Rússia eleva pressão militar para retomar negociação com a Ucrânia

Após um impasse que já dura quase uma semana acerca das negociações para um cessar-fogo na guerra da Ucrânia, a Rússia aumentou sua pressão militar com ataques a Kiev e reforçando sua posição em torno de cidades cercadas antes de mais uma rodada de negociações.

Bombeiro descansa após trabalhar contra incêndio em um prédio de Kiev
Bombeiro descansa após trabalhar contra incêndio em um prédio de Kiev – Aris Messinis/AFP

Elas estão, nas palavras de um assessor do presidente Volodimir Zelenski, Oleski Arestovitch, “numa encruzilhada”. “Ou nos acertamos nas conversas atuais, ou os russos farão uma segunda tentativa [de tomada de Kiev e submissão do país] e aí teremos conversas novamente”, afirmou.

A reunião virtual entre os grupos que discutem os termos para o fim do conflito ocorre nesta terça (15), após uma “pausa técnica” anunciada pelos ucranianos na segunda. Antes das conversas desta semana, houve três rodadas presenciais ocorridas na Belarus e um anticlimático encontro dos chanceleres dos países na Turquia na quinta (10).

Ainda com a iniciativa militar apesar dos problemas de sua invasão, os russos mantêm a fleugma. “O trabalho é difícil e, na situação, o fato de eles continuarem é provavelmente positivo. Nós não queremos fazer previsões, nós esperamos resultados”, disse o porta-voz de Vladimir Putin, Dmitri Peskov.

Na madrugada e manhã desta terça, a violência continuou. Kiev sofreu ataques em áreas residenciais e decidiu por um toque de recolher a partir desta noite, por 36 horas, em antecipação ao eventual fracasso das conversas e início de uma nova ofensiva russa.

As forças de Putin cercam a cidade pelo nordeste e o noroeste, mas não a fecharam completamente —são necessários mais soldados e equipamento para tanto. Segundo o Observatório Sírio para Direitos Humanos, que acompanha a guerra civil na ditadura árabe apoiada por Moscou, 40 mil voluntários já se inscreveram para lutar na Ucrânia.

Os ataques ocorreram horas antes da chegada dos premiês da Polônia, República Tcheca e Eslovênia, uma demonstração inédita até aqui de apoio a Zelenski por países do Leste Europeu especialmente refratários aos russos.

A demora nas negociações é previsível. O Kremlin quer a desmilitarização do vizinho, sua renúncia à adesão à Otan (aliança militar ocidental) e à União Europeia e o reconhecimento das áreas que perdeu para a Rússia (Crimeia) e para separatistas (Donbass) em 2014. Kiev sugere topar algo intermediário, mas exige a retirada imediata de forças russas, o que tiraria a pressão exercida por Putin.

Enquanto isso, a guerra toma um curso mais perigoso desde o domingo (13), quando a Rússia atacou uma base de treinamento e ligação entre forças ucranianas e da Otan. Na segunda, o presidente americano, Joe Biden, voltou a dizer que não quer um confronto com Moscou, pois ele seria “a Terceira Guerra Mundial” entre potências nucleares.

Há problemas adicionais para Zelenski. No sul do país, onde a ofensiva russa atingiu mais ganhos, há relatos de que Moscou quer promover um plebiscito na região de Kherson, buscando transformá-la em mais uma “república popular”, a exemplo das duas do Donbass (leste do país).

Com isso, o roteiro de reconhecimento por Putin estaria dado, incluindo mais um item no carrinho de perdas de Kiev. Para a Rússia, que aplica um cerco brutal ao porto de Mariupol, tudo o que separa a criação de uma ponte terrestre entre a região russa de Rostov à Crimeia anexada, o desenho parece lógico.

Resta, claro, combinar com os moradores, o que não será aferido numa votação feita sob mira de armas —em 2014, a anexação da Crimeia passou por tal plebiscito e foi pacífica, ainda que ilegal segundo as Nações Unidas, pois a região tinha maioria esmagadora de russos e pertencia ao Moscou até 1954.

Os protestos diários em Kherson, com habitantes demonstrando coragem ante os militares da Guarda Nacional, a tropa pretoriana do Kremlin, provam que será um trabalho complicado. É mais um nó para os russos, que enfrentam problemas táticos e a resistência não antevista dos militares ucranianos.

Já no Donbass, cujas forças buscam expandir sua fronteira até aquela historicamente associada à região, o dia por ora está mais calmo. Na segunda, um míssil balístico lançado pelo sistema OTR-21 Totchka atingiu o centro de Donetsk, capital da autoproclamada república do mesmo nome, matando mais de 20 pessoas.

Peskov queixou-se do Ocidente, dizendo que ninguém criticou a Ucrânia pelo ataque. Kiev nega a autoria, dizendo que os russos atiraram contra seus aliados, uma acusação comum no Kremlin contra o que chama de “terroristas nacionalistas e neonazistas” infiltrados nas Forças Armadas do vizinho.

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Putin compara sanções a escalada; Otan descarta zona de exclusão aérea

Presidente pede que vizinhos não aumentem restrições e promete cumprir obrigações comerciais

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, pela primeira vez associou as duras sanções econômicas e políticas a que seu país tem sido submetido desde que invadiu a Ucrânia a uma “escalada da situação”.

Durante reunião ministerial que foi parcialmente televisada, o líder disse: “Não temos más intenções acerca dos nossos vizinhos. Eu gostaria também de aconselhá-los a não escalar a situação, a não introduzir nenhuma restrição. Nós vamos cumprir nossas obrigações e vamos continuar a cumpri-las”.

Ucraniano vestido com jaqueta militar retira pertences da casa em chamas em Irpin, perto de Kiev
Ucraniano vestido com jaqueta militar retira pertences da casa em chamas em Irpin, perto de Kiev – Aris Messinis/AFP

Ele se referia provavelmente ao fornecimento de gás e petróleo a países europeus, uma preocupação econômica mundial, já que 40% do que o continente consome do primeiro produto é russo, e cerca de um terço no caso do segundo.

A questão é que diversos países já estão cortando seus negócios futuros com hidrocarbonetos de Moscou devido à guerra, como Suécia e Finlândia, que não vão mais refinar óleo russo. As condições de compra e transporte estão em caos, devido às ameaças dos EUA de vetar negócios do tipo com a Rússia.

Putin foi cuidadoso em não fazer uma ameaça militar, mas esse é um perigoso corolário do isolamento a que ele está sendo submetido. “Todas nossas ações, se elas surgirem, sempre serão em resposta a ações não amigáveis contra a Rússia”, disse.

Até aqui, o líder falava por meio do porta-voz, Dmitri Peskov, que buscava criticar as sanções ocidentais e dizer que o país se viraria mesmo com elas. Mas ninguém antecipava que as ações incluiriam atacar as reservas internacionais geridas pelo Banco Central russo, em US$ 640 milhões as quartas no mundo.

Isso está tornando a defesa do rublo quase impossível, noves fora a pressão específica sobre membros da elite que mantém uma relação de mutualismo com a presença de Putin no Kremlin, e a vida real nas ruas moscovitas. Não se usa mais meios eletrônicos de pagamento com facilidade, cartões serão limitados e o país está cancelado politicamente.

A novidade aqui é a associação que Putin faz. O temor crescente de que o conflito na Ucrânia transborde as fronteiras e envolva a Otan, aliança militar ocidental, colocou o tema de uma Terceira Guerra Mundial de volta à ordem do dia.

Só que há consenso, até aqui, que isso só envolve a dimensão militar. Assim, há risco de incidentes no fornecimento de armas que a Europa está promovendo pela fronteira polonesa a Kiev, mas em nenhum momento há a previsão de uso direto de forças da Otan na guerra.

Até para sublinhar isso, Putin tem balançado seu arsenal nuclear, o maior do mundo ao lado do dos EUA, como lembrança do risco que todos correm. No domingo (27), colocou em alerta de combate suas forças estratégicas, gerando protestos no Ocidente.

Buscando reforçar sua posição, a Otan também nesta sexta discutiu e rejeitou formalmente o pedido da Ucrânia de buscar estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre o país invadido. Fazer isso significaria declarar guerra à Rússia, pois colocaria sistemas de defesa antiaérea e pilotos de ambos os lados frente a frente.

Isso já estava dado, até porque foi rejeitado desde o começo pelo chefe real da Otan, o presidente dos EUA, Joe Biden. Mas coube ao secretário-geral, o norueguês Jens Stoltenberg, reafirmar isso em público.

No mais, ele repetiu a condenação à agressão russa e ao ataque que tomou a usina nuclear de Zaporíjia e provocou um incêndio controlado nesta sexta.

Afirmou que os russos estão usando bombas de fragmentação, que são proibidas por tratado a que nem Moscou, nem Kiev, são aderentes. São armas terríveis, pois um projétil espalha várias bombinhas por uma grande área, e muitas não explodem, ficando expostas para incautos —muitas vezes crianças— detoná-las sem querer.

Disse novamente que os reforços de tropas, 22 mil até agora, em países no Leste Europeu pertencentes à aliança visa defender cada pedaço do território da Otan.

É a dissuasão possível, mas também o limite do Ocidente nessa disputa. Há discussões inclusive sobre até qual ponto a entrega de mísseis antiaéreos portáteis e antitanque será ignorada pela Rússia. A aposta mais sombria é: até eles começarem a fazer alguma diferença clara em campo.

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Negociações entre Ucrânia e Rússia começam na Belarus enquanto guerra entra no 5º dia

Enviados de Zelenski querem cessar-fogo e retirada de tropas; os de Putin não revelaram seu objetivo com o diálogo

Depois de uma madrugada de mais explosões em diferentes partes da Ucrânia nesta segunda-feira (28), as atenções no quinto dia de guerra voltam-se a Gomel, pequena cidade da Belarus que recebe enviados dos presidentes Vladimir Putin e Volodimir Zelenski em uma mesa de negociação.

Moscou e Kiev concordaram no domingo em se sentar para negociar, e o governo da Ucrânia chegou a dizer que a ofensiva russa contra suas principais cidades diminuiu o ritmo. Mas os relatos de ações militares brutais em cidades como Kiev e Kharkiv, as maiores da Ucrânia, continuam se acumulando.

Veículo militar ucraniano transita por Kiev
Veículo militar ucraniano transita por Kiev – Umit Bektas/Reuters

A depender das condições do Kremlin, Zelenski pode acabar assinando sua rendição. O gabinete do líder ucraniano, porém, afirma que o objetivo é buscar um cessar-fogo e a retirada das tropas russas.

Inicialmente, o presidente rejeitou a iniciativa. Em um pronunciamento, disse que seria possível conversar na Belarus se os russos não tivessem usado a ditadura aliada como uma das bases para seu ataque —justamente contra Kiev, a menos de 200 km da fronteira sul belarussa.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, não disse o que a delegação de seu país vai exigir. Nesta segunda, afirmou que Moscou está interessado em chegar a um acordo e lamentou que a negociação não tenha começado ainda no domingo. Já o chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, afirmou que a Rússia aceitou o encontro sem precondições, o que seria resultado da resistência imposta pelo país aos invasores.

Na manhã desta segunda (madrugada em Brasília), o Ministério das Relações Exteriores da Belarus publicou nas redes sociais a foto de uma grande mesa com bandeiras russas e ucranianas em sinal de que estava pronto para receber as delegações dos dois países em conflito.

A comitiva ucraniana chegou a Gomel poucas horas depois. Antes, Zelenski publicou um vídeo em que pede aos militares russos que entreguem suas armas. “Abandonem seus equipamentos. Não acreditem em seus comandantes, não acreditem em seus propagandistas. Salvem suas vidas”, disse ele, em russo.

O governo ucraniano afirmou, mais cedo, que Kiev apresentava um cenário mais tranquilo, diferente do visto nos últimos dias, quando a ofensiva russa cercou a cidade. Ainda assim, o Reino Unido diz que forças de Moscou permanecem 30 km ao norte e são contidas pelos ucranianos que defendem Hostomel.

Os combates também continuam em Chernihiv, no norte, onde um prédio residencial foi atingido por um míssil, o que causou um incêndio. Na região, o aeroporto de Jitomir também foi alvo durante a madrugada, segundo as forças de Kiev. O lançamento teria sido feito da Belarus, apesar de o país ter dito que não permitiria ataques a partir do seu território, em meio à expectativa da negociação entre as comitivas.

Segundo a imprensa ucraniana, os militares do país atribuíram uma eventual queda no ritmo da ofensiva à própria resistência. “Todos os esforços russos para ocupar [Kiev] falharam”, disseram as Forças Armadas. O discurso foi corroborado pelo Ministério da Defesa do Reino Unido, segundo o qual “falhas logísticas e a firme resistência ucraniana continuam a frustrar o avanço” de Moscou.

Por outro lado, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter tomado as cidades de Berdianski e Enerhodar, além da planta nuclear de Zaporijchia, segundo a agência de notícias Interfax. As autoridades locais ucranianas relataram ainda combates em Mariupol, mas Kiev nega ter perdido o controle da usina nuclear.

Além da conversa em Gomel, outro diálogo aguardado nesta segunda é o do presidente americano, Joe Biden, com aliados dos EUA para “coordenar uma resposta unida”, segundo a Casa Branca divulgou na noite de domingo. O governo do democrata não deu detalhes sobre quem participaria do encontro, previsto para as 11h15 em Washington (13h15 em Brasília), mesmo horário em que a Assembleia-Geral da ONU debate uma resolução para condenar a invasão russa.

Uma medida do tipo já foi vetada por Moscou no Conselho de Segurança. Assim, na prática, a resolução serviu apenas para que os países mostrassem seu descontentamento com a iniciativa de Vladimir Putin sem gerar ações imediatas. O Ocidente tem adotado diversas medidas para reagir a Moscou, com sanções que incluem a proibição do uso do espaço aéreo por aeronaves do país e a desconexão de bancos russos do sistema internacional de transferências financeiras.

As sanções já levaram a uma queda de 15% do rublo em relação ao dólar e ao euro na abertura do mercado em Moscou nesta segunda, e a moeda só não caiu mais porque o Banco Central russo interveio.

Neste domingo, o G7 também ameaçou a Rússia com novas medidas, e o secretário de Estado dos EUA, ​Antony Blinken, garantiu que o grupo das principais economias do mundo estava “totalmente alinhado” contra a invasão da Ucrânia. As críticas aumentaram após Putin colocar suas forças nucleares em alerta —o governo britânico, no entanto, não viu grandes mudanças na postura nuclear russa.

Nesta segunda, o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, disse que o bloco não iria se engajar em uma escalada em reação à atitude do mandatário russo. O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou, porém, que a UE irá debater o ingresso da Ucrânia, o que pode alimentar as tensões. Zelenski pediu o acesso imediato ao bloco europeu sob um procedimento especial.​

A neutralidade da Ucrânia é o ponto principal das demandas feitas por Putin. O russo quer evitar que Kiev integre a Otan, a aliança militar ocidental, e, por tabela, a União Europeia.

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Guerra faz Uefa transferir final da Champions da Rússia para a França

Decisão do torneio de clubes europeu estava marcada para ocorrer em São Petersburgo, em 28 de maio

O Stade de France de Paris será o palco da final da Liga dos Campeões, em 28 de maio, e não mais São Petersburgo, anunciou a Uefa. A cidade perdeu o direito de organizar a partida como uma resposta da entidade europeia à invasão da Ucrânia pelo exército da Rússia.

O estádio francês já recebeu a final da Champions League em 2006, quando Barcelona derrotou o Arsenal por 2-1.

Também ficou definido que jogos em casa de times ucranianos e russos, assim como partidas das seleções em torneios da Uefa, devem ser disputados em campo neutro.

Imagem aérea da arena Gazprom, em São Petesburgo, que receberia a final da Champions de 2022 – Anton Vaganov – 25.mai.21/Reuters

O Kremlin criticou a decisão da Uefa de mudar o local da partida. “É uma lástima que se tenha tomado essa decisão”, afirmou o porta-voz do governo russo, Dimitri Peskov. “São Petesburgo havia oferecido condições ideais para a celebração”, completou.

Por outro lado, o governo do Reino Unido elogiou a medida. “Não podemos permitir que a Rússia explore o esporte e a cultura no cenário mundial para legitimar esse ataque premeditado e desnecessário contra um estado democrático soberano”, afirmou a secretária de cultura, Nadine Dorries.

PATROCINADOR

O estádio de São Petersburgo passou a ser conhecido como Gazprom após um acordo de patrocínio com a empresa estatal de energia russa, que também patrocina a Liga dos Campeões e a Euro 2024, principal competição de seleções do continente.

Legisladores europeus que pediram à Uefa que a final não fosse mais realizada na Rússia também pediram que a entidade encerrasse o contrato de patrocínio da Gazprom à competição de clubes.

No entanto, o comunicado da Uefa de sexta-feira (25) não fez qualquer menção à Gazprom.

O Schalke 04, um dos clubes mais tradicionais da Alemanha e o de maior torcida do país, anunciou que não vai mais exibir o nome da Gazprom, sua patrocinadora, em seu uniforme.

A decisão foi postada na conta oficial da equipe no Twitter, horas depois da invasão da Rússia à Ucrânia.

Com valor de mercado de US$ 73,5 bilhões (R$ 377,4 bilhões, pela cotação atual), a Gazprom é a mais antiga patrocinadora do Schalke 04, está no clube desde 2006 e paga cerca de US$ 13 milhões anuais para estampar seu nome na camisa.

A final da Liga dos Campeões de 2023 está marcada para ser disputada em Istambul. Em 2024, Wembley, em Londres, vai sediar o jogo. No ano seguinte, o palco da decisão europeia será a Allianz Arena, de Munique.

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Novos ataques na Ucrânia fazem explodir guerra de versões na crise europeia

Rebeldes e Kiev dizem que sofreram bombardeios à noite; impasse entre Rússia e Ocidente continua

A guerra de versões sobre a situação militar em torno da Ucrânia explodiu, literalmente, com uma série de ataques com morteiros registrada na frente de batalha entre rebeldes pró-Rússia no leste do país e forças de Kiev.

Caça Su--30SM russo durante exercício conjunto com forças belarussas sobre a região de Brest
Caça Su–30SM russo durante exercício conjunto com forças belarussas sobre a região de Brest – Ministério da Defesa da Rússia – 16.fev.2022/AFP

De um lado, os separatistas que desde 2014 dominam duas porções do país dizem que foram atacados pelo governo ucraniano. Do outro, Kiev afirma que foi alvo das bombas e que isso pode ser um pretexto criado para a Rússia iniciar uma ação militar na região.

Ambos os lados podem estar mentindo, como tem sido a praxe nesse conflito, mas, se a situação escalar, a alta tensão registrada no Ocidente com o alegado risco de invasão russa atingirá um novo nível. Até aqui, não houve mortes registradas.

“A situação na linha de contato escalou dramaticamente. O inimigo está tentando lançar hostilidades”, disse no seu canal do Telegram a autoproclamada República Popular de Donetsk, uma das duas áreas separatistas —a outra fica em torno da outra cidade-chave da região, Lugansk.

Kiev, por sua vez, diz que houve um ataque com morteiro contra uma escola em Stanitsia, ferindo dois professores. Esse tipo de escaramuça sempre ocorreu desde que um cessar-fogo em 2015 tentou controlar a guerra civil iniciada no ano anterior, na esteira da anexação russa da Crimeia.

Mas o chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, já apontou o dedo para Moscou, dizendo que os russos estão por trás da violação do cessar-fogo.

O problema é o seu “timing”. A tensão entre Moscou e o Ocidente está nos níveis mais altos desde a Guerra Fria desde que o presidente Vladimir Putin mobilizou dezenas de milhares de soldados para treinamentos constantes em quatro frentes em torno da Ucrânia, a partir de novembro.

Nesta semana, Putin anunciou o início de uma retirada parcial de tropas, sinalizando ao Ocidente vontade de negociar numa posição de força. Ele havia usado a crise ucraniana para tentar estabelecer o status de segurança em todo o Leste Europeu, lançando demandas para o fim da expansão da Otan (aliança militar ocidental), entre outros pontos.

Isso implica impedir a Ucrânia e outros países, como Geórgia e Moldova, de aderir ao clube e também à União Europeia, na prática, evitando assim a existência de regimes pró-Ocidente capazes de inspirar a oposição em seu país. Os EUA e aliados não topam.

Nesta quinta (17), o Ministério da Defesa russo divulgou mais vídeos e informações de retirada de equipamento militar da Crimeia e de regiões próximas ao leste ucraniano. Só que o Ocidente diz que isso é uma farsa.

Na véspera, a Otan havia dito que não tinha confirmação de redução substancial de forças. Já na quinta no Leste Europeu, os EUA afirmaram que, além de não retirar, Putin enviou ao menos 7.000 soldados a mais, chegando ao nível de 150 mil homens em prontidão. Suas Forças Armadas têm cerca de 900 mil militares.

Em Moscou, o Ministério das Relações Exteriores repeliu a desconfiança. “O que o senhor [Jens] Stoltenberg tiver a dizer não nos interessa mais”, afirmou a porta-voz Maria Zakaharova sobre o secretário-geral da aliança militar.

Nas TVs e redes russas e ocidentais, abundam imagens do novo posicionamento de tropas americanas na Polônia, exercícios militares russos e a tal retirada de Putin. Cada lado conta uma história, verdadeira ou mentirosa ao gosto da cacofonia informativa em que vivemos.

É nesse contexto de acusações cruzadas que a renovada atividade na chamada linha de contato, uma fronteira informal de 430 km que separa as duas “república populares” do território ucraniano. Já morreram no conflito mais de 14 mil pessoas.

Países da Otan e a Ucrânia têm repetido o temor de que Putin lance uma operação de “bandeira falsa”, ou seja, monte um ataque contra suas próprias forças para justificar uma invasão. Ocorre que, tecnicamente, os rebeldes pró-Rússia não são aliados formais de Moscou.

Aí entra a nova carta inserida pelo russo no conflito, o pedido de reconhecimento das duas áreas feito de modo combinado com a Duma, a Câmara dos Deputados local. Se fizer isso, Putin poderá socorrer um novo aliado, a pedidos, por assim dizer.

Essa é a acusação ucraniana e ocidental. Mas há um óbice importante: se fizer isso e quiser continuar no jogo de provocação controlada do Ocidente, Putin perderá um ativo importante, que é a posição de fiador dos chamados Acordos de Minsk.

Assinados em 2014 e 2015, eles seguram o precário cessar-fogo no Donbass (leste ucraniano), e estabelecem um vago mapa para a acomodação do país, garantindo autonomia para os rebeldes, na prática federalizando a Ucrânia.

Para Putin, tecnicamente isso resolveria seu problema de ver o vizinho na Otan, pois os separatistas teriam voz e não permitiram a adesão ao clube militar. Ao mesmo tempo, tudo viraria um problema para Kiev resolver.

Se reconhecer as repúblicas e, pior, colocar tropas russas em massa nelas, deixará de ser um juiz do processo. Isso uma semana depois de obter o apoio da França, que considera Minsk a base de qualquer negociação.

Há outras questões. Os rebeldes querem a totalidade das antigas províncias de Lugansk e Donetsk para si —hoje ocupam algo como metade delas. Putin ajudaria a violar território ucraniano de fato, ao fim absorvendo as áreas como fez com a Crimeia?

Georgi Tchijov, do Centro de Reforma e Assistência de Kiev, diz por mensagem que não faria sentido político, até pelo contexto diferente: há oito anos, Putin respondeu instintivamente à derrubada do governo aliado em Kiev para brecar a ocidentalização do país. Agora, tem a iniciativa.

Mais que isso, ele aponta para o fato de que o custo de uma reconstrução, estimado pelo seu centro em US$ 22 bilhões, é impagável para a Rússia. A anexação da Crimeia custou estimados US$ 5 bilhões e é uma dor de cabeça econômica até hoje para o Kremlin.

Outro fator que pesa é a opinião pública. Ao longo dos anos, as sondagens do Centro Levada, o instituto independente mais respeitado da Rússia, indicam que apenas um quarto dos russos concorda com a ideia de trazer os separatistas para a pátria-mãe. E se Putin é sensível a algo, é a pesquisas.

Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores em Moscou disse que dará uma resposta às propostas americanas acerca de segurança, basicamente controle de mísseis e monitoramento de exercícios militares, ainda nesta quinta.

Mas o chanceler Serguei Lavrov afirmou, mantendo a tática de morde-e-assopra, que a Rússia não tem mais o que fazer à mesa com o fórum de membros da Otan, que no começo de janeiro serviu para discussões sobre a crise. Ao mesmo tempo, voltou a dizer que os ameaçadores exercícios com a ditadura de Belarus acabarão dia 20, como previsto.

Longe dali, na Venezuela, o ditador Nicolás Maduro afirmou na quarta que pretende expandir sua cooperação militar com Moscou. “Rússia é apoiada pela Venezuela ante as ameaças da Otan e do mundo ocidental”, afirmou, segundo a emissora Venezolana de Televisión.

No mês passado, a Rússia admitiu que poderia posicionar forças na Venezuela ou em Cuba, outro aliado no quintal dos Estados Unidos, como forma de compensar estrategicamente a situação na Ucrânia. De difícil execução, a ideia foi vista como parte do jogo de ameaças de lado a lado na crise.

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Por causa de guerra entre facções, TRE vai pedir tropas federais nas eleições de outubro

A presidente do Tribunal Regional Eleitoral, TRE/AC, desembargadora Regina Ferrari, deve enviar ao TSE, nos próximos dias, ofício solicitando o envio de tropas federais para reforçar a segurança nas eleições de outubro próximo.

Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal, reportagens relativas á guerra entre facções criminosas no estado estão sendo levantadas para justificar o pedido, e convencer a corte superior sobre a necessidade do envio das tropas, como ocorreu em 2016.

Naquele ano, a Suprema corte eleitoral enviou tropas federais para oito cidades do estado, incluindo Rio Branco.

Comando Vermelho deve continuar sangria em guerra contra o B13

Uma nota supostamente assinada pelo Conselho do Comando Vermelho, uma das organizações criminosas com mais força no Brasil, e que domina 80% dos bairros de Rio Branco, faz uma alerta aos acreanos após a onda de ataques que perdura desde a semana passada em toda a Capital acreana. O texto circula nas redes sociais desde o domingo, dia 08.

“O Comando Vermelho está preparado para qualquer tipo de guerra, mas que seja uma guerra de forma limpa, sem derrubar sangue inocente (…) podem ter certeza que no estado do Acre só vai existir uma verdadeira e única organização criminosa, que somos nós”, discorre a nota.

O teto vai além e critica também outras organizações, como o Bonde dos 13 e o PCC, sendo a última originada no Sudeste do país. “Vocês estão desesperados porque estão perdendo a guerra em nosso estado, aliás vocês já perderam a guerra e estão partindo para um lado covarde (…) vamos derramar muito sangue sim sangue de vocês pode ter certeza (sic)”, completa.

As autoridades ligadas à Segurança Pública ainda não comentaram a nota. Nestes casos, a Polícia Civil aciona o setor de Inteligência para descobrir a origem do material, abrindo muitas vezes inquérito policial para isso. Desde a semana passada, a polícia trabalha com reforço de efetivo nas ruas.

Guerra entre facções deixa 5 mortos e 10 feridos em 24 horas

A guerra entre facções criminosas deixou cinco pessoas mortas e 10 feridas entre a manhã de sábado (7) e este domingo (8). Após uma série de ataques em Rio Branco, a Segurança Pública reforçou o policiamento com cerca de 150 policiais nas ruas. Os dados foram repassados ao G1 pelo secretário de Segurança Pública, Vanderlei Thomas.

“Temos informações que 10 pessoas foram encaminhadas com ferimentos ao Pronto-Socorro. Trabalhamos inclusive que, embora trate de ataques de organizações, dentro dos feridos há pessoas que não têm nenhuma ligação com as organizações criminosas, ou seja, estavam em ambientes em que houve ataques dessas organizações e, infelizmente, foram vitimadas”, falou Thomas.

Apenas no período da tarde e início da noite deste sábado, sete pessoas ficaram feridas nos bairros Tancredo Neves, Oscar Passos – uma pessoa morreu no local do crime e duas encaminhadas em estado grave para o hospital – e Cidade do Povo. As vítimas da ação no Oscar Passos são Cleiton Oliveira da Silva Júnior, de 24 anos, e Ygor Werik de Lima Cavalcante, de 16 anos, que chegou a ser socorrido, mas morreu horas depois.

Três pessoas da mesma família foram atingidas a tiros por volta de 23h30 de sexta-feira (6). A ocorrência foi registrada na Rua Francisco Bacurau, na Cidade do Povo, no Segundo Distrito de Rio Branco. Uma das vítimas, o pedreiro e serralheiro Pedro Batista de Lima, de 50 anos, chegou a ser encaminhado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

Um adolescente identificado como José de Oliveira Silva, de 16 anos, foi executado com mais de 20 tiros na manhã deste sábado. O crime ocorrreu no Ramal São João Batista, BR-364 km 14, bairro Liberdade.

Uma mulher foi assassinada na manhã deste domingo (8), no bairro Recanto dos Buritis, região do Segundo Distrito de Rio Branco. A polícia informou que a ocorrência ainda está em andamento, mas adiantou que as equipes foram chamadas após moradores ouvirem três disparos e encontrarem a mulher caída na rua.

Reforço

Diante da situação, o secretário disse que convocou 150 policiais, das polícias Militar e Civil, para reforçar o policiamento ordinário nas ruas da capital acreana. Ele afirmou que acompanhou a situação com o comandante da PM-AC, coronel Marcos Kinpara.

“Tomamos uma decisão que acompanharemos e reforçar as ações diárias até que a gente consiga fazer um combate das organizações criminosas na altura que seja necessária para que a gente possa conseguir o retorno da sensação de segurança, que é o nosso grande objetivo”, complementou.

O secretário acrescentou que foram apreendidas armas, tanto na capital como no interior do Acre, e identificadas pessoas envolvidas nas mortes. Thomas falou também sobre os motivos que levaram as organizações a praticar diversos ataques.

“Essas organizações recebem comando. Nossa Inteligência está monitorando e, inclusive, evitando confrontos maiores. Estamos acompanhando as organizações criminosas, efetuadas prisões, transferência dentro do sistema penitenciário para a segurança máxima. Estamos trabalhando diuturnamente e não vamos dar trégua à criminalidade. A população pode ficar tranquila que no que depender das forças de segurança vamos fazer o combate à altura”, concluiu.