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quarta-feira, 3 de junho de 2026
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Grande mídia usa combate às fake news para tentar recuperar credibilidade

Grande mídia usa combate às fake news para tentar recuperar credibilidade

Adisseminação da ideia de “fake news” fez surgir uma série de agentes engajados na classificação de notícias entre falsas e verdadeiras, como temos tratado nos artigos desta série Eleições & Desinformação. Depois das grandes plataformas digitais – que implementaram medidas em grande parte como reação às crescentes críticas recebidas em todo o mundo –, a mídia tradicional brasileira também se inseriu no debate público com a “missão” de combater o que chamam de “notícias falsas”.

Em um contexto em que a ideia de “notícia falsa” se tornou corriqueira, diminuindo a credibilidade das mídias digitais e tradicionais, como mostra a pesquisa Trust in News 2017, do Kantar Ibope, a imprensa nacional, depois de firmar parcerias com agências de checagem, agora entra em campo para disputar a confiança do público com a criação de serviços próprios de verificação de fatos.

Ou seja, um mesmo agente que produz notícias agora passa também a verificar notícias. O que está por trás dessa lógica?

Vejamos como essas iniciativas têm funcionado.

Um dos conglomerados de mídia pioneiros na checagem de informações foi o Grupo Estado, que lançou o blog Estadão Verifica em 1o de junho de 2018. O blog começou analisando textos, vídeos e fotos compartilhados por redes sociais e incluiu declarações de candidatos, governantes e outras pessoas públicas. As análises são publicadas no blog e disseminadas aos leitores através do Twitter, do Whatsapp e do Youtube. O Whatsapp é o canal usado também para que os leitores enviem informações que queiram ver checadas.

O projeto segue a classificação do blog “Fact Checker”, do jornal norte-americano Washington Post, em uma escala de um a quatro Pinóquios.  Um Pinóquio é dado para “declarações verdadeiras, mas ditas de forma a possibilitar dupla interpretação; podem conter algumas omissões e exageros, mas não falsidades. Dois Pinóquios são dados a “declarações com omissões significativas ou exageros; pode existir algum erro factual, mas não necessariamente intencional”. Três Pinóquios são dados a “declarações com erro factual significativo ou contradições óbvias; podem incluir dados oficiais, mas tirados de contexto de forma muito enganosa”. Quatro Pinóquios classificam as declarações como “mentiras”, definidas como “declarações que ignoram ou contrariam verdades factuais”. Já as “declarações e afirmações totalmente verdadeiras” ganham o Troféu Gepeto.

Em agosto, o grupo começou a publicar também as informações checadas pela Conexão Comprova, que reúne 24 veículos de comunicação, grande parte deles pertencentes aos maiores conglomerados de mídia do país, como o Grupo Band, o Grupo Folha, o Grupo Abril, a Fundação Roberto Marinho (Grupo Globo), o Grupo Sílvio Santos, o Grupo Record e o grupo regional RBS. A coalizão foi formada pelo First Draft, iniciativa do Centro Shorenstein da Harvard Kennedy School, e no Brasil é coordenada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em parceria com o Instituto de Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), a Associação Nacional de Jornais (ANJ), entre outros. Conta também com apoio e financiamento do Google News Initiative e do Facebook Journalism Project. Há ainda os parceiros de tecnologia, como o Whatsapp e o Twitter.

O Comprova afirma que foi formado “para combater as chamadas notícias falsas durante as eleições, desmentindo ou confirmando informações sobre candidatos que circulam nas redes sociais” e que não se propõe a checar “comunicados oficiais ou afirmações públicas de políticos ou outras autoridades”.

O projeto recebe perguntas de checagem pelo site e pelas redes sociais Facebook, Twitter e Whatsapp, seleciona as informações que serão verificadas com base em algoritmos de previsão que ajudam a identificar o potencial da notícia de se espalhar (NewsWhip, Google Trends, Crowdtangle e Tweetdeck) e em buscas manuais por palavras-chave. As informações selecionadas precisam ter seus passos de verificação aceitos por pelo menos três veículos participantes, o que eles chamam de “checagem cruzada”. As informações checadas são categorizadas em adjetivos como “falso”, “contexto errado”, “fonte não confiável”, “enganoso”, “alterado digitalmente” e “sátira”.

Um Conselho Editorial, formado por representantes sênior dos veículos, revisa as notícias para identificar “padrão enviesado não intencional”. O projeto afirma ainda que busca “tomar providências para minimizar o alcance e o impacto de mentiras comprovadas e deliberadas”. Esse processo, que já mostramos problemático em outro artigo da série, é feito em parceria com plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp, com as quais o Comprova tem acordos para impulsionar os conteúdos verificados.

O conglomerado Globo também tem seu projeto de checagem. Antes de lançar a iniciativa, o grupo fez uma campanha em rádios, TVs e jornais com o mote “Duvide”. Lançado no dia 30 de julho, o Fato ou Fake é realizado por jornalistas de oito veículos do grupo – portal G1, jornais O Globo, Extra e Valor, revista Época, rádio CBN e as redes de TV GloboNews e Rede Globo –, que possuem a tarefa de “identificar as mensagens que causam desconfiança e esclarecer o que é real e o que é falso”, disseminadas pela plataformas digitais ou pelo celular. Na mira do grupo estão também os discursos de políticos.


Olívia Bandeira é jornalista, doutora em Antropologia e integra a Coordenação Executiva do Intervozes.