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terça-feira, 23 de junho de 2026
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A Argentina merece atenção

A Argentina merece atenção

Os obstáculos ao crescimento da economia mundial continuam vigentes. Deste lado do Oceano Atlântico o presidente Trump com sua tresloucada forma de revisar os acordos firmados. Do outro lado, na Europa, são os políticos separatistas e governos que estimulam a economia sem garantir sólidos alicerces. Na semana retrasada a Turquia viveu momentos de ataques cambiais contra a lira turca em face dos déficits em conta corrente e fiscal gerados pela política econômica do presidente Erdogan.

Na mesma semana da turbulência turca, o Banco Central argentino elevou a taxa de juros de 40% para 45%. E na semana passada os especuladores internacionais apontaram as metralhadoras cambiais na direção dos “hermanos”, obrigando o Banco Central a elevar novamente sua taxa de juros para 60%. Hoje, a Argentina paga a maior taxa de juros do mundo e não consegue conter a sangria das reservas internacionais em US$51 bilhões de dólares.

A cotação do peso argentino (ARS) frente ao dólar na última quinta-feira (30) chegou a $39,78, terminando o mês de agosto em $36,80. O Banco Central argentino ofereceu uma média de US$500 milhões de dólares/dia para tentar acalmar o mercado financeiro. Sem sucesso, a Casa Rosada jogou a tolha e pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) a liberação antecipada do empréstimo de US$50 bilhões de dólares, além de trocar parte da equipe econômica. As medidas adotadas pelo presidente Macri não surtiram o efeito pretendido e a desconfiança do mercado financeiro e dos argentinos na capacidade do presidente de resolver a crise vai continuar na próxima semana.

Com o novo aumento dos juros os economistas preveem retração no consumo das famílias e das empresas, interrupção dos investimentos privados e ausência de tomadores dos empréstimos bancários, estancando a economia e aumentando o desemprego. Algumas casas bancárias já falam em retração de 2% no PIB deste ano, 0% em 2019 e inflação de 45% em 2018. A Standard & Poor’s colocou a nota argentina em CreditWatch para rebaixamento devido a piora da capacidade do país de honrar seus compromissos internacionais. O peso argentino perdeu referência com a depreciação atingida na semana passada, sendo que somente na última sexta-feira foi de -3,06%.

O jornal Valor afirma que “A ponta final dessa operação está em colapso por causa da queda livre da moeda argentina — o peso perdeu metade do valor neste ano e cerca de 20% só nesta semana. O câmbio ameaça disseminar o caos por toda a economia argentina, que movimenta US$ 640 bilhões, interrompendo cadeias de fornecimento e deixando as famílias no aperto. A situação também piora a perspectiva de reeleição do presidente Mauricio Macri, no ano que vem. Embora seja o presidente argentino mais favorável ao mercado em mais de uma década, ele não consegue restaurar a confiança dos investidores. (…) A resposta do governo à queda do peso também pode colaborar para esfriar ainda mais a economia. O plano de Macri antes da crise era reduzir gradualmente o déficit público de 6,5% do PIB no ano passado para 3,8% em 2019. Agora a expectativa é que os cortes sejam mais drásticos. O ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, disse a jornalistas na noite de quinta-feira que o governo divulgará na próxima segunda-feira uma meta ‘substancialmente menor’ para o déficit em 2019, abaixo de 1,3% do PIB. Ele então irá a Washington para conversar com a diretora gerente do FMI, Christine Lagarde.”

O mercado observa a Argentina com lupa e a maior preocupação é se “terá condições de honrar suas obrigações financeiras nos próximos anos, enquanto atravessa uma inflação desenfreada e uma recessão que se avizinha antes das eleições presidenciais de 2019. A Oxford Economics estima que a necessidade total de financiamento para o resto de 2018 e 2019 é de US$77 bilhões – uma quantia que já seria complicado em situações mais favoráveis. Como quase 80% da dívida soberana argentina é em dólares, quando o peso se desvaloriza torna seu pagamento ainda mais penoso. A queda do peso de dois dígitos porcentuais na quinta-feira, que se somou à de 7 % na quarta, aumentou consideravelmente o fardo da dívida argentina. No ritmo atual, a dívida poderia chegar a 90% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Como resultado, o custo das operações de seguro contra calotes da dívida argentina decolou e, agora, indica que os investidores consideram o país como o segundo captador soberano de maior risco do mundo, depois da Venezuela – que já está inadimplente. (…) O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) planeja elevar as taxas referenciais de juros em mais duas ocasiões neste ano, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) vai encerrar seu programa de afrouxamento monetário quantitativo no fim de 2018. As mazelas da Turquia e Argentina poderiam indicar que o processo de abandono dos estímulos monetários pós-crise à economia mundial vai ser mais desafiador do que muitos previam.” (jornal Valor)

Como a artilharia continua apontada para Turquia e Argentina, o Brasil sentiu um pequeno gosto de como poderá ficar em 2019 com o real chegando a R$4,2150 (30/08/18). Sem as reformas no primeiro semestre (Previdência e Tributária) e mesmo possuindo mais de US$380 bilhões de dólares em reservas internacionais, somos um alvo fácil de ser abatido se comparado com a China que gastou no ano passado US$1 trilhão de dólares para conter o ataque especulativo ao renminbi. Não haverá no próximo ano espaço de manobra ou solução utópica para conter o déficit fiscal e somente as reformas poderão equacionar a conta a fim de evitar o mesmo destino especulativo da Turquia e da Argentina. Um real muito desvalorizado deságua no aumento da inflação e do custo de vida, dissabores que os brasileiros devem evitar.


Marco Antonio Mourão de Oliveira, 42, é advogado, especialista em Direito Tributário pela Universidade de Uberaba-MG e Finanças pela Fundação Dom Cabral-MG.