
Sustentado sob o tripé da pecuária, desmatamento e grilagem de terras, o município de Lábrea, no Sul do Amazonas, que faz divisa com Boca do Acre, obteve o indesejado título de o maior desmatador do Brasil, ultrapassando o município paraense de Altamira. As informações são do projeto Mapbiomas.
No entanto, o sociólogo Marcelo Horta, morador de Lábrea e pesquisador em gestão territorial, disse que Lábrea leva a fama injusta, por não partir dos moradores do município, a atitude de desmatar e queimar a floresta amazônica, além de praticar a grilagem de terras. De acordo com o sociólogo, existem três fatores determinantes para Lábrea ter esse destaque negativo, e um deles é justamente Boca do Acre, através da invasão recorrente de terras por pessoas vindas de Rondônia, que adquirem de forma legal e ilegal terras principalmente no Projeto de Assentamento Montes e exploram de forma desmedida.
Especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato afirmam que esse novo epicentro de devastação é resultado de grilagem de terras e ausência de fiscalização, aliados ao incentivo desenfreado à pecuária e à extração de madeira.
Localizada no Amacro, Lábrea (AM) é uma cidade pacata, com 47 mil habitantes, que fica no final da BR-230, construída na época da ditadura. O município tem o tamanho de 45 cidades de São Paulo, englobando 12 Terras Indígenas, duas Reservas Extrativistas, duas Florestas Nacionais e um Parque Nacional.
O epicentro da devastação ambiental de Lábrea está a cerca de 300 km em linha reta distante da área urbana do município. O sociólogo aponta que a região chamada de Ponta do Abunã e o município de Boca do Acre são os maiores responsáveis por colocar a cidade no topo do ranking do desmatamento do país. Lá estão concentrados os pecuaristas e grileiros que vieram de Rondônia em busca de novas terras para explorar.
“A pressão dos pecuaristas de Boca do Acre fez com que o zoneamento ecológico-econômico da região fosse permissivo com atividades de grande impacto ambiental. Inclusive com redução da reserva legal [porção de propriedades rurais que não pode ser desmatada], que no bioma Amazônia é de 80%, mas nessa área ficou em 50%”.
“As pessoas que estão lá se aproveitam da situação de ausência de Estado. Eles enfrentam o Estado. Há casos de a fiscalização ser recebida com animosidade. Mas é uma questão política de se querer fazer presente o Estado. Todo mundo sabe que tanto o estado do Amazonas, quanto o governo federal e Exército podem ser acionados para resolver”, diz Marcelo Horta.
As imagens de satélite no vídeo acima, produzido pelo Google, evidenciam como a pecuária e a atividade madeireira avançaram sobre a região do Amacro nos últimos 40 anos. O desmatamento ilegal ocorre em terras públicas da União, áreas que ainda não têm uma função definida por lei e, na avaliação do coordenador do Mapbiomas, precisam ser regulamentadas.
Ibama será duro contra queimadas, diz presidente do órgão ambiental
O Ibama garante estar preparado para enfrentar a estação seca na Amazônia, que começou em maio. Neste ano, o órgão ambiental endureceu a fiscalização na região de Lábrea. O Ibama aplicou 47 milhões de reais em multas, embargou mais de 7 mil hectares de áreas com crimes ambientais e apreendeu mais de mil cabeças de gado, além de madeira ilegal.
“O risco de a gente ter no segundo semestre grandes incêndios florestais é real. Perdemos um milhão de hectares anualmente nos últimos quatro anos na Amazônia. Tem um estoque muito grande de florestas que foram derrubadas. A gente tem também o agravamento das mudanças climáticas e a vinda do efeito El Niño, que começa com muita força nas águas do Pacífico e vai aumentar o problema da seca na Amazônia. Por isso o Ibama está trabalhando”, diz o presidente do órgão ambiental, Rodrigo Agostinho.
“Nas áreas que tiverem queimadas ilegais, as pessoas serão autuadas e as áreas serão embargadas. Ou seja, se a pessoa usar o fogo para aumentar a área de utilização das propriedades, essa área ficará impossibilitada de ser utilizada. E a pessoa perderá a possibilidade de crédito agrícola. Então o Ibama será muito duro no sentido de agir para combater tanto o desmatamento”, diz.


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