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segunda-feira, 6 de julho de 2026
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“Ele sonhava com leões”: a história não contada do jovem morto após invadir recinto em zoológico

A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos — conhecido na região como Vaqueirinho — após invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa (PB), neste domingo (30), expôs uma trajetória marcada por abandono, sofrimento psicológico ignorado e uma obsessão que o acompanhou desde a infância: conviver com leões.

Segundo a Polícia Civil, o jovem tinha 16 registros policiais, a maioria por furtos simples e danos materiais. A delegada Josenice de Andrade Francisco afirmou que ele apresentava sinais evidentes de transtorno mental e que, dias antes da tragédia, havia sido protocolado um pedido de internação psiquiátrica. “Acredito que o pedido não chegou a ser analisado”, relatou.

“Eu quero ir pra África cuidar dos leões”

Quem acompanhou Gerson lembra de sua frase repetida com frequência — quase como um mantra. Ele dizia que um dia pisaria na África para cuidar dos leões. Policiais e profissionais da rede de proteção contam que, por vezes, era necessário explicar a ele que o continente estava do outro lado do oceano.

A obsessão chegou ao extremo: Gerson tentou entrar no trem de pouso de um avião em um aeroporto local. O episódio quase terminou em tragédia e marcou aqueles que tentavam cuidar dele.

A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou o jovem durante oito anos, se emocionou ao recordar aquele momento:

“Dei graças a Deus quando o aeroporto avisou que ele tinha cortado a cerca e entrado no trem de pouso. Foi por pouco que não morreu ali.”

Uma infância interrompida

Gerson cresceu sem estrutura familiar. A mãe, diagnosticada com esquizofrenia, não tinha condições emocionais ou materiais para cuidar dele. Ele passou parte da infância com os avós, também vulneráveis, vivendo em situação de pobreza extrema.

Foi encontrado pela primeira vez caminhando sozinho em uma rodovia e encaminhado pela Polícia Rodoviária Federal para a rede de proteção.

Apesar das tentativas de acolhimento institucional, ele nunca foi adotado — ao contrário dos irmãos. Segundo Verônica, a suspeita de transtornos mentais afastava possíveis famílias.

“A sociedade quer adotar crianças perfeitas. No acolhimento, isso simplesmente não existe.”

Mesmo afastado da família por decisão judicial, ele insistia em voltar para casa. Fugias constantes o levavam novamente à mãe — a figura que ele nunca deixou de buscar.

A invasão e a morte

De acordo com a Prefeitura de João Pessoa, Gerson escalou uma parede de seis metros, cruzou grades de contenção e usou uma árvore como apoio para entrar no espaço onde estava a leoa Leona.

O parque foi fechado imediatamente após o ataque. A Polícia Militar e o Instituto de Polícia Científica foram acionados, e o caso segue sob apuração.

E o animal?

A direção do zoológico informou que a leoa não será sacrificada. Segundo nota oficial, Leona apresentou sinais de estresse, mas está sob monitoramento técnico e não representa risco adicional.

A prefeitura reforçou que o recinto segue normas de segurança, mas instaurou investigação administrativa.