As narrativas espelham nossas angústias e desejos. O diálogo sobre a água viva com a mulher samaritana desperta nossas sedes profundas (João 4). Já os ciúmes dos irmãos de José e suas intrigas confrontam sentimentos sombrios e remetem à capacidade de Deus de transformar “mal em bem” (Gênesis 50.20).

Saímos da hora devocional remexidos. “Começo a perceber que posso abrir mão dos arcaicos sistemas de castigos e recompensas que até então comandaram minha vida e prestar atenção à linguagem de infinita ternura que posso ouvir do mais profundo do meu ser, porque é a linguagem do meu Criador”, escreve Hernández (p. 25).

No dia seguinte, a devoção se repete, mas a emoção pode ser outra. Ao longo dos dias e dos anos, toda a vida comparece à hora devocional. Amor, alegria, paixão, ódio, inveja, cobiça — tudo é iluminado nesse encontro íntimo. A devoção não substitui a busca de terapia, antes, encoraja a transparência consigo mesmo que esta requer.

Esse benefício é confirmado por Wachholz e Pargament, que, ao compararem os efeitos da meditação cristã com outras práticas não espiritualizadas, identificaram maiores ganhos nessa modalidade: maior redução de estresse, aumento do bem-estar, da sensação de propósito e conexão interior.

Corpo e psiquismo são convidados, nesse encontro diário, a se desfazer dos condicionamentos que enrijeceram a vida. “Em outras palavras, provar o sabor da paz”, completa Hernández (p. 34).

Se há crentes fazendo estardalhaço e transmitindo ansiedade ao seu redor, talvez lhes falte justamente essa liturgia diária da hora tranquila, longe dos microfones. Não por acaso, foi num contexto de exibicionismo religioso que Jesus ordenou o recolhimento ao quarto. Quem lê o início de Mateus 6 percebe que a crítica não é à oração, mas à sua transformação em espetáculo.

Fonte: Folha de S. Paulo