O tratamento brasileiro que eliminou o HIV de um paciente

Um trabalho realizado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) conseguiu eliminar por completo o vírus HIV de um paciente. O voluntário, cuja identidade não foi revelada publicamente, mostrou o resultado de seus exames para a CNN Brasil. Eles mostram que não há cargas virais em seu corpo há pelo menos 17 meses.

Atualmente, há apenas dois casos de eliminação do HIV reconhecidos pela comunidade científica. A próxima fase do estudo brasileiro está suspensa em razão da pandemia do novo coronavírus. Mais testes serão realizados antes do envio da pesquisa para a validação científica e médica antes do tratamento ser aplicado em larga escala.

Como foi feito o tratamento. E os próximos passos


O estudo teve início em 2013, liderado pelo infectologista Ricardo Sobhie Diaz, pós-doutor especializado na diversidade genética do HIV. A pesquisa contou com 30 voluntários, todos homens, que possuíam carga viral baixa – o que significa que não podiam transmitir o vírus, mesmo convivendo com ele.

“A gente intensificou o tratamento. Usamos três substâncias no estudo, além de criar uma vacina”, disse Diaz à CNN Brasil. A administração dos remédios envolve uma combinação em maior dose de medicamentos que já são usados por pacientes infectados pelo HIV.

Já a vacina experimental foi produzida a partir do DNA dos próprios pacientes, combinando células de defesa e moléculas presentes no vírus de cada um deles.

Os outros pacientes envolvidos nos testes tiveram resultados positivos, mas não no mesmo nível que o paciente que conseguiu eliminar o vírus. Por isso, o infectologista acredita que ainda é cedo para se falar em cura, já que não há garantias de que o HIV não vai voltar a se manifestar.

“Caso o tempo nos mostre que o vírus não voltou, aí sim, poderemos falar em cura”- Ricardo Sobhie Diaz, infectologista, em entrevista ao jornal Correio Braziliense.

O estudo da Unifesp está paralisado em razão da pandemia do novo coronavírus. Quando os trabalhos retornarem, a fase seguinte da pesquisa vai realizar o tratamento com 60 pacientes, incluindo mulheres.

O processo ainda é longo. Será necessário avaliar os resultados dos outros pacientes da primeira fase, escolher os voluntários da segunda fase, administrar as substâncias, aguardar resultados, validá-los e posteriormente levá-los para a análise de autoridades médicas.

Não há uma previsão para a aplicação em larga escala do tratamento caso ele se prove um sucesso.

Os outros dois casos de pacientes recuperados


Só há outros dois casos registrados e já aceitos pela comunidade científica de pacientes que se recuperaram do HIV.

O primeiro deles foi o americano Timothy Ray Brown, que passou por um tratamento em Berlim no ano de 2007. O segundo foi o venezuelano Adam Castillejo, que passou por um tratamento em Londres em 2019.

Em ambos os casos, os pacientes foram tratar outras doenças – uma leucemia e um câncer no sistema linfático, respectivamente.

Os dois passaram por transplantes de medula óssea e, devido a uma mutação rara em uma proteína presentes nas células, viram-se livres do HIV, que não conseguia mais se reproduzir. Quando os resultados foram divulgados, os pacientes já estavam saudáveis há meses.

A comunidade científica não se refere aos casos de Brown e Castillejo como “cura”. O termo usado é “remissão a longo prazo”, já que não se sabe exatamente se em algum momento o HIV pode voltar a aparecer.

O HIV no mundo


O HIV foi notado pela primeira vez em 1981, espalhando-se rapidamente pelo mundo nas décadas de 1980 e 1990. Ainda em 2020 a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera a aids, doença causada pelo vírus, como uma epidemia em curso.

Os dados mais recentes sobre o HIV no mundo são de 2018. Naquele ano, 37,9 milhões de pessoas estavam convivendo com o vírus. No mesmo ano, cerca de 770 mil mortes foram registradas em decorrência da aids, que ataca o sistema imunológico do paciente.

O Unaids, programa da Organização das Nações Unidas para o combate à aids, tem como meta acabar com a epidemia até 2030. Para isso, eles trabalham com uma meta intitulada 95-95-95.

O objetivo prevê que 95% dos infectados devem ter ciência de que possuem o vírus; destas, 95% devem estar recebendo tratamento e, destas, 95% devem apresentar bons resultados.

nexojornal