
Nas curvas sinuosas do alto rio Purus, onde as águas murmuram segredos de outrora, ergue-se Pauini, uma cidade que hoje celebra 69 anos de existência. Os povos purupurus, apurinãs e jamamadis, eram, e ainda não, os originários desta terra. Mas sua história começou muito antes da oficialização como município, em 19 de março de 1956. Suas raízes se aprofundam no tempo, em um passado em que as vozes indígenas se entrelaçavam com os hinos das missões jesuíticas e com a ambição desenfreada por riquezas.
Era chamado Terruã, nome que na língua Apurinã evoca o significado de “Terras Altas”, o que representa fielmente as características geográficas do município. E, de fato, aos olhos dos desbravadores, essa terra selvagem e misteriosa parecia abrigar tanto desafios indomáveis quanto tesouros ocultos. Os primeiros registros fotográficos, datados de 1949, revelam um povoado singelo, mas já pulsante de vida e esperança. No coração dessa jornada está a Igreja Católica, que, com a construção da Paróquia de Santo Agostinho, em 1949, lançou as bases espirituais e sociais para a futura cidade.
Antes, segundo escreveu Omar Neto Pio de Almeida e Jubrael Mesquita da Silva, “o atual território de Pauini foi tendo posse pelos primeiros proprietários por meio de ações ilícitas do Estado que provocaram uma desordem no território, levando a conflitos pelo poder da posse de terras. Em 1889, os filhos de Manoel Ricardo da Silva adquiriram por “Título Definitivo” 5.998.538 km² das terras em Terruã. Em 1923, Virgílio de Souza Pinheiro e sua esposa Julieta da Silva Pinheiro, herdeiros de Manoel Ricardo da Silva, venderam a parte que lhes cabia ao português José Corrêa Rodrigues, a senhora Maria Glória Gomes herdeira de José Corrêa após o falecimento do esposo. Em março de 1949, dona Maria Glória Gomes vendeu parte de suas ao Prelado de Lábrea”.
Das Missões à Borracha: O Ciclo que Moldou um Povo
O rio Pauini, principal afluente do Purus, não apenas batizou o município, mas também esculpiu sua história. Durante o ciclo da borracha, a região floresceu como um mosaico de sonhos migrantes. Homens e mulheres, vindos principalmente do Nordeste, atravessaram distâncias imensas para se embrenhar nos seringais. Seringais como o Sacado do Humaitá e a Vila Calmon se tornaram palcos de suor e esperança, onde o látex escorria como promessa de dias melhores.
A luta pela terra e identidade
Em meio à cobiça, as terras de Terruã foram alvo de disputas. Em 1889, os filhos de Manoel Ricardo da Silva adquiriram, por “Título Definitivo”, uma área imensa. Mais tarde, em 1949, parte dessas terras foi vendida à Prelazia de Lábrea (como citado anteriormente) marcando o início de uma nova fase. Foi nesse cenário que os Padres Agostinianos ergueram a capela que viria a se tornar a Paróquia de Santo Agostinho, sob a liderança de frei Luís Montes de São José.
A mobilização popular e a influência da Igreja intensificaram o desejo de emancipar o povoado do domínio de Lábrea. E foi em 1955, através da Lei Estadual nº 96, sancionada pelo governador Plínio Ramos Coelho, que o sonho se concretizou: Terruã tornou-se Pauini, um município autônomo. A instalação oficial aconteceu no ano seguinte, em uma solenidade pública, com a posse do primeiro prefeito, Francisco das Chagas Evangelista.
Pauini Hoje: entre o passado e o futuro
Hoje, enquanto as águas do Purus seguem seu curso, Pauini permanece como um testemunho vivo de resistência e esperança. A cidade que nasceu do encontro entre a fé e a ambição econômica, das missões jesuíticas à febre da borracha, celebra 69 anos de histórias entrelaçadas com a densa floresta e os rios que lhe dão sustento.
No coração de seus habitantes, pulsa a memória dos que vieram antes: os Apurinãs, os seringueiros, os missionários e os pioneiros. Cada rua, cada casa, cada canto da cidade guarda fragmentos desse passado. E enquanto o futuro se desdobra diante de seus olhos, Pauini segue, como o rio que lhe dá nome, fluindo firme, indomável e cheio de esperança por novos horizontes.


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