Veja o que aconteceu antes, durante e depois da prova

Somente no estado do Acre, mais de 25 mil inscritos na prova escrita, e 1.200 na modalidade digital, destes, cerca de 17 mil confirmaram a inscrição no formato presencial e 768 no remoto.

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) teve seu primeiro dia de provas no último domingo, 21, com 90 questões que abordaram linguagens, códigos e suas tecnologias, ciências humanas e suas tecnologias, como também uma redação destinada a avaliar os conhecimentos dos interessados em ingressar nos cursos de ensino superior no ano que vem.

Somente no estado do Acre, mais de 25 mil inscritos na prova escrita, e 1.200 na modalidade digital, destes, cerca de 17 mil confirmaram a inscrição no formato presencial e 768 no remoto. Entretanto, o número de faltosos continua elevado, nada comparado a 2020 que chegou a 51%, mas ainda assim as abstenções aconteceram em peso. Em 2021, a ausência foi de 27,5% para o formato tradicional, enquanto o virtual teve maior evasão, com 43,5%, o que se aproxima de 5.200 faltosos, o que representa cerca de 28% dos inscritos.

Quem não pôde comparecer por conta dos sintomas de doenças infectocontagiosas, tem direito a reaplicação do exame, que pode ser solicitado na página do participante na web entre 29 de novembro e 3 de dezembro. É necessário que se anexe documentos que comprovem o estado de saúde. A reaplicação será realizada nos dias 9 e 16 de janeiro do próximo ano, mesma data em que pessoas privadas de liberdade e as que receberam isenção na última prova, mas não puderam comparecer, irão participar do processo seletivo.

Polêmicas

A edição deste ano foi cercada de polêmicas, a principal delas é referente ao pedido de demissão de 37 funcionários do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), com a justificativa de que haveria “fragilidade técnica e administrativa da atual gestão máxima” do órgão, além de revelarem que haveria pressão psicológica interna, para que as questões elaboradas não incomodaram o governo, fazendo assim uma insinuação de que haveria interferência do governo federal na elaboração das provas.

O presidente da república, Jair Bolsonaro, comentou sobre o assunto, em conversa com os seus apoiadores, em frente ao Palácio da Alvorada. “Estão acusando aí o ministro Milton, da educação, de ter interferido na elaboração das provas. Olha, se ele tivesse essa capacidade e eu, não teria nenhuma questão de ideologia neste Enem agora, que teve ainda”, disse ele.

Além disso, relembrou a questão do exame aplicado em 2018, referente ao dialeto pajubá. “Você é obrigado a aproveitar banco de dados de anos anteriores, você é obrigado a aproveitar isso aí. Agora, dá para mudar? Já está mudando. Vocês não viram mais a linguagem de tal tipo de gente, com tal perfil. Não existe isso aí”, continuou Jair.

Mas então, interferiu ou não?

Apesar das alegações de Bolsonaro, desde 2019 existe uma comissão ideológica dentro do Inep, que avalia as questões após serem aprovadas, a fim de saber se elas têm ou não a “isenção”, buscada pelo presidente. Algumas questões foram excluídas das provas, mesmo estando aprovadas pela equipe técnica, entre as que mais chamaram atenção, uma continha tirinha da Mafalda, conhecida por ter um humor ácido e muitas críticas sociais em seus textos. Outro que foi rejeitado é Chico Buarque, que teria uma de suas músicas usada como texto para análise. Um poema de Paulo Leminski sobre a ditadura militar também foi deixado de lado, assim como Laerte Coutinho, cartunista, Ferreira Gullar, escritor, e a rainha do pop, Madonna, também foram escanteados.

Apesar disso, algumas causas sociais e críticas ao período da ditadura ainda apareceram. A música “Admirável Gado Novo” do Zé Ramalho apareceu em uma das questões, a canção fala sobre comportamentos de massa e a vida do “gado”, lançada em 79, ainda na época ditatorial. Outros pontos abordados são o machismo na erotização de corpos femininos, racismo, leitura crítica de notícias e fake news (apesar de evitar usar o termo propriamente dito), questões sobre a literatura clássica brasileira também se fizeram presentes.

Os dois lados da moeda

Dentre os diversos inscritos, alguns conseguem realizar a prova e ter o desempenho desejado, enquanto outros, muitas vezes nem tem a oportunidade de tentar.

Ynara Magalhães com certeza faz parte do primeiro grupo, ela já é estudante da UFAC, no curso de Física, mas busca conseguir uma bolsa de estudos em uma instituição de ensino superior particular, e acredita que o seu desempenho foi o suficiente para atingir o objetivo.

Segundo ela, a prova não foi tão difícil quanto esperava, “Nesse dia de linguagens e humanas, acredito que grande parte das questões dava para responder certo somente com uma boa interpretação de texto. Os conteúdos mais específicos não estavam tão difíceis, tanto que reconheci a maioria deles, apesar de não lembrar com perfeição da resposta.”, comentou.

Também ressaltou a importância do tempo durante a prova. “Acho que humanas e linguagens deveriam ser separadas em dias distintos por exemplo, pois a leitura se torna muito cansativa e acaba virando um teste de resistência e não de conhecimento.”, salienta Ynara.

Quando questionada sobre o tema da redação, que foi “invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”, confessou ter dificuldades para desenvolver o texto sobre a temática proposta. “Não conhecia o tema, achei bem difícil de desenvolver, mas com certeza é um tema pertinente. Após sair da prova fiz algumas pesquisas e percebi a importância desse assunto ser debatido criticamente.”, afirma ela.

Por fim, quando perguntada sobre a grande evasão de inscritos, se mostrou muito consciente da situação atual do país. “Acredito que, durante o período de inscrições, a realidade da pandemia era diferente no país. Isso deve ter deixado muitos inseguros na hora de se inscrever. Além disso, muitas escolas (públicas principalmente) não conseguiram acompanhar o ensino a distância, devido a situação econômica da maioria das pessoas no país. Isso é uma pena porque acabam sendo deixados para trás (…) Em um mercado concorrido, não temos tempo a perder.”, finaliza Ynara.

No caminho oposto da aluna de Física, temos histórias como a de Taís Mortari, que não pôde comparecer à prova, pois sua filha estava com problemas de saúde e se encontrava internada, o caso da mãe acreana é parecido com o da estudante recifense que chegou um minuto atrasada e não conseguiu entrar, pois estava amamentando seu filho de apenas cinco meses.

Taís conta que a filha, Ana, estava internada e não tinha ninguém que pudesse fazer companhia para a criança. A internação chegou a durar 24 dias, e a expectativa é que receba alta apenas na segunda-feira, 22, um dia após a prova.

Mortari também conta que ficou muito frustrada com a situação, pois se preparou durante pelo menos oito meses para o exame, e não teve nem a chance de realizá-lo. Por fim, ela comenta que irá tentar novamente prestar o ENEM no ano seguinte.