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quarta-feira, 3 de junho de 2026
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Psiquiatras contestam versão de surto por medicação alegada por Bolsonaro após danificar tornozeleira eletrônica

A justificativa apresentada pela defesa de Jair Bolsonaro sobre um suposto surto causado por medicamentos — que teria levado o ex‑presidente a tentar danificar sua tornozeleira eletrônica — vem sendo contestada por especialistas da área de psiquiatria. Para médicos consultados, os remédios citados pelo ex‑presidente não costumam provocar alterações comportamentais compatíveis com o episódio relatado.

A psiquiatra Elisa Brietzke, pesquisadora e professora titular da Queen’s University, no Canadá, afirmou que os medicamentos mencionados são amplamente utilizados e não costumam induzir comportamentos violentos ou criminosos.

“Se você toma sertralina e pregabalina, fique tranquilo: esses remédios são bastante seguros e não vão te fazer cometer nenhum crime”, escreveu em rede social.

Durante a audiência de custódia, Bolsonaro alegou que teria entrado em estado paranoico após combinar as substâncias. Segundo a investigação, ele usou um ferro de solda para tentar romper o equipamento de monitoramento — ação que provocou danos visíveis ao dispositivo.

O que dizem os médicos

Brietzke explicou que o tipo de alteração mental descrito pelo ex‑presidente se aproxima do quadro clínico chamado Delirium, caracterizado por confusão mental, perda de orientação e alterações na percepção da realidade.

Segundo ela, embora alucinações e distorções sensoriais possam ocorrer em estados desse tipo, não é comum que o paciente mantenha capacidade de planejamento organizada o suficiente para executar uma ação com várias etapas, como buscar ferramentas, instalar equipamento elétrico ou proteger a pele durante uma queimadura térmica.

“Quando há alucinações em um estado de Delirium, a pessoa em geral está tão desorganizada que não consegue planejar uma ação complexa”, afirmou.

Outra opinião consultada foi a do psiquiatra Rodrigo Fonseca Martins Leite, professor do Instituto de Psiquiatria da USP, que também considerou improvável a versão apresentada por Bolsonaro. Ele ponderou que somente uma perícia formal pode determinar a condição mental exata, mas reforçou que a combinação dos medicamentos citados dificilmente desencadearia um quadro intenso o suficiente para justificar a ação.

“Isso exige uma organização cognitiva muito grande para que o indivíduo faça essa operação. Coisa que não é compatível com um efeito de confusão mental”, afirmou.