A Turquia de Erdogan parece caminhar para o mesmo destino da Venezuela, o caos. São países que no papel a democracia reina com eleições, direitos civis e sociais, mas a realidade é outra totalmente diferente. A Venezuela começou com Chaves e sua reforma social que perdurou até seu falecimento. No seu lugar entrou Maduro, um presidente que segura o poder corrompendo as Forças Armadas. Dezenas de militares ocupam postos chaves no poder venezuelano e em troca Maduro vai ficando contra a vontade do povo.
Erdogan garantiu sua reeleição com a concessão de crédito barato ao povo turco, o que desregrou a economia e fez crescer os déficits em conta corrente e fiscal. O mercado precifica o déficit em conta corrente em 6% do PIB e o fiscal em mais de 51% do PIB. A lira (moeda turca) já perdeu mais de 40% de valor em relação ao dólar neste ano e a tendência é de continuar a desvalorização em face do embate com o governo de Trump. Outra questão que levanta preocupação é a dívida das empresas e instituições financeiras turcas em US$142 bilhões de dólares com vencimento nos próximos 12 meses para uma reserva internacional de US$100 bilhões de reais.
Os europeus são detentores de grande parte dos créditos da dívida por meio do sistema financeiro e um colapso da lira criará distorções nos bancos do velho continente. Monica De Bolle, economista e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, professora da Sais/Johns Hopkins University, afirma que como “Boa parte dos credores do país são bancos europeus, o que traz à tona o grande drama da crise atual: caso a Turquia não pague o que deve nos próximos meses sofrerá o setor bancário europeu, ainda frágil. Como se tal drama não bastasse, há ainda o forte componente geopolítico da crise turca. Há poucos dias deflagrou-se intensa crise entre Ancara e Washington após a detenção de um pastor evangélico da Carolina do Sul pelo governo turco e a imposição de sanções econômicas pelo governo Trump. Mais do que uma perturbação adicional para os investidores já assustados com a situação econômica da Turquia, o embate entre Trump e Erdogan tem boa chance de elevar as tensões entre os EUA e a União Europeia – afinal, a guerra comercial dos dois lados do Atlântico ainda não cessou, tampouco parece próxima do fim. No caso específico da Turquia e ante a exposição do sistema financeiro europeu, tudo o que a Europa não quer é um agravamento da situação econômica do país. Isso, entretanto, é exatamente o que o governo norte-americano está a fazer ao impor as sanções, sem que seja necessário entrar no mérito da questão. Para complicar ainda mais o enredo, com a Turquia sob sanções poucas são as chances de que receba ajuda financeira do FMI caso queira recorrer à instituição como fez a Argentina recentemente. Afinal, para tanto precisaria o governo turco do aval do governo Trump – e os EUA detém poder de veto na estrutura de governança do FMI. Diante do acima exposto, é possível afirmar algumas coisas sobre a crise turca. Primeiramente, ao contrário da crise argentina, ela é sistêmica – isto é, os problemas turcos não são apenas turcos, mas têm o potencial de atingir bancos europeus. Essa característica da crise turca a torna mais perigosa e aumenta o potencial de que cause turbulências severas e prolongadas nos ativos de outros mercados emergentes, como estamos a ver acontecer no Brasil. Em segundo lugar, a crise turca pode aumentar muito as dúvidas sobre a estabilidade econômica mundial na medida em que se mostre capaz de gerar mais estridências nas relações entre os EUA e a União Europeia. Tais dúvidas elevam o grau de aversão ao risco dos investidores, ou seja, amplificam os temores em relação ao valor dos ativos de países emergentes. Por fim, ao contrário do que demonstrou o governo argentino, Erdogan não parece ter a menor intenção de tomar as medidas necessárias para conter a crise que assola seu país. Em declarações recentes, negou a necessidade de elevar as taxas de juros – em tempo, o ministro da Fazenda é seu genro – e disse que ‘a lira está sendo atacada por agentes externos’ e que há uma ‘guerra econômica contra Ancara’. O máximo que o presidente permitiu que se fizesse foi um relaxamento dos depósitos compulsórios dos bancos para aumentar a liquidez em circulação, o que quase não pode ser chamado de medida paliativa.”
Com Erdogan na condução das políticas monetária e fiscal, sem um Banco Central independente e dois presidentes que gostam da briga e do ego, fica difícil uma resolução rápida da crise. A taxa de juros está em 17,75% ao ano, inflação em 15,85% e o desemprego em 9,70%, manter o ego não será um bom caminho para Erdogan. Como Maduro, o presidente turco possui as Forças Armadas na mão e pode manter seu poder sem sobressalto, já que a depreciação da lira não chegou totalmente ao mercado local. A desvalorização da lira que chegou a R$7,02 no último dia 13, terminou a semana em R$5,85, dando certo alívio quando comparado com o valor de R$4,93 em 31 de julho passado.
O medo do contágio nos demais países emergentes obrigou a Argentina a aumentar os juros de 40% para 45% ao ano na semana passada e o peso argentino chegou a $31,14 por dólar no último dia 13. No mesmo dia o real chegou a R$3,91 por dólar, mantendo-se a taxa Selic no mesmo patamar. O Brasil não sente o problema da Turquia por possuir mais de US$380 bilhões de dólares em reservas internacionais, todavia, o lado fiscal, como sabemos, enfrenta dificuldades e a responsabilidade de equalizar a questão ficará com o futuro governo em 2019. Para Erdogan fica a pintura atual da Venezuela com 82.766,00% de inflação, o dólar valendo $248.550,00 bolívares (16/08/2018) e um PIB de (-13,20%). A Turquia será a próxima Venezuela?
Marco Antonio Mourão de Oliveira, 42, é advogado, especialista em Direito Tributário pela Universidade de Uberaba-MG e Finanças pela Fundação Dom Cabral-MG.


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>