Aumento de casos de Covid na Ásia e Europa acende alerta para o Brasil

Os novos surtos de Covid em países da Europa e da Ásia acendem um alerta para a possibilidade de uma nova onda da pandemia no Brasil.

Na última quinta (17), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras em locais fechados no estado. A proteção, porém, continua obrigatória em algumas situações, como em transportes públicos, além de ambientes hospitalares e em serviços de saúde (entenda as regras).

Pessoas fazem teste para o coronavírus em área sob lockdown na China após a detecção de novos surtos de Covid. Atualmente, a China possui mais de 40 milhões de pessoas em lockdown para frear o avanço da subvariante da ômicron BA.2, e o número de novos casos passou de cem para mais de mil nos últimos sete dias
Pessoas fazem teste para o coronavírus em área sob lockdown na China após a detecção de novos surtos de Covid. Atualmente, a China possui mais de 40 milhões de pessoas em lockdown para frear o avanço da subvariante da ômicron BA.2, e o número de novos casos passou de cem para mais de mil nos últimos sete dias – Hector Retamal – 17.mar.22/AFP

Para especialistas, mesmo com uma cobertura vacinal acima de 70%, a alta circulação da variante ômicron e o cenário de retirada das medidas de restrição podem levar a um aumento de infecções e, consequentemente, hospitalizações e mortes pelo coronavírus.

Na China, a média móvel de novos casos na terça (15) foi quase seis vezes o número registrado há duas semanas. Na Coreia do Sul, o dobro, e o país nunca registrou tantos óbitos (230 era a média móvel naquele dia) quanto nesta semana.

A situação não é muito melhor na Europa. Suíça, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Holanda e França têm de 27% a 83% de alta na média móvel de contaminados em relação há 14 dias.

Na Alemanha, na terça, a média móvel era de 200 mil novos casos —mais de 10 mil a mais que o recorde brasileiro (registrado em 31 de janeiro), embora a população por aqui seja mais que o dobro da alemã.

O país também enfrenta alta de óbitos: são 23% mais que há duas semanas. Isso também acontece na Suíça (38%) e na Holanda (20%), embora nesta última o ritmo de novos casos pareça começar a ceder.

No Brasil, foram registradas na última quarta (16) 354 novas mortes e mais de 44 mil casos. As médias móveis de casos e mortes estão em estabilidade e em queda, respectivamente, em relação a duas semanas atrás, de 40.335 e 345.

Mesmo assim, a retirada de muitas medidas protetoras, incluindo a desobrigação do uso de máscaras até mesmo em locais fechados, pode provocar uma nova alta de casos.

Segundo a epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin para Vacinas, Denise Garrett, o aumento de novos casos de Covid globalmente desde janeiro deixa claro que a situação não é isolada em alguns países e pode sim chegar ao Brasil.

Os casos estavam diminuindo em todo o mundo e agora voltaram a subir. Não temos bola de cristal para saber como irá se comportar nem quando a onda atingirá o Brasil, mas podemos falar com quase 100% de certeza que vai chegarDenise Garrett

epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin para Vacinas

Para ela, uma preocupação adicional é que, neste momento, o país deveria estar se preparando para a chegada da nova onda, e não é o caso —ao contrário, os estados estão retirando a obrigatoriedade do uso de máscaras, flexibilizando as medidas de restrição e o governo federal deseja rebaixar a condição da pandemia para uma endemia, que é quando há um número de casos e mortes conhecido e constante anualmente.

Segundo Garrett, o país não se preparou o suficiente para enfrentar mais uma onda agora, com medidas como ampliar a testagem disponível para todos, a incorporação de medicamentos para uso nos primeiros dias da infecção —como as pílulas Paxlovid, da Pfizer, e molnupiravir, da MSD— e uma campanha de comunicação para ampliar a cobertura vacinal de dose de reforço.

A mesma visão é compartilhada pela professora da Universidade Federal do Espírito Santo, Ethel Maciel. “Era o momento de estudarmos com muita atenção o que está ocorrendo nos países da Europa e Ásia para antecipar problemas que podem surgir no país com uma possível nova onda, como a maior gravidade de doença em idosos que receberam o reforço há mais de cinco meses e podem estar desprotegidos”, afirma.

De acordo com o epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, a alta de casos nos demais países acende um alerta para o Brasil. “A pandemia não acaba quando o governo decide retirar as medidas de restrição ou protetoras, ou porque o presidente está mirando a reeleição, ela acaba quando o vírus parar de circular, e o vírus não vai parar de circular enquanto não tomarmos as medidas adequadas”, diz.

Para ele, assim como para Garrett, a discussão sobre as máscaras em locais abertos é extemporânea. “O problema não é a discussão de máscaras em locais abertos, a defesa de [desobrigar as] máscaras em locais abertos já existia desde setembro. À época, a média móvel de mortes era 150, mas não houve nenhum movimento. Agora, quando ela está em torno de 300, 400, os gestores decidem pela retirada no que, para mim, parece uma decisão eleitoreira e não baseada na ciência”, afirma.

Professor da Universidade Federal da Bahia e pesquisador da Fiocruz Bahia, Mauricio Barreto alerta que o comportamento do vírus não é algo previsível e, por isso, a retirada de medidas protetoras agora é precipitada. “No final do ano passado tivemos uma desaceleração da pandemia, e logo em seguida surgiu a ômicron. Agora, com a retirada das medidas, já podemos observar um repique inicial indicando uma leve preocupação”, diz ele.

Barreto assinou junto com outros 20 pesquisadores brasileiros um artigo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia em dezembro passado. O texto lista 13 propostas que os estados e municípios devem adotar para reforçar a vigilância epidemiológica do Sars-CoV-2.

Entre elas, a detecção de novos casos na fase inicial, o isolamento de infectados e de seus contatos e o uso de máscaras mais eficazes, além de acelerar a vacinação. De acordo com o pesquisador, apesar de as vacinas oferecerem alta proteção contra hospitalização e óbito, elas possuem eficácia reduzida contra infecções frente a variantes de preocupação, como a ômicron, e novas variantes podem ainda surgir.

“A ideia básica não é exagerar as medidas, e manter algumas delas, como o uso de máscaras, inclusive como um sinal de que ainda estamos na pandemia. Aliadas às vacinas, as máscaras são um fator importante de proteção contra infecção, e retirá-las agora é dizer que uma medida de baixo custo e altamente eficaz não é mais necessária, o que considero precipitado”, diz.​

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O que muda se o Brasil classificar a covid-19 como endemia

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se reuniu nesta terça-feira (15) com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e planeja encontrar presidentes de outros Poderes em busca de apoio para sua proposta de rebaixar o status da covid-19 no Brasil de pandemia para endemia.

Estudada pelo ministério com a desaceleração recente dos casos de covid-19 no país, a proposta pode passar a valer no fim de março, caso a pasta avalie que é possível mudar as regras atuais e não tratar mais a doença como emergência de saúde pública. Especialistas questionam a iniciativa.

A seguir, explicará o que é uma endemia, por que o governo federal cogita tratar a covid-19 como doença endêmica e o que mudaria na prática se essa medida se confirmar. Traz também avaliações de pesquisadores sobre a proposta.

O que é uma endemia


Doenças são consideradas endêmicas quando estão sempre presentes — ou seja, é improvável que sejam erradicadas —, mas sua propagação é estável e previsível e seus surtos estão limitados a determinada região. A dengue, por exemplo, é uma doença endêmica no Brasil.

A endemia se diferencia da epidemia por representar um “comportamento usual e esperado de uma doença em uma população”, enquanto a epidemia é uma modificação nesse padrão de casos — isto é, um aumento da circulação da doença além do esperado.

Mulher sentada no ônibus, usando máscara, olha através da janela. Há um homem sentado na frente dela, também de máscara, e outras pessoas ao fundo.
FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 16.FEV.2022

Os coronavírus, por exemplo, são conhecidos pela ciência desde os anos 1960. Os quatro tipos do vírus que há séculos causam resfriados comuns em humanos são endêmicos — a versão do vírus que causa a covid-19, por outro lado, se tornou uma epidemia e, mais tarde, uma pandemia (quando o vírus se espalhou a nível global).

A gripe, causada pelo vírus da influenza, também é uma doença endêmica. Estima-se que, por ano, morram em todo o mundo 650 mil pessoas devido à gripe sazonal — em comparação, em 2021 morreram 3,5 milhões por covid-19. O fato de a gripe ser endêmica implica a aceitação dessa letalidade, e não há adoção de medidas rigorosas para prevenir seu contágio, como o isolamento social e lockdowns.

A OMS (Organização Mundial da Saúde), maior autoridade sanitária do mundo, é o organismo responsável por declarar pandemias como a da covid-19. Apenas ela pode fazer de fato a reclassificação da doença para endemia — o que ainda não fez. Governos como o do Brasil não têm essa competência.

Quando fala em “rebaixar” a pandemia de covid-19 para endemia, o Ministério da Saúde busca, mais precisamente, decretar o fim do estado de emergência em saúde pública instituído pelo poder público em 2020 para lidar de forma mais adequada com os desafios da doença no Brasil.

O que muda nesse cenário


Com a revogação do estado de emergência de saúde pública, normas ou recomendações sanitárias estabelecidas pelo governo federal desde março de 2020 para combater a pandemia de covid-19 no Brasil podem perder validade. Entre elas, estão:

  • o isolamento de pessoas infectadas com o coronavírus
  • restrições para entrada e saída do país por causa da covid-19
  • exigência de testes ou exames médicos de pessoas com sintomas

A lei n. 13.979, que estabeleceu as medidas para enfrentar a pandemia em 2020, também facilitou importações de medicamentos, dispensou licitação para compras de insumos ou equipamentos usados no combate à covid-19 (como respiradores) e permitiu a autorização emergencial de vacinas.

A Coronavac e o imunizante da Janssen, por exemplo, receberam da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorização apenas para uso emergencial no Brasil, o que se deve ao estado de emergência de saúde pública — outras vacinas, como a da Pfizer, receberam autorização definitiva. Caso o estado de emergência seja revogado, em tese essa permissão também cai.

Levantamento preliminar divulgado pelo jornal O Globo mostra que, apenas no Ministério da Saúde, há pelo menos 168 portarias cujos efeitos estão vinculados ao estado de emergência e que seriam invalidadas caso ele fosse finalizado. Outros órgãos do governo que criaram novas normas por causa da pandemia também devem ser afetados.

Imagem mostra homem idoso vestido a camisa da seleção brasileira recebendo vacina no braço esquerdo de profissional de saúde usando avental, touca e máscara
FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 9.FEV.2021

O ministro Marcelo Queiroga tem indicado que busca uma saída do atual status de pandemia de forma gradual. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, auxiliares do ministro avaliam saídas como publicar instrumentos transitórios para estimular a redução das restrições e reconhecer que a doença perdeu força, mas deixar margem para medidas como o uso emergencial das vacinas.

Experiências bem-sucedidas nestes últimos anos nas políticas públicas também poderão ser incorporadas de forma definitiva à administração pública. Em entrevista ao jornal O Globo, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, citou como exemplo para ficar a aplicação de consultas médicas não presenciais.

Parte das restrições que o governo federal planeja derrubar, como a recomendação do uso de máscaras, já caiu em parte do país, devido à permissão dada pelo Supremo Tribunal Federal em 2020 para que os estados e municípios definam com autonomia suas políticas contra a covid-19. Capitais como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Luís e estados como São Paulo e o Distrito Federal flexibilizaram o uso de máscaras desde o fim de 2021.

O que o governo afirma


A justificativa do ministro Marcelo Queiroga para buscar o rebaixamento do status da covid-19 de pandemia para endemia é considerar que o cenário da covid-19 no Brasil está controlado depois da onda de infecções no início do ano causada pela variante ômicron.

Desde a metade de fevereiro, quando a onda causada pela ômicron chegou ao pico, os números de casos e óbitos pela doença têm desacelerado, segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). Nesta terça-feira (15), o país registrou 52 mil infecções e 336 mortes pela covid-19.

Queiroga, de terno escuro e gravata amarela, ao microfone
FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 05.AGO.2021

O quadro se reflete na tendência de redução de internações e ocupações de leitos de UTI (unidades de terapia intensiva), medidas pelo Observatório Covid-19 da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Em 11 estados, segundo o boletim mais recente do grupo, essas taxas caíram de forma expressiva na semana do dia 8 de março.

Ao mesmo tempo, a vacinação tem avançado. Nesta terça (15), 73,6% da população estava vacinada com duas doses do imunizante contra a covid-19, pouco mais de 32% — número ainda considerado pequeno — estava vacinado com a terceira dose de reforço e 52,8% das crianças de 5 a 11 anos estavam vacinadas com a primeira dose, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa.

A possibilidade de que a covid-19 se torne endemia tem sido cogitada desde o fim de 2021 pela comunidade científica. Para a maioria dos especialistas, com o fim da pandemia a doença pode ter comportamento semelhante ao da gripe comum — as vacinas vão conseguir reduzir a evolução para quadros graves e mortes, mas não impedir a transmissão do vírus.

Imagem mostra duas mulheres de avental azul e máscaras brancas conversando no corredor de um hospital. Uma delas apoia a mão no ombro da outra
FOTO: DIEGO VARA/REUTERS – 14.JAN.2022

Queiroga havia cogitado reduzir as restrições contra a doença pela primeira vez em dezembro. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, seu plano era lançar um documento recomendando desobrigar o uso de máscaras no Natal. O plano foi interrompido pelo surgimento da variante ômicron, identificada pela primeira vez no Brasil em novembro de 2021.

Ainda segundo informações de bastidores divulgadas pelo jornal, o ministro quer ser reconhecido como o gestor que encerrou a crise sanitária no Brasil. Em conversa com integrantes de outros Poderes, ele busca articulação para viabilizar o fim da emergência de saúde pública.

Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, disse ter preocupação com a possibilidade nesta terça (15). Entre os motivos, está o crescimento de casos de covid-19 na China, que enfrenta sua pior onda da doença em dois anos. Ele afirmou, porém, que deve levar a discussão para líderes do Senado.

O que especialistas dizem


Com o anúncio do governo federal de que estuda mudar o status da covid-19, especialistas da área de saúde pública têm dito que a medida é precipitada e que os números da doença, apesar de mais baixos que no pico da onda causada pela ômicron, ainda estão altos para que se retirem as restrições.

Brigina Kemp, assessora técnica do Conselho dos Secretários Municipais de Saúde de São Paulo e integrante do Observatório Covid-19 BR, afirmou ao jornal Nexo no início de março que não se pode comparar o cenário de agora apenas com a onda de janeiro, que registrou recordes de infecções.

Foto tirada de cima, mostra várias pessoas sentadas em cadeiras afastadas, esperando
FOTO: LUCAS LANDAU/REUTERS – 12.01.2022

“[Para estabelecer a endemia] teríamos que ter um número de casos bem inferior ao que tivemos [durante toda a pandemia] e observar sua manutenção durante meses ou anos”, disse. Apesar de ter se estabilizado nas últimas semanas, o cenário da covid-19 ainda é imprevisível, e a doença poderia registrar novas altas com novas variantes, por exemplo.

Outro motivo que tem levado pesquisadores a desconfiar do rebaixamento da covid-19 para endemia é a falta de parâmetros para a decisão. Ainda não se sabe qual o número de casos e mortes pela doença aceitáveis ou esperados no cenário endêmico, por exemplo.

“Só podemos falar de endemia quando conhecemos a tendência histórica da doença bem estabelecida, e ainda não temos isso para a covid”, disse o professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Lotufo ao jornal Folha de S.Paulo. O epidemiologista atribui essas incertezas à própria novidade da covid-19, descoberta em 2019.

Mulher idosa passa em frente a uma loja com manequins e roupas expostas do lado de fora, sob um toldo. A mulher veste máscara, carrega uma bolsa no ombro esquerda e um saco plástico com algum produto nos braços.
FOTO: PILAR OLIVARES/REUTERS – 19.NOV.2020

Nésio Fernandes, secretário de Saúde do governo do estado do Espírito Santo, levantou no início do mês em suas redes sociais alguns critérios que poderiam nortear o rebaixamento da covid-19 para endemia. Entre eles, estão cobertura vacinal de 90% com duas doses, três a quatro meses de baixa incidência, ausência de novas variantes de preocupação e incorporação de novos tratamentos no sistema de saúde.

“Decretos e portarias não mudam o comportamento da transmissão”, disse no Twitter no dia 3 de março. Os critérios que Fernandes levantou, porém, ainda não são consenso. A OMS não determinou, no Brasil ou em outros países, o que deve ser levado em conta para se cogitar o estado de endemia, nem disse cogitar mudar o status da covid-19 em suas declarações mais recentes.

Julio Croda, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e da Fiocruz, afirma, por outro lado, que o avanço da vacinação e os recordes de infecções causadas pela ômicron garantiram um alto nível de proteção contra a covid-19. “A doença se tornou menos letal”, disse à BBC Brasil.

Mulher de máscara cirúrgica levanta a manga da blusa e olha para profissional de saúde com luvas de borracha que aplica vacina em seu braço esquerdo
FOTO: TIKSA NEGERI/REUTERS – 13.MAR.2021

Em fevereiro, a Fiocruz publicou um relatório dizendo que, por causa do alto nível de proteção recente da população, o Brasil tem a chance de frear a covid-19 ainda em 2022. Alcançar esse resultado, porém, dependeria da manutenção das restrições contra a doença nestes próximos meses.

Essas considerações não trabalham com a possibilidade de que surja uma nova variante de preocupação do coronavírus. Nesta terça-feira (15), o Ministério da Saúde confirmou dois casos no Brasil da variante deltacron, combinação do material genético da delta e da ômicron. A OMS ainda estuda a variante e não encontrou evidências de que ela seja mais transmissível ou letal.

O que outros países fizeram


Parte dos países da Europa retirou as restrições contra a covid-19 nos últimos meses, em meio à onda de infecções causada pela variante ômicron. A Dinamarca, por exemplo, suspendeu todas as normas sanitárias no início de fevereiro, mesmo com o avanço de casos.

O país justificou a iniciativa dizendo que, embora o número de casos estivesse alto na época, hospitalizações e mortes cresciam em ritmo mais lento. Os dinamarqueses também tinham alta confiança nas vacinas e dois terços haviam recebido a dose de reforço.

Grupos de pessoas agasalhadas caminham em rua ladeada por placas de estabelecimentos comerciais
FOTO: RITZAU SCANPIX/PHILIP DAVALI/VIA REUTERS – 01.MAR.2021

A Inglaterra também suspendeu as restrições contra o coronavírus em fevereiro, em uma estratégia batizada “convivendo com a covid”. O governo determinou o fim do isolamento obrigatório para pessoas infectadas e anunciou que deixaria de disponibilizar testes gratuitos para a covid.

O relaxamento foi considerado prematuro por especialistas do país, que disseram temer que com o fim das restrições a Inglaterra fique mais vulnerável a possíveis novas variantes do coronavírus. A decisão foi tomada pelo primeiro-ministro Boris Johnson a despeito das contra-indicações.

A OMS pediu em fevereiro cautela após esses anúncios e defendeu a abertura gradual dos países — apesar de não cogitar mais medidas duras, como o lockdown. Tedros Adhanom, diretor-geral da entidade, disse na época que era preocupante que países flexibilizassem as restrições sem levar em conta contra-indicações.

“Mais transmissão significa mais mortes. […] Não estamos pedindo que nenhum país retorne ao chamado lockdown. Mas estamos pedindo a todos os países que protejam seu povo usando todos os recursos disponíveis, não apenas vacinas”

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, em declaração em fevereiro de 2022

nexojornal

Brasil tem dois casos de Covid da variante deltacron, diz Queiroga

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que há dois casos da variante deltacron no Brasil, sendo um no Amapá e outro no Pará. Essa variante é uma recombinação das variantes delta e ômicron da Covid.

“O nosso serviço de vigilância genômica já identificou dois casos no Brasil: um no Amapá e outro no Pará. E nós monitoramos todos esses casos. Isso é fruto do fortalecimento da capacidade de vigilância genômica no Brasil”, disse a jornalistas nesta terça-feira (15).

Queiroga disse que as medidas contra essa nova variante continuam as mesmas. “Essa variante é uma variante de importância e requer monitoramento […] se eu tivesse que indicar uma medida, seria a aplicação da dose de reforço”, ressaltou.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante evento no Ministério da Mulher – Myke Sena – 7.fev.2022/MS


O vírus recombinante vem circulando desde janeiro em diversas regiões da França e há detecções de genomas semelhantes na Dinamarca e nos Países Baixos. Tal evento não é, pelo menos até o momento, motivo de preocupação.

Em uma postagem no Twitter, no dia 8 de março, Maria Van Kerkhove, epidemiologista e líder técnica da OMS (Organização Mundial da Saúde) para Covid-19, afirmou que esse tipo de recombinação é esperado com a intensa circulação das variantes ômicron e delta e que a equipe da OMS está acompanhando e discutindo o assunto.

No fim de fevereiro, o tema já tinha sido discutido por especialistas em uma sessão de perguntas e respostas da OMS. Na ocasião, Kerkhove tranquilizou as pessoas quanto aos eventos de recombinação e explicou que esse processo é basicamente uma junção de “pedaços” de uma variante com “pedaços” de outra.

“Não quero assustar as pessoas com a ideia de recombinação”, afirmou Kerkhove, em 22 de fevereiro. “Talvez comecemos a ver recombinações. Isso pode acontecer, mas pode ser um reflexo de uma melhor vigilância.”

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Brasil fica fora da lista de países considerados hostis por Putin

País condenou guerra da Ucrânia na ONU, mas Bolsonaro se recusa a criticar aliado

O Kremlin divulgou nesta segunda (7) uma lista de países considerados hostis à Rússia. O Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro visitou Vladimir Putin na semana anterior à guerra na Ucrânia e tem pregado neutralidade no conflito, não está nela.

Bolsonaro cumprimenta Putin após reunião no Grande Palácio do Kremlin
Bolsonaro cumprimenta Putin após reunião no Grande Palácio do Kremlin – Alan Santos – 16.fev.2022/Presidência da República

A relação foi elaborada para normatizar um decreto assinado por Putin no sábado (5), que estabeleceu critérios de relações comerciais com outros paíse​s enquanto durar o conflito no vizinho.

São considerados hostis Austrália, Albânia, Andorra, Reino Unido, os 27 países da União Europeia, Islândia, Canadá, Liechtenstein, Micronésia, Mônaco, Nova Zelândia, Noruega, Coreia do Sul, San Marino, Macedônia do Norte, Singapura, Estados Unidos, Taiwan, Ucrânia, Montenegro, Suíça e Japão.

Todas essas nações aplicaram algum tipo de sanção contra o governo russo depois da invasão iniciada no dia 24 de fevereiro. O Brasil, como se sabe, nada fez na prática, embora tenha votado a favor da resolução da ONU (Organização das Nações Unidas) condenando a guerra.

Ao mesmo tempo, seu embaixador na entidade discursou condenando também as sanções, seguindo a tradição de busca de distanciamento do Itamaraty. Com o presidente, contudo, a situação é algo diferente.

Quando encontrou-se com Putin em 16 de fevereiro, Bolsonaro disse que “o Brasil é solidário à Rússia” num momento em que Estados Unidos e a Otan (aliança militar ocidental) diziam havia semanas que os exercícios militares russos em torno da Ucrânia prenunciavam uma invasão.

Depois, com a guerra já em curso, no dia 27 Bolsonaro disse que manteria a neutralidade por temer retaliações no fornecimento de fertilizantes ao Brasil —23% dos insumos consumidos no Brasil em 2021 vieram da Rússia. “Para nós, a questão do fertilizante é sagrada”, afirmou.

Não deu necessariamente certo: na sexta (4), o governo russo recomendou aos fabricantes do produto que suspendessem suas exportações até que fosse encontrada uma saída para regularizar o fluxo de envio de produtos ao exterior.

As maiores transportadoras marítimas do mundo pararam de trabalhar em portos russos, temendo serem atingidas pelas sanções decretadas pelos EUA e outros países a quem fizer negócio com Moscou. Ainda assim, Bolsonaro parece que manterá o argumento, apoiado por setores do agronegócio com preocupação semelhante.

Em uma live, Bolsonaro ainda repreendeu seu vice, Hamilton Mourão, que condenou a guerra. Disse que só ele poderia falar sobre o assunto. O assunto pressiona o presidente até em sua base eleitoral, que tem feito insistentes cobranças de uma posição mais dura por parte do Planalto.

Enquanto isso, seus adversários na corrida presidencial de outubro se posicionaram contra Putin, com maior ou menor assertividade.

Pelo decreto de Putin, países “que cometem ações hostis contra a Rússia, empresas e cidadãos russos” poderão ter obrigações financeiras pagas por qualquer pessoa ou entidade russas em rublos, a partir de contas especiais abertas no país de Putin.

A medida deve valer enquanto houver controle de capitais no país, e é mais uma tentativa de evitar a insolvência de empresas —títulos emitidos em dólar e euro delas tiveram forte depreciação com as sanções ocidentais, e papéis de gigantes como estatal de gás Gazprom estão sendo disputados no mercado.

A resposta do Banco Central russo foi reduzir o acesso a moeda estrangeira, o que impacta a capacidade de pagamento no exterior dos russos. A nova medida é temporária e atinge apenas pagamentos superiores a 10 milhões de rublos (R$ 365 mil) mensais.

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Rússia pede suspensão da exportação de fertilizantes devido à guerra na Ucrânia; Bolsonaro fica sob pressão

Presidente havia viajado a Moscou antes do conflito para tentar garantir abastecimento; medida se deve às sanções


O governo da Rússia recomendou aos fabricantes de fertilizantes que suspendam suas exportações.

Bolsonaro e Putin se cumprimentam no Kremlin após encontro em Moscou, há duas semanas
Bolsonaro e Putin se cumprimentam no Kremlin após encontro em Moscou, há duas semanas – Alan Santos – 16.fev.2022/Presidência da República

A medida pode afetar diretamente o Brasil, grande importador desses insumos do país que invadiu a Ucrânia no dia 24. E é mais um embaraço diplomático para o governo de Jair Bolsonaro, presidente que foi à Rússia uma semana antes da guerra com a justificativa de garantir o fluxo de fertilizante ao país.

O motivo da decisão, segundo nota do Ministério da Indústria e Comércio, é a desorganização da cadeia logística de exportação.

Com as draconianas sanções impostas a diversos setores da economia da Rússia, como punição pela guerra, transportadoras ocidentais suspenderam seus negócios com o país. Assim, navios de contêineres, caminhões e outras parte da engrenagem que leva o produto ao destino não operam mais em portos russos.

“Falhas no embarque de fertilizantes podem afetar diretamente a segurança nacional de vários países e causar graves consequências na forma de escassez de alimentos para centenas de milhões de pessoas já no médio prazo”, diz a nota do ministério. No Brasil, o governo dá como certa a inflação ainda maior de alimentos.

“Recomendamos a suspensão temporária do embarque de fertilizantes russos para exportação até que os transportadores retomem o trabalho rítmico e forneçam garantias para a implementação de entregas”, completou.

O impacto para o Brasil ainda precisa ser mensurado. Segundo a Folha ouviu de um empresário do setor em Moscou, ainda não houve uma norma técnica editada para explicar como será feita a implementação da suspensão.

Assim, pode haver algumas alternativas de exportação direta, sem passar pelos canais ocidentais, e talvez até por meio de países neutros —embora certamente isso irá desorganizar e encarecer as entregas.

O Brasil importa 23% dos seus fertilizantes fosfatados e nitrogenados da Rússia, e 3%, da ditadura da Belarus, também sob sanções devido ao seu envolvimento na guerra da Ucrânia ao lado da aliada Moscou.

O agronegócio brasileiro é o quarto maior consumidor do produto no mundo, atrás de China, Índia e Estados Unidos. Ele é o produto mais importante da corrente comercial Brasil-Rússia, respondendo por cerca de 60% dos US$ 5,9 bilhões importados dos russos em 2021.

A decisão é um tapa na cara de Bolsonaro, que passou sua viagem a Moscou nos dias 15 e 16 de fevereiro justificando a necessidade de estabelecer contratos mais sólidos e de longo prazo com os russos. Acabou ficando famoso por prestar “solidariedade” a Vladimir Putin uma semana antes do ataque à Ucrânia, e na prática não viu nada ser assinado no campo.

Pressupondo o problema com a guerra, agora Bolsonaro aproveitou a crise para sugerir uma de suas obsessões, remover óbices legais à exploração mineral de áreas indígenas para tentar mitigar o problema da falta dos insumos.

Houve tratativas, que já haviam sido adiantadas em uma visita da ministra Tereza Cristina (Agricultura) e do chanceler Carlos França no fim de 2021, para que uma empresa russa adquirisse uma fábrica de fertilizantes desativada da Petrobras, mas nem isso foi formalizado.

A pujança do setor de agro no Brasil passa pelos fertilizantes, dada a pobreza intrínseca do solo no país. Assim, 85% do que o país consome é importado. A Associação Nacional para a Difusão de Adubos acredita que há estoques para três meses.

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Nova variante de Covid: como cientistas brasileiros detectam BA.2 no país

Especialistas seguem acompanhando como essa variante se espalha e os impactos que ela pode ter na pandemia

A detecção das novas variantes do coronavírus acontece graças à vigilância genômica, uma estrutura formada por laboratórios, equipamentos e, claro, cientistas capazes de receber amostras de pacientes com Covid-19, fazer o sequenciamento genético desse material e determinar qual linhagem do vírus está circulando por uma determinada região.

Foi esse trabalho, aliás, que conseguiu identificar os primeiros casos de infecção relacionados à BA.2 no Brasil, uma variante “prima-irmã” da ômicron que parece ser ainda mais transmissível e se tornou dominante em locais como Dinamarca e Índia.

Pelo que se sabe até o momento, as primeiras amostras de brasileiros infectados com essa nova linhagem vêm de Rio de Janeiro e São Paulo, com dois casos em cada Estado, de acordo com as informações divulgadas recentemente pelo Ministério de Saúde.

Ilustração do vírus do coronavírus
Embora a BA.2 seja mais transmissível, não existem evidências de que ela possa levar a um quadro mais agressivo que a ômicron ‘original’ – Getty Images

A virologista Paola Resende, pesquisadora do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/FioCruz), é uma das cientistas que fazem parte da estrutura de vigilância genômica do Brasil.

Como o próprio nome adianta, o centro onde ela trabalha é referência na investigação de vírus respiratórios para o Ministério da Saúde.

A especialista explica que, desde que a ômicron foi detectada pela primeira vez na África do Sul e em Botsuana em novembro de 2021, algumas linhagens derivadas dela foram descobertas em outras partes do mundo.

“A ômicron ‘clássica’ é conhecida por B.1.1.529. Dentro desse grupo, temos algumas outras linhagens, como a BA.1, a BA.1.1, a BA.2 e a BA.3”, explica.

O surgimento de novas versões virais é algo esperado: conforme o vírus “pula” de uma pessoa para outra e se replica dentro das nossas células, ele sofre mutações aleatórias no código genético. Algumas dessas modificações não dão em nada. Outras, porém, podem aprimorar a capacidade de transmissão, de escape imunológico ou até de agressividade do patógeno.

Ainda segundo a virologista, embora a BA.2 tenha ganhado os holofotes nas últimas semanas, ela ainda está presente numa minoria das amostras analisadas.

“A BA.1 e a BA.1.1 são as que apresentam maior disseminação global e uma rápida dispersão. A BA.2 começou a se destacar em alguns países, como a Dinamarca, onde ela está em cerca de 35% dos genomas sequenciados”, calcula.

“Mas, quando olhamos o cenário global, ela é detectada em cerca de 2% das amostras”, compara Resende.

O geneticista David Schlesinger, CEO da Mendelics, um laboratório privado que também integra a rede de vigilância genômica de São Paulo, explica que a ômicron BA.1 já era um dos vírus mais infecciosos que surgiram nos últimos cem anos.

“E a BA.2 é mais transmissível ainda”, aponta.

“Ela poderia ter sido catastrófica caso não tivéssemos um contingente de pessoas com um bom nível de imunidade pela vacinação e pelos casos prévios, que seguem protegendo contra quadros mais graves na maioria das vezes”, avalia.

Um estudo dinamarquês divulgado no final de janeiro mostrou que a BA.2 é 33% mais infecciosa que a BA.1 —que, por sua vez, já tinha uma capacidade de espalhamento bem superior às variantes alfa, beta, gama e delta.

E é justamente essa maior transmissibilidade que ajudaria a explicar como essa nova versão viral se tornou dominante na Dinamarca, superando a ômicron “original”.

No entanto, Resende pondera que o comportamento de uma variante num determinado local nem sempre se repete em outras partes do mundo.

“Basta analisarmos o que ocorreu com as variantes anteriores. A alfa dominou no Reino Unido, mas teve uma ação limitada por aqui. Já a gama, que foi responsável pela onda que acometeu o Brasil no primeiro semestre de 2021, não foi bem-sucedida fora da América Latina”, ensina.

A própria delta, que teve uma ação rápida e devastadora em lugares como Índia e Estados Unidos, demorou quase três meses para se alastrar e virar dominante no Brasil.

“Isso depende muito da dinâmica local, de quantas pessoas vulneráveis existem ali, quais são as outras linhagens que dominam”, lista.

Essas experiências prévias, portanto, sinalizam que não dá muito para saber como a BA.2 vai se comportar em cada cenário —o que só reforça o trabalho constante das equipes de vigilância genômica.

​UM BRASIL MAIS VIGILANTE

Schlesinger conta que, todas as semanas, a Mendelics seleciona de forma aleatória e anônima cerca de 90 amostras de pacientes com Covid e faz o sequenciamento genético delas. A ideia é ter uma ideia de como está a distribuição das variantes do coronavírus.

“Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, detectamos um caso de BA.2”, diz.

Na semana seguinte, por volta do dia 7/2, uma nova rodada de sequenciamentos não encontrou nenhum caso provocado por essa linhagem específica.

No caso da BA.1, o laboratório acompanhou um crescimento exponencial. “Na primeira semana de janeiro, ela estava em 15% das amostras. Na segunda, subiu para 80%. Na terceira, para 94%. No início de fevereiro, ela foi detectada em 100% dos sequenciamentos”, compara.

A BA.2 vai seguir a mesma trajetória por aqui? Ainda é cedo para dizer, avaliam os especialistas. “Precisamos acompanhar e ver se ela vai seguir o mesmo padrão da BA.1 ou não”, responde Schlesinger.

Resende explica que o sistema de vigilância genômico brasileiro evoluiu bastante nos últimos meses e está bem mais estruturado do que no começo da pandemia, o que permite identificar a BA.2 ou outras variantes com mais rapidez.

“A história mudou. Quem diz que o Brasil não tem uma boa vigilância genômica desconhece todos os avanços que tivemos recentemente”, defende.

O número de sequenciamentos de amostras, de fato, aumentou bastante. De acordo com o site da Rede Genômica FioCruz, em outubro de 2020, o Brasil colocou pouco mais de 500 sequenciamentos no Gisaid, plataforma online onde cientistas do mundo todo compartilham informações dos genomas do coronavírus.

Já em setembro de 2021, o país fez quase 12 mil sequenciamentos, um crescimento de 24 vezes na frequência mensal de exames do tipo.

No final do ano passado, essa taxa voltou a cair um pouco. Mas isso tem a ver com a queda nos casos de Covid por aqui, justifica a virologista —em janeiro, com o avanço da ômicron, os sequenciamentos voltaram a subir novamente.

Em comparação com a vigilância genômica de outras partes do mundo, ainda ficamos bem para trás. Desde o início da pandemia, pesquisadores brasileiros compartilharam no Gisaid 110 mil sequenciamentos, o que representa 0,41% do total de casos diagnosticados no país. A porcentagem é próxima ao que é feito em países como Romênia, Peru, Egito e Filipinas.

Os campeões nessa relação entre sequenciamentos e casos de Covid são Nova Zelândia (37% dos casos são sequenciados), Dinamarca (16%), Islândia (11%) e Reino Unido (10%).

Por outro lado, é possível notar um avanço quando analisamos os números absolutos de sequenciamentos feitos na atual onda da ômicron: o Brasil é o 13º país que mais depositou informações na plataforma Gisaid mais recentemente.

Resende esclarece que não há necessidade de sequenciar todos os pacientes com Covid. “Para a vigilância, precisamos selecionar uma amostragem significativa para entender a dinâmica das variantes e ter um panorama geral da situação.”

CAPACIDADE AMPLIADA

A virologista da FioCruz conta que os 26 Estados e o Distrito Federal possuem os Laboratórios Centrais, também conhecidos pela sigla Lacen.

“Os Lacens de cada unidade federativa detectam as amostras positivas para coronavírus e determinam uma amostragem representativa, ou quantas delas serão sequenciadas”, diz.

Essa amostragem representativa varia de acordo com a população de cada lugar e também com o momento da pandemia —se o número de casos de Covid está alto, pode ser necessário ampliar a quantidade de análises, por exemplo.

“Na sequência, as amostras selecionadas de forma aleatória são enviadas para a rede de vigilância genômica, da qual fazem parte a FioCruz e diversas outras instituições”, complementa.

A especialista também informa que os próprios Lacens ampliaram a estrutura e pretendem eles próprios começar a fazer em breve a análise genética das amostras dos pacientes. Os laboratórios centrais de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, inclusive, já possuem essa tecnologia em uso atualmente.

“E isso certamente vai ficar como um legado para as futuras epidemias que a gente vai enfrentar”, antevê.

“Podemos utilizar essa mesma estrutura para analisar geneticamente os casos de influenza, zika, chikungunya, dengue…”, exemplifica.

MAS, AFINAL, O QUE VAI ACONTECER COM A BA.2?

Enquanto a vigilância genômica faz o monitoramento e não há muitas definições se a BA.2 vai se espalhar ou não pelo país, Schlesinger especula o que pode ocorrer caso ela realmente se torne dominante por aqui.

“A BA.2 pode causar um prolongamento da onda em que estamos agora. Com isso, o número de casos demoraria um pouco mais para cair”, avalia.

“E há a probabilidade de essa variante passar por algo parecido ao que vimos com a delta no Brasil, que substituiu lentamente a gama, mas não chegou a causar uma onda propriamente dita”, completa.

Num cenário onde ainda temos algumas incertezas, ao menos uma coisa permanece igual: os métodos preventivos continuam a barrar o coronavírus, independentemente da variante do momento.

“As medidas não farmacológicas são essenciais e continuam a valer, especialmente o uso de máscaras de boa qualidade em locais fechados ou em aglomerações”, resume Resende.

Imagem em primeiro plano mostra uma mulher ajeitando uma máscara no rosto
Máscaras, outras medidas de prevenção e vacinas continuam a funcionar contra a BA.2 – Getty Images

Manter um distanciamento físico sempre que possível, cuidar da circulação do ar pelos ambientes e fazer a higiene das mãos com regularidade são outras atitudes que seguem indicadas pelas autoridades.

E, claro, não dá para se esquecer da campanha de imunização contra a Covid. “A medida mais importante é vacinar todo mundo o mais rápido possível”, acrescenta Schlesinger.

“Não existe outro avanço na história da humanidade que teve um impacto tão grande na saúde coletiva quanto vacinar as pessoas”, finaliza o geneticista.

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Inflação é a maior para janeiro desde 2016 e vai a 10,38% em 12 meses

IPCA teve variação de 0,54% no primeiro mês de 2022, diz IBGE

Pressionado por alimentos, o índice oficial de inflação no Brasil começou 2022 com alta de 0,54% em janeiro, informou nesta quarta-feira (9) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Trata-se do maior resultado no mês para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em seis anos. Ou seja, desde janeiro de 2016 (1,27%), quando a economia do país atravessava período de recessão.

A variação de 0,54% veio em linha com as expectativas do mercado financeiro. Analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam taxa de 0,55%.

O resultado até sinaliza uma desaceleração frente a dezembro de 2021, quando o avanço havia sido de 0,73%, mas o IPCA segue em dois dígitos no acumulado de 12 meses.

A alta acumulada até janeiro chegou a 10,38%, a maior desde novembro de 2021 (10,74%). No recorte dos 12 meses até janeiro, a taxa é a mais elevada desde 2016 (10,71%).

O IPCA está distante da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central). O centro da medida de referência neste ano é de 3,50%. O teto é de 5%.

De acordo com analistas, o índice deve estourar a meta em 2022. Se a estimativa for confirmada, será o segundo ano consecutivo de descumprimento. Em 2021, o avanço do IPCA até dezembro foi de 10,06%.

Para tentar conter a inflação, o BC vem subindo a taxa básica de juros, que alcançou 10,75% na semana passada. O efeito colateral da Selic mais alta é inibir investimentos produtivos na economia, já que as linhas de crédito ficam mais caras no país. A redução de investimentos, por sua vez, ameaça a geração de empregos e a retomada econômica.

ALIMENTAÇÃO PUXA ALTA EM JANEIRO

Conforme o IBGE, oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram alta de preços em janeiro. O avanço mensal do IPCA foi influenciado, principalmente, por alimentação e bebidas (1,11%). O grupo teve o maior impacto no índice do mês (0,23 ponto percentual).

Segundo André Filipe Almeida, analista da pesquisa do IBGE, a alta dos alimentos pode ser associada em parte a eventos climáticos adversos.

No início do ano, estados como Minas Gerais e Bahia sentiram os reflexos de fortes chuvas, enquanto a região Sul amarga período de estiagem.

“Produtos in natura têm o clima com um dos principais fatores para determinação da quantidade produzida e ofertada”, disse Almeida. “Esses fatores climáticos acabam influenciando a quantidade e até a qualidade dos produtos”, emendou.

Em alimentação e bebidas, os principais destaques foram carnes (1,32%) e frutas (3,40%). Embora tenham desacelerado em relação ao mês anterior, os itens responderam pelos maiores impactos no grupo.

Já os preços do café moído (4,75%) subiram pelo 11º mês consecutivo. Outros destaques foram cenoura (27,64%), cebola (12,43%), batata-inglesa (9,65%) e tomate (6,21%).

No sentido contrário, os principais recuos em alimentação e bebidas vieram de arroz (-2,66%), frango inteiro (-0,85%) e frango em pedaços (-0,71%).

INFLAÇÃO NO BRASIL

O IBGE ainda apontou que a desaceleração do IPCA de dezembro para janeiro (de 0,73% para 0,54%) foi impactada pelo grupo dos transportes.

O segmento recuou 0,11%, após subir 0,58%. Esse foi o único dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados que teve queda em janeiro.

Segundo o instituto, o recuo reflete a baixa nos preços das passagens aéreas (-18,35%) e dos combustíveis (-1,23%). Além da gasolina (-1,14%), também houve queda em etanol (-2,84%) e gás veicular (-0,86%).

“A queda nas passagens aéreas pode ser explicada pelo componente sazonal”, ponderou Almeida. “Em relação aos combustíveis, os reajustes negativos aplicados nas refinarias pela Petrobras, em dezembro, ajudam a entender o recuo nos preços em janeiro”, acrescentou.

Na visão do economista André Braz, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), os dados do mês passado mostram um “espalhamento das pressões inflacionárias”.

Em janeiro, o índice de difusão calculado pelo IBGE foi de 73%. Foi a segunda vez consecutiva acima de 70%. Em dezembro, o indicador estava em 75%.

O índice mede o percentual dos 377 subitens do IPCA que apresentaram alta de preços. Quanto maior ele for, mais difusa é a inflação.

“Em fevereiro, a gente não vai ter a contribuição negativa da gasolina. Já vai aparecer um sinal positivo, porque, antes do final da primeira quinzena de janeiro, foi anunciado aumento nas refinarias. Vamos ter ainda os reajustes das escolas”, diz Braz.

“A gente deve ter uma inflação bem parecida com essa que a gente viveu no mês passado. Isso quer dizer que a inflação deve oferecer pouca trégua”, acrescenta.

Entre as 16 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, Curitiba (PR) tem a maior variação acumulada em 12 meses. A alta até janeiro foi de 12,77%. Em seguida, aparecem Rio Branco (AC), com 11,90%, e Vitória (ES), com 11,65%.

Belém (PA) está na outra ponta da lista, com IPCA acumulado de 8,84%. É o menor entre as metrópoles. São Paulo registra inflação de 10,02%.

PRESSÕES EM SÉRIE

Ao longo da crise, houve aumento dos preços administrados, como combustíveis e energia elétrica, carestia de alimentos e persistente ruptura da cadeia global de insumos industriais.

No Brasil, o dólar mais alto foi um componente adicional, já que intensificou a pressão inflacionária. O câmbio, que impacta itens como combustíveis, subiu em meio à turbulência política protagonizada pelo governo Jair Bolsonaro (PL).

O avanço generalizado dos preços castiga sobretudo os mais pobres, que têm menos condições financeiras para enfrentar a carestia. Em meio a esse contexto, o Brasil passou a registrar uma sucessão de cenas de grupos em busca de doações e até de restos de comida para alimentação.

O mercado financeiro projeta inflação de 5,44% no acumulado até dezembro de 2022, aponta a edição mais recente do boletim Focus, divulgado pelo BC.

A estimativa vem sendo revisada para cima nas últimas semanas diante dos riscos que permanecem no cenário. Parte dos analistas já prevê IPCA maior, acima de 6%.

“As projeções têm sido revisadas para cima. Diria, hoje, que a inflação deve ficar entre 6% e 6,5%”, aponta o economista Fábio Astrauskas, sócio-diretor da Siegen Consultoria.

“O maior desafio é desarmar a memória inflacionária. Vários países estão lidando com isso no momento”, completa.

Entre as ameaças no combate ao aumento de preços estão as incertezas da corrida eleitoral, que costumam impactar a taxa de câmbio, e a pressão do petróleo, que gera efeitos sobre os combustíveis no Brasil.

Há, ainda, o temor com os eventuais reflexos do clima adverso. A seca na região Sul, por exemplo, pode gerar novos avanços nos preços dos alimentos.

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Bolsonaro pinta na ONU retrato distorcido do Brasil em discurso para base radical

Presidente decepciona ala moderada do governo e insiste em tratamento ineficaz contra Covid em Nova York

O presidente Jair Bolsonaro usou o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU, nesta terça-feira (21), para fazer um relato distorcido da situação do Brasil, em um aceno à sua base radical.

Havia a expectativa de que o líder brasileiro atendesse aos apelos da ala moderada do governo e fizesse um discurso de caráter mais diplomático e conciliador, o que não ocorreu. O tom de campanha prevaleceu, pontuado por dados falsos ou distorcidos.

O presidente Jair Bolsonaro chega para o discurso ao lado da primeira-dama, Michelle – John Minchillo – 21.set.21/Reuters

Bolsonaro disse, por exemplo, que não houve casos de corrupção em seus quase três anos de governo, embora haja diversas investigações envolvendo aliados e familiares, inclusive relacionados à compra de vacinas contra a Covid-19.

Também afirmou que no dia 7 de setembro o Brasil teve a maior manifestação de sua história. Outras ocasiões, como a campanha das Diretas Já (1984), os protestos de junho de 2013 e pelo impeachment de Dilma Rousseff, entre outros eventos, reuniram muito mais ativistas.

Afirmou ainda que durante a pandemia de coronavírus o Brasil pagou um auxílio emergencial de US$ 800, o que daria R$ 4.260 na cotação atual. Este foi o valor total pago em alguns casos, mas parcelado ao longo de meses, não o dinheiro que cada família teve para passar o mês.

Bolsonaro também usou a tribuna da ONU para defender o tratamento precoce contra a Covid, algo que a ciência aponta não ter eficácia. Disse que ele mesmo recorreu ao procedimento e que o tempo dirá quem estava certo. Fez, ainda, uma crítica indireta às vacinas. Afirmou que, até novembro, 90% dos que “escolheram” ser vacinados serão atendidos e se posicionou contra o passaporte sanitário, a exigência de apresentar um comprovante de imunização para acessar lugares e serviços públicos. “Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada à vacina.”

Na parte ambiental, disse que 84% da Floresta Amazônica está intacta e que houve queda do desmatamento em agosto, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. No entanto, o desmatamento avançou em seu governo.

Nos cinco anos anteriores ao governo Bolsonaro, a média de desmatamento na Amazônia foi de 6.719 km2, segundo o Inpe. Já nos dois primeiros anos da atual gestão a média foi de 10.490 km2, um aumento de 56%. Os dados de 2021 serão divulgados apenas no fim do ano, mas devem ficar novamente em torno de 10 mil km2, estima o Observatório do Clima.

Embora tivesse prometido que falaria sobre a questão do marco temporal para reservas indígenas, Bolsonaro não o citou, mas afirmou que 14% do territorio brasileiro é composto por reservas, onde vivem 600 mil indígenas, e que eles “cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades”.

Sobre refugiados, disse que o Brasil recebeu 400 mil venezuelanos refugiados, em uma crise “gerada pela ditadura bolivariana”, sem citar o nome de Nicolás Maduro. Disse que o futuro do Afeganistão causa grande apreensão. “Concederemos visto humanitário para cristãos, mulheres, crianças e juízes
afegãos”.

Este foi o terceiro discurso do líder brasileiro na ONU. Em 2019, ele usou a tribuna para atacar críticos de sua política ambiental, a imprensa e países como Cuba e Venezuela. Em tom agressivo, que lembrava o da campanha eleitoral do ano anterior, disse que, antes de sua posse, o Brasil estava à beira do socialismo, algo que repetiu nesta terça no começo de sua fala em Nova York.

No ano passado, em discurso por vídeo (a Assembleia-Geral foi quase toda virtual, em razão da Covid), voltou a parte desses temas. Disse que o Brasil era vítima de mentiras sobre as queimadas na Amazônia e que boa parte delas seria motivada por “causas naturais inevitáveis”. Também defendeu suas ações na pandemia e acusou a imprensa de disseminar pânico sobre a doença.

A participação deste ano durou 12 minutos, a mais curta das três oportunidades. Em 2019, Bolsonaro falou durante 32 minutos, e, no ano passado, 14 minutos.

A Assembleia-Geral da ONU deste ano tem como temas a crise climática e a recuperação dos países pós-pandemia e aposta em um modelo híbrido: cerca de cem líderes farão discursos ao vivo, e outros enviaram falas em vídeo. A instituição buscou reduzir os riscos de contágio pela Covid e limitou as comitivas: cada país poderá levar apenas seis pessoas ao evento. O acesso de jornalistas foi vetado, com exceção apenas para os que possuíam escritório dentro da entidade.

Além de Bolsonaro e do presidente dos EUA, Joe Biden, estarão presentes o premiê britânico, Boris Johnson, que se encontrou com o brasileiro na segunda (20), o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. A lista dos que não viajaram para o evento inclui Emmanuel Macron, presidente da França, Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, e o dirigente chinês, Xi Jinping. As falas dos líderes ocorrerão ao longo do dia.

Depois do discurso deste ano, havia a expectativa de que Bolsonaro poderia ter alguns segundos de contato com Biden, que discursou após o brasileiro —na campanha americana de 2020, ele abertamente defendeu a reeleição de Donald Trump, de quem é próximo. Os dois ainda não se falaram oficialmente desde a posse do democrata, em janeiro, mas o tempo de encontro no plenário não deve ser suficiente para mais do que um aperto de mãos ou uma conversa breve.

Não é esperada uma reunião bilateral entre Biden e Bolsonaro nesta semana, mas conversas oficiais entre ministros e secretários dos dois países estão ocorrendo. Nesta terça, por exemplo, o chanceler Carlos França se encontrará com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken.

A imunização tem sido o principal tema da viagem de Bolsonaro aos EUA antes da Assembleia. A cidade de Nova York determina que apenas vacinados possam ir a eventos em lugares fechados e comer na área interna de restaurantes. Sem comprovante de imunização, o presidente tem optado por comer ao ar livre.

No domingo (19) à noite jantou pizza na calçada com ministros, em uma lanchonete sem mesas, e na segunda (20) almoçou em uma tenda montada do lado de fora de uma churrascaria brasileira. Ele tem evitado falar com a imprensa que acompanha a viagem.

Ativistas tem feito protestos contra o presidente. Eles estiveram na porta do hotel, em sua chegada no domingo (19). Na segunda (20), eles circularam com um caminhão pelas ruas de Nova York, com frases como “Bolsonaro is burning the Amazon” (Bolsonaro está queimando a Amazônia, em inglês).

Na noite de segunda, este caminhão foi levado até a rua onde o presidente participava de um jantar oficial. Houve um princípio de confusão entre os manifestantes e a comitiva presidencial. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mostrou o dedo do meio ao grupo que criticava o governo.

ONU não exigirá comprovante de vacinação dos participantes da Assembleia-Geral nem a realização de testes. Aposta em um sistema de confiança, no qual os presentes se comprometem a não estar com Covid, não ter sintomas da doença nem ter tido contato recente com infectados.

Houve ao menos um caso de Covid na comitiva brasileira. Um funcionário do cerimonial da Presidência que viajou há cerca de dez dias a Nova York para ajudar a organizar a visita teve resultado positivo em um exame no sábado (18). Não há detalhes sobre quantas pessoas estiveram com ele nos últimos dias, nem quantas delas estiveram com o infectado e depois com o presidente ou seus ministros.

Os encontros nos corredores da ONU e em reuniões paralelas são importantes para azeitar relações diplomáticas, que podem gerar acordos futuros, o que estimulou a entidade a buscar um evento presencial, apesar dos riscos. Os países de líderes que não irão ao evento deverão enviar delegações, que também participarão de encontros multilaterais.

Além de Boris, Bolsonaro se encontrou com o presidente da Polônia, Andrzej Duda, ultraconservador que vem colocando em prática medidas contra mulheres e homossexuais, pouco antes do discurso. Não foram anunciados compromissos para a tarde. Ele deve partir de volta à Brasília de noite.

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Portugal ainda não reconhece certificados de vacinação do Brasil

Os certificados de vacinação contra a Covid-19 emitidos no Brasil ainda não são válidos em Portugal. Por isso, para viajar ao país europeu, os turistas brasileiros –ainda que completamente imunizados– seguem precisando apresentar um teste negativo para o vírus.

O esclarecimento foi feito pela embaixada portuguesa em Brasília nesta segunda-feira (20), após alguns sites e grupos nas redes sociais divulgarem a informação de que o documento emitido pelo SUS já seria válido como comprovante de imunização em Portugal.

“Até ambos os países reconhecerem, em condições de reciprocidade, a validade dos respectivos certificados de vacinação, as regras para viajar do Brasil para Portugal mantêm-se iguais”, diz a embaixada, em nota enviada à imprensa.

Em vídeo, o embaixador português, Luís Faro Ramos, afirma que os Portugal e Brasil ainda não chegaram a um acordo de reciprocidade para a validação dos imunizantes.

A confusão ocorreu provavelmente porque, no despacho em que renovou a autorização de entrada de turistas brasileiros no país, o governo português também deixou aberta a possibilidade de reconhecimento de certificados de vacinação emitidos por países de fora da União Europeia.

O texto, no entanto, não apresentou a lista de países cujos certificados já são reconhecidos, o que deu margem a informações equivocadas.

Portugal e Brasil discutem, há mais de dois meses, a validação bilateral dos certificados de vacina, mas o entendimento ainda não saiu do papel.

Mesmo assim, a entrada de turistas brasileiros no país de Camões não fica prejudicada.

Ao contrário de alguns países da União Europeia, que só reabriram as portas para turistas brasileiros vacinados, Portugal exige apenas a apresentação de um teste negativo para a Covid-19: um PCR feito até 72 horas antes do embarque ou um exame de antígeno realizado com até 48 horas de antecedência.

O não reconhecimento dos certificados, no entanto, pode complicar a participação dos viajantes em atividades culturais e de lazer.

Isso acontece porque, assim como outros países europeus, Portugal passou a exigir a prova de vacinação completa (ou certificado de recuperação de Covid-19 há menos de 6 meses) em várias situações, como check-ins em hotéis e apartamentos por temporada, entrada em shows e eventos culturais e permanência na área interna de restaurantes (aos fins de semanas e feriados).

Quem não tem o certificado válido tem a alternativa de apresentar testes negativos para a Covid-19. Uma opção que acaba saindo mais cara, trabalhosa e menos amiga das narinas dos viajantes.

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Brasil vai disputar topo na lista de países com maior inflação de 2021, diz OCDE

Pelas projeções da entidade, custo de vida brasileiro tende vai ficar atrás apenas do da Turquia e da Argentina numa lista de 19 economia avaliadas

O índice de preços ao consumidor no Brasil deve ficar entre os maiores do mundo, considerando um grupo de cerca de 20 economias com projeções divulgadas nesta terça-feira (21) pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em 2021, somente dois países entre os 19 selecionados teriam inflação superior à brasileira, Turquia (17,8%) e Argentina (47%).

O índice de preços no Brasil é projetado em 7,2%, recuando para 4,9% em 2022, o que colocaria o país com a quinta maior inflação na lista, atrás também de Rússia e Índia, ambos com 5,5%.

O IPCA, índice de preços ao consumidor medido pelo IBGE e que serve como meta de inflação, está em quase 10% no acumulado em 12 meses até agosto.

A última projeção de mercado, considerando o relatório Focus do Banco Central, é de 8,35% para este ano e 4,1% no próximo.

A projeção de 2022 da OCDE está praticamente no limite da meta, que é de até 5%.

Segundo pesquisa Datafolha, mais de 70% dos brasileiros consideram que governo tem responsabilidade pela alta da inflação.

Ao comentar a inflação nos países emergentes, a OCDE afirma que houve surpresas consideráveis nos índices de preços que, provavelmente, persistirão por algum tempo. Condições monetárias mais rígidas, no entanto, ajudarão a limitar as pressões internas sobre os preços, principalmente na segunda metade de 2022.

A projeção de crescimento da economia brasileira em 2022 foi revista de 2,5% para 2,3% pela OCDE, de acordo com o relatório. A projeção anterior havia sido feita em maio. Para 2021, passou de 3,7% para 5,2%.

Com esses resultados, o país cresceria abaixo da média mundial tanto em 2021 (5,7%) quanto em 2022 (4,5%). No próximo ano, teriam resultados menores que o do Brasil apenas dois países em uma lista de 20 nações: Japão (2,1%) e Argentina (1,9%).

No relatório intitulado “Mantendo a recuperação no caminho certo”, a OCDE afirma que o crescimento econômico mundial acelerou este ano, ajudado por um forte apoio de políticas fiscal e monetária, pelo avanço da vacinação em alguns países e pela retomada de muitas atividades econômicas.

O PIB global já ultrapassou seu nível pré-pandemia, mas “a recuperação segue muito desigual” e a atividade ainda está 3,5% abaixo do que se estimava antes da atual crise para meados de 2021. Isso representa uma perda equivalente a um ano de crescimento econômico em tempos normais (US$ 4,5 trilhões).

Ou seja, o mundo teve a chamada “recuperação em V” do nível de atividade, mas esse movimento deixou um buraco na renda das pessoas que ainda não foi preenchido.

“Fechar essa lacuna é essencial para minimizar as cicatrizes de longo prazo da pandemia via empregos e perdas de renda”, diz a OCDE.

Segundo a entidade, lacunas de produção e emprego permanecem em muitos países, particularmente em economias em desenvolvimento, onde as taxas de vacinação ainda são baixas.

A instituição afirma que o impacto econômico da variante delta do coronavírus tem sido relativamente suave em países com altas taxas de vacinação, mas reduziu o ímpeto de curto prazo em outros lugares e aumentou as pressões sobre cadeias de abastecimento globais e custos.

Para a OCDE, os governos precisam garantir todos os recursos necessários para vacinar suas populações o mais rápido possível, de forma a salvar vidas, preservar rendimentos e colocar o vírus sob controle.

No cenário mais otimista da OCDE, a economia poderia crescer 6,25% em 2022 e voltar à tendência pré-crise, com um progresso mais rápido na distribuição de vacinas eficazes, o que aumentaria a confiança e os gastos de consumidores e empresas. No mais pessimista, a queda no ritmo de vacinação e uma possível redução na eficácia das atuais vacinas pode levar a um novo fechamento de atividades, e o mundo cresceria apenas 3%.

Para a entidade, também é necessário manter o apoio de políticas macroeconômicas, pois a perspectiva de curto prazo ainda é incerta e os mercados de trabalho não se recuperaram. É preciso, no entanto, uma sinalização clara sobre o horizonte e a extensão em que a alta da inflação será tolerada e o planejamento em direção à normalização da política monetária.

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Copa América trouxe nova variante do coronavírus para o Brasil

Sequenciamento genético identificou dois casos de cepa inédita no país

A realização da Copa América no Brasil trouxe pelo menos uma nova variante do coronavírus para o país. O sequenciamento genético de amostras (processo para identificação das cepas do vírus), feito pelo Instituto Adolfo Lutz, identificou dois casos da variante B.1.621 entre 12 exames realizados.

A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo, e confirmada pela Folha.

As variantes foram identificadas no estado do Mato Grosso. Elas foram enviadas ao Adolfo Lutz no último dia 6, e o resultado saiu no último sábado (10) —antes disso, o instituto não havia trabalhado com casos relacionados à Copa América.

Dos 12 sequenciamentos feitos, os outros 10 identificaram a variante gama, aquela que foi encontrada pela primeira vez no estado do Amazonas.

Folha revelou que, até a última quinta-feira (8), apenas a cepa gama tinha sido encontrada nos exames feitos para a Copa América. Porém, pesquisadores já alertavam para a falta de transparência nas informações epidemiológicas divulgadas pela Conmebol.

O estado do Mato Grosso hospedou as seleções do Equador e da Colômbia, país onde o tipo B.1.621 foi identificado pela primeira vez.

Pela falta de estudos realizados até agora, essa variante é classificada pela Organização Mundial da Saúde como em alerta para mais monitoramento.

Os indícios apresentam modificações nas posições 484 e 501 da proteína chamada Spike. Tais particularidades podem estar associadas a um maior potencial de transmissão, mas para se ter certeza, mais investigações são necessárias.

“Ainda é cedo para tal afirmação. As mutações na proteína Spike são características que podem estar associadas a maior transmissibilidade, dependendo da posição”, explica Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia.

Ele reclama da demora para se identificar a nova variante, o que impede a realização de um estudo mais profundo sobre sua disseminação no Brasil.

“O atraso na divulgação desses resultados faz a vigilância genômica perder um pouco o sentido. O problema é que quando o caso em questão foi inicialmente identificado, não se sabia que se tratava da variante B.1.621 e, com isso, a fonte de infecção e a rede de contatos podem não ter sido exaustivamente rastreados para evitar eventual dispersão, não apenas entre brasileiros, mas também entre pessoas de outros países, fomentando o ‘troca troca’ de variantes com pessoas de outras regiões da América do Sul”, afirmou Orellana.

Questionada, a secretaria de saúde do Mato Grosso afirmou que as amostras chegaram ao laboratório central do estado no dia 23, mas não informaram quando elas foram coletadas, tampouco deu mais detalhes acerca do paciente.

“Não se sabe onde esse caso se infectou, quem pode ter sido sua fonte de infecção e quantas pessoas foram infectadas. Agora só nos resta torcer para que o pior não aconteça, diante de tamanha irresponsabilidade sanitária. Muito provavelmente o Brasil aumentou o seu vasto repertório de variantes de preocupação que circulam no país”, completa Jesem Orellana.

O Mato Grosso afirmou ainda que os casos foram de pessoas assintomáticas e que os protocolos de isolamento foram seguidos e monitorados.

O Instituto Adolfo Lutz avisou também ao Ministério da Saúde acerca dos resultados.

Até a última terça (6), 168 casos de Covid relacionados à Copa América haviam sido identificados. Destes, o sequenciamento genético (exame para identificar a cepa do vírus) foi realizado em 38, sendo que para 22 o processo já foi concluído e o resultado foi de variante gama.

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EUA anunciam envio de 6 mi de vacinas contra Covid para Brasil e outros países da América Latina

Governo Biden diz que 75% dos imunizantes serão distribuídos pelo consórcio Covax

Os EUA anunciaram nesta quinta-feira (3) que vão enviar, inicialmente, 6 milhões de vacinas contra a Covid-19 para o Brasil e ao menos outros 12 países da América Latina. O compartilhamento será feito via Covax, iniciativa vinculada à OMS para a distribuição de doses a países em desenvolvimento.

O montante é uma fatia das 80 milhões de doses que o presidente americano, Joe Biden, anunciou que vai enviar a outros países nas próximas semanas.

O presidente americano, Joe Biden, fala sobre combate à pandemia na Casa Branca – Carlos Barria – 2.jun.21/Reuters

Em comunicado nesta quinta, Biden divulgou os detalhes da primeira parte do plano de distribuição, com o envio de 25 milhões de vacinas para o exterior. Destas, cerca de 25%, ou 19 milhões de doses, serão distribuídas via Covax, de acordo com a participação de cada país no consórcio: serão cerca de 6 milhões de doses para a América Latina e o Caribe, incluindo Brasil, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Bolívia, El Salvador, entre outros; 7 milhões para o Sul e Sudeste da Ásia, como Índia, Tailândia, Laos e Vietnã; e 5 milhões para a África, em nações que, segundo a Casa Branca, serão selecionadas junto à União Africana.

Os outros 6 milhões de doses para fechar a conta das primeiras 25 milhões serão compartilhados diretamente com países que, ainda de acordo com o comunicado “estão passando por surtos”, como Índia e México. Apesar da situação grave da pandemia no Brasil, a Casa Branca não cita o o país nesta distribuição bilateral —o Brasil tem participação pequena na Covax por decisão do governo Jair Bolsonaro.

“Hoje, estamos fornecendo mais detalhes sobre como alocaremos os primeiros 25 milhões de doses dessas vacinas para preparar o terreno para uma maior cobertura global e lidar com surtos reais e potenciais, altas cargas de doenças e as necessidades dos países mais vulneráveis”, disse Biden em comunicado.

O restante das doses —55 milhões— vão seguir o mesmo padrão desta primeira parte do plano de distribuição: 75% via Covax e 25% de compartilhamento direto com países vizinhos e parceiros.

A Casa Branca está sob pressão internacional para ajudar nações mais pobres e em desenvolvimento no combate à pandemia, e o governo brasileiro –por meio da embaixada em Washington e o Itamaraty– pedia acesso a parte dos imunizantes.

Atrás da China em doações de vacinas, até agora os EUA não tinham decidido para onde iriam as doses, nem apresentado um plano detalhado de distribuição. Autoridades americanas dizem terem sido procuradas “por todas as regiões do mundo”, mas já haviam sinalizado que o Brasil era um dos destinos considerados por Biden.

O governo brasileiro procurou a Casa Branca pela primeira vez em março, somente depois de a imprensa americana noticiar que Biden avaliava doar doses, e após outros países já terem feito o mesmo pedido, como o México.

Em 19 de maio, o embaixador do Brasil nos EUA, Nestor Forster, reuniu-se com a coordenadora da resposta global à pandemia do Departamento de Estado americano, Gayle Smith, ao lado de representantes de outros países do hemisfério ocidental, para debater a distribução das vacinas. Mas nada de concreto foi decidido na ocasião.

Com o negacionismo do governo Jair Bolsonaro, novas variantes e um ritmo bastante lento na vacinação, o Brasil patina no combate à pandemia e é hoje um dos epicentros da crise, com quase 465 mil mortos. Os EUA, por sua vez, são líderes no número de mortos —com cerca de 595 mil vítimas— mas vê os casos, mortes e hospitalizações caírem vertiginosamente, em meio a uma campanha de imunização em massa de sucesso.

A Casa Branca comprou vacinas suficientes para imunizar três vezes toda a população, aplicou ao menos uma dose em 63% dos adultos do país, mas vinha sendo criticada por priorizar a vacinação interna, mesmo com excedentes de doses, enquanto diversos lugares do mundo estão assolados pela crise, como é o caso de Brasil e Índia.

Nos últimos dias, o ritmo de vacinação dos EUA vem caindo —com ceticismo de parte da população sobre a imunização— e Biden e governadores têm anunciado estímulos e planos para tentar chegar a 70% dos adultos vacinados até 4 de julho, quando o presidente diz que o país estará, finalmente, no chamado novo normal.

Durante um pronunciamento no início de maio, Biden anunciou que iria enviar mais 20 milhões de doses de vacina para o exterior até o fim de junho, montante que se somou às 60 milhões de doses da AstraZeneca que ele já havia se comprometido a distribuir a outros países no mesmo período.

O democrata quer liderar a diplomacia da vacina, hoje comandada pela China, que já compartilhou 252 milhões de doses com o exterior, ou seja, 42% do total de sua produção. Para comparação, as 80 milhões de doses prometidas pelos EUA representam 13% da fabricação local. A União Europeia, por sua vez, já exportou 111 milhões de doses, e a Rússia, 27 milhões, segundo o Wall Street Journal.

Biden explicou que as novas doses sairiam do escopo dos três imunizantes já aprovados para uso nos EUA —Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson— enquanto os itens da AstraZeneca ainda precisam do aval da FDA, agência reguladora americana.

A distribuição das vacinas, segundo o presidente e seus auxiliares, será feita baseada em dados de saúde pública, em acordo com parceiros e, principalmente, com o consórcio Covax Facility, iniciativa vinculada à OMS para distribuição de doses a países em desenvolvimento.

Os EUA já haviam acordado em março o empréstimo de 4 milhões de doses da AstraZeneca para México e Canadá, mas o número destinado aos países vizinhos foi considerado simbólico.

No fim de abril, houve o anúncio do compartilhamento dos 60 milhões de doses da AstraZeneca, que estavam paradas nos estoques, sem autorização de uso pela FDA.

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‘Lamentamos as mortes, mas, apesar de tudo, o Brasil vai bem’, diz Bolsonaro ao comentar PIB

Ao admitir que estava sendo filmado rindo, presidente reagiu: 'Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê?'

O presidente Jair Bolsonaro comemorou nesta terça-feira (1º) a manutenção do crescimento da economia brasileira no primeiro trimestre deste ano mesmo sem a presença de programas emergenciais de enfrentamento à pandemia do coronavírus.

PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre teve crescimento de 1,2% em relação ao trimestre anterior, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Lógico que ninguém está falando que vai crescer 6%, mas a previsão aí é no mínimo 4%, que já é um número bastante grande levando-se em conta o uso político por causa da pandemia por parte de alguns”, afirmou Bolsonaro em interação com apoiadores no jardim do Palácio da Alvorada transmitida por um simpatizante.

foto: Raul Spinassé

O presidente, então, abordou o crescimento econômico no contexto das mais de 465 mil mortes por Covid-19.

“Lamentamos as mortes, mas, apesar de tudo, o Brasil está indo bem. Graças ao governo federal, porque, se dependesse de muitos governadores e prefeitos, todo mundo estaria em casa, todo o comércio fechado, milhões de empregos destruídos”, afirmou Bolsonaro.

Mais adiante, o presidente resolveu tentar explicar porque estava sorridente durante a conversa com a claque, mesmo com a situação sanitária do país.

“Alguns acham, tem gente filmando aqui, vai sair eu rindo. ‘Não pode, não sei o quê, o problema, isso acontece’. Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê? Eu pergunto: essa pandemia vai acabar quando? Alguém sabe? Vai até as eleições do ano que vem?”, indagou Bolsonaro.

Mais cedo, o Ministério da Economia afirmou que a economia brasileira se manteve em crescimento no primeiro trimestre deste ano mesmo sem a presença de programas emergenciais de enfrentamento da pandemia do coronavírus.

Nota técnica produzida pela SPE (Secretaria de Política Econômica) da pasta avaliou o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre, que teve crescimento de 1,2% em relação ao trimestre anterior, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“A atividade econômica, a despeito do fim dos programas emergenciais do governo federal em dezembro de 2020, e do recrudescimento da pandemia no começo de 2021, permaneceu em trajetória de elevação nos primeiros meses do ano”, informou a secretaria.

“A retirada dos estímulos governamentais temporários, tal como defendido por esta SPE, não teve impactos significativos sobre a atividade no primeiro trimestre do ano”, disse.

Em audiência pública na Câmara nesta terça-feira, o ministro Paulo Guedes (Economia) afirmou que o resultado do PIB “sinaliza um crescimento bastante forte da economia” em 2021.

Sem especificar nomes, Guedes rebateu indiretamente a nota produzida pela SPE.

“É claro que o auxílio emergencial teve efeito sobre a economia, ajudou a economia a voltar. Evidente que ajudou. Se algum assistente meu ou secretário meu escreveu o contrário, pode ser que nos modelos deles isso não ocorra, mas é evidente que o auxílio ajudou a economia a voltar”, disse o ministro.

Neste ano, o governo optou por não renovar a calamidade pública que vigorou em 2020 e permitiu uma expansão de gastos públicos para o enfrentamento à pandemia. Sem Orçamento aprovado, os programas emergenciais foram interrompidos por mais de três meses.

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PIB do Brasil cresce 1,2% no primeiro trimestre e zera perdas da pandemia, diz IBGE

A economia brasileira cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021 em relação ao trimestre anterior, o que representa uma desaceleração no ritmo de recuperação verificado no final de 2020, segundo dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta terça-feira (1º) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Com o resultado do primeiro trimestre, o PIB voltou ao patamar do quarto trimestre de 2019, período pré-pandemia, mas ainda está 3,1% abaixo do ponto mais alto da atividade econômica do país, alcançado no primeiro trimestre de 2014″, diz o IBGE.

Em relação ao mesmo período do ano passado, o PIB cresceu 1,0%, primeira taxa positiva nessa comparação desde o fim de 2019. Nos últimos 12 meses, ainda há retração de 3,8%.

Analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam crescimento de 0,8% na comparação com o trimestre anterior e de 0,5% em relação ao mesmo período de 2020.

O PIB havia crescido 7,8% no terceiro trimestre e 3,2% no quarto, após a queda recorde de 9,2% no segundo trimestre do ano passado.

“Mesmo com a segunda onda da pandemia de Covid-19, o PIB cresceu no primeiro trimestre, já que, diferente do ano passado, não houve tantas restrições que impediram o funcionamento das atividades econômicas no país”, disse a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

Entre os setores, indústria e agropecuária já recuperaram suas perdas desde o ano passado. Os serviços ainda não. Na ótica da demanda, o consumo das famílias e do governo não voltaram ao patamar pré-crise. Investimentos, exportações e importações já se recuperaram. ​

O trimestre foi marcado pelo fim dos programas de auxílio do governo, pelo agravamento da pandemia e pela volta de algumas medidas de restrição, mas com taxas de isolamento bem menores que as verificadas no início da crise sanitária.

O Brasil também foi beneficiado pelo ritmo de crescimento das duas maiores economias mundiais –Estados Unidos e China– e de um cenário externo que conta ainda com valorização de moedas emergentes e alta no preço de commodities agrícolas e minerais, o que também se refletiu no desempenho de outras economias emergentes.

Segundo o IBGE, houve taxas positivas na agropecuária (5,7%), indústria (0,7%) e serviços (0,4%). O investimento cresceu 4,6%, enquanto o consumo das famílias caiu 0,1% e o consumo do governo recuou 0,8% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

O governo não divulga projeções trimestrais. A previsão para o ano do Ministério da Economia é de +3,5%, abaixo da projeção de mercado da pesquisa Focus (+3,96%), que vem sendo revista para cima há seis semanas.

A mesma pesquisa mostra que os economistas consultados esperavam queda do PIB no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2020 até meados de maio. A previsão de retração chegou a 1% no início de março, quando foram adotadas novas medidas de restrição a atividades em vários estados.

Somente na segunda quinzena de maio as estimativas saíram do vermelho, até alcançar alta de 0,4%, acompanhando dados que mostraram queda menor que a esperada em índices de mobilidades e na atividade econômica e a reabertura de alguns setores.

As projeções para o ano são de um crescimento de quase 4%, valor que praticamente zera a queda registrada desde 2020 (-4,1%), embora a economia continue distante do pico alcançado no começo de 2014 e a recuperação não alcance todos os setores, o que ainda depende de avanços maiores no programa de vacinação.

RECESSÃO

Em junho do ano passado, o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), órgão ligado ao Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e formado por oito economistas de diversas instituições, definiu que o Brasil entrou em recessão no primeiro trimestre de 2020, encerrando um ciclo de fraco crescimento de três anos (2017-2019).

Não há uma definição oficial sobre o que caracteriza uma recessão. Embora alguns economistas utilizem a métrica de que esse é o período marcado por dois trimestres seguidos de queda na atividade, o Codace considera uma análise mais ampla de dados. Para o comitê, o declínio na atividade econômica de forma disseminada entre diferentes setores econômicos é denominado recessão.

CÁLCULO DO PIB

Produtos, serviços, aluguéis, serviços públicos, impostos e até contrabando. Esses são alguns dos componentes do PIB (Produto Interno Bruto), calculado pelo IBGE, de acordo com padrões internacionais, com objetivo de medir a produção de bens e serviços no país em determinado período.

Ele mostra quem produz, quem consome e a renda gerada a partir dessa produção. O crescimento do PIB (descontada a inflação) é usualmente chamado de crescimento econômico. O PIB trimestral é apresentado pela ótica da oferta (o que é produzido) e da demanda (como esses produtos são consumidos).

O PIB trimestral é divulgado cerca de 60 dias após o fim do período e apresenta as óticas da oferta e demanda. O resultado do 4º trimestre traz um dado preliminar do ano fechado. O PIB anual definitivo é apresentado quase 24 meses após o fim do ano (o dado definitivo de 2020 será conhecido em novembro de 2022) e traz também a ótica da renda (soma das remunerações do trabalho e capital, que mostram como cada parte se apropriou da riqueza gerada).

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Por que o país poderia vacinar antes, segundo o chefe do Butantan

Dimas Covas depõe na CPI e diz que governo federal perdeu oportunidade de ser ‘pioneiro’ na imunização contra a covid não fossem as declarações de Bolsonaro contra a Coronavac

A CPI da covid-19 no Senado ouviu nesta quinta-feira (27) Dimas Covas, médico e diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, por cerca de sete horas. Covas falou sobre a falta de respostas do governo federal na compra de vacinas e afirmou que o Brasil poderia ter sido pioneiro na imunização.

O diretor do Butantan é braço direito do governador João Doria (PSDB) no combate à pandemia em São Paulo. Doria foi eleito em 2018 usando o nome de Jair Bolsonaro. Com pretensões de disputar o Palácio do Planalto em 2022, o tucano acabou virando rival do presidente.

Desde o início de maio, os senadores da CPI têm ouvido autoridades para apurar as ações e omissões da gestão do presidente Jair Bolsonaro na crise sanitária, além de repasses federais a estados e municípios.

Com uma das piores respostas à pandemia no mundo, o Brasil soma mais de 452 mil mortes pela covid-19 e executa uma campanha de imunização que até quinta-feira (27) havia aplicado uma dose em pouco mais de 20% da população e as duas doses necessárias para a imunização em apenas 10% dos brasileiros.

O Butantan, liderado por Covas, é um dos principais fornecedores de vacinas ao governo federal, sendo responsável pela fabricação do imunizante Coronavac. Desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac, o imunizante representa cerca de 65% das doses aplicadas no país.

A seguir, destaca os principais pontos do depoimento de Dimas Covas à comissão, cujos trabalhos devem durar inicialmente 90 dias.

A primeira oferta ao governo. E a ruptura


Dimas Covas revelou que a primeira oferta da vacina Coronavac foi feita ao governo federal em julho de 2020. A proposta previa 60 milhões de doses, que seriam entregues até o último trimestre do ano. Não houve resposta por parte do Ministério da Saúde.

Em outubro, segundo ele, uma nova oferta foi feita, de 100 milhões de doses. Desse total, 45 milhões seriam entregues até dezembro de 2020, 15 milhões até fevereiro de 2021 e as outras 40 milhões até o final de maio.

Dimas Covas afirmou que houve interesse do Ministério da Saúde na oferta feita em outubro. As negociações caminharam bem até o dia 21 daquele mês, quando o presidente Jair Bolsonaro se manifestou publicamente afirmando que a Coronavac não seria comprada e incorporada ao PNI (Programa Nacional de Imunizações). “Com a falta de contrato, ficamos com incertezas sobre o projeto.”

De acordo com Covas, diante da declaração pública do presidente, a venda de doses da Coronavac começou a ser negociada com estados e municípios. As tratativas locais foram interrompidas em janeiro de 2021, quando o imunizante foi finalmente adotada pelo governo federal no PNI.

Na versão de Covas, portanto, a posição pública de Bolsonaro atrasou as negociações em três meses. Quando prestou depoimento à CPI em 19 de maio, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, disse que as declarações do presidente contra a Coronavac “eram coisas de internet”, e que não tinham afetado a política pública do governo.

Brasil ‘poderia ter sido pioneiro’


“O Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a vacinar”, afirmou Covas na comissão. Segundo ele, 5 milhões de doses da Coronavac estavam prontas em dezembro de 2020, e o país poderia ter sido pioneiro no combate à pandemia, aplicando doses antes mesmo do Reino Unido, que começou a administrar vacinas no dia 8 de dezembro.

Covas afirmou que os entraves com o governo federal e a dependência da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na aprovação do uso emergencial da vacina fez com que o país perdesse a oportunidade.

O diretor do Butantan estimou que, caso as negociações tivessem sido feitas mais cedo, 50 milhões de brasileiros teriam recebido as duas doses da vacina até julho de 2021, levando em consideração apenas a Coronavac. Até 27 de maio, cerca de 21 milhões de pessoas receberam a imunização completa, considerando todas as vacinas.

“O Brasil poderia ser o primeiro país do mundo a começar a vacinação, se não fossem os percalços, tanto de vista de contrato como regulatório”- Dimas Covas, Diretor do Instituto Butantan, em depoimento à CPI da covid no Senado Federal.

A Anvisa autorizou o uso emergencial da Coronavac apenas em 17 de janeiro de 2021, junto com o aval dado também apara a vacina de Oxford, desenvolvida pelo laboratório anglo-sueco Astrazeneca e produzida no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde.

À época do aval da Anvisa, a agência afirmou que a demora na aprovação se deu por lacunas na documentação fornecida pelo Butantan.

Segundo Covas, a demonstração de intenção de compra de uma vacina antes da aprovação da Anvisa não só poderia ser feita, como de fato foi: em agosto de 2020, o governo federal iniciou tratativas para a compra do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca.

O Brasil também poderia ter despontado na vacinação com o imunizante da farmacêutica Pfizer, segundo Carlos Murillo, CEO da empresa na América Latina.

Em depoimento à CPI no dia 13 de maio, Murillo afirmou que a companhia queria que o Brasil fosse vitrine da vacina no continente, mas que o governo recusou mais de uma oferta feita.

A hostilidade à China e a compra de insumos


De acordo com Covas, a compra de insumos da China — substâncias necessárias para produzir os imunizantes no Brasil — foram atrapalhadas por declarações feitas por membros do governo federal. Em 6 de maio de 2021, Bolsonaro sugeriu que o coronavírus teria sido criado em laboratório para beneficiar a economia chinesa.

“É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu porque um ser humano ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês”, disse o presidente brasileiro, nas redes sociais.

Para o diretor do Butantan, as negociações com o país asiático teriam sido muito mais simples e rápidas se não houvesse declarações do tipo e se o governo adotasse uma “postura pragmática”.

Covas afirmou que os atrasos na chegada de insumos devem impactar toda a cadeia produtiva da vacina. “Ainda não temos uma programação para dizer se cumpriremos até 30 de setembro esse contrato [de entrega de 54 milhões de doses ao governo federal, montante que completa a primeira rodada de negociações].”

Em depoimentos anteriores, membros do governo negaram a possibilidade de que atritos com a China tenham atrapalhado as negociações.

“Acho que nenhum desses atos do presidente prejudicaram nossas relações”, afirmou o ex-chanceler Ernesto Araújo no dia 18 de maio. Pazuello e o ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten também foram na mesma linha.

As aglomerações de Bolsonaro


“Evidentemente”, respondeu Dimas Covas quando questionado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) se as aglomerações promovidas pelo presidente Jair Bolsonaro ao longo da pandemia resultaram em um aumento de casos de covid-19 e, consequentemente, de mortes.

“As políticas de isolamento são a principal arma de combate a pandemias, desde a Antiguidade”, disse Covas. “É preciso quebrar a cadeia de transmissão, e entender as medidas não farmacológicas para barrar a doença.”

Jereissati pediu, então, para que o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), inclua no relatório final da CPI a afirmação de que Bolsonaro deliberadamente promoveu o avanço da covid-19 no país — fala que o parlamentar atribuiu a si mesmo.

Os baixos índices de isolamento e distanciamento social indicam que a covid-19 deve ganhar força no Brasil nos próximos meses.

“Estamos num momento tudo indica que teremos de novo um recrudescimento, um recrudescimento agora turbinado por algumas variantes que estão circulando entre nós”- Dimas Covas, Diretor do Instituto Butantan, em depoimento à CPI da covid no Senado.

Falta de investimentos federais


Durante a oitiva, Covas afirmou que o Instituto Butantan não recebeu “um real” do governo federal em 2020, mesmo diante da emergência da pandemia. O diretor da instituição disse que fez um requerimento de R$ 80 milhões para a reforma de uma das fábricas do Butantan, que permitiria a fabricação do Ingrediente Farmacêutico Ativo no Brasil.

As obras estão acontecendo, porém o custo está sendo financiado pela iniciativa privada. A expectativa é que a reforma seja encerrada até o final de 2021.

Covas também afirmou que o governo não fez nenhum investimento para o desenvolvimento da vacina. “Em nenhum momento a falta de recursos do governo federal emperrou a vacina. Não contamos com recursos federais”, disse. O repasse de verbas federais para o Butantan era praxe em governos anteriores.

O médico também destacou que a Fundação Oswaldo Cruz, ligada ao Ministério da Saúde, recebeu R$ 1,9 bilhão para acelerar a fabricação da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Esclarecimentos sobre efetividade


Durante o depoimento, Dimas Covas respondeu perguntas sobre a eficiência da Coronavac. O senador governista Eduardo Girão (Podemos-CE) afirmou ter recebido “diversos relatos” de pessoas que foram infectadas pelo coronavírus e que desenvolveram casos sérios da doença mesmo depois de terem recebido duas doses do imunizante.

Girão chegou a citar o nome do ator Stênio Garcia, da TV Globo, para ilustrar sua fala. Garcia realmente foi infectado, mas a contaminação ocorreu poucos dias depois da administração da segunda dose, quando o corpo ainda não tinha criado imunidade.

Covas explicou que nenhuma vacina impede a infecção, mas sim as manifestações clínicas da doença, e que fatores individuais de cada pessoa influenciam na reação do corpo ao vírus. O médico também ressaltou que há diferença entre percentuais de eficácia e percentuais de efetividade em uma vacina.

A eficácia garante o cumprimento do papel da vacina em um ambiente ideal, com variáveis controladas. É aquilo que é testado durante o desenvolvimento do imunizante, com pessoas saudáveis e que são completamente acompanhadas pelos pesquisadores. A eficácia geral da Coronavac é de 50,7%.

Já a efetividade é o desempenho da vacina no mundo real, quando não há a possibilidade de controle de variáveis e fatores individuais diversos entram em jogo. A efetividade da Coronavac entre idosos com mais de 70 anos vai de 61% a 28%, dependendo da idade. Dados sobre a efetividade em pessoas mais jovens ainda não foram divulgados.

nexojornal

Como o Brasil reage ao novo agravamento da pandemia

Governos locais já se preparam para um novo agravamento da pandemia no Brasil. Nos últimos dias de maio de 2021, algumas regiões do país voltaram a ter seus sistemas de saúde pressionados, levando ao endurecimento das medidas de isolamento social. Enquanto isso, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirma não haver riscos de uma nova onda de covid-19.

O Brasil viveu um grande platô de mortes diárias entre maio e setembro de 2020. Após uma pequena melhora no fim do ano, a doença causada pelo novo coronavírus voltou a matar com alta intensidade em 2021, chegando a seu ápice em abril. Agora, após a medida de mortes ter uma ligeira melhora, os dados apontam para um novo recrudescimento.

Entre ondas, platôs e repiques


Parte dos especialistas em saúde pública prefere não chamar a nova ameaça daquilo que seria a terceira onda da covid-19 no Brasil. Isso porque os números nunca caíram de forma significativa a ponto de caracterizarem o fim de uma primeira ou segunda onda. O país estaria vivendo, portanto, uma onda contínua, com momentos de repique.

Especialistas já alertavam para o risco de piora na crise sanitária por causa dos indicadores da pandemia anda muito elevados em maio. Com uma média móvel que ainda beira 2.000 óbitos por dia, o Brasil registra mais de 450 mil mortes pela covid-19 e pode alcançar meio milhão até julho.

Única medida capaz de interromper a circulação do vírus, a vacinação vem sofrendo uma desaceleração devido ao atraso no recebimento de insumos importados da China para a produção de imunizantes pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). A falta de doses, assim como as ações e omissões do governo, têm sido investigadas na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado.

À beira do colapso, municípios já decidiram fechar até mesmo os supermercados na tentativa de reduzir a circulação de pessoas. Outras cidades se preparam ampliando o número de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) — um levantamento do jornal Folha de S.Paulo publicado na quarta-feira (26) apontava que nove capitais e o Distrito Federal já apresentavam taxa de ocupação de leitos de terapia intensiva superior a 90%. A seguir, mostra qual vem sendo a reação da União, estados e municípios diante do risco de nova piora na pandemia.

Novos fechamentos das atividades


Um levantamento do portal G1 divulgado na quarta-feira (26) mostrou que 17 cidades das regiões de Ribeirão Preto e Franca, no interior de São Paulo, apertaram as restrições de circulação devido à pressão sobre o sistema hospitalar. Ao todo, vivem 1,4 milhão de pessoas no nordeste do estado.

Na região de Ribeirão Preto, a taxa de ocupação nas UTIs era de 92,3% na quarta-feira (26). Na de Franca, o índice chegava a 94,2%, e na de Barretos, a 97,4%. A partir de quinta-feira (27), o fechamento das atividades em Ribeirão inclui até os supermercados. As restrições valem até 31 de maio. Em Franca, onde as medidas duram até 10 de junho, as regras valem também para as farmácias, que só poderão fazer entregas. Nas duas regiões, o transporte público será suspenso.

Em Pernambuco, que tinha uma fila de espera para UTIs com mais de 300 pessoas até terça-feira (25), novas regras foram anunciadas pelo governo do estado para as regiões do Grande Recife, Agreste e Zona da Mata, com o fechamento de escolas, clubes, shoppings, praias e igrejas. Apenas serviços públicos e essenciais foram permitidos. Em parte dos municípios, as regras valem apenas aos fins de semana.

Em 19 de maio, o estado registrou o maior número de casos de covid-19 confirmados em 24 horas desde o início da pandemia. Foram 3.440 novos casos e 79 mortes pela doença num único dia.

A situação também se agravou no Paraná, onde a fila de espera por leitos de terapia intensiva já atingia, na terça-feira (25), 81% do pico registrado em março. Eram 577 pessoas aguardando uma vaga — em março, a fila chegou a ter 708 pacientes.

Por isso, a partir da sexta-feira (28), haverá um toque de recolher das 20h às 5h do dia seguinte. Durante a semana, o comércio não essencial pode funcionar das 9h às 18h, com 50% da capacidade. Nos domingos, todas as atividades, incluindo shoppings, restaurantes e academias, serão fechadas. As medidas valem por um período de 30 dias.

Preparados para o pior


Embora não tenha endurecido as regras, o governo de São Paulo decidiu recuar na flexibilização que vinha ocorrendo. A atual fase de restrições, que acabaria em 1º de junho, foi adiada até 14 do mesmo mês. A decisão se baseia na piora dos indicadores. Na segunda-feira (24), a taxa de ocupação de leitos de UTI voltou a ultrapassar 80%.

O número de novos casos de covid-19 também aumentou 8,3% em duas semanas, acompanhado de uma alta de 7,8% nas internações e de 4,6% nas mortes, segundo dados do governo paulista. Apesar dos indicadores, as autoridades de saúde do estado evitam falar numa terceira onda, assim como muitos especialistas em saúde.

Em entrevista na quarta-feira (26), Paulo Menezes, que é coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do estado, defendeu cautela nas decisões do governo para evitar pânico da população, que poderia entender que o país está diante de uma situação fora do controle.

“Temos reiterado aqui que há uma circulação importante do vírus. Ela se intensificou nas últimas duas semanas e de certa forma vimos o reflexo disso no aumento de casos e um aumento menor, proporcionalmente, de internações e óbitos, em relação ao aumento de casos. Pessoalmente, concordo com alguns colegas que dizem que não é muito produtivo ficarmos falando se é segunda ou terceira onda. Nós temos uma situação de alta circulação de vírus, é preciso intensificar os cuidados”- Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, em entrevista na quarta-feira (26).

Mais cedo, o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, defendeu em entrevista à TV Globo a adoção de medidas mais restritivas devido ao aumento de casos na capital paulista. Ele confirmou que a prefeitura se prepara para uma nova onda de covid-19.

“Há um aumento de casos já hoje na cidade depois daquele pico gigantesco que nós tivemos em março e abril com a P.1 [variante de Manaus], e nós estamos nos preparando exatamente para uma nova onda, que seguramente vai atingir todo o Brasil e não vai ser diferente aqui na cidade de São Paulo”- Edson Aparecido, secretário municipal da Saúde de São Paulo, em entrevista à TV Globo, na quarta-feira (26).

A prefeitura de São Paulo anunciou que deverá abrir nos próximos dias 250 novos leitos de UTIs. De sexta-feira (21) a segunda-feira (24), a taxa de ocupação das unidades que atendem pacientes com coronavírus pulou de 76% para 82%.

Já o governo estadual anunciou como medida para controlar a transmissão a distribuição, em junho, de 1 milhão de testes do tipo de antígeno, que apresentam o resultado em 15 minutos. A aplicação dos exames ficará a cargo dos municípios. A estratégia de testagem e isolamento de casos é defendida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde o início da pandemia, mas nunca foi amplamente utilizada no país.

Em Araraquara, cidade que ficou conhecida por ter adotado um fechamento rigoroso das atividades para controlar a doença ainda em fevereiro, a preparação para um recrudescimento na pandemia inclui mudança nos critérios para a suspensão do comércio não essencial.

Segundo as novas regras, haverá fechamento por sete dias caso a taxa de exames com resultado positivo para covid-19 passe de 20% de todos os testes feitos por três dias seguidos (ou cinco alternados dentro de uma semana). A retomada só irá acontecer se a taxa cair para 15% durante três dias seguidos.

Como o governo federal lida com a ameaça


Durante a pandemia, o Ministério da Saúde foi acusado de não liderar uma política nacional de combate ao novo coronavírus. Em seus discursos, o presidente Jair Bolsonaro ataca governadores e prefeitos por causa do fechamento do comércio. Também se opõe ao uso de máscara e às medidas de isolamento social ao participar de aglomerações. Ele já pediu para a população “enfrentar” a doença e disse que a contaminação de todos era inevitável.

Em relação ao provável agravamento da pandemia no país, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou na sexta-feira (21) que o governo não enxerga a aproximação de uma nova onda, embora tenha reconhecido que alguns estados e municípios voltaram a sofrer com hospitais lotados.

“Estamos numa pandemia, já tivemos a primeira onda, estamos reduzindo os óbitos nesta segunda onda, e todos temos que estar vigilantes a uma possível terceira onda, mas não estamos vislumbrando isso neste momento. E a maneira adequada de ser evitar a terceira onda é avançar na campanha de vacinação, e é isso que estamos fazendo”- Marcelo Queiroga, ministro da Saúde.

As medidas tomadas também são consideradas tardias. O governo federal decidiu suspender os voos com origem na Índia em 14 de maio, dez dias após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendar a medida devido ao aparecimento de uma nova variante mais contagiosa naquele país.

Na manhã de quarta-feira (26), o governo de São Paulo divulgou ter identificado o primeiro caso de um passageiro infectado com a variante que entrou no estado. O homem, de 32 anos, desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos em 22 de maio.

O governo disse, porém, só ter sido notificado do caso pela Anvisa, que é responsável pelo monitoramento do aeroporto, quando o passageiro já havia embarcado em voo doméstico para o Rio de Janeiro. Ele mora em Campos dos Goytacazes. A vigilância sanitária no Rio foi notificada para acompanhar o caso e evitar novas transmissões.

Seis casos já haviam sido confirmados em meados de maio. São passageiros que chegaram ao Maranhão a bordo de um navio chinês atracado no litoral do estado. No domingo (23), Queiroga foi ao Maranhão para acompanhar a situação. Ele anunciou o envio de 600 mil testes rápidos de antígeno para o estado e 300 mil doses a mais de vacinas, 5% a mais do que já estava previsto. Outros três casos são investigados no Distrito Federal, Espírito Santo e Minas Gerais.

nexojornal

O impacto da suspensão da produção de vacinas no Brasil

Os laboratórios brasileiros que produzem as duas principais vacinas contra a covid-19 usadas pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações) anunciaram a suspensão do envase dos imunizantes no país por falta de matéria-prima importada da China. A paralisação tem impacto no ritmo da campanha de vacinação, que já vinha caindo. Mais da metade dos estados suspenderam a aplicação das doses por falta de vacinas.

O Instituto Butantan, que fornece a Coronavac, interrompeu a produção desde a sexta-feira (14). Segundo o governador de São Paulo, João Doria, o problema se deveu a um “entrave diplomático, fruto de declarações inadequadas, desastrosas feitas pelo governo federal contra a China”. “Isso gerou um bloqueio por parte do governo chinês para a liberação do embarque desses insumos”, afirmou.

70%

das doses contra a covid-19 aplicadas no Brasil até a segunda-feira (17) eram da vacina da Sinovac, produzidas pelo Butantan

No começo de maio, durante uma cerimônia em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro sugeriu que o novo coronavírus havia sido criado em laboratório pela China para fins de uso militar numa suposta “guerra química”. O governo chinês respondeu dizendo que se opunha à “politização e estigmatização do vírus”. Para tentar minimizar o estrago da declaração, o Itamaraty disse que o Brasil deveria “louvar” a China.

Tanto o Butantan quanto a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que é ligada ao Ministério da Saúde e produz a vacina de Oxford no Brasil, dependem da importação do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) da China. No caso do Butantan, havia um lote com 10 mil litros de IFA parado na China, aguardando a liberação, segundo o governo paulista. Esse lote seria suficiente para produzir 18 milhões de doses da Coronavac.

Na segunda-feira (17), Doria publicou em suas redes sociais que o Butantan recebeu a previsão do governo chinês da chegada de 4.000 litros de insumos em 26 de maio, quantidade capaz de produzir 7 milhões de doses — apenas parte do anunciado. Mesmo com essa previsão de entrega, o instituto ficaria ao menos duas semanas parado.

Os atrasos fizeram o laboratório reduzir de 12 milhões para 5 milhões a estimativa de fornecimento de vacinas para o governo federal em maio. Presidente do Butantan, Dimas Covas disse que o cronograma só poderia ser cumprido se os insumos chegassem “muito rapidamente”.

O atraso na Fiocruz


Uma das instituições mais afetadas pelos atrasos nas entregas de IFA, a Fiocruz ter matéria-prima para manter a produção até meados desta semana, iniciada no domingo (16). A fundação afirmou que iria interromper a produção “por alguns dias” e que não sabia se isso poderia ter impacto na entrega de doses, que vem sendo feita semanalmente.

“Por conta do rápido escalonamento de produção que a Fiocruz atingiu, as remessas de IFA vêm sendo consumidas antes do tempo previsto inicialmente, e será necessário interromper a produção na próxima quinta-feira (20) até a chegada do novo lote de insumo”, disse a instituição, em nota divulgada na segunda-feira (17).

Segundo a instituição, possíveis impactos na distribuição dos imunizantes ainda seriam avaliados e “comunicados mais à frente”.

Em audiência no Congresso, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, afirmou, também na segunda-feira (17), que o governo brasileiro recebeu a confirmação do embarque, no próximo dia 21, de dois lotes de insumos para a Fiocruz (o lote previsto para 29 de maio foi antecipado e chegaria junto). A quantidade é suficiente para produção de cerca de 12 milhões de doses, segundo a instituição.

Ao todo, a fundação já entregou para o PNI cerca de 35 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, das quais 4 milhões haviam sido importadas prontas da Índia. Ainda em maio, a instituição prevê começar o início da produção do IFA no Brasil, o que acabaria com a dependência de importação do insumo.

As primeiras vacinas inteiramente nacionais, porém, só começariam a ser entregues em outubro. “O processo passa por muitas etapas de produção de lotes e de controle de qualidade até podermos entregar ao Programa Nacional de Imunizações as vacinas produzidas em Bio-Manguinhos, na Fiocruz”, afirmou em entrevista à CNN Brasil, no começo de maio, a presidente da fundação, Nísia Trindade Lima.

Redução no ritmo de imunização


A vacinação no país sofreu uma redução nas duas primeiras semanas de maio, segundo dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa. Na semana de 9 a 14 de maio, foram aplicadas 726 mil doses por dia, em média. Na última semana de abril, a média diária havia chegado a 880,9 mil.

Uma estratégia equivocada do Ministério da Saúde divulgada pelo ex-ministro Eduardo Pazuello, ainda em março, fez com que estados e municípios ficassem sem as vacinas necessárias para a aplicação das segundas doses. A orientação, à época, era que os governos aplicassem todo o estoque disponível para acelerar a campanha. Como houve atrasos nas entregas, muitas regiões ficaram sem vacinas para a segunda dose por não ter feito as reservas.

Mais da metade dos estados brasileiros já havia suspendido a aplicação de imunizantes por falta de vacinas. O problema atingia 15 estados, entre os quais Minas Gerais, onde apenas 23 dos 853 municípios estavam conseguindo cumprir os prazos até a sexta-feira (14). Em Belo Horizonte, a prefeitura só conseguia aplicar a segunda dose nas pessoas com 67 anos ou mais.

Os riscos da paralisação


O atraso no fornecimento de mais vacinas e a lentidão da campanha de imunização preocupam devido aos riscos de uma terceira onda de covid-19. O número de casos em todo o país apresenta estabilização num patamar considerado ainda muito alto. No domingo (16), a média móvel de mortes voltou a subir depois de 15 dias em queda. O Brasil ainda beira a média de 2.000 óbitos diários pelo coronavírus.

Em texto publicado no jornal O Estado de S.Paulo, no sábado (15), a epidemiologista Ethel Maciel, que é professora da Universidade Federal do Espírito Santo, escreveu que o atraso na produção impacta “na transmissão da doença, no alívio dos sistemas de saúde” e, principalmente, “na proteção da vida”. “Significa colocar mais pessoas em risco”, afirmou.

Segundo ela, a redução no ritmo da vacinação, a falta de um programa de testagem em massa e de um lockdown nacional que reduziria a circulação do vírus colocam o país numa “situação crítica”. A flexibilização das medidas restritivas e a queda na vacinação empurram o país para uma terceira onda no inverno, de acordo com a epidemiologista. Com início em junho, o inverno é a época do ano com maior circulação de vírus respiratórios.

Para os especialistas, a dúvida não é mais se o país terá uma terceira onda, mas quando ela irá acontecer. Em entrevista ao jornal Nexo no final de abril, a doutora em saúde pública Suzana Pasternak, que é professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, apontou justamente a lentidão da vacinação no país como um fator para que uma nova onda possa ocorrer.

“Nós temos ainda um estoque grande de gente não vacinada, infelizmente. Elas têm chance de se infectar, não quer dizer que vão ser. Eu não sei se elas não foram infectadas ainda porque são imunes, ninguém sabe. Em Manaus, depois da primeira onda, a gente tinha achado que a cidade estava livre porque todo mundo que deveria morrer, morreu. E teve uma segunda onda tenebrosa”, disse.

nexojornal

FOTO: DIEGO VARA/REUTERS – 12.MAI.2021

A queda do Brasil no ranking de liberdade de imprensa

O Brasil atingiu em 2021 sua pior colocação no ranking de liberdade de imprensa elaborado pela ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras desde que esse sistema de monitoramento foi criado, em 2002.

Sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, o país caiu quatro posições e passou a constar na “zona vermelha”, composta por países nos quais “a situação da imprensa é considerada difícil” e o trabalho jornalístico é desenvolvido em “ambiente tóxico”.

111ª

é a posição que o Brasil ocupa no ranking de liberdade de expressão da Repórteres Sem Fronteiras, entre 180 países monitorados

O ranking classifica, por cores, cinco diferentes zonas: branca, amarela, laranja, vermelha e preta. A “zona vermelha”, da qual o Brasil passa a fazer parte, tem outros 51 países, entre os quais estão Mianmar (que sofreu um golpe de Estado em fevereiro de 2021), Afeganistão (país há 20 anos em guerra) e Rússia (onde o presidente Vladimir Putin está há 21 anos ininterruptos no poder).

Faz quatro anos que o Brasil piora sua posição no ranking. A queda teve início em 2018, durante a gestão do presidente Michel Temer (2016-2018), e se acentuou desde então. No relatório anterior – publicado em 2020, com o resultado do monitoramento feito em 2019, já durante a gestão de Bolsonaro – o Brasil já havia caído duas posições. No relatório mais recente, publicado nesta terça-feira (20), caiu quatro posições e, pela primeira vez, passou a frequentar a “zona vermelha”, que só não é pior que a “zona preta”.

O papel de Bolsonaro


Em seu relatório, a organização diz que “insultos, estigmatização e orquestração de humilhações públicas de jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente [Bolsonaro], de sua família e sua entourage [seu entorno]”.

Bolsonaro diante de microfones, cercado por repórteres, no Planalto
FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 25.05.2019-PRESIDENTE JAIR BOLSONARO FALA COM JORNALISTAS NO PALÁCIO DO PLANALTO


A Repórteres Sem Fronteiras nota que essa situação tornou-se ainda mais grave durante a pandemia que, até esta terça-feira (20), já havia deixado mais de 374 mil mortos e quase 14 milhões de contaminados no país.

Os ataques de Bolsonaro aos jornalistas “dobraram de intensidade desde o início da pandemia de coronavírus”, diz o relatório. “O presidente contribuiu para disseminar informações falsas – por exemplo, sobre o uso de ivermectina, vermífugo cuja eficácia no combate ao coronavírus nunca foi comprovada e que foi desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde –, criticou medidas de isolamento social e causou aglomerações, desrespeitando as medidas sanitárias, o que fez com que fosse censurado pelo Facebook e pelo Twitter”, registra a ONG.

Piora na democracia em geral


A piora no indicador de liberdade de imprensa durante o mandato de Bolsonaro é parte de uma deterioração mais ampla da democracia no país, como um todo. O relatório Variações da Democracia, elaborado pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, publicado em março de 2021, já havia mostrado que o Brasil foi o quarto país do mundo que mais se afastou da democracia em 2020. Apenas Polônia, Hungria e Turquia foram piores.

Existem muitos rankings de liberdade e democracia, elaborados com diferentes critérios, por diferentes organizações. Classificações como essas são meramente indicativas e não trazem consequências automáticas em instâncias judiciais. Elas são, no entanto, um termômetro que goza de credibilidade e influencia as políticas dos diferentes Estados e organizações internacionais em relação a um determinado país.

No ranking da ONG do centro de estudos americano Freedom House, por exemplo, o Brasil é um país considerado “livre”, no qual existem “eleições competitivas” e onde a “arena política, embora polarizada, é marcada por um vibrante debate público”.

A Freedom House coincide com a avaliação da ONG Repórteres Sem Fronteiras, no entanto, de que “os jornalistas independentes e os ativistas da sociedade civil correm o risco de sofrer assédios e ataques violentos” no país.

Há três classificações possíveis no ranking da Freedom House: livre, parcialmente livre e não livre. Na América do Sul, Brasil, Chile, Argentina e Uruguai são “livres”. A Venezuela é “não livre”, enquanto Peru, Equador, Bolívia, Colômbia e Paraguai são “parcialmente livres”.

Alguns governos também produzem seus próprios relatórios anuais. O Departamento de Estado americano, por exemplo – que é o Ministério das Relações Exteriores dos EUA –, publicou no fim de março o seu próprio documento. Nele, diz que Bolsonaro “nem sempre respeitou” a liberdade de imprensa no Brasil.

A liberdade de imprensa é parte do direito mais amplo à liberdade de expressão, garantida no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sua existência é considerada fundamental para a proteção de diversos outros direitos, por meio do trabalho de fiscalização do poder público que os jornalistas realizam, como explicou o assessor regional de Comunicação e Informação da Unesco, órgão das Nações Unidas para Educação e Cultura, Guilherme Canela, em entrevista ao jornal Nexo sobre esse tema, em outubro de 2018.

O governo brasileiro não reagiu especificamente aos relatórios que citam a deterioração da liberdade de expressão no país. Desde pelo menos a campanha presidencial de 2018, Bolsonaro coleciona ameaças, ofensas e intimidações contra a imprensa. Para o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, doutor em comunicação e ex-presidente da Radiobras, a atitude do presidente não é comparável a de nenhum outro presidente no período da redemocratização.

nexojornal

Brasil bate novo recorde com 3.650 mortes por Covid-19 em 24h

O Brasil bateu nesta sexta-feira (26) novo recorde e registrou 3.650 mortes por Covid-19 em 24 horas, de acordo com o levantamento do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). 

Com a atualização, o país chegou a 307.112 vítimas da doença. Essa é a segunda vez que o país tem mais de 3 mil óbitos em um só dia, a primeira foi na última terça-feira (23).

Também foram confirmados mais 84.245 casos, totalizando 12.404.414 desde o início da pandemia. 

Os números podem ser ainda maiores, já que os dados do Ceará não foram atualizados por problemas técnicos no acesso à base de dados. 

Para tentar conter essa que é a pior fase da pandemia no país, começou nesta sexta o recesso de dez dias na cidade de São Paulo e no estado do Rio de Janeiro. O estado paulista também registrou recorde de mortes em 24 horas, com 1.193 novas vítimas da doença. 

Na manhã desta sexta, o governador do estado, João Doria (PSDB) anunciou uma potencial vacina contra Covid-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan, que vai pedir à Anvisa a autorização para conduzir os testes clínicos dessa iniciativa 100% nacional. 

Chamada de Butanvac, ela usa uma tecnologia similar à vacina da gripe e pode requerer apenas uma dose. De acordo com Doria, ela já pode começar a ser aplicada em julho deste ano.

Poucas horas depois, o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, anunciou que uma vacina financiada pela pasta protocolou o mesmo pedido na última quinta (25). A Versamune-CoV-2FC é desenvolvida pela USP (Universidade de São Paulo) em conjunto com a empresa brasileira Farmacore e a norte-americana PDS Biotechnology.  Segundo ele, o anúncio no mesmo dia foi “coincidência”. 

Até o momento, 14,4 milhões de brasileiros receberam a primeira dose e 4,5 milhões, a segunda, necessária para ser considerado imunizado. Os números correspondem a 6,8% e 2% da população, respectivamente. 

cnnbrasil

Quando a vacinação deve começar a frear a pandemia no Brasil

Caso os laboratórios brasileiros da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e do Instituto Butantan consigam entregar a produção máxima de vacinas contra a covid-19 previstas em seus cronogramas, o Brasil deve vacinar todos os profissionais de saúde e os idosos acima dos 60 anos ainda em abril. Cerca de um mês depois, a imunização deve começar a ter um efeito expressivo sobre o número de mortes, ajudando a desafogar os hospitais.

Dos atuais 2.300 óbitos por dia, a média móvel no país deve ficar abaixo de mil mortes diárias ainda em maio, graças à vacinação. A estimativa consta de um estudo da Impulso Gov, uma organização não governamental que tem como objetivo ajudar estados e municípios a coletar e a analisar dados dos serviços de saúde.

No estudo, usado pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) para defender a adoção de um lockdown nacional para frear os casos antes do efeito da imunização, a ONG recorreu a 12 bases de dados públicas e informações do Ministério da Saúde obtidas por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação). A partir disso, traçou três possíveis cenários da vacinação no país.

“A gente estimou o número de pessoas em cada grupo prioritário, sabe quantas doses precisa e quantas doses vai ter em cada mês. A partir disso, a gente distribui as doses pelos grupos. Por esse cenário que conta apenas com a produção nacional, a gente deve conseguir vacinar até o final de abril todos os idosos acima de 60, que já é uma parte da população com ao menos uma comorbidade. A gente começaria a ter um efeito [no número de mortes] no final de maio”, disse ao jornal Nexo o coordenador de dados da Impulso Gov, Marco Brancher.

O plano de imunização contra a covid-19 do governo federal considera 29 grupos como sendo prioritários na fila da vacinação, como idosos, profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, professores, militares e caminhoneiros. Ao todo, segundo o governo federal, são 77,2 milhões de pessoas. O estudo eliminou a duplicidade, ou seja, incluiu na relação apenas uma vez um idoso que é ao mesmo tempo professor, por exemplo. Por isso, considerou 73,7 milhões de pessoas na estimativa.

Os possíveis cenários

  • COM O CRONOGRAMA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

O plano de vacinação federal prevê a distribuição para estados e municípios de 562 milhões de doses ao longo de 2021, o suficiente para vacinar toda a população de 210 milhões de habitantes. Entre as opções, estão as vacinas da Pfizer/BioNTech, Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson, a única que necessita de apenas uma dose), a Sputnik V, a Covaxin (da indiana Bharat Biotech), além de doses recebidas pelo consórcio Covax Facility e as de Oxford importadas da Índia. Mas muitas dessas vacinas não têm aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e apenas em março, o governo mudou seis vezes o cronograma. Devido ao alto risco de atraso nos contratos, negociações e importações, pela alta demanda global, o estudo considera o cenário improvável, e por isso não discute as metas. “O mais provável é que nos próximos meses tenhamos um cronograma de vacinação consideravelmente mais lento do que o previsto pelo Ministério da Saúde, por falta de doses (não por capacidade de distribuir e vacinar)”, diz o estudo.

  • COM AS DOSES PRODUZIDAS NO PAÍS

Desde março, o país conta com as doses da vacina de Oxford em parceria com a AstraZeneca, produzida no Brasil pela Fiocruz. Elas se somam às doses da Coronavac disponibilizadas pelo Instituto Butantan, que respondiam por 83% de todas as vacinas entregues aos estados até quinta-feira (25). Caso os laboratórios nacionais cumpram o cronograma, as 39 milhões de doses entregues em abril seriam suficientes para vacinar todos os profissionais de saúde e idosos acima de 60 anos, segundo o estudo, que considera esse o cenário mais provável. Caso só essas doses estejam acessíveis, todos os adultos seriam vacinados apenas em dezembro.

  • COM METADE DA PRODUÇÃO NACIONAL

O estudo também traça um cenário mais conservador, em que apenas metade da produção nacional seria entregue. Mesmo assim, a cobertura atingiria as populações mais vulneráveis em alguns meses. Os idosos acima de 60 anos e profissionais de saúde seriam imunizados até junho, e toda a população adulta só receberia as duas doses em 2022.

O impacto nas mortes


Segundo o estudo, vacinar a população acima dos 60 anos já teria impacto porque, no Brasil, cerca de 70% das mortes por covid-19 acontecem entre idosos, mesmo que em março, em algumas regiões, os jovens sejam metade dos internados pela doença.

“A gente não precisa atingir a imunidade de rebanho para começar a ver quedas de óbitos. A população vacinada não é imune ao vírus, ela pode contrair e transmitir, mas só vai ter os efeitos mais leves da doença. Então, provavelmente, essa pessoa não vai ser internada e, quase com certeza, não vai morrer. A gente não tem registro de nenhum óbito por covid de pessoas vacinadas ainda”- Marco Brancher, coordenador de dados da Impulso Gov.

Mesmo no pior cenário (Fiocruz e Butantan entregam apenas metade da produção), em maio, a média móvel (que considera os sete dias anteriores ao cálculo) de mortes deve ficar abaixo de mil óbitos por dia. No final de março, ela era de 2.300 mortes diárias no Brasil.

370 mil

mortes por covid-19 serão evitadas no Brasil até o final de 2021 devido à vacinação no pior cenário, com metade da produção nacional, segundo o estudo da Impulso Gov

O estudo considera ainda que, caso a redução de mortes seja homogênea em todos os municípios do país, a pressão sobre o SUS (Sistema Único de Saúde) deve ser menor em abril em comparação ao mês anterior. Para os pesquisadores, porém, até que se chegue a esse quadro, é necessário que os governos tomem medidas mais duras de restrição de circulação de pessoas.

A defesa do lockdown


Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo na quinta-feira (25) por João Moraes Abreu, diretor executivo da Impulso Gov, Marco Brancher, coordenador de dados da ONG, Carlos Lula, presidente do Conass e secretário de Saúde do Maranhão, e Marcia Castro, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, os autores defendem que um lockdown seja adotado imediatamente no país, por 30 dias, até para garantir os efeitos da vacinação.

O lockdown implica no fechamento das atividades não essenciais e no confinamento da população, que só pode sair de casa com justificativas como ir ao hospital ou à farmácia. É um modelo pouco adotado no Brasil.

Segundo os autores, caso a transmissão do vírus não seja controlada, há o risco de novas variantes mais transmissíveis do vírus surgirem, como já ocorreu em Manaus. Essas variantes podem escapar da proteção garantida pelas vacinas atualmente em uso. O número descontrolado de casos também manteria os hospitais em colapso, impedindo o atendimento até mesmo de pessoas com problemas além da covid-19, o que pode aumentar ainda mais o número de mortes.

Os autores escrevem ainda que, quanto mais a curva de mortes sobe, mais difícil fica para baixá-la. “Já atingimos 3.000 óbitos em um único dia. Se este número não cair já, não ficaremos abaixo de 1.000 óbitos nem em maio, mesmo com a vacinação”, escrevem. Para eles, mesmo uma média móvel abaixo de mil mortes ainda é um número inaceitável.

“Se a gente olhar para qualquer país que implementou medidas mais rígidas desde o começo da pandemia, como Portugal, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, todos eles tiveram políticas públicas voltadas para atender as pessoas que estavam ficando desamparadas, seja por programas de renda mínima emergencial, de crédito para empresas ou de isenção de impostos. Tem um menu disponível. Se a gente não tiver nenhuma medida econômica, a gente sabe que, por mais que seja absolutamente necessário adotar o lockdown, ele acaba sendo inviável na prática”, afirmou Brancher.

Pesquisadores como o neurocientista Miguel Nicolelis, que coordenou o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a covid-19, estimam que o Brasil pode alcançar 500 mil mortes em julho caso medidas restritivas não sejam adotadas imediatamente. Brancher diz que o cenário é possível se os índices de mobilidade continuarem no patamar de março. “Não sei se até o meio do ano, mas com certeza até o final do ano é bem possível que a gente atinja esse número espantoso”, afirmou.

nexojornal

Entidades imploram à ONU medidas para proteger a vida das pessoas

A AJD (Associação Juízes para a Democracia) e 25 entidades da sociedade civil pediram socorro, nesta quinta-feira (25), à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e ao Tribunal Penal Internacional, diante do caos instalado no país.

Em “Carta Aberta à Comunidade Internacional“, os subscritores cobram dessas instâncias internacionais manifestações “a fim de obrigar a tomada de medidas que protejam a vida de brasileiras e brasileiros por parte do Governo Federal e do Parlamento brasileiro”.

“As ações e as omissões do governo federal e do Parlamento brasileiro, que não processa os mais de sessenta pedidos de impeachment, nem legisla estabelecendo medidas de proteção à vida, resultam diretamente na morte de cerca de 3.000 brasileiras/os por dia”, afirma a carta.

A AJD e outras entidades já haviam protocolado petições, sem que até o momento tenham prosseguido os processos de investigação.

“Estima-se que em julho de 2021 o Brasil alcançará 500.000 mortes. Esse número avassalador não é decorrência necessária da pandemia, mas sim dessa política que nega a ciência e expõe a população à morte”, afirma o documento.

Leia a íntegra da carta

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CARTA ABERTA À COMUNIDADE INTERNACIONAL

A população brasileira é alvo de uma política de morte.

Enquanto a maior parte do mundo adota medidas para a proteção de suas populações, promovendo vacinação, impondo isolamento social, efetuando o pagamento de renda mínima e produzindo campanhas de esclarecimento sobre a importância do uso de máscara e álcool gel, no Brasil, o presidente da República faz o exato contrário.

Estimula aglomerações, dificulta a compra e a distribuição de vacinas, questiona o uso de máscara como medida de prevenção à contaminação, incentiva o uso de medicamentos contraindicados por robustos estudos já publicados pela comunidade científica. Além disso, promove um ambiente de perseguição e constrangimento aos pesquisadores e instituições brasileiras que promovem o conhecimento científico necessário ao enfrentamento dos graves problemas decorrentes da pandemia.

Institucionalmente, o governo federal age, ainda, tentando impedir que governadores e prefeitos tomem medidas de proteção contra a disseminação do vírus, mesmo ciente de que o sistema de saúde no Brasil entrou em colapso.

As ações e as omissões do governo federal e do Parlamento brasileiro, que não processa os mais de sessenta pedidos de impeachment, nem legisla estabelecendo medidas de proteção à vida, resultam diretamente na morte de cerca de 3.000 brasileiras/os por dia.

Estima-se que em julho de 2021 o Brasil alcançará 500.000 mortes. Esse número avassalador não é decorrência necessária da pandemia, mas sim dessa política que nega a ciência e expõe a população à morte.

No atual momento, pela primeira vez em sua existência, o Sistema Único de Saúde, que atende a todas as brasileiras e brasileiros, está próximo de atingir o seu colapso em todo país.

Os gestores dos hospitais públicos e privados informam diariamente que os estoques de oxigênio para as pessoas internadas não é suficiente e que em cerca de 15 dias acabarão os medicamentos necessários para proceder às entubações. Corpos são empilhados e pessoas aguardam em longas filas para certificar as mortes.

O caos está instalado.

Em um país continental como o Brasil, no qual está situada a principal floresta responsável pela continuação da vida humana na terra, isso significa uma catástrofe humanitária e ambiental de proporções mundiais.

Já há estudos demonstrando o comprometimento do lençol freático em razão dos enterros produzidos em larga escala, em face dessa assustadora mortalidade. A circulação de pessoas para outros países, diante das mutações mais agressivas apresentadas pelo SARS-COV 2, pode significar a repetição da realidade brasileira em outros lugares do mundo.

A gestão deliberadamente adotada em nosso país pode comprometer, concretamente, a continuidade da vida humana na Terra.

Inúmeras denúncias foram realizadas internamente, mas esbarram no sistema de apoio político organizado junto aos órgãos de fiscalização e ao Poder Legislativo, o que motivou a AJD e diversas outras entidades da sociedade civil a tomarem medidas no âmbito do sistema internacional de  proteção aos Direitos Humanos.

Diversas petições foram protocoladas junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e ao Tribunal Penal Internacional, sem que até o presente momento tenha sido dado prosseguimento aos processos de investigação ou fossem tomadas medidas para a efetiva proteção à vida das pessoas em nosso país.

Diante desse cenário catastrófico, exasperadas e indignadas com a inércia de nossas instituições, no limite de nossas forças diante da violência  institucional representada por essa gestão para a morte, as organizações e entidades abaixo assinadas, em AUTÊNTICO PEDIDO DE SOCORRO, SUPLICAM que as instâncias internacionais de regulação dos Direitos Humanos se manifestem de imediato em relação aos pedidos já formulados, a fim de obrigar a tomada de medidas que protejam a vida de brasileiras e brasileiros por parte do Governo Federal e do Parlamento brasileiro.

Associação Juízes para a Democracia – Valdete Souto Severo, Presidenta.

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Também subscrevem esse documento:

– Associação Americana de Juristas Rama Brasil (AAJ)

– Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO)

– Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET)

– Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD)

– Associação Brasileira de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (ABRASTT)

– Associação Brasileira dos Terapeutas Ocupacionais (ABRATO)

– Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES)

– Comissão Brasileira de Justiça e Paz/CNBB

– Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito

– Comitê Panamericano de Juízas e Juízes para os Direitos Sociais e Doutrina Franciscana – COPAJU

– Departamento de Saúde Coletiva – Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (DSC/FCM/Unicamp)

– Fórum Acidentes do Trabalho (FÓRUMAT)

– Frente Ampla em Defesa da Saúde de Trabalhadores (em representação de 54 instituições e movimentos sociais)

– Grupo de Estudos TRAGES (Trabalho, Gestão e Saúde/UFG)

– Grupo de Extensão e Pesquisa Trabalho e Saúde Docente (TRASSADO/UFBA)

– Grupo de Trabalho Saúde do Trabalhador (DVRT/PAIR), da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (GT-ST/SBFa)

– Instituto Trabalho Digno (ITD)

– Laboratório Interinstitucional de Subjetividade e Trabalho (LIST) –

– Departamento de Psicologia (DPI) – Universidade Estadual de Maringá (UEM)

– Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST)

– Observatório Sindical Brasileiro – Clodesmidt Riani (OSBCR)

– Pastoral Operária (PO)

– Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação (PPG-REAB/UFBA)

– Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho (PPSAT/UFBA)

– Rede Irerê de Proteção à Ciência

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Brasil quer sondar EUA sobre vacinas prontas estocadas em fábrica da AstraZeneca

O Brasil vai tentar conseguir cerca de 10 milhões de doses prontas que diz estarem estocadas em fábrica da AstraZeneca nos Estados Unidos, segundo o governador do Piauí e representante do Fórum Nacional de Governadores, Wellington Dias.

Em entrevista coletiva ao lado do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, ele afirmou que está sendo discutido com o Itamary uma consulta aos americanos sobre a possibilidade de importação dessa remessa, já que eles não estão aplicando a vacina desenvolvida pelo laboratório e pela universidade de Oxford na sua população.

“Há um laboratório da AstraZeneca nos EUA. Nós tratamos desse aspecto com o Itamaraty, com a diplomacia brasileira, para que possamos consultar, porque o que sabemos é que há vacina pronta em estoque”, disse Dias nesta segunda (8) em Bio-Manguinhos, a fábrica da Fiocruz no Rio de Janeiro.

“Como não está sendo utilizada a AstraZeneca nos Estados Unidos, que eles possam, pela conjuntura brasileira, ceder a venda para o Brasil. São 10 milhões de doses ou mais que estariam disponíveis. Porque também os EUA adotaram uma medida de proibir exportação para suprir sua necessidade. Essa é uma situação mundial”, continuou.

O Brasil não é o único que está de olho nessas doses. Neste sábado (6), o jornal “Financial Times” divulgou que a União Europeia também pediria aos americanos que permitissem a exportação de vacinas e que garantissem o fluxo livre de embarques de insumos para o continente.

“Acreditamos que podemos trabalhar junto com os EUA para garantir que as vacinas produzidas ou envasadas nos EUA para o cumprimento das obrigações contratuais dos produtores de vacinas com a UE sejam honradas”, disse a Comissão Europeia segundo a publicação.

atraso na importação de doses prontas da Índia previstas para março também se deu porque os indianos decidiram proibir as exportações de imunizantes, disse o ministro Pazuello. São esperadas 12 milhões de doses no total, das quais 4 milhões já foram entregues. O restante era esperado em março e abril, mas agora é aguardado só para os meses de abril a julho.

Essa iniciativa não constava inicialmente nos planos da Fiocruz, mas foi uma alternativa para compensar o atraso na produção nacional com o IFA (insumo farmacêutico ativo) da China, que demorou a chegar. As doses vêm do Instituto Serum, um dos centros de produção vinculados à AstraZeneca na Índia.

“Esse laboratório vem fazendo uma postergação na entrega”, afirmou Pazuello nesta segunda. “Vamos ter que fazer uma pressão política, diplomática e até pessoal junto à AstraZeneca para que cobre do laboratório Serum que ele cumpra a entrega dos 8 milhões que faltam. Nesse momento a Índia como país dificultou o processo porque proibiu a exportação”, declarou.

“Então os países no mundo estão variando suas posições diplomáticas e comerciais porque o troço realmente é instável. E é por isso que nós estamos falando de produção nacional. Se nós não tivermos produção nacional como temos hoje no Butantan e na Fiocruz, nós não vamos ter como vacinar em massa o nosso país”, acrescentou.

FIOCRUZ INICIA PRODUÇÃO EM LARGA ESCALA

Nesta segunda (8) a Fiocruz anunciou o início de sua produção em larga escala com o insumo comprado da China, após ter concluído os lotes de validação e controle de qualidade. A partir de agora, diz a fundação, não haverá interrupção na fábrica.

Uma série de atrasos afetaram as entregas. Inicialmente eram esperados 15 milhões de doses envasadas nacionalmente em março, mas agora a fundação só deve enviar 3,8 milhões. Questionado, o diretor de Bio-Manguinhos, Maurício Zuma, afirmou que “tem uma série de variações no processo”.

“A gente anunciou 15 milhões de doses com base nas informações que a gente tinha no momento. Na medida que a gente vai internalizando o processo, a gente vai conhecendo melhor os rendimentos de produção. É uma tecnologia nova, então a cada dia a gente aprende um pouco”, disse.

Um dos fatores que atrapalharam foi um problema no equipamento que fecha os frascos, chamado de máquina de recravação. Ele disse que isso “impactou um pouco” no cronograma porque foi preciso esperar uma semana até que o aparelho fosse consertado e novamente validado.

“Em situação normal isso acontece, só não aparece porque no cotidiano não há essa pressão por doses a cada dia”, explicou, acrescentando que na produção de vacinas não se pode trabalhar ininterruptamente “porque tem dias que é preciso paralisar para fazer a limpeza de todo o processo, para evitar contaminações”.

A capacidade de envasamento da Fiocruz atualmente é de 250 a 300 mil doses, mas até o fim do mês deve passar para 1 milhão. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ainda tem que aprovar o processo de produção nacional com o IFA importado, o que está previsto até o fim desta semana.


CRONOGRAMA DA FIOCRUZ

  • Janeiro: 2 milhões importadas da Índia (entregues)
  • Fevereiro: 2 milhões importadas da Índia (entregues)
  • Março: 3,8 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Abril: 30 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Maio: 25 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Junho: 25 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Julho: 16,6 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Estão previstas mais 8 milhões de doses importadas da Índia
  • Total: 112 milhões até julho, e mais 110 milhões com produção 100% nacional até o fim do ano

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