Copa América trouxe nova variante do coronavírus para o Brasil

Sequenciamento genético identificou dois casos de cepa inédita no país

A realização da Copa América no Brasil trouxe pelo menos uma nova variante do coronavírus para o país. O sequenciamento genético de amostras (processo para identificação das cepas do vírus), feito pelo Instituto Adolfo Lutz, identificou dois casos da variante B.1.621 entre 12 exames realizados.

A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo, e confirmada pela Folha.

As variantes foram identificadas no estado do Mato Grosso. Elas foram enviadas ao Adolfo Lutz no último dia 6, e o resultado saiu no último sábado (10) —antes disso, o instituto não havia trabalhado com casos relacionados à Copa América.

Dos 12 sequenciamentos feitos, os outros 10 identificaram a variante gama, aquela que foi encontrada pela primeira vez no estado do Amazonas.

Folha revelou que, até a última quinta-feira (8), apenas a cepa gama tinha sido encontrada nos exames feitos para a Copa América. Porém, pesquisadores já alertavam para a falta de transparência nas informações epidemiológicas divulgadas pela Conmebol.

O estado do Mato Grosso hospedou as seleções do Equador e da Colômbia, país onde o tipo B.1.621 foi identificado pela primeira vez.

Pela falta de estudos realizados até agora, essa variante é classificada pela Organização Mundial da Saúde como em alerta para mais monitoramento.

Os indícios apresentam modificações nas posições 484 e 501 da proteína chamada Spike. Tais particularidades podem estar associadas a um maior potencial de transmissão, mas para se ter certeza, mais investigações são necessárias.

“Ainda é cedo para tal afirmação. As mutações na proteína Spike são características que podem estar associadas a maior transmissibilidade, dependendo da posição”, explica Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia.

Ele reclama da demora para se identificar a nova variante, o que impede a realização de um estudo mais profundo sobre sua disseminação no Brasil.

“O atraso na divulgação desses resultados faz a vigilância genômica perder um pouco o sentido. O problema é que quando o caso em questão foi inicialmente identificado, não se sabia que se tratava da variante B.1.621 e, com isso, a fonte de infecção e a rede de contatos podem não ter sido exaustivamente rastreados para evitar eventual dispersão, não apenas entre brasileiros, mas também entre pessoas de outros países, fomentando o ‘troca troca’ de variantes com pessoas de outras regiões da América do Sul”, afirmou Orellana.

Questionada, a secretaria de saúde do Mato Grosso afirmou que as amostras chegaram ao laboratório central do estado no dia 23, mas não informaram quando elas foram coletadas, tampouco deu mais detalhes acerca do paciente.

“Não se sabe onde esse caso se infectou, quem pode ter sido sua fonte de infecção e quantas pessoas foram infectadas. Agora só nos resta torcer para que o pior não aconteça, diante de tamanha irresponsabilidade sanitária. Muito provavelmente o Brasil aumentou o seu vasto repertório de variantes de preocupação que circulam no país”, completa Jesem Orellana.

O Mato Grosso afirmou ainda que os casos foram de pessoas assintomáticas e que os protocolos de isolamento foram seguidos e monitorados.

O Instituto Adolfo Lutz avisou também ao Ministério da Saúde acerca dos resultados.

Até a última terça (6), 168 casos de Covid relacionados à Copa América haviam sido identificados. Destes, o sequenciamento genético (exame para identificar a cepa do vírus) foi realizado em 38, sendo que para 22 o processo já foi concluído e o resultado foi de variante gama.

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EUA anunciam envio de 6 mi de vacinas contra Covid para Brasil e outros países da América Latina

Governo Biden diz que 75% dos imunizantes serão distribuídos pelo consórcio Covax

Os EUA anunciaram nesta quinta-feira (3) que vão enviar, inicialmente, 6 milhões de vacinas contra a Covid-19 para o Brasil e ao menos outros 12 países da América Latina. O compartilhamento será feito via Covax, iniciativa vinculada à OMS para a distribuição de doses a países em desenvolvimento.

O montante é uma fatia das 80 milhões de doses que o presidente americano, Joe Biden, anunciou que vai enviar a outros países nas próximas semanas.

O presidente americano, Joe Biden, fala sobre combate à pandemia na Casa Branca – Carlos Barria – 2.jun.21/Reuters

Em comunicado nesta quinta, Biden divulgou os detalhes da primeira parte do plano de distribuição, com o envio de 25 milhões de vacinas para o exterior. Destas, cerca de 25%, ou 19 milhões de doses, serão distribuídas via Covax, de acordo com a participação de cada país no consórcio: serão cerca de 6 milhões de doses para a América Latina e o Caribe, incluindo Brasil, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Bolívia, El Salvador, entre outros; 7 milhões para o Sul e Sudeste da Ásia, como Índia, Tailândia, Laos e Vietnã; e 5 milhões para a África, em nações que, segundo a Casa Branca, serão selecionadas junto à União Africana.

Os outros 6 milhões de doses para fechar a conta das primeiras 25 milhões serão compartilhados diretamente com países que, ainda de acordo com o comunicado “estão passando por surtos”, como Índia e México. Apesar da situação grave da pandemia no Brasil, a Casa Branca não cita o o país nesta distribuição bilateral —o Brasil tem participação pequena na Covax por decisão do governo Jair Bolsonaro.

“Hoje, estamos fornecendo mais detalhes sobre como alocaremos os primeiros 25 milhões de doses dessas vacinas para preparar o terreno para uma maior cobertura global e lidar com surtos reais e potenciais, altas cargas de doenças e as necessidades dos países mais vulneráveis”, disse Biden em comunicado.

O restante das doses —55 milhões— vão seguir o mesmo padrão desta primeira parte do plano de distribuição: 75% via Covax e 25% de compartilhamento direto com países vizinhos e parceiros.

A Casa Branca está sob pressão internacional para ajudar nações mais pobres e em desenvolvimento no combate à pandemia, e o governo brasileiro –por meio da embaixada em Washington e o Itamaraty– pedia acesso a parte dos imunizantes.

Atrás da China em doações de vacinas, até agora os EUA não tinham decidido para onde iriam as doses, nem apresentado um plano detalhado de distribuição. Autoridades americanas dizem terem sido procuradas “por todas as regiões do mundo”, mas já haviam sinalizado que o Brasil era um dos destinos considerados por Biden.

O governo brasileiro procurou a Casa Branca pela primeira vez em março, somente depois de a imprensa americana noticiar que Biden avaliava doar doses, e após outros países já terem feito o mesmo pedido, como o México.

Em 19 de maio, o embaixador do Brasil nos EUA, Nestor Forster, reuniu-se com a coordenadora da resposta global à pandemia do Departamento de Estado americano, Gayle Smith, ao lado de representantes de outros países do hemisfério ocidental, para debater a distribução das vacinas. Mas nada de concreto foi decidido na ocasião.

Com o negacionismo do governo Jair Bolsonaro, novas variantes e um ritmo bastante lento na vacinação, o Brasil patina no combate à pandemia e é hoje um dos epicentros da crise, com quase 465 mil mortos. Os EUA, por sua vez, são líderes no número de mortos —com cerca de 595 mil vítimas— mas vê os casos, mortes e hospitalizações caírem vertiginosamente, em meio a uma campanha de imunização em massa de sucesso.

A Casa Branca comprou vacinas suficientes para imunizar três vezes toda a população, aplicou ao menos uma dose em 63% dos adultos do país, mas vinha sendo criticada por priorizar a vacinação interna, mesmo com excedentes de doses, enquanto diversos lugares do mundo estão assolados pela crise, como é o caso de Brasil e Índia.

Nos últimos dias, o ritmo de vacinação dos EUA vem caindo —com ceticismo de parte da população sobre a imunização— e Biden e governadores têm anunciado estímulos e planos para tentar chegar a 70% dos adultos vacinados até 4 de julho, quando o presidente diz que o país estará, finalmente, no chamado novo normal.

Durante um pronunciamento no início de maio, Biden anunciou que iria enviar mais 20 milhões de doses de vacina para o exterior até o fim de junho, montante que se somou às 60 milhões de doses da AstraZeneca que ele já havia se comprometido a distribuir a outros países no mesmo período.

O democrata quer liderar a diplomacia da vacina, hoje comandada pela China, que já compartilhou 252 milhões de doses com o exterior, ou seja, 42% do total de sua produção. Para comparação, as 80 milhões de doses prometidas pelos EUA representam 13% da fabricação local. A União Europeia, por sua vez, já exportou 111 milhões de doses, e a Rússia, 27 milhões, segundo o Wall Street Journal.

Biden explicou que as novas doses sairiam do escopo dos três imunizantes já aprovados para uso nos EUA —Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson— enquanto os itens da AstraZeneca ainda precisam do aval da FDA, agência reguladora americana.

A distribuição das vacinas, segundo o presidente e seus auxiliares, será feita baseada em dados de saúde pública, em acordo com parceiros e, principalmente, com o consórcio Covax Facility, iniciativa vinculada à OMS para distribuição de doses a países em desenvolvimento.

Os EUA já haviam acordado em março o empréstimo de 4 milhões de doses da AstraZeneca para México e Canadá, mas o número destinado aos países vizinhos foi considerado simbólico.

No fim de abril, houve o anúncio do compartilhamento dos 60 milhões de doses da AstraZeneca, que estavam paradas nos estoques, sem autorização de uso pela FDA.

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‘Lamentamos as mortes, mas, apesar de tudo, o Brasil vai bem’, diz Bolsonaro ao comentar PIB

Ao admitir que estava sendo filmado rindo, presidente reagiu: 'Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê?'

O presidente Jair Bolsonaro comemorou nesta terça-feira (1º) a manutenção do crescimento da economia brasileira no primeiro trimestre deste ano mesmo sem a presença de programas emergenciais de enfrentamento à pandemia do coronavírus.

PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre teve crescimento de 1,2% em relação ao trimestre anterior, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Lógico que ninguém está falando que vai crescer 6%, mas a previsão aí é no mínimo 4%, que já é um número bastante grande levando-se em conta o uso político por causa da pandemia por parte de alguns”, afirmou Bolsonaro em interação com apoiadores no jardim do Palácio da Alvorada transmitida por um simpatizante.

foto: Raul Spinassé

O presidente, então, abordou o crescimento econômico no contexto das mais de 465 mil mortes por Covid-19.

“Lamentamos as mortes, mas, apesar de tudo, o Brasil está indo bem. Graças ao governo federal, porque, se dependesse de muitos governadores e prefeitos, todo mundo estaria em casa, todo o comércio fechado, milhões de empregos destruídos”, afirmou Bolsonaro.

Mais adiante, o presidente resolveu tentar explicar porque estava sorridente durante a conversa com a claque, mesmo com a situação sanitária do país.

“Alguns acham, tem gente filmando aqui, vai sair eu rindo. ‘Não pode, não sei o quê, o problema, isso acontece’. Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê? Eu pergunto: essa pandemia vai acabar quando? Alguém sabe? Vai até as eleições do ano que vem?”, indagou Bolsonaro.

Mais cedo, o Ministério da Economia afirmou que a economia brasileira se manteve em crescimento no primeiro trimestre deste ano mesmo sem a presença de programas emergenciais de enfrentamento da pandemia do coronavírus.

Nota técnica produzida pela SPE (Secretaria de Política Econômica) da pasta avaliou o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre, que teve crescimento de 1,2% em relação ao trimestre anterior, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“A atividade econômica, a despeito do fim dos programas emergenciais do governo federal em dezembro de 2020, e do recrudescimento da pandemia no começo de 2021, permaneceu em trajetória de elevação nos primeiros meses do ano”, informou a secretaria.

“A retirada dos estímulos governamentais temporários, tal como defendido por esta SPE, não teve impactos significativos sobre a atividade no primeiro trimestre do ano”, disse.

Em audiência pública na Câmara nesta terça-feira, o ministro Paulo Guedes (Economia) afirmou que o resultado do PIB “sinaliza um crescimento bastante forte da economia” em 2021.

Sem especificar nomes, Guedes rebateu indiretamente a nota produzida pela SPE.

“É claro que o auxílio emergencial teve efeito sobre a economia, ajudou a economia a voltar. Evidente que ajudou. Se algum assistente meu ou secretário meu escreveu o contrário, pode ser que nos modelos deles isso não ocorra, mas é evidente que o auxílio ajudou a economia a voltar”, disse o ministro.

Neste ano, o governo optou por não renovar a calamidade pública que vigorou em 2020 e permitiu uma expansão de gastos públicos para o enfrentamento à pandemia. Sem Orçamento aprovado, os programas emergenciais foram interrompidos por mais de três meses.

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PIB do Brasil cresce 1,2% no primeiro trimestre e zera perdas da pandemia, diz IBGE

A economia brasileira cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021 em relação ao trimestre anterior, o que representa uma desaceleração no ritmo de recuperação verificado no final de 2020, segundo dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta terça-feira (1º) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Com o resultado do primeiro trimestre, o PIB voltou ao patamar do quarto trimestre de 2019, período pré-pandemia, mas ainda está 3,1% abaixo do ponto mais alto da atividade econômica do país, alcançado no primeiro trimestre de 2014″, diz o IBGE.

Em relação ao mesmo período do ano passado, o PIB cresceu 1,0%, primeira taxa positiva nessa comparação desde o fim de 2019. Nos últimos 12 meses, ainda há retração de 3,8%.

Analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam crescimento de 0,8% na comparação com o trimestre anterior e de 0,5% em relação ao mesmo período de 2020.

O PIB havia crescido 7,8% no terceiro trimestre e 3,2% no quarto, após a queda recorde de 9,2% no segundo trimestre do ano passado.

“Mesmo com a segunda onda da pandemia de Covid-19, o PIB cresceu no primeiro trimestre, já que, diferente do ano passado, não houve tantas restrições que impediram o funcionamento das atividades econômicas no país”, disse a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

Entre os setores, indústria e agropecuária já recuperaram suas perdas desde o ano passado. Os serviços ainda não. Na ótica da demanda, o consumo das famílias e do governo não voltaram ao patamar pré-crise. Investimentos, exportações e importações já se recuperaram. ​

O trimestre foi marcado pelo fim dos programas de auxílio do governo, pelo agravamento da pandemia e pela volta de algumas medidas de restrição, mas com taxas de isolamento bem menores que as verificadas no início da crise sanitária.

O Brasil também foi beneficiado pelo ritmo de crescimento das duas maiores economias mundiais –Estados Unidos e China– e de um cenário externo que conta ainda com valorização de moedas emergentes e alta no preço de commodities agrícolas e minerais, o que também se refletiu no desempenho de outras economias emergentes.

Segundo o IBGE, houve taxas positivas na agropecuária (5,7%), indústria (0,7%) e serviços (0,4%). O investimento cresceu 4,6%, enquanto o consumo das famílias caiu 0,1% e o consumo do governo recuou 0,8% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

O governo não divulga projeções trimestrais. A previsão para o ano do Ministério da Economia é de +3,5%, abaixo da projeção de mercado da pesquisa Focus (+3,96%), que vem sendo revista para cima há seis semanas.

A mesma pesquisa mostra que os economistas consultados esperavam queda do PIB no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2020 até meados de maio. A previsão de retração chegou a 1% no início de março, quando foram adotadas novas medidas de restrição a atividades em vários estados.

Somente na segunda quinzena de maio as estimativas saíram do vermelho, até alcançar alta de 0,4%, acompanhando dados que mostraram queda menor que a esperada em índices de mobilidades e na atividade econômica e a reabertura de alguns setores.

As projeções para o ano são de um crescimento de quase 4%, valor que praticamente zera a queda registrada desde 2020 (-4,1%), embora a economia continue distante do pico alcançado no começo de 2014 e a recuperação não alcance todos os setores, o que ainda depende de avanços maiores no programa de vacinação.

RECESSÃO

Em junho do ano passado, o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), órgão ligado ao Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e formado por oito economistas de diversas instituições, definiu que o Brasil entrou em recessão no primeiro trimestre de 2020, encerrando um ciclo de fraco crescimento de três anos (2017-2019).

Não há uma definição oficial sobre o que caracteriza uma recessão. Embora alguns economistas utilizem a métrica de que esse é o período marcado por dois trimestres seguidos de queda na atividade, o Codace considera uma análise mais ampla de dados. Para o comitê, o declínio na atividade econômica de forma disseminada entre diferentes setores econômicos é denominado recessão.

CÁLCULO DO PIB

Produtos, serviços, aluguéis, serviços públicos, impostos e até contrabando. Esses são alguns dos componentes do PIB (Produto Interno Bruto), calculado pelo IBGE, de acordo com padrões internacionais, com objetivo de medir a produção de bens e serviços no país em determinado período.

Ele mostra quem produz, quem consome e a renda gerada a partir dessa produção. O crescimento do PIB (descontada a inflação) é usualmente chamado de crescimento econômico. O PIB trimestral é apresentado pela ótica da oferta (o que é produzido) e da demanda (como esses produtos são consumidos).

O PIB trimestral é divulgado cerca de 60 dias após o fim do período e apresenta as óticas da oferta e demanda. O resultado do 4º trimestre traz um dado preliminar do ano fechado. O PIB anual definitivo é apresentado quase 24 meses após o fim do ano (o dado definitivo de 2020 será conhecido em novembro de 2022) e traz também a ótica da renda (soma das remunerações do trabalho e capital, que mostram como cada parte se apropriou da riqueza gerada).

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Por que o país poderia vacinar antes, segundo o chefe do Butantan

Dimas Covas depõe na CPI e diz que governo federal perdeu oportunidade de ser ‘pioneiro’ na imunização contra a covid não fossem as declarações de Bolsonaro contra a Coronavac

A CPI da covid-19 no Senado ouviu nesta quinta-feira (27) Dimas Covas, médico e diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, por cerca de sete horas. Covas falou sobre a falta de respostas do governo federal na compra de vacinas e afirmou que o Brasil poderia ter sido pioneiro na imunização.

O diretor do Butantan é braço direito do governador João Doria (PSDB) no combate à pandemia em São Paulo. Doria foi eleito em 2018 usando o nome de Jair Bolsonaro. Com pretensões de disputar o Palácio do Planalto em 2022, o tucano acabou virando rival do presidente.

Desde o início de maio, os senadores da CPI têm ouvido autoridades para apurar as ações e omissões da gestão do presidente Jair Bolsonaro na crise sanitária, além de repasses federais a estados e municípios.

Com uma das piores respostas à pandemia no mundo, o Brasil soma mais de 452 mil mortes pela covid-19 e executa uma campanha de imunização que até quinta-feira (27) havia aplicado uma dose em pouco mais de 20% da população e as duas doses necessárias para a imunização em apenas 10% dos brasileiros.

O Butantan, liderado por Covas, é um dos principais fornecedores de vacinas ao governo federal, sendo responsável pela fabricação do imunizante Coronavac. Desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac, o imunizante representa cerca de 65% das doses aplicadas no país.

A seguir, destaca os principais pontos do depoimento de Dimas Covas à comissão, cujos trabalhos devem durar inicialmente 90 dias.

A primeira oferta ao governo. E a ruptura


Dimas Covas revelou que a primeira oferta da vacina Coronavac foi feita ao governo federal em julho de 2020. A proposta previa 60 milhões de doses, que seriam entregues até o último trimestre do ano. Não houve resposta por parte do Ministério da Saúde.

Em outubro, segundo ele, uma nova oferta foi feita, de 100 milhões de doses. Desse total, 45 milhões seriam entregues até dezembro de 2020, 15 milhões até fevereiro de 2021 e as outras 40 milhões até o final de maio.

Dimas Covas afirmou que houve interesse do Ministério da Saúde na oferta feita em outubro. As negociações caminharam bem até o dia 21 daquele mês, quando o presidente Jair Bolsonaro se manifestou publicamente afirmando que a Coronavac não seria comprada e incorporada ao PNI (Programa Nacional de Imunizações). “Com a falta de contrato, ficamos com incertezas sobre o projeto.”

De acordo com Covas, diante da declaração pública do presidente, a venda de doses da Coronavac começou a ser negociada com estados e municípios. As tratativas locais foram interrompidas em janeiro de 2021, quando o imunizante foi finalmente adotada pelo governo federal no PNI.

Na versão de Covas, portanto, a posição pública de Bolsonaro atrasou as negociações em três meses. Quando prestou depoimento à CPI em 19 de maio, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, disse que as declarações do presidente contra a Coronavac “eram coisas de internet”, e que não tinham afetado a política pública do governo.

Brasil ‘poderia ter sido pioneiro’


“O Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a vacinar”, afirmou Covas na comissão. Segundo ele, 5 milhões de doses da Coronavac estavam prontas em dezembro de 2020, e o país poderia ter sido pioneiro no combate à pandemia, aplicando doses antes mesmo do Reino Unido, que começou a administrar vacinas no dia 8 de dezembro.

Covas afirmou que os entraves com o governo federal e a dependência da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na aprovação do uso emergencial da vacina fez com que o país perdesse a oportunidade.

O diretor do Butantan estimou que, caso as negociações tivessem sido feitas mais cedo, 50 milhões de brasileiros teriam recebido as duas doses da vacina até julho de 2021, levando em consideração apenas a Coronavac. Até 27 de maio, cerca de 21 milhões de pessoas receberam a imunização completa, considerando todas as vacinas.

“O Brasil poderia ser o primeiro país do mundo a começar a vacinação, se não fossem os percalços, tanto de vista de contrato como regulatório”- Dimas Covas, Diretor do Instituto Butantan, em depoimento à CPI da covid no Senado Federal.

A Anvisa autorizou o uso emergencial da Coronavac apenas em 17 de janeiro de 2021, junto com o aval dado também apara a vacina de Oxford, desenvolvida pelo laboratório anglo-sueco Astrazeneca e produzida no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde.

À época do aval da Anvisa, a agência afirmou que a demora na aprovação se deu por lacunas na documentação fornecida pelo Butantan.

Segundo Covas, a demonstração de intenção de compra de uma vacina antes da aprovação da Anvisa não só poderia ser feita, como de fato foi: em agosto de 2020, o governo federal iniciou tratativas para a compra do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca.

O Brasil também poderia ter despontado na vacinação com o imunizante da farmacêutica Pfizer, segundo Carlos Murillo, CEO da empresa na América Latina.

Em depoimento à CPI no dia 13 de maio, Murillo afirmou que a companhia queria que o Brasil fosse vitrine da vacina no continente, mas que o governo recusou mais de uma oferta feita.

A hostilidade à China e a compra de insumos


De acordo com Covas, a compra de insumos da China — substâncias necessárias para produzir os imunizantes no Brasil — foram atrapalhadas por declarações feitas por membros do governo federal. Em 6 de maio de 2021, Bolsonaro sugeriu que o coronavírus teria sido criado em laboratório para beneficiar a economia chinesa.

“É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu porque um ser humano ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês”, disse o presidente brasileiro, nas redes sociais.

Para o diretor do Butantan, as negociações com o país asiático teriam sido muito mais simples e rápidas se não houvesse declarações do tipo e se o governo adotasse uma “postura pragmática”.

Covas afirmou que os atrasos na chegada de insumos devem impactar toda a cadeia produtiva da vacina. “Ainda não temos uma programação para dizer se cumpriremos até 30 de setembro esse contrato [de entrega de 54 milhões de doses ao governo federal, montante que completa a primeira rodada de negociações].”

Em depoimentos anteriores, membros do governo negaram a possibilidade de que atritos com a China tenham atrapalhado as negociações.

“Acho que nenhum desses atos do presidente prejudicaram nossas relações”, afirmou o ex-chanceler Ernesto Araújo no dia 18 de maio. Pazuello e o ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten também foram na mesma linha.

As aglomerações de Bolsonaro


“Evidentemente”, respondeu Dimas Covas quando questionado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) se as aglomerações promovidas pelo presidente Jair Bolsonaro ao longo da pandemia resultaram em um aumento de casos de covid-19 e, consequentemente, de mortes.

“As políticas de isolamento são a principal arma de combate a pandemias, desde a Antiguidade”, disse Covas. “É preciso quebrar a cadeia de transmissão, e entender as medidas não farmacológicas para barrar a doença.”

Jereissati pediu, então, para que o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), inclua no relatório final da CPI a afirmação de que Bolsonaro deliberadamente promoveu o avanço da covid-19 no país — fala que o parlamentar atribuiu a si mesmo.

Os baixos índices de isolamento e distanciamento social indicam que a covid-19 deve ganhar força no Brasil nos próximos meses.

“Estamos num momento tudo indica que teremos de novo um recrudescimento, um recrudescimento agora turbinado por algumas variantes que estão circulando entre nós”- Dimas Covas, Diretor do Instituto Butantan, em depoimento à CPI da covid no Senado.

Falta de investimentos federais


Durante a oitiva, Covas afirmou que o Instituto Butantan não recebeu “um real” do governo federal em 2020, mesmo diante da emergência da pandemia. O diretor da instituição disse que fez um requerimento de R$ 80 milhões para a reforma de uma das fábricas do Butantan, que permitiria a fabricação do Ingrediente Farmacêutico Ativo no Brasil.

As obras estão acontecendo, porém o custo está sendo financiado pela iniciativa privada. A expectativa é que a reforma seja encerrada até o final de 2021.

Covas também afirmou que o governo não fez nenhum investimento para o desenvolvimento da vacina. “Em nenhum momento a falta de recursos do governo federal emperrou a vacina. Não contamos com recursos federais”, disse. O repasse de verbas federais para o Butantan era praxe em governos anteriores.

O médico também destacou que a Fundação Oswaldo Cruz, ligada ao Ministério da Saúde, recebeu R$ 1,9 bilhão para acelerar a fabricação da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Esclarecimentos sobre efetividade


Durante o depoimento, Dimas Covas respondeu perguntas sobre a eficiência da Coronavac. O senador governista Eduardo Girão (Podemos-CE) afirmou ter recebido “diversos relatos” de pessoas que foram infectadas pelo coronavírus e que desenvolveram casos sérios da doença mesmo depois de terem recebido duas doses do imunizante.

Girão chegou a citar o nome do ator Stênio Garcia, da TV Globo, para ilustrar sua fala. Garcia realmente foi infectado, mas a contaminação ocorreu poucos dias depois da administração da segunda dose, quando o corpo ainda não tinha criado imunidade.

Covas explicou que nenhuma vacina impede a infecção, mas sim as manifestações clínicas da doença, e que fatores individuais de cada pessoa influenciam na reação do corpo ao vírus. O médico também ressaltou que há diferença entre percentuais de eficácia e percentuais de efetividade em uma vacina.

A eficácia garante o cumprimento do papel da vacina em um ambiente ideal, com variáveis controladas. É aquilo que é testado durante o desenvolvimento do imunizante, com pessoas saudáveis e que são completamente acompanhadas pelos pesquisadores. A eficácia geral da Coronavac é de 50,7%.

Já a efetividade é o desempenho da vacina no mundo real, quando não há a possibilidade de controle de variáveis e fatores individuais diversos entram em jogo. A efetividade da Coronavac entre idosos com mais de 70 anos vai de 61% a 28%, dependendo da idade. Dados sobre a efetividade em pessoas mais jovens ainda não foram divulgados.

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Como o Brasil reage ao novo agravamento da pandemia

Governos locais já se preparam para um novo agravamento da pandemia no Brasil. Nos últimos dias de maio de 2021, algumas regiões do país voltaram a ter seus sistemas de saúde pressionados, levando ao endurecimento das medidas de isolamento social. Enquanto isso, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirma não haver riscos de uma nova onda de covid-19.

O Brasil viveu um grande platô de mortes diárias entre maio e setembro de 2020. Após uma pequena melhora no fim do ano, a doença causada pelo novo coronavírus voltou a matar com alta intensidade em 2021, chegando a seu ápice em abril. Agora, após a medida de mortes ter uma ligeira melhora, os dados apontam para um novo recrudescimento.

Entre ondas, platôs e repiques


Parte dos especialistas em saúde pública prefere não chamar a nova ameaça daquilo que seria a terceira onda da covid-19 no Brasil. Isso porque os números nunca caíram de forma significativa a ponto de caracterizarem o fim de uma primeira ou segunda onda. O país estaria vivendo, portanto, uma onda contínua, com momentos de repique.

Especialistas já alertavam para o risco de piora na crise sanitária por causa dos indicadores da pandemia anda muito elevados em maio. Com uma média móvel que ainda beira 2.000 óbitos por dia, o Brasil registra mais de 450 mil mortes pela covid-19 e pode alcançar meio milhão até julho.

Única medida capaz de interromper a circulação do vírus, a vacinação vem sofrendo uma desaceleração devido ao atraso no recebimento de insumos importados da China para a produção de imunizantes pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). A falta de doses, assim como as ações e omissões do governo, têm sido investigadas na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado.

À beira do colapso, municípios já decidiram fechar até mesmo os supermercados na tentativa de reduzir a circulação de pessoas. Outras cidades se preparam ampliando o número de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) — um levantamento do jornal Folha de S.Paulo publicado na quarta-feira (26) apontava que nove capitais e o Distrito Federal já apresentavam taxa de ocupação de leitos de terapia intensiva superior a 90%. A seguir, mostra qual vem sendo a reação da União, estados e municípios diante do risco de nova piora na pandemia.

Novos fechamentos das atividades


Um levantamento do portal G1 divulgado na quarta-feira (26) mostrou que 17 cidades das regiões de Ribeirão Preto e Franca, no interior de São Paulo, apertaram as restrições de circulação devido à pressão sobre o sistema hospitalar. Ao todo, vivem 1,4 milhão de pessoas no nordeste do estado.

Na região de Ribeirão Preto, a taxa de ocupação nas UTIs era de 92,3% na quarta-feira (26). Na de Franca, o índice chegava a 94,2%, e na de Barretos, a 97,4%. A partir de quinta-feira (27), o fechamento das atividades em Ribeirão inclui até os supermercados. As restrições valem até 31 de maio. Em Franca, onde as medidas duram até 10 de junho, as regras valem também para as farmácias, que só poderão fazer entregas. Nas duas regiões, o transporte público será suspenso.

Em Pernambuco, que tinha uma fila de espera para UTIs com mais de 300 pessoas até terça-feira (25), novas regras foram anunciadas pelo governo do estado para as regiões do Grande Recife, Agreste e Zona da Mata, com o fechamento de escolas, clubes, shoppings, praias e igrejas. Apenas serviços públicos e essenciais foram permitidos. Em parte dos municípios, as regras valem apenas aos fins de semana.

Em 19 de maio, o estado registrou o maior número de casos de covid-19 confirmados em 24 horas desde o início da pandemia. Foram 3.440 novos casos e 79 mortes pela doença num único dia.

A situação também se agravou no Paraná, onde a fila de espera por leitos de terapia intensiva já atingia, na terça-feira (25), 81% do pico registrado em março. Eram 577 pessoas aguardando uma vaga — em março, a fila chegou a ter 708 pacientes.

Por isso, a partir da sexta-feira (28), haverá um toque de recolher das 20h às 5h do dia seguinte. Durante a semana, o comércio não essencial pode funcionar das 9h às 18h, com 50% da capacidade. Nos domingos, todas as atividades, incluindo shoppings, restaurantes e academias, serão fechadas. As medidas valem por um período de 30 dias.

Preparados para o pior


Embora não tenha endurecido as regras, o governo de São Paulo decidiu recuar na flexibilização que vinha ocorrendo. A atual fase de restrições, que acabaria em 1º de junho, foi adiada até 14 do mesmo mês. A decisão se baseia na piora dos indicadores. Na segunda-feira (24), a taxa de ocupação de leitos de UTI voltou a ultrapassar 80%.

O número de novos casos de covid-19 também aumentou 8,3% em duas semanas, acompanhado de uma alta de 7,8% nas internações e de 4,6% nas mortes, segundo dados do governo paulista. Apesar dos indicadores, as autoridades de saúde do estado evitam falar numa terceira onda, assim como muitos especialistas em saúde.

Em entrevista na quarta-feira (26), Paulo Menezes, que é coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do estado, defendeu cautela nas decisões do governo para evitar pânico da população, que poderia entender que o país está diante de uma situação fora do controle.

“Temos reiterado aqui que há uma circulação importante do vírus. Ela se intensificou nas últimas duas semanas e de certa forma vimos o reflexo disso no aumento de casos e um aumento menor, proporcionalmente, de internações e óbitos, em relação ao aumento de casos. Pessoalmente, concordo com alguns colegas que dizem que não é muito produtivo ficarmos falando se é segunda ou terceira onda. Nós temos uma situação de alta circulação de vírus, é preciso intensificar os cuidados”- Paulo Menezes, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, em entrevista na quarta-feira (26).

Mais cedo, o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, defendeu em entrevista à TV Globo a adoção de medidas mais restritivas devido ao aumento de casos na capital paulista. Ele confirmou que a prefeitura se prepara para uma nova onda de covid-19.

“Há um aumento de casos já hoje na cidade depois daquele pico gigantesco que nós tivemos em março e abril com a P.1 [variante de Manaus], e nós estamos nos preparando exatamente para uma nova onda, que seguramente vai atingir todo o Brasil e não vai ser diferente aqui na cidade de São Paulo”- Edson Aparecido, secretário municipal da Saúde de São Paulo, em entrevista à TV Globo, na quarta-feira (26).

A prefeitura de São Paulo anunciou que deverá abrir nos próximos dias 250 novos leitos de UTIs. De sexta-feira (21) a segunda-feira (24), a taxa de ocupação das unidades que atendem pacientes com coronavírus pulou de 76% para 82%.

Já o governo estadual anunciou como medida para controlar a transmissão a distribuição, em junho, de 1 milhão de testes do tipo de antígeno, que apresentam o resultado em 15 minutos. A aplicação dos exames ficará a cargo dos municípios. A estratégia de testagem e isolamento de casos é defendida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde o início da pandemia, mas nunca foi amplamente utilizada no país.

Em Araraquara, cidade que ficou conhecida por ter adotado um fechamento rigoroso das atividades para controlar a doença ainda em fevereiro, a preparação para um recrudescimento na pandemia inclui mudança nos critérios para a suspensão do comércio não essencial.

Segundo as novas regras, haverá fechamento por sete dias caso a taxa de exames com resultado positivo para covid-19 passe de 20% de todos os testes feitos por três dias seguidos (ou cinco alternados dentro de uma semana). A retomada só irá acontecer se a taxa cair para 15% durante três dias seguidos.

Como o governo federal lida com a ameaça


Durante a pandemia, o Ministério da Saúde foi acusado de não liderar uma política nacional de combate ao novo coronavírus. Em seus discursos, o presidente Jair Bolsonaro ataca governadores e prefeitos por causa do fechamento do comércio. Também se opõe ao uso de máscara e às medidas de isolamento social ao participar de aglomerações. Ele já pediu para a população “enfrentar” a doença e disse que a contaminação de todos era inevitável.

Em relação ao provável agravamento da pandemia no país, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou na sexta-feira (21) que o governo não enxerga a aproximação de uma nova onda, embora tenha reconhecido que alguns estados e municípios voltaram a sofrer com hospitais lotados.

“Estamos numa pandemia, já tivemos a primeira onda, estamos reduzindo os óbitos nesta segunda onda, e todos temos que estar vigilantes a uma possível terceira onda, mas não estamos vislumbrando isso neste momento. E a maneira adequada de ser evitar a terceira onda é avançar na campanha de vacinação, e é isso que estamos fazendo”- Marcelo Queiroga, ministro da Saúde.

As medidas tomadas também são consideradas tardias. O governo federal decidiu suspender os voos com origem na Índia em 14 de maio, dez dias após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendar a medida devido ao aparecimento de uma nova variante mais contagiosa naquele país.

Na manhã de quarta-feira (26), o governo de São Paulo divulgou ter identificado o primeiro caso de um passageiro infectado com a variante que entrou no estado. O homem, de 32 anos, desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos em 22 de maio.

O governo disse, porém, só ter sido notificado do caso pela Anvisa, que é responsável pelo monitoramento do aeroporto, quando o passageiro já havia embarcado em voo doméstico para o Rio de Janeiro. Ele mora em Campos dos Goytacazes. A vigilância sanitária no Rio foi notificada para acompanhar o caso e evitar novas transmissões.

Seis casos já haviam sido confirmados em meados de maio. São passageiros que chegaram ao Maranhão a bordo de um navio chinês atracado no litoral do estado. No domingo (23), Queiroga foi ao Maranhão para acompanhar a situação. Ele anunciou o envio de 600 mil testes rápidos de antígeno para o estado e 300 mil doses a mais de vacinas, 5% a mais do que já estava previsto. Outros três casos são investigados no Distrito Federal, Espírito Santo e Minas Gerais.

nexojornal

O impacto da suspensão da produção de vacinas no Brasil

Os laboratórios brasileiros que produzem as duas principais vacinas contra a covid-19 usadas pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações) anunciaram a suspensão do envase dos imunizantes no país por falta de matéria-prima importada da China. A paralisação tem impacto no ritmo da campanha de vacinação, que já vinha caindo. Mais da metade dos estados suspenderam a aplicação das doses por falta de vacinas.

O Instituto Butantan, que fornece a Coronavac, interrompeu a produção desde a sexta-feira (14). Segundo o governador de São Paulo, João Doria, o problema se deveu a um “entrave diplomático, fruto de declarações inadequadas, desastrosas feitas pelo governo federal contra a China”. “Isso gerou um bloqueio por parte do governo chinês para a liberação do embarque desses insumos”, afirmou.

70%

das doses contra a covid-19 aplicadas no Brasil até a segunda-feira (17) eram da vacina da Sinovac, produzidas pelo Butantan

No começo de maio, durante uma cerimônia em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro sugeriu que o novo coronavírus havia sido criado em laboratório pela China para fins de uso militar numa suposta “guerra química”. O governo chinês respondeu dizendo que se opunha à “politização e estigmatização do vírus”. Para tentar minimizar o estrago da declaração, o Itamaraty disse que o Brasil deveria “louvar” a China.

Tanto o Butantan quanto a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que é ligada ao Ministério da Saúde e produz a vacina de Oxford no Brasil, dependem da importação do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) da China. No caso do Butantan, havia um lote com 10 mil litros de IFA parado na China, aguardando a liberação, segundo o governo paulista. Esse lote seria suficiente para produzir 18 milhões de doses da Coronavac.

Na segunda-feira (17), Doria publicou em suas redes sociais que o Butantan recebeu a previsão do governo chinês da chegada de 4.000 litros de insumos em 26 de maio, quantidade capaz de produzir 7 milhões de doses — apenas parte do anunciado. Mesmo com essa previsão de entrega, o instituto ficaria ao menos duas semanas parado.

Os atrasos fizeram o laboratório reduzir de 12 milhões para 5 milhões a estimativa de fornecimento de vacinas para o governo federal em maio. Presidente do Butantan, Dimas Covas disse que o cronograma só poderia ser cumprido se os insumos chegassem “muito rapidamente”.

O atraso na Fiocruz


Uma das instituições mais afetadas pelos atrasos nas entregas de IFA, a Fiocruz ter matéria-prima para manter a produção até meados desta semana, iniciada no domingo (16). A fundação afirmou que iria interromper a produção “por alguns dias” e que não sabia se isso poderia ter impacto na entrega de doses, que vem sendo feita semanalmente.

“Por conta do rápido escalonamento de produção que a Fiocruz atingiu, as remessas de IFA vêm sendo consumidas antes do tempo previsto inicialmente, e será necessário interromper a produção na próxima quinta-feira (20) até a chegada do novo lote de insumo”, disse a instituição, em nota divulgada na segunda-feira (17).

Segundo a instituição, possíveis impactos na distribuição dos imunizantes ainda seriam avaliados e “comunicados mais à frente”.

Em audiência no Congresso, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, afirmou, também na segunda-feira (17), que o governo brasileiro recebeu a confirmação do embarque, no próximo dia 21, de dois lotes de insumos para a Fiocruz (o lote previsto para 29 de maio foi antecipado e chegaria junto). A quantidade é suficiente para produção de cerca de 12 milhões de doses, segundo a instituição.

Ao todo, a fundação já entregou para o PNI cerca de 35 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, das quais 4 milhões haviam sido importadas prontas da Índia. Ainda em maio, a instituição prevê começar o início da produção do IFA no Brasil, o que acabaria com a dependência de importação do insumo.

As primeiras vacinas inteiramente nacionais, porém, só começariam a ser entregues em outubro. “O processo passa por muitas etapas de produção de lotes e de controle de qualidade até podermos entregar ao Programa Nacional de Imunizações as vacinas produzidas em Bio-Manguinhos, na Fiocruz”, afirmou em entrevista à CNN Brasil, no começo de maio, a presidente da fundação, Nísia Trindade Lima.

Redução no ritmo de imunização


A vacinação no país sofreu uma redução nas duas primeiras semanas de maio, segundo dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa. Na semana de 9 a 14 de maio, foram aplicadas 726 mil doses por dia, em média. Na última semana de abril, a média diária havia chegado a 880,9 mil.

Uma estratégia equivocada do Ministério da Saúde divulgada pelo ex-ministro Eduardo Pazuello, ainda em março, fez com que estados e municípios ficassem sem as vacinas necessárias para a aplicação das segundas doses. A orientação, à época, era que os governos aplicassem todo o estoque disponível para acelerar a campanha. Como houve atrasos nas entregas, muitas regiões ficaram sem vacinas para a segunda dose por não ter feito as reservas.

Mais da metade dos estados brasileiros já havia suspendido a aplicação de imunizantes por falta de vacinas. O problema atingia 15 estados, entre os quais Minas Gerais, onde apenas 23 dos 853 municípios estavam conseguindo cumprir os prazos até a sexta-feira (14). Em Belo Horizonte, a prefeitura só conseguia aplicar a segunda dose nas pessoas com 67 anos ou mais.

Os riscos da paralisação


O atraso no fornecimento de mais vacinas e a lentidão da campanha de imunização preocupam devido aos riscos de uma terceira onda de covid-19. O número de casos em todo o país apresenta estabilização num patamar considerado ainda muito alto. No domingo (16), a média móvel de mortes voltou a subir depois de 15 dias em queda. O Brasil ainda beira a média de 2.000 óbitos diários pelo coronavírus.

Em texto publicado no jornal O Estado de S.Paulo, no sábado (15), a epidemiologista Ethel Maciel, que é professora da Universidade Federal do Espírito Santo, escreveu que o atraso na produção impacta “na transmissão da doença, no alívio dos sistemas de saúde” e, principalmente, “na proteção da vida”. “Significa colocar mais pessoas em risco”, afirmou.

Segundo ela, a redução no ritmo da vacinação, a falta de um programa de testagem em massa e de um lockdown nacional que reduziria a circulação do vírus colocam o país numa “situação crítica”. A flexibilização das medidas restritivas e a queda na vacinação empurram o país para uma terceira onda no inverno, de acordo com a epidemiologista. Com início em junho, o inverno é a época do ano com maior circulação de vírus respiratórios.

Para os especialistas, a dúvida não é mais se o país terá uma terceira onda, mas quando ela irá acontecer. Em entrevista ao jornal Nexo no final de abril, a doutora em saúde pública Suzana Pasternak, que é professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, apontou justamente a lentidão da vacinação no país como um fator para que uma nova onda possa ocorrer.

“Nós temos ainda um estoque grande de gente não vacinada, infelizmente. Elas têm chance de se infectar, não quer dizer que vão ser. Eu não sei se elas não foram infectadas ainda porque são imunes, ninguém sabe. Em Manaus, depois da primeira onda, a gente tinha achado que a cidade estava livre porque todo mundo que deveria morrer, morreu. E teve uma segunda onda tenebrosa”, disse.

nexojornal

FOTO: DIEGO VARA/REUTERS – 12.MAI.2021

A queda do Brasil no ranking de liberdade de imprensa

O Brasil atingiu em 2021 sua pior colocação no ranking de liberdade de imprensa elaborado pela ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras desde que esse sistema de monitoramento foi criado, em 2002.

Sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, o país caiu quatro posições e passou a constar na “zona vermelha”, composta por países nos quais “a situação da imprensa é considerada difícil” e o trabalho jornalístico é desenvolvido em “ambiente tóxico”.

111ª

é a posição que o Brasil ocupa no ranking de liberdade de expressão da Repórteres Sem Fronteiras, entre 180 países monitorados

O ranking classifica, por cores, cinco diferentes zonas: branca, amarela, laranja, vermelha e preta. A “zona vermelha”, da qual o Brasil passa a fazer parte, tem outros 51 países, entre os quais estão Mianmar (que sofreu um golpe de Estado em fevereiro de 2021), Afeganistão (país há 20 anos em guerra) e Rússia (onde o presidente Vladimir Putin está há 21 anos ininterruptos no poder).

Faz quatro anos que o Brasil piora sua posição no ranking. A queda teve início em 2018, durante a gestão do presidente Michel Temer (2016-2018), e se acentuou desde então. No relatório anterior – publicado em 2020, com o resultado do monitoramento feito em 2019, já durante a gestão de Bolsonaro – o Brasil já havia caído duas posições. No relatório mais recente, publicado nesta terça-feira (20), caiu quatro posições e, pela primeira vez, passou a frequentar a “zona vermelha”, que só não é pior que a “zona preta”.

O papel de Bolsonaro


Em seu relatório, a organização diz que “insultos, estigmatização e orquestração de humilhações públicas de jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente [Bolsonaro], de sua família e sua entourage [seu entorno]”.

Bolsonaro diante de microfones, cercado por repórteres, no Planalto
FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 25.05.2019-PRESIDENTE JAIR BOLSONARO FALA COM JORNALISTAS NO PALÁCIO DO PLANALTO


A Repórteres Sem Fronteiras nota que essa situação tornou-se ainda mais grave durante a pandemia que, até esta terça-feira (20), já havia deixado mais de 374 mil mortos e quase 14 milhões de contaminados no país.

Os ataques de Bolsonaro aos jornalistas “dobraram de intensidade desde o início da pandemia de coronavírus”, diz o relatório. “O presidente contribuiu para disseminar informações falsas – por exemplo, sobre o uso de ivermectina, vermífugo cuja eficácia no combate ao coronavírus nunca foi comprovada e que foi desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde –, criticou medidas de isolamento social e causou aglomerações, desrespeitando as medidas sanitárias, o que fez com que fosse censurado pelo Facebook e pelo Twitter”, registra a ONG.

Piora na democracia em geral


A piora no indicador de liberdade de imprensa durante o mandato de Bolsonaro é parte de uma deterioração mais ampla da democracia no país, como um todo. O relatório Variações da Democracia, elaborado pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, publicado em março de 2021, já havia mostrado que o Brasil foi o quarto país do mundo que mais se afastou da democracia em 2020. Apenas Polônia, Hungria e Turquia foram piores.

Existem muitos rankings de liberdade e democracia, elaborados com diferentes critérios, por diferentes organizações. Classificações como essas são meramente indicativas e não trazem consequências automáticas em instâncias judiciais. Elas são, no entanto, um termômetro que goza de credibilidade e influencia as políticas dos diferentes Estados e organizações internacionais em relação a um determinado país.

No ranking da ONG do centro de estudos americano Freedom House, por exemplo, o Brasil é um país considerado “livre”, no qual existem “eleições competitivas” e onde a “arena política, embora polarizada, é marcada por um vibrante debate público”.

A Freedom House coincide com a avaliação da ONG Repórteres Sem Fronteiras, no entanto, de que “os jornalistas independentes e os ativistas da sociedade civil correm o risco de sofrer assédios e ataques violentos” no país.

Há três classificações possíveis no ranking da Freedom House: livre, parcialmente livre e não livre. Na América do Sul, Brasil, Chile, Argentina e Uruguai são “livres”. A Venezuela é “não livre”, enquanto Peru, Equador, Bolívia, Colômbia e Paraguai são “parcialmente livres”.

Alguns governos também produzem seus próprios relatórios anuais. O Departamento de Estado americano, por exemplo – que é o Ministério das Relações Exteriores dos EUA –, publicou no fim de março o seu próprio documento. Nele, diz que Bolsonaro “nem sempre respeitou” a liberdade de imprensa no Brasil.

A liberdade de imprensa é parte do direito mais amplo à liberdade de expressão, garantida no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sua existência é considerada fundamental para a proteção de diversos outros direitos, por meio do trabalho de fiscalização do poder público que os jornalistas realizam, como explicou o assessor regional de Comunicação e Informação da Unesco, órgão das Nações Unidas para Educação e Cultura, Guilherme Canela, em entrevista ao jornal Nexo sobre esse tema, em outubro de 2018.

O governo brasileiro não reagiu especificamente aos relatórios que citam a deterioração da liberdade de expressão no país. Desde pelo menos a campanha presidencial de 2018, Bolsonaro coleciona ameaças, ofensas e intimidações contra a imprensa. Para o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, doutor em comunicação e ex-presidente da Radiobras, a atitude do presidente não é comparável a de nenhum outro presidente no período da redemocratização.

nexojornal

Brasil bate novo recorde com 3.650 mortes por Covid-19 em 24h

O Brasil bateu nesta sexta-feira (26) novo recorde e registrou 3.650 mortes por Covid-19 em 24 horas, de acordo com o levantamento do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). 

Com a atualização, o país chegou a 307.112 vítimas da doença. Essa é a segunda vez que o país tem mais de 3 mil óbitos em um só dia, a primeira foi na última terça-feira (23).

Também foram confirmados mais 84.245 casos, totalizando 12.404.414 desde o início da pandemia. 

Os números podem ser ainda maiores, já que os dados do Ceará não foram atualizados por problemas técnicos no acesso à base de dados. 

Para tentar conter essa que é a pior fase da pandemia no país, começou nesta sexta o recesso de dez dias na cidade de São Paulo e no estado do Rio de Janeiro. O estado paulista também registrou recorde de mortes em 24 horas, com 1.193 novas vítimas da doença. 

Na manhã desta sexta, o governador do estado, João Doria (PSDB) anunciou uma potencial vacina contra Covid-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan, que vai pedir à Anvisa a autorização para conduzir os testes clínicos dessa iniciativa 100% nacional. 

Chamada de Butanvac, ela usa uma tecnologia similar à vacina da gripe e pode requerer apenas uma dose. De acordo com Doria, ela já pode começar a ser aplicada em julho deste ano.

Poucas horas depois, o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, anunciou que uma vacina financiada pela pasta protocolou o mesmo pedido na última quinta (25). A Versamune-CoV-2FC é desenvolvida pela USP (Universidade de São Paulo) em conjunto com a empresa brasileira Farmacore e a norte-americana PDS Biotechnology.  Segundo ele, o anúncio no mesmo dia foi “coincidência”. 

Até o momento, 14,4 milhões de brasileiros receberam a primeira dose e 4,5 milhões, a segunda, necessária para ser considerado imunizado. Os números correspondem a 6,8% e 2% da população, respectivamente. 

cnnbrasil

Quando a vacinação deve começar a frear a pandemia no Brasil

Caso os laboratórios brasileiros da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e do Instituto Butantan consigam entregar a produção máxima de vacinas contra a covid-19 previstas em seus cronogramas, o Brasil deve vacinar todos os profissionais de saúde e os idosos acima dos 60 anos ainda em abril. Cerca de um mês depois, a imunização deve começar a ter um efeito expressivo sobre o número de mortes, ajudando a desafogar os hospitais.

Dos atuais 2.300 óbitos por dia, a média móvel no país deve ficar abaixo de mil mortes diárias ainda em maio, graças à vacinação. A estimativa consta de um estudo da Impulso Gov, uma organização não governamental que tem como objetivo ajudar estados e municípios a coletar e a analisar dados dos serviços de saúde.

No estudo, usado pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) para defender a adoção de um lockdown nacional para frear os casos antes do efeito da imunização, a ONG recorreu a 12 bases de dados públicas e informações do Ministério da Saúde obtidas por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação). A partir disso, traçou três possíveis cenários da vacinação no país.

“A gente estimou o número de pessoas em cada grupo prioritário, sabe quantas doses precisa e quantas doses vai ter em cada mês. A partir disso, a gente distribui as doses pelos grupos. Por esse cenário que conta apenas com a produção nacional, a gente deve conseguir vacinar até o final de abril todos os idosos acima de 60, que já é uma parte da população com ao menos uma comorbidade. A gente começaria a ter um efeito [no número de mortes] no final de maio”, disse ao jornal Nexo o coordenador de dados da Impulso Gov, Marco Brancher.

O plano de imunização contra a covid-19 do governo federal considera 29 grupos como sendo prioritários na fila da vacinação, como idosos, profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, professores, militares e caminhoneiros. Ao todo, segundo o governo federal, são 77,2 milhões de pessoas. O estudo eliminou a duplicidade, ou seja, incluiu na relação apenas uma vez um idoso que é ao mesmo tempo professor, por exemplo. Por isso, considerou 73,7 milhões de pessoas na estimativa.

Os possíveis cenários

  • COM O CRONOGRAMA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

O plano de vacinação federal prevê a distribuição para estados e municípios de 562 milhões de doses ao longo de 2021, o suficiente para vacinar toda a população de 210 milhões de habitantes. Entre as opções, estão as vacinas da Pfizer/BioNTech, Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson, a única que necessita de apenas uma dose), a Sputnik V, a Covaxin (da indiana Bharat Biotech), além de doses recebidas pelo consórcio Covax Facility e as de Oxford importadas da Índia. Mas muitas dessas vacinas não têm aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e apenas em março, o governo mudou seis vezes o cronograma. Devido ao alto risco de atraso nos contratos, negociações e importações, pela alta demanda global, o estudo considera o cenário improvável, e por isso não discute as metas. “O mais provável é que nos próximos meses tenhamos um cronograma de vacinação consideravelmente mais lento do que o previsto pelo Ministério da Saúde, por falta de doses (não por capacidade de distribuir e vacinar)”, diz o estudo.

  • COM AS DOSES PRODUZIDAS NO PAÍS

Desde março, o país conta com as doses da vacina de Oxford em parceria com a AstraZeneca, produzida no Brasil pela Fiocruz. Elas se somam às doses da Coronavac disponibilizadas pelo Instituto Butantan, que respondiam por 83% de todas as vacinas entregues aos estados até quinta-feira (25). Caso os laboratórios nacionais cumpram o cronograma, as 39 milhões de doses entregues em abril seriam suficientes para vacinar todos os profissionais de saúde e idosos acima de 60 anos, segundo o estudo, que considera esse o cenário mais provável. Caso só essas doses estejam acessíveis, todos os adultos seriam vacinados apenas em dezembro.

  • COM METADE DA PRODUÇÃO NACIONAL

O estudo também traça um cenário mais conservador, em que apenas metade da produção nacional seria entregue. Mesmo assim, a cobertura atingiria as populações mais vulneráveis em alguns meses. Os idosos acima de 60 anos e profissionais de saúde seriam imunizados até junho, e toda a população adulta só receberia as duas doses em 2022.

O impacto nas mortes


Segundo o estudo, vacinar a população acima dos 60 anos já teria impacto porque, no Brasil, cerca de 70% das mortes por covid-19 acontecem entre idosos, mesmo que em março, em algumas regiões, os jovens sejam metade dos internados pela doença.

“A gente não precisa atingir a imunidade de rebanho para começar a ver quedas de óbitos. A população vacinada não é imune ao vírus, ela pode contrair e transmitir, mas só vai ter os efeitos mais leves da doença. Então, provavelmente, essa pessoa não vai ser internada e, quase com certeza, não vai morrer. A gente não tem registro de nenhum óbito por covid de pessoas vacinadas ainda”- Marco Brancher, coordenador de dados da Impulso Gov.

Mesmo no pior cenário (Fiocruz e Butantan entregam apenas metade da produção), em maio, a média móvel (que considera os sete dias anteriores ao cálculo) de mortes deve ficar abaixo de mil óbitos por dia. No final de março, ela era de 2.300 mortes diárias no Brasil.

370 mil

mortes por covid-19 serão evitadas no Brasil até o final de 2021 devido à vacinação no pior cenário, com metade da produção nacional, segundo o estudo da Impulso Gov

O estudo considera ainda que, caso a redução de mortes seja homogênea em todos os municípios do país, a pressão sobre o SUS (Sistema Único de Saúde) deve ser menor em abril em comparação ao mês anterior. Para os pesquisadores, porém, até que se chegue a esse quadro, é necessário que os governos tomem medidas mais duras de restrição de circulação de pessoas.

A defesa do lockdown


Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo na quinta-feira (25) por João Moraes Abreu, diretor executivo da Impulso Gov, Marco Brancher, coordenador de dados da ONG, Carlos Lula, presidente do Conass e secretário de Saúde do Maranhão, e Marcia Castro, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, os autores defendem que um lockdown seja adotado imediatamente no país, por 30 dias, até para garantir os efeitos da vacinação.

O lockdown implica no fechamento das atividades não essenciais e no confinamento da população, que só pode sair de casa com justificativas como ir ao hospital ou à farmácia. É um modelo pouco adotado no Brasil.

Segundo os autores, caso a transmissão do vírus não seja controlada, há o risco de novas variantes mais transmissíveis do vírus surgirem, como já ocorreu em Manaus. Essas variantes podem escapar da proteção garantida pelas vacinas atualmente em uso. O número descontrolado de casos também manteria os hospitais em colapso, impedindo o atendimento até mesmo de pessoas com problemas além da covid-19, o que pode aumentar ainda mais o número de mortes.

Os autores escrevem ainda que, quanto mais a curva de mortes sobe, mais difícil fica para baixá-la. “Já atingimos 3.000 óbitos em um único dia. Se este número não cair já, não ficaremos abaixo de 1.000 óbitos nem em maio, mesmo com a vacinação”, escrevem. Para eles, mesmo uma média móvel abaixo de mil mortes ainda é um número inaceitável.

“Se a gente olhar para qualquer país que implementou medidas mais rígidas desde o começo da pandemia, como Portugal, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, todos eles tiveram políticas públicas voltadas para atender as pessoas que estavam ficando desamparadas, seja por programas de renda mínima emergencial, de crédito para empresas ou de isenção de impostos. Tem um menu disponível. Se a gente não tiver nenhuma medida econômica, a gente sabe que, por mais que seja absolutamente necessário adotar o lockdown, ele acaba sendo inviável na prática”, afirmou Brancher.

Pesquisadores como o neurocientista Miguel Nicolelis, que coordenou o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a covid-19, estimam que o Brasil pode alcançar 500 mil mortes em julho caso medidas restritivas não sejam adotadas imediatamente. Brancher diz que o cenário é possível se os índices de mobilidade continuarem no patamar de março. “Não sei se até o meio do ano, mas com certeza até o final do ano é bem possível que a gente atinja esse número espantoso”, afirmou.

nexojornal

Entidades imploram à ONU medidas para proteger a vida das pessoas

A AJD (Associação Juízes para a Democracia) e 25 entidades da sociedade civil pediram socorro, nesta quinta-feira (25), à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e ao Tribunal Penal Internacional, diante do caos instalado no país.

Em “Carta Aberta à Comunidade Internacional“, os subscritores cobram dessas instâncias internacionais manifestações “a fim de obrigar a tomada de medidas que protejam a vida de brasileiras e brasileiros por parte do Governo Federal e do Parlamento brasileiro”.

“As ações e as omissões do governo federal e do Parlamento brasileiro, que não processa os mais de sessenta pedidos de impeachment, nem legisla estabelecendo medidas de proteção à vida, resultam diretamente na morte de cerca de 3.000 brasileiras/os por dia”, afirma a carta.

A AJD e outras entidades já haviam protocolado petições, sem que até o momento tenham prosseguido os processos de investigação.

“Estima-se que em julho de 2021 o Brasil alcançará 500.000 mortes. Esse número avassalador não é decorrência necessária da pandemia, mas sim dessa política que nega a ciência e expõe a população à morte”, afirma o documento.

Leia a íntegra da carta

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CARTA ABERTA À COMUNIDADE INTERNACIONAL

A população brasileira é alvo de uma política de morte.

Enquanto a maior parte do mundo adota medidas para a proteção de suas populações, promovendo vacinação, impondo isolamento social, efetuando o pagamento de renda mínima e produzindo campanhas de esclarecimento sobre a importância do uso de máscara e álcool gel, no Brasil, o presidente da República faz o exato contrário.

Estimula aglomerações, dificulta a compra e a distribuição de vacinas, questiona o uso de máscara como medida de prevenção à contaminação, incentiva o uso de medicamentos contraindicados por robustos estudos já publicados pela comunidade científica. Além disso, promove um ambiente de perseguição e constrangimento aos pesquisadores e instituições brasileiras que promovem o conhecimento científico necessário ao enfrentamento dos graves problemas decorrentes da pandemia.

Institucionalmente, o governo federal age, ainda, tentando impedir que governadores e prefeitos tomem medidas de proteção contra a disseminação do vírus, mesmo ciente de que o sistema de saúde no Brasil entrou em colapso.

As ações e as omissões do governo federal e do Parlamento brasileiro, que não processa os mais de sessenta pedidos de impeachment, nem legisla estabelecendo medidas de proteção à vida, resultam diretamente na morte de cerca de 3.000 brasileiras/os por dia.

Estima-se que em julho de 2021 o Brasil alcançará 500.000 mortes. Esse número avassalador não é decorrência necessária da pandemia, mas sim dessa política que nega a ciência e expõe a população à morte.

No atual momento, pela primeira vez em sua existência, o Sistema Único de Saúde, que atende a todas as brasileiras e brasileiros, está próximo de atingir o seu colapso em todo país.

Os gestores dos hospitais públicos e privados informam diariamente que os estoques de oxigênio para as pessoas internadas não é suficiente e que em cerca de 15 dias acabarão os medicamentos necessários para proceder às entubações. Corpos são empilhados e pessoas aguardam em longas filas para certificar as mortes.

O caos está instalado.

Em um país continental como o Brasil, no qual está situada a principal floresta responsável pela continuação da vida humana na terra, isso significa uma catástrofe humanitária e ambiental de proporções mundiais.

Já há estudos demonstrando o comprometimento do lençol freático em razão dos enterros produzidos em larga escala, em face dessa assustadora mortalidade. A circulação de pessoas para outros países, diante das mutações mais agressivas apresentadas pelo SARS-COV 2, pode significar a repetição da realidade brasileira em outros lugares do mundo.

A gestão deliberadamente adotada em nosso país pode comprometer, concretamente, a continuidade da vida humana na Terra.

Inúmeras denúncias foram realizadas internamente, mas esbarram no sistema de apoio político organizado junto aos órgãos de fiscalização e ao Poder Legislativo, o que motivou a AJD e diversas outras entidades da sociedade civil a tomarem medidas no âmbito do sistema internacional de  proteção aos Direitos Humanos.

Diversas petições foram protocoladas junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e ao Tribunal Penal Internacional, sem que até o presente momento tenha sido dado prosseguimento aos processos de investigação ou fossem tomadas medidas para a efetiva proteção à vida das pessoas em nosso país.

Diante desse cenário catastrófico, exasperadas e indignadas com a inércia de nossas instituições, no limite de nossas forças diante da violência  institucional representada por essa gestão para a morte, as organizações e entidades abaixo assinadas, em AUTÊNTICO PEDIDO DE SOCORRO, SUPLICAM que as instâncias internacionais de regulação dos Direitos Humanos se manifestem de imediato em relação aos pedidos já formulados, a fim de obrigar a tomada de medidas que protejam a vida de brasileiras e brasileiros por parte do Governo Federal e do Parlamento brasileiro.

Associação Juízes para a Democracia – Valdete Souto Severo, Presidenta.

*

Também subscrevem esse documento:

– Associação Americana de Juristas Rama Brasil (AAJ)

– Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO)

– Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (ABET)

– Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD)

– Associação Brasileira de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (ABRASTT)

– Associação Brasileira dos Terapeutas Ocupacionais (ABRATO)

– Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES)

– Comissão Brasileira de Justiça e Paz/CNBB

– Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito

– Comitê Panamericano de Juízas e Juízes para os Direitos Sociais e Doutrina Franciscana – COPAJU

– Departamento de Saúde Coletiva – Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (DSC/FCM/Unicamp)

– Fórum Acidentes do Trabalho (FÓRUMAT)

– Frente Ampla em Defesa da Saúde de Trabalhadores (em representação de 54 instituições e movimentos sociais)

– Grupo de Estudos TRAGES (Trabalho, Gestão e Saúde/UFG)

– Grupo de Extensão e Pesquisa Trabalho e Saúde Docente (TRASSADO/UFBA)

– Grupo de Trabalho Saúde do Trabalhador (DVRT/PAIR), da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (GT-ST/SBFa)

– Instituto Trabalho Digno (ITD)

– Laboratório Interinstitucional de Subjetividade e Trabalho (LIST) –

– Departamento de Psicologia (DPI) – Universidade Estadual de Maringá (UEM)

– Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST)

– Observatório Sindical Brasileiro – Clodesmidt Riani (OSBCR)

– Pastoral Operária (PO)

– Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação (PPG-REAB/UFBA)

– Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho (PPSAT/UFBA)

– Rede Irerê de Proteção à Ciência

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Brasil quer sondar EUA sobre vacinas prontas estocadas em fábrica da AstraZeneca

O Brasil vai tentar conseguir cerca de 10 milhões de doses prontas que diz estarem estocadas em fábrica da AstraZeneca nos Estados Unidos, segundo o governador do Piauí e representante do Fórum Nacional de Governadores, Wellington Dias.

Em entrevista coletiva ao lado do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, ele afirmou que está sendo discutido com o Itamary uma consulta aos americanos sobre a possibilidade de importação dessa remessa, já que eles não estão aplicando a vacina desenvolvida pelo laboratório e pela universidade de Oxford na sua população.

“Há um laboratório da AstraZeneca nos EUA. Nós tratamos desse aspecto com o Itamaraty, com a diplomacia brasileira, para que possamos consultar, porque o que sabemos é que há vacina pronta em estoque”, disse Dias nesta segunda (8) em Bio-Manguinhos, a fábrica da Fiocruz no Rio de Janeiro.

“Como não está sendo utilizada a AstraZeneca nos Estados Unidos, que eles possam, pela conjuntura brasileira, ceder a venda para o Brasil. São 10 milhões de doses ou mais que estariam disponíveis. Porque também os EUA adotaram uma medida de proibir exportação para suprir sua necessidade. Essa é uma situação mundial”, continuou.

O Brasil não é o único que está de olho nessas doses. Neste sábado (6), o jornal “Financial Times” divulgou que a União Europeia também pediria aos americanos que permitissem a exportação de vacinas e que garantissem o fluxo livre de embarques de insumos para o continente.

“Acreditamos que podemos trabalhar junto com os EUA para garantir que as vacinas produzidas ou envasadas nos EUA para o cumprimento das obrigações contratuais dos produtores de vacinas com a UE sejam honradas”, disse a Comissão Europeia segundo a publicação.

atraso na importação de doses prontas da Índia previstas para março também se deu porque os indianos decidiram proibir as exportações de imunizantes, disse o ministro Pazuello. São esperadas 12 milhões de doses no total, das quais 4 milhões já foram entregues. O restante era esperado em março e abril, mas agora é aguardado só para os meses de abril a julho.

Essa iniciativa não constava inicialmente nos planos da Fiocruz, mas foi uma alternativa para compensar o atraso na produção nacional com o IFA (insumo farmacêutico ativo) da China, que demorou a chegar. As doses vêm do Instituto Serum, um dos centros de produção vinculados à AstraZeneca na Índia.

“Esse laboratório vem fazendo uma postergação na entrega”, afirmou Pazuello nesta segunda. “Vamos ter que fazer uma pressão política, diplomática e até pessoal junto à AstraZeneca para que cobre do laboratório Serum que ele cumpra a entrega dos 8 milhões que faltam. Nesse momento a Índia como país dificultou o processo porque proibiu a exportação”, declarou.

“Então os países no mundo estão variando suas posições diplomáticas e comerciais porque o troço realmente é instável. E é por isso que nós estamos falando de produção nacional. Se nós não tivermos produção nacional como temos hoje no Butantan e na Fiocruz, nós não vamos ter como vacinar em massa o nosso país”, acrescentou.

FIOCRUZ INICIA PRODUÇÃO EM LARGA ESCALA

Nesta segunda (8) a Fiocruz anunciou o início de sua produção em larga escala com o insumo comprado da China, após ter concluído os lotes de validação e controle de qualidade. A partir de agora, diz a fundação, não haverá interrupção na fábrica.

Uma série de atrasos afetaram as entregas. Inicialmente eram esperados 15 milhões de doses envasadas nacionalmente em março, mas agora a fundação só deve enviar 3,8 milhões. Questionado, o diretor de Bio-Manguinhos, Maurício Zuma, afirmou que “tem uma série de variações no processo”.

“A gente anunciou 15 milhões de doses com base nas informações que a gente tinha no momento. Na medida que a gente vai internalizando o processo, a gente vai conhecendo melhor os rendimentos de produção. É uma tecnologia nova, então a cada dia a gente aprende um pouco”, disse.

Um dos fatores que atrapalharam foi um problema no equipamento que fecha os frascos, chamado de máquina de recravação. Ele disse que isso “impactou um pouco” no cronograma porque foi preciso esperar uma semana até que o aparelho fosse consertado e novamente validado.

“Em situação normal isso acontece, só não aparece porque no cotidiano não há essa pressão por doses a cada dia”, explicou, acrescentando que na produção de vacinas não se pode trabalhar ininterruptamente “porque tem dias que é preciso paralisar para fazer a limpeza de todo o processo, para evitar contaminações”.

A capacidade de envasamento da Fiocruz atualmente é de 250 a 300 mil doses, mas até o fim do mês deve passar para 1 milhão. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ainda tem que aprovar o processo de produção nacional com o IFA importado, o que está previsto até o fim desta semana.


CRONOGRAMA DA FIOCRUZ

  • Janeiro: 2 milhões importadas da Índia (entregues)
  • Fevereiro: 2 milhões importadas da Índia (entregues)
  • Março: 3,8 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Abril: 30 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Maio: 25 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Junho: 25 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Julho: 16,6 milhões (produção nacional com IFA importado)
  • Estão previstas mais 8 milhões de doses importadas da Índia
  • Total: 112 milhões até julho, e mais 110 milhões com produção 100% nacional até o fim do ano

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Adesão do Brasil a acordo de compras governamentais avança na OMC

A adesão do Brasil ao Acordo de Compras Governamentais (GPA) da Organização Mundial do Comércio avançou nesta semana, na primeira reunião após a apresentação da oferta inicial brasileira. Se for aceito, o país ganhará acesso em condições favoráveis a um mercado de compras governamentais estimado atualmente em R$ 1,7 trilhão (R$ 9,7 trilhões) por ano.

O GPA dá aos países participantes acesso recíproco em compras governamentais nos membros do acordo (48, atualmente), dentro dos limites estabelecidos em comum acordo.

O pedido de adesão foi feito pelo Brasil em maio do ano passado e a oferta inicial foi apresentada em fevereiro. Segundo o embaixador brasileiro na organização, Alexandre Parola, ela pode equivaler a um mercado de US$ 145 bilhões (cerca de R$ 826 bi, pelo câmbio atual).

Mão de madeira segura notas de dólar sobre fundo azul
Notas de dólar – Gabriel Cabral/Folhapress

Segundo a OMC, o comitê de compras governamentais avaliou os documentos apresentados pelo Brasil como “uma base sólida” para o início das negociações. Além da oferta inicial de mercado, o país enviou respostas a uma lista de questões sobre a legislação brasileira de compras governamentais.

Na próxima etapa, o Brasil negociará com os 48 membros do GPA compromissos com relação a entidades cujos processos de aquisição serão abertos a estrangeiros, bens e serviços que participarão do acordo, valores-limite acima dos quais as compras estarão abertas e eventuais exceções.

Embora grandes licitações de obras públicas sejam incertas no momento, por causa da pandemia de Covid-19 e de incertezas sobre a economia, o governo brasileiro vinha preparando medidas desde o ano passado para atrair a participação estrangeira para o setor de infraestrutura —como em rodovias, ferrovias e aeroportos.

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Coronavírus: Brasil apostou em estratégia ‘genocida’ para combater covid-19, diz Atila Iamarino

Retrtao do Virologista Atila Iamarino
Legenda da foto,Doutor em microbiologia pela USP, Iamarino estuda a disseminação de vírus e a forma como evoluem

O Brasil adotou uma estratégia “genocida” ao apostar na chamada imunidade de rebanho para combater a covid-19, o que possibilitou o surgimento de uma nova variante mais perigosa e que vem causando mais mortes, diz à BBC News Brasil o biólogo e divulgador científico Átila Iamarino.

A imunidade de grupo (também chamada imunidade de rebanho) ocorre quando uma parcela grande o suficiente da população desenvolver uma defesa imunológica contra o coronavírus. Nesse cenário, a doença não consegue se espalhar porque a maioria das pessoas é imune e ela passa a ter grande dificuldade para encontrar alguém suscetível.

O problema dessa estratégia, apontado desde o início por especialistas, é que ela teria um enorme custo humano — muitas mortes aconteceriam até que uma eventual imunidade de rebanho fosse alcançada. Outra questão importante nesse sentido é que não se sabe por quanto tempo a imunidade de alguém infectado pelo Sars-CoV-2 dura, se ela é de curto, médio ou longo prazo.

Em meio ao que especialistas consideram o pior momento da pandemia no país, Iamarino defende a adoção de um confinamento mais rígido e a aceleração da vacinação.

Ele critica ainda o governo federal, que acusa de ter “sabotado” Estados e municípios.

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E vaticina que uma catástrofe pode estar prestes a acontecer se o que vimos em Manaus se repetir no restante do Brasil.

Doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), Iamarino concluiu dois pós-doutorados estudando a disseminação (ele prefere o termo “espalhamento”) dos vírus e a forma como esses organismos evoluem. Um desses pós-doutorados foi na própria USP, e o outro na Universidade Yale, nos Estados Unidos.

Em sua carreira, o pesquisador de 37 anos estudou vírus como ebola e HIV.

Iamarino se tornou conhecido por sua participação no canal de YouTube do Nerdologia, um dos maiores do país. Desde o início da pandemia, tem feito transmissões ao vivo sobre o novo coronavírus, com milhões de visualizações.

Confira os principais trechos da entrevista a seguir.

Atila Iamarino
Legenda da foto,Para Iamarino, falta ação coordenada do governo federal no combate à pandemia de covid-19

BBC News Brasil – O Brasil parece viver o pior momento da pandemia, tendo registrado um recorde na média móvel de mortes. A que se deve isso?

Atila Iamarino – Sabemos que há um componente sazonal no novo coronavírus, com mais casos no inverno do que no verão. Portanto, o Brasil está muito adiantado no aumento de casos — isso só deveria estar acontecendo daqui a alguns meses. Mas por que os casos estão subindo tão cedo e tão rápido?

A resposta se deve a uma combinação de fatores. De um lado, houve um movimento de abertura no fim do ano passado, com mais pessoas circulando sem restrições. De outro — e que considero o principal fator — temos a variante P.1, inicialmente observada em Manaus.

Estudos recentes apontam que se trata de uma cepa mais transmissível e que “dribla” o sistema imunológico, reinfectando quem já se curou.

Quando falamos de vírus, é natural que eles sofram mutações e se tornem mais transmissíveis. O que não precisa ser um processo natural é termos linhagens que escapam da imunidade. Essas linhagens só serão selecionadas quando o vírus continua circulando na presença de pessoas que já tiveram o vírus.

Foi o que aconteceu no Brasil e na África do Sul.

Nesse sentido, a nossa variante é fruto direto da estratégia genocida do Brasil de contar com as pessoas circulando livremente e construindo imunidade. Não é por acaso que surgiu aqui uma das variantes mais perigosas, demonstradamente perigosa.

Médico com máscara segurando tubo de exame de coronavírus
Legenda da foto,Surgimento de variante mais perigosa em Manaus indica falha no combate à covid-19 no Brasil, diz Iamarino

BBC News Brasil – O que as autoridades deveriam ter feito?

Iamarino – O Brasil deveria ter se preparado melhor. Em vez disso, adotamos uma estratégia que cultivou um monstro e que, ao que tudo indica, está causando um surto de casos fora de temporada.

De fato, os hábitos sociais permitiram uma maior circulação do vírus. Apesar de estarmos em um período de baixa transmissão de doenças respiratórias, várias cidades do país já registravam alta ocupação de leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).

Em vez de decretar um lockdown para restringir a movimentação das pessoas e conter o vírus, a aposta do governo para prover o mínimo de dignidade humana foi e continua sendo criar mais leitos.

Isso é jogar nos profissionais de saúde toda a responsabilidade de resolver o problema. Não se resolvem mortes no trânsito criando mais leitos UTI, mas sim com leis de trânsito. O mesmo se aplica à covid-19. É preciso diminuir o número de casos.

Mas o Ministério da Saúde não faz campanha para o uso de máscara e distanciamento social. Tampouco reconhece o lockdown como medida necessária para conter o avanço da pandemia. Falta coordenação federal para ações locais.

Temos agora um país economicamente pior, socialmente mais cansado e com profissionais de saúde exaustos, explorados e usados da pior maneira possível.

BBC News Brasil – O que nos resta fazer, então?

Iamarino – O que o restante do mundo fez: decretar um lockdown mais rígido e correr com a vacinação. Isso é o mínimo. O problema é essa falta de coordenação a nível federal.

De que adianta um município ou um Estado decretar um confinamento se as pessoas de municípios ou Estados vizinhos continuarem circulando? Isso faz com que a localidade tenha todo o prejuízo econômico e político de confinar sua população, mas sem o sucesso que poderia ter se essa ação fosse coordenada. A falsa impressão é que o esforço não funciona, quando, na verdade, ele está sendo sabotado a nível federal.

Por isso, digo que temos dois inimigos para enfrentar no Brasil. Um é a nova variante e o outro é a falta de estratégia do governo federal.

Como resultado, temos pronta a receita para que mais variantes perigosas surjam.

Mulher em isolamento social
Legenda da foto,Confinamentos foram implementados por vários países do mundo para conter propagação do coronavírus

BBC News Brasil – Se nada for feito, o que acontecer?

Iamarino – Nossa estratégia genocida já causou mais de 250 mil mortes. Manaus (AM) e Araraquara (SP) já registraram mais mortes no início deste ano do que durante todo o ano passado. Se isso se repetir no país todo, vai ser um outro massacre.

Mas o principal problema desse tipo de estratégia é que estamos dando ao vírus a oportunidade de sofrer novas mutações, mais perigosas. Eventualmente, as vacinas podem não ser mais eficazes — e, se esse cenário se concretizar, poderemos não ter mais solução.

O Brasil criou sua própria derrota. Estamos demorando para vacinar e deixando o vírus circular livremente.

Agora, com a escassez global de vacinas, entendo que a situação esteja muito mais difícil. E estamos tentando comprar uma vacina que ainda não tem eficácia comprovada (a indiana Covaxin).

Diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil tem capilaridade de vacinação. Há postos de saúde por todo o território nacional que podem dar vazão as doses. Mas agora faltam as doses.

BBC News Brasil – Alguns países, como Israel, já começaram a flexibilizar as regras. O Reino Unido também anunciou o afrouxamento de suas medidas. Em um contexto em que o mundo tenta retomar a normalidade, o Brasil pode se tornar uma pária internacional?

Iamarino – Eu diria que o Brasil vai continuar a pária que virou. Já não podemos viajar para a maioria dos países, nem em condição emergencial, desde antes do surgimento dessa nova variante.

Essa nova linhagem só reforçou o fechamento das fronteiras e essa situação deve permanecer daqui em diante. Se não mudarmos as condições que propiciaram o surgimento dessa variante, vamos gerar outras e estaremos sempre renovando os motivos para o mundo não receber brasileiros.

Pessoa sendo submetida a teste de temperatura
Legenda da foto,Segundo especialistas, Brasil vive pior momento da pandemia

BBC News Brasil – O senhor foi duramente criticado quando, no início da pandemia, previu que o Brasil teria 1 milhão de mortos. Essa previsão nunca se concretizou. Por quê? Acredita ter se equivocado?

Iamarino – Acredito que os extremos dessas previsões continuam muito válidos. De um lado, países como Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, etc, mostraram que o número de mortes pode ser mínimo. Do outro, a mortalidade em locais como Manaus evidenciou que o cenário mais pessimista não é fantasioso.

A capital do Amazonas tem um excesso de enterros até o mês de fevereiro de mais de 430 pessoas por 100 mil habitantes. Se extrapolarmos isso para a totalidade da população brasileira, temos 900 mil mortos.

Se os extremos continuam válidos, o meio do caminho é onde está a faixa de erro e a incerteza. Disso dependem as ações humanas. Há uma série de fatores de que não sabíamos.

Por exemplo, a eficácia das máscaras se revelou muito maior do que esperávamos, principalmente para evitar contaminados de transmitir o vírus para os outros. Tampouco sabíamos qual eficácia as medidas de confinamento teriam.

Jair Bolsonaro fala à imprensa
Legenda da foto,Presidente Jair Bolsonaro é contra lockdown

Estávamos, portanto, lidando com uma doença nova, para a qual não havia dados preliminares.

De qualquer forma, sabemos hoje que o melhor cenário é viável e existe, como observamos na Ásia. E que o pior cenário é possível, como também observamos no interior do Peru, no interior da Bolívia, em Manaus, em países que não são transparentes com os dados e em regiões onde não há estatísticas disponíveis.

  • Luis Barrucho – @luisbarrucho
  • Da BBC News Brasil em Londres

Governo britânico lança ‘caçada’ para achar portador de variante brasileira

O governo britânico vai fazer testes em massa para tentar encontrar um viajante que chegou do Brasil com a​ variante de Sars-Cov-2 “brasileira”, a chamada P.1, que é mais contagiosa que o vírus original. A P.1 foi detectada pela primeira vez no país, em três pessoas na Inglaterra e outras três que voaram do Brasil para a Escócia. Um deles, porém, é desconhecido, porque não preencheu o cartão de identificação que acompanha o teste.

A Public Health England (PHE) diz que os testes em que a variante foi encontrada foram feitos antes das atuais medidas de quarentena obrigatória em hotéis —iniciada em 15 de fevereiro. O governo, porém, ainda não sabe se o infectado anônimo chegou do Brasil ou foi contaminado no Reino Unido.

Para tentar encontrá-lo, o governo vai rastrear centenas de passageiros de uma série de voos que tenham feito conexão com outros partindo do Brasil nas primeiras semanas de fevereiro e usar dados do serviço postal.

A P.1 preocupa o governo britânico porque suas mutações, além de torná-la mais contagiosa, podem tornar o vírus menos suscetível às vacinas que estão sendo usadas no momento no país.

Placa aponta caminho para centro de testes no terminal 2 do aerporto de Heathrow, em Londres
Placa aponta caminho para centro de testes no terminal 2 do aeroporto de Heathrow, em Londres – Ben Stansal – 28.jan.2021/AFP

Em entrevista a uma emissora de TV na manhã desta segunda (1º), o ministro responsável por vacinação, Nadhim Zahawi, disse que a pessoa que procuram pode ter recebido um kit de teste doméstico ou retirado um kit num dos postos públicos. “Parte do motivo pelo qual queremos localizá-lo rapidamente é entender mais sobre ele e seus movimentos”, disse.

Os outros dois casos da variante detectados na Inglaterra são de uma mesma família, na qual um dos membros voltou do Brasil cinco dias antes da quarentena vigiada entrar em vigor. Ele saiu de São Paulo, fez conexão em Zurique e chegou a Londres em 10 de fevereiro, pelo voo LX318 da Swiss Air Lines.

O ministro disse que ele fez um teste antes da partida e preencheu o formulário de localização. Durante a quarentena, desenvolveu sintomas, e seus contatos foram identificados e isolados. A chance de transmissão é mínima, de acordo com Zahawi, porque o paciente cumpriu o isolamento.

Ainda assim, o governo está acompanhando todos os passageiros que chegaram no mesmo voo e fará testes em áreas da região em que ele mora —South Gloucestershire, no sudoeste inglês—, para reduzir a possibilidade de transmissão não identificada.

A PHE também lançou um apelo para que todos os que fizeram teste de Sars-Cov-2 nos dias 12 ou 13 de fevereiro e não receberam o resultado ou não preencheram o cartão de identificação que procurem as autoridades de saúde.

Três pessoas que vivem no norte da Escócia também testaram positivo para a variante P.1 depois de voltar do Brasil com conexões em Paris e Londres. Os três tiveram o mutante identificado durante a quarentena de dez dias, no qual estavam em isolamento, e os outros passageiros do voo estão sendo contatados.

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Argentina mantém fronteira fechada para o Brasil por causa do coronavírus

O governo argentino decidiu estender o fechamento das fronteiras aéreas e terrestres com o Brasil até, pelo menos, dia 12 de março.

A nova ministra da saúde, Carla Vizzotti, que assumiu no lugar de Ginés González García depois da revelação de que haviam sido vacinadas mais de 70 pessoas próximas ao governo, justifica a medida por conta das novas variantes do coronavírus.

O decreto anterior dispunha que elas fossem reabertas a partir desta segunda-feira (1º), mas as autoridades sanitárias consideraram necessário manter o bloqueio e a diminuição de 50% dos voos entre os dois países.

A Argentina também está fechada para estrangeiros de outros países limítrofes e do Reino Unido. Só podem entrar no país argentinos ou residentes. A decisão foi publicada no Diário Oficial local.

A Argentina está numa fase muito inicial da vacinação, e apenas desde a semana passada começou a imunizar cidadãos com mais de 80 anos.

Com relação a outros países, também estão reduzidas as frequências dos voos vindos dos EUA, do México e da Europa em 30%. Também nesses casos, para entrar no país é preciso ser argentino ou residente.

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foto: Martín Zabala

Os cenários de um colapso generalizado na saúde do Brasil

Por todo o país, autoridades e especialistas vêm alertando para o colapso dos sistemas de saúde público e privado diante do alastramento descontrolado da covid-19. Há cidades em que esse colapso já é uma realidade Em outras, está na iminência de acontecer.

Na sexta-feira (26), dia em que completou um ano desde que foi tornado público o primeiro caso de infecção no país, 253 mil pessoas morreram pela doença no Brasil. O número de casos de contaminação superou os 10 milhões.

Em 21 de janeiro de 2021, a média móvel de óbitos diários – que leva em conta dados dos últimos sete dias – voltou a ficar acima dos 1.000, sinalizando uma incidência maior de casos devido às aglomerações da virada do ano. Durante o mês de novembro de 2020, por exemplo, essa média móvel nunca ultrapassou a marca dos 600. Os números são das secretarias de saúde dos estados, reunidos pelo site G1.

De acordo com os índices divulgados pelas secretarias estaduais, a maior parte dos estados mostrou crescimento na média móvel registrada na quinta-feira (25) em relação ao dado de duas semanas antes:

  • 12 estados registram alta nas mortes: Acre, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
  • 10 estados (mais o Distrito Federal) tiveram estabilidade: Alagoas, Espírito Santo, Goiânia, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Rondônia, Sergipe, São Paulo, Tocantins
  • 4 estados apresentaram queda: Amapá, Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima

Vale notar que mesmo nos estados que apresentam estabilidade, as taxas de casos e óbitos pressionam o sistema de saúde. Como se verá a seguir, capitais de diversos estados nessa condição também enfrentam hospitais lotados.

A pressão sobre os sistemas de saúde


As consequências da pandemia no sistema de saúde vem se mostrando brutais. De acordo com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, 17 das 27 capitais do país estão com UTIs do SUS (Sistema Único de Saúde) com mais de 80% de ocupação

Na quinta-feira (25), o governador da Bahia, Rui Costa (PT) afirmou que “a saúde vai colapsar e o Brasil entrará no caos em duas semanas”. Em Santa Catarina, o secretário de Saúde, André Motta, abriu um comunicado aos prefeitos com a frase: “estamos entrando em colapso!”.

Ao jornal Nexo, Marcio Sommer Bittencourt, médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, afirmou que o termo “colapso” é usado quando ocorre a saturação em diversos hospitais simultaneamente.

“Não tem leito para internar, tem fila de espera para as pessoas internarem e termos que fazer assistência em um ambiente sub-ótimo. Quem devia estar na UTI, fica no pronto-socorro, quem está no pronto-socorro mandamos para casa porque não conseguimos internar. Você tem uma cascata de sobrecarga do sistema em que cada pessoa não está no melhor ambiente para ser cuidada.”- Marcio Sommer Bittencourt, médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP.

Segundo o médico, o colapso não aconteceu de uma hora para outra. “Ele é progressivo, porque cada vez mais o paciente mais grave está sendo atendido num ambiente menos ideal e está recebendo cuidado mais tardio. Tudo isso leva a uma piora de complicações, de mortalidade, de tempo de internação e vai consumindo todo o sistema”, afirmou.

É o caso de Porto Velho (RO), em que o índice de ocupação bateu em 100%. A situação calamitosa do estado da região Norte levou o secretário de Saúde, Fernando Máximo, a fazer um apelo desesperado nas redes sociais pedindo que os cidadãos se isolem. “Não temos leito de UTI para sua mãe”, afirmou.

Máximo alertou que também não é mais possível transferir doentes para outros estados, como aconteceu em janeiro com pacientes de Manaus, pois não há vagas em lugar algum no país.

No Rio Grande do Norte, faltam lugares em hospitais públicos e privados. Com isso, doentes de covid-19 têm de permanecer por horas dentro de ambulâncias à espera de um leito.

Enfermeira auxilia paciente com coronavírus em UTI do hospital municipal de Parelheiros, em São Paulo
FOTO: AMANDA PEROBELLI – 3.JUN.2020/REUTERS

Em São Paulo, 72% das instituições privadas têm ocupação de UTI superior a 80%, de acordo com o SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo).

No Rio Grande do Sul, todos os leitos de UTI de hospitais privados estão preenchidos. Na sexta-feira (26), a secretaria de saúde do estado divulgou que a ocupação está em 101,8%.

Para Bittencourt, a situação ainda pode piorar, pois não há limite para o aumento de casos. Como consequência, outros tipos de urgências podem ser preteridas para que se atenda casos de covid. Mesmo assim, o sistema pode não absorver tudo, afirmou o especialista ao Nexo.

“O sistema de saúde normalmente trabalha com pouca reserva porque é um sistema caro, então a gente não tem muito lastro para absorver. Então mesmo abrindo leito de campanha, começa a ter falta de mão de obra, de equipamento, de monitor, de respirador, de medicação para sedar, tem vários gargalos no sistema. Não é só abrir mais uma cama, você precisa de funcionários, treinar funcionários. Então pode piorar, como aconteceu em Manaus, faltou até oxigênio”, afirmou.

As medidas nos estados


Com o agravamento da situação, o termo lockdown voltou a aparecer em pronunciamentos de autoridades. Recentemente, políticos vinham evitando defender a estratégia devido a pressões de associações comerciais e setores empresariais que alegavam prejuízos econômicos. É o argumento também do presidente Jair Bolsonaro, que tem sido o maior crítico dos fechamentos do comércio pelo país.

No Brasil, o termo vem sendo usado para se referir a uma interrupção parcial de atividades e circulação. Na Europa, ele é associado a um conjunto de medidas bem mais duras, que podem incluir o fechamento total do comércio, restrição de contatos entre pessoas que não moram na mesma casa e permissão para circular na rua apenas para atividades essenciais.

Na quinta-feira (25), o governador da Bahia decretou a restrição total de atividades não essenciais entre as 20h de sexta-feira (26) e as 5h de segunda (1). O transporte público funcionará normalmente. A venda de bebidas alcoólicas fica proibida durante o período.

Já no Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) ordenou o fechamento de todos negócios que não sejam essenciais a partir da 0h deste domingo (28). Sete municípios do Entorno do DF decretaram estado de calamidade pública. Na noite de sexta-feira, havia apenas dois leitos de UTI disponíveis em todo o DF, incluindo as redes pública e privada.

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) chamou de “toque de restrição” a intenção de restringir até 14 de março a circulação nas ruas do estado entre 23h e 5h, medida que tem como alvo apenas grandes aglomerações. Em todo o estado, quatro regiões (incluindo a Grande São Paulo) regrediram da fase amarela para a laranja, mais restritiva, enquanto duas regiões voltaram da fase laranja para a vermelha, a mais rigorosa.

A cidade de Araraquara, no interior do estado, é um dos raros locais do país a adotar um lockdown que se assemelha ao modelo europeu. Só pode se deslocar pela cidade quem trabalha em serviços essenciais ou for usá-los. Mesmo as atividades essenciais, como supermercados, padarias e farmácias, têm de fechar as portas às 20h. As multas para quem descumprir as regras podem variar de R$ 120 a R$ 6.000.

Para Bittencourt, do Hospital Universitário da USP, a única forma de controlar uma pandemia é frear o alastramento do vírus na comunidade. “Quando há transmissão, o hospital apenas enxuga gelo. Você pode melhorar a vida de quem está internado, mas não há medicação que resolva a transmissão na comunidade”, afirmou. O especialista também defende que o lockdown sozinho “não resolve”. Idealmente, pessoas com o vírus deveriam ser isoladas e seus contatos, rastreados para que também passem por quarentena.

Efeitos da vacinação devem demorar para aparecer. Na sexta-feira (26), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, previu que o país só deve ter uma queda no número de hospitalizações e mortes por covid-19 em maio ou junho. É nessa época que a vacinação chegará à população acima de 60 anos.

6,4 milhões

Número de pessoas no Brasil que já recebeu pelo menos uma dose de vacina contra covid-19 em 26 de fevereiro de 220, segundo dados do consórcio de imprensa.

Países como Israel e Inglaterra testemunharam reduções nos casos e internações por covid-19 apenas depois de imunizar parcelas grandes da população. No Brasil, no fim de fevereiro, 3% da população havia recebido o imunizante, com diversos estados tendo de interromper suas campanhas devido à falta de doses.

As declarações do ministro da Saúde


Na quinta-feira (25), o ministro da Saúde, general da ativa Eduardo Pazuello, afirmou que o Brasil está “enfrentando uma nova etapa dessa pandemia”. “Tem hoje o vírus mutado. Ele nos dá três vezes mais a contaminação”, disse o auxiliar de Bolsonaro. O ministro fazia referência à cepa surgida em Manaus, chamada de P.1 .

No entanto, notas técnicas do próprio ministério afirmam que ainda “não há evidências científicas” que comprovem uma maior transmissibilidade da cepa surgida na capital do Amazonas.

Para o diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, a aparição de variantes do novo coronavírus não é justificativa para um aumento de casos. Falando à imprensa, ele lembrou que diversos países vêm realizando um bom trabalho de contenção do vírus, mesmo com as mutações.

Como exemplo, ele citou a Nigéria, país de população equivalente ao Brasil (196 milhões de habitantes contra 210 milhões de brasileiros), mas com um PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas do país) que é menos de um quarto do brasileiro. No entanto, o número de novos casos da doença no país africano é 100 vezes menor que no Brasil: são três novos casos diários por milhão contra 300 no Brasil.

Em seu pronunciamento, Pazuello não mencionou as medidas básicas para a contenção do vírus, como o distanciamento social e o uso de máscaras e álcool gel.

No mesmo dia, Bolsonaro alertou sobre os “efeitos colaterais” do uso de máscaras em crianças, em mais uma declaração sem qualquer evidência científica. Segundo o mandatário, a fonte das suas informações seria um “estudo” de uma universidade alemã. Na verdade, era uma enquete online feita por um site do país europeu.

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No Acre, moradores dos 10 municípios atingidos pela enchente poderá sacar o FGTS

A CAIXA anuncia nesta quarta-feira (24/02) diversas medidas em apoio ao estado do Acre, atingido por fortes chuvas. O banco vai ampliar o atendimento à população com o deslocamento de Caminhão-agência para as regiões mais afetadas e prestar apoio técnico às prefeituras para obras de reconstrução.

O presidente da CAIXA, Pedro Guimarães, visita o Acre para avaliar a situação das cidades afetadas e anunciar medidas de apoio à região. “Viemos ao estado para ver onde o banco pode ajudar. Trouxemos ações de apoio à população, empresas e prefeituras. A CAIXA vai oferecer suporte no atendimento, em especial às pessoas das áreas mais carentes afetadas pelas chuvas”, explica.

Dez cidades em estado de calamidade decretada contarão com as medidas de apoio da CAIXA: Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Feijó, Porto Walter, Santa Rosa do Purus, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Sena Madureira e Jordão.

Os clientes das regiões afetadas contarão com isenção de tarifas, pausa em contratos habitacionais e carência para empréstimos. As empresas também terão apoio da CAIXA, o banco oferece crédito com 12 meses de carência, pausa em prestações de produtos de crédito e facilidades para aquisição de máquinas e equipamentos.

Benefícios para Pessoa Física:

  • A CAIXA dará isenção de cesta de serviços por três meses, de forma automática, para clientes moradores das áreas atingidas.
  • O banco disponibiliza ainda outros benefícios que poderão ser solicitados pelos clientes, como dispensa de encargos nas operações de Penhor e carência de até 90 dias para a 1ª parcela em novos contratos de CDC.
  • Para clientes com CDC ativo, estará disponível a recontratação do crédito com carência, desde que o empréstimo esteja em dia.
  • No Crédito Consignado haverá possibilidade de habilitar carência, a depender da negociação do convênio.

Benefícios para Pessoa Jurídica:

  • Isenção de cesta de serviços pelo período de 3 meses para correntistas PJ.
  • Para as empresas, a CAIXA oferece contratação de operação com recursos garantidos pelo Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas (FAMPE), com taxas a partir de 1,19% a.m., até 12 meses de prazo de carência e até 36 meses para amortização.
  • Pausa de até 3 meses nos produtos de crédito Pessoa Jurídica.
  • Produto de Investimento para aquisição de máquinas e equipamentos com carência de 06 meses e taxa de 0,99% a.m. (redução de 34%da taxa padrão de 1,54%)

Habitação:

  • Nos contratos habitacionais, a CAIXA possibilita a pausa estendida por até 90 dias no pagamento das parcelas.
  • Renegociação para incorporação das prestações no saldo devedor dos clientes inadimplentes.
  • O banco mobilizou equipes de trabalho social e de atendimento técnico de engenharia para prestar o apoio necessário.
  • As unidades da CAIXA também darão suporte aos clientes para acionamento de seguro habitacional e procedimentos para pagamento de indenizações de forma imediata.

Governo:

  • A CAIXA disponibilizará às prefeituras sua equipe para ações de assistência técnica em apoio aos municípios.
  • As equipes de arquitetos, engenheiros, operacionalização de repasses e financiamentos e trabalho técnico social das gerências executivas de governo atenderão prioritariamente os municípios atingidos.
  • As prefeituras poderão contar com suporte técnico para levantamento dos danos e estimativa de custos para a recuperação de obras em andamento ou edificações atingidas que têm grande impacto para a população dos municípios, como pontes, vias de acesso, abastecimento de água, postos de saúde e escolas, dentre outras ações.

FGTS:

  • Há expectativa de liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) por decreto de calamidade pública, para isso seguem os passos:
  • Município ou Estado decreta situação de emergência ou calamidade pública.
  • Ministério do Desenvolvimento Regional publica portaria de reconhecimento.
  • Defesa civil do Município ou Estado entrega declaração das áreas afetadas e Formulário de informação do Desastre (FIDE) à CAIXA.
  • Depois dessas etapas, a solicitação de saque poderá ser feita pelo trabalhador através do App FGTS e o pagamento ocorrerá em cerca de 2 dias após o pedido.
  • Para o saque, o beneficiário que residir na área atingida deverá possuir saldo na conta vinculada e não ter efetuado saque por motivo calamidade nos últimos 12 meses. O valor do saque é limitado a R$ 6.220,00 por conta.
  • A solicitação de saque também poderá ser feita presencialmente, sendo que as orientações, como locais de atendimento e datas, serão feitas pela CAIXA oportunamente.

Atendimento:

  • A CAIXA vai deslocar para o estado um Caminhão-agência do banco, que trará reforço para o atendimento bancário nas cidades mais afetadas.
  • A CAIXA também fará remanejamento de empregados com base na demanda por atendimento e negócios em cada localidade, conforme a necessidade.
  • Contratação 28 novos empregados para o estado do Acre. (Assessoria Imprensa e Comunicação Institucional da CAIXA)

OMS aprova vacina de Oxford e destrava envio para o Brasil

A OMS (Organização Mundial da Saúde) incluiu nesta segunda (15) em sua lista de uso emergencial (EUL) a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca. A decisão permite que elas sejam distribuídas pela Covax, consórcio internacional que enviará vacinas para mais de cem países no mundo, inclusive o Brasil.

A expectativa é que 1,6 milhão de doses do imunizante cheguem ao Brasil neste trimestre e 6 milhões no segundo trimestre. Dos 10.672.800 de doses alocadas para o país no primeiro semestre, cerca de 3 milhões serão adiadas para o segundo semestre, de acordo com documento publicado no começo do mês. O acordo do Brasil na Covax prevê 42,5 milhões de doses até o fim de 2021.

O departamento responsável pela avaliação e regulação das vacinas aprovou tanto a versão produzida pela AstraZeneca-SKBio na Coreia (que virá para o Brasil) quanto a produzida pelo Instituto Serum, na Índia.

Além de destravar a distribuição pela Covax de 336 milhões de doses da AstraZeneca para 145 países, a inclusão do produto na EUL também beneficia países menos desenvolvidos, que não tem uma agência regulatória estruturada e podem tomar sua decisão com base no parecer da entidade. A Covax deve ainda entregar 1,2 milhão de doses da Pfizer/BioNTech (incluída na EUL em dezembro) neste semestre.

“Países sem acesso a vacinas até o momento finalmente poderão imunizar seus profissionais de saúde e populações em risco”, disse a brasileira Mariângela Simão, subdiretora-geral da OMS para Acesso a Medicamentos. O órgão avaliou dados de qualidade, segurança e eficácia da vacina de Oxford e planos de gestão de risco e adequação das cadeias de refrigeração.

Na semana passada, o órgão consultivo que orienta a OMS (Sage) recomendou o uso do imunizante em todas as faixas etárias a partir dos 18 anos de idade.

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Vacina adaptada a variantes pode levar até 9 meses, diz AstraZeneca

Uma vacina mais eficaz contra variantes do SarsCov2 consideradas preocupantes, como a P.1 (encontrada no Brasil), pode levar de 6 a 9 meses para ser produzida, afirmou nesta quinta (11) a AstraZeneca, empresa farmacêutica que desenvolveu com a Universidade de Oxford o imunizante usado hoje no programa do governo federal brasileiro.

A estimativa foi feita durante anúncio de resultados financeiros do laboratório em 2020. A necessidade de um imunizante mais adequado aos mutantes do coronavírus cresceu depois que dados iniciais mostraram proteção menor contra a variante B.1.351 (encontrada na África do Sul), em relação a casos leves e moderados da doença.

Mais pesquisas estão sendo feitas sobre a eficácia contra casos graves de Covid-19 e mortes e contra a variante P.1 —a expectativa é que o imunizante atual ofereça proteção satisfatória contra doença mais severa ou óbitos, afirmou nesta quarta (10) o grupo que aconselha a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A organização, que nesta quinta publicou orientações sobre a vacina de Oxford/AstraZeneca, decidirá na próxima segunda (15) sobre sua inclusão na lista de uso emergencial (UEL), necessária para a distribuição pelo consórcio Covax —que prevê enviá-la para mais de 100 países, entre eles o Brasil.

Usado já em mais de 50 países, o produto é considerado um dos mais promissores para nações mais pobres, porque é mais barato e pode ser armazenado e distribuído mais facilmente que opções mais sofisticads, como as vacinas da Pfizer/BioNTech (já aprovada pela OMS) e da Moderna.

A falta de evidência sobre o efeito do produto sobre as novas variantes levou a África do Sul a suspender a aplicação da vacina até montar um ensaio clínico para observar sua eficácia em 100 mil pessoas, antes de escalar a aplicação. Segundo a OMS, a cautela faz sentido para países que tenham mais de uma vacina disponível, mas o imunizante de Oxford/AstraZeneca deve ser usado sem restrições se for o único disponível, para proteger a população mais vulnerável.

Nesta quinta, a seção europeia da OMS afirmou que a variante B.1.351 já foi encontrada em 19 países do continente e, embora haja pouco indício de transmissão comunitária, sua participação no aparecimento de novos surtos é crescente.

A adaptação da vacina de Oxford/AstraZeneca a variantes do Sars-Cov-2 é mais demorada que a de alternativas como as da Pfizer ou da Moderna, por causa da tecnologia utilizada na produção. O imunizante de Oxford exige que células sejam cultivadas por semanas, alongando o prazo de produção, enquanto as outras duas vacinas usam a tecnologia de mRNA.

O chefe de pesquisa e desenvolvimento da AstraZeneca, Mene Pangalos, afirmou em entrevista após o anúncio de resultados que a diferença de tecnologia implica um atraso de até 6 semanas na obtenção de uma vacina adequada às variantes.

Pangalos também disse esperar que os resultados de estudos mais amplos sobre o efeito da vacina, em realização nos Estados Unidos, fiquem prontos “em algumas semanas”.

A AstraZeneca divulgou um aumento de 9% nas receitas de 2020, para US$ 26,6 bilhões (R$ 143 bi). As vendas da vacina Covid-19 representaram US$ 2 milhões (R$ 10,8 mi), segundo a empresa, e novos medicamentos representaram mais da metade da receita total. O lucro anual antes de impostos foi de US$ 3,9 bilhões (R$ 21 bilhões).

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O repique da pandemia de covid-19 no Brasil sob análise

Depois de períodos de estabilidade e queda no contágio, os dados de casos diários e internações pela covid-19 voltaram a preocupar em cidades do Brasil em novembro. Boletim de quarta-feira (18) do consórcio de veículos de imprensa mostra tendência de alta na média móvel de mortes e casos no país na semana atual em relação aos 15 dias anteriores. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, houve salto na ocupação de hospitais por pessoas infectadas.

5.945.849

é o número de infectados pela covid-19 em todo o Brasil até quarta-feira (18), segundo o Ministério da Saúde

167.455

é o número de mortos em decorrência da doença no país até a mesma data

O otimismo com o cenário de estabilidade e com a divulgação dos resultados positivos de testes de vacinas levaram a população a relaxar o isolamento e outras medidas de prevenção, como uso correto de máscaras, o que é apontado por especialistas como a principal causa do crescimento de internações pela doença.

Informações desencontradas e recomendações sem comprovação científica, como a publicada pelo Ministério da Saúde na tarde de quarta-feira (18), que encoraja a população que não é parte do grupo de risco a seguir a vida normalmente, dificultam o combate ao vírus.

Na terça-feira (17), puxado por regiões que vivem uma segunda onda da covid-19 como Estados Unidos e Europa, o mundo bateu recorde diário de mortes pela doença, com 11.099 óbitos registrados em 24 horas. No total, já são mais de 1,3 milhão de vítimas.

Diante do aumento nos dados da doença no Brasil, o Jornal Nexo conversou com dois especialistas sobre a evolução da pandemia no país e as recomendações mais adequadas para o momento atual. São eles:

Carolina Coutinho é epidemiologista e pesquisadora na Eaesp-FGV
Plinio Trabasso é médico infectologista, professor associado da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e coordenador de Assistência do Hospital de Clínicas da Unicamp


Os números da pandemia no Brasil estão em alta? Por quê?


CAROLINA COUTINHO Levando em consideração que essa é uma doença transmissível de pessoa a pessoa, o ideal é que a gente olhe o país como um todo para fazer uma análise geral, mas para entendermos a dinâmica da epidemia, temos que olhar para recortes menores. Assim, vemos que há municípios com estabilidade e outros municípios que começaram a apresentar tendência de alta.

Estamos desde março, há oito meses, em quarentena. As medidas de relaxamento foram sendo implementadas com mais intensidade nas últimas semanas. Isso significou liberar restaurantes, bares: locais onde as pessoas se aglomeram. Pessoas que vinham desde o início da pandemia mantendo o isolamento agora começaram a circular um pouco mais na cidade, especialmente a classe média que trabalha remotamente e que não precisaria sair e as classes altas, que têm o privilégio de manter um isolamento mais adequado. Nas últimas semanas, eles voltaram a circular pela cidade, para frequentar esses espaços que foram liberados, e começaram a encontrar outras pessoas e essas pessoas que antes estavam protegidas da contaminação, estão circulando, se expondo e estão se infectando.

Houve também a reabertura das escolas em alguns municípios, o aumento do volume de pessoas que frequentam o transporte coletivo, os bares e os restaurantes. Uma outra questão é em relação às medidas de prevenção que não estão sendo idealmente cumpridas.

PLINIO TRABASSO Alguns especialistas falam em segunda onda, outros dizem que a primeira não acabou ainda, então é apenas uma continuidade do que já vinha acontecendo. De qualquer forma, trata-se de uma consequência da liberalização do confinamento associada à não observância por boa parte da população das medidas de distanciamento social e, principalmente, uso de medidas protetivas, como a máscara facial e a higienização das mãos.

Há muitos relatos de festas e outros encontros familiares, então, nessas circunstâncias, é comum as pessoas deixarem de lado ou serem menos rigorosas com as medidas protetivas. Abraçam-se, ficam perto umas das outras, enfim, são atitudes que facilitam a transmissão do vírus.

Em quais regiões a aceleração da covid-19 inspira mais preocupação?


CAROLINA COUTINHO Na semana passada, houve um problema muito grave com o site oficial do Ministério da Saúde. Um ataque hacker deixou o site fora do ar por um tempo, então as notificações não puderam ser feitas. Acreditamos que esses dados que temos agora após a restauração do sistema podem estar vindo com algum atraso. Até normalizar essas notificações, pode ter acontecido algum represamento de dados, que é o que vamos ver nas próximas semanas.

Mas o InfoGripe divulgou um novo boletim na terça-feira (17) e avaliou as capitais do Brasil em relação aos números de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Vemos algumas capitais apresentarem tendência de alta no longo prazo. São elas: Belo Horizonte, Florianópolis, João Pessoa, Natal, Rio Branco, São Luís e Vitória, além da região central do Distrito Federal. Goiânia e Palmas apresentaram tendência de alta também no curto prazo. São Paulo teve tendência de alta nas semanas anteriores, mas acreditamos que os dados tenham sido muito afetados por essa interrupção do sistema.

Nesse último boletim, a cidade apresentou tendência de estabilidade, mas, como já vinha apresentando tendência de alta antes, vamos verificar nos próximos boletins se isso é uma oscilação inclusive em função desse represamento de dados. Porto Alegre chama atenção por uma possível interrupção na tendência de queda, que foi um pouco o mesmo que aconteceu com São Paulo. Em Manaus, tivemos alta em agosto, mas aparentemente agora há um sinal moderado de queda. Belém, Fortaleza, Maceió e Macapá, que estavam com sinal de alta nos boletins anteriores, agora estão apresentando sinal de estabilização.

É importante pensar que estabilização não é queda, não é uma coisa boa, porque se está em um patamar alto, estabilizar no alto é ruim. O Rio de Janeiro, que vinha numa linha de queda nas semanas anteriores, voltou a estabilizar.

PLINIO TRABASSO Sempre nas mais vulneráveis tanto do ponto de vista socioeconômico quanto de acesso aos aparelhos públicos de saúde (UBSs, Centros de Saúde, hospitais). Nessas regiões, com moradias pequenas e com muitas pessoas convivendo no mesmo espaço, é muito difícil manter distanciamento social.

Além disso, normalmente nessas áreas, moram os trabalhadores que não param, não têm oportunidade de trabalho remoto… São os entregadores de delivery de comida, os empregados de comércio varejista, empregados domésticos.

Os governos devem adotar quarentenas mais rígidas?


CAROLINA COUTINHO Cada município precisa olhar melhor para sua rede de saúde para ver como essa pequena tendência de alta demanda leitos, para conseguir estruturar melhor e pensar quais as medidas para cada um dos locais. Num local muito pequeno que estabilizou em um nível alto, se a gente tem agora uma pequena alta, já é capaz de colapsar o sistema de saúde e de não ter mais leitos para internar as pessoas quando for necessário.

Precisamos sempre pensar que, com o aumento das pessoas circulando nas ruas, além da covid-19 a gente também tem a chance de outros problemas que vão demandar leitos de UTI. Se na quarentena a gente diminuiu muito a circulação de pessoas e de carros na rua, agora estamos aumentando. Se tivemos redução de acidentes de trânsito, agora a gente vai começar a observar acidentes de trânsito novamente.

É ideal que cada município tenha um comitê de crise formado por especialistas que tenham capacidade de analisar esses dados localmente para pensar quais as melhores medidas que devem ser tomadas. Talvez em alguns locais seja de fato ideal regredir um pouco no relaxamento da quarentena para diminuir a circulação de pessoas nas ruas. Ou aumentar a campanha de comunicação de risco. Essas campanhas ensinam as pessoas a agir e a se portar em cada uma das situações que elas possam enfrentar durante a pandemia. Por exemplo, ir ao trabalho. Eu preciso ir trabalhar, o que devo fazer pra me proteger no caminho ao trabalho?

PLINIO TRABASSO Os dados ainda não apontam para isso, mas é possível que sim, em breve.

Quais cuidados e ações as pessoas devem tomar neste momento?


CAROLINA COUTINHO É responsabilidade dos gestores e dos governos municipal, estadual e federal reforçar a comunicação de risco com a população, informar à população quais são as medidas de prevenção específicas para cada uma das situações nas quais o indivíduo tenha que se expor. Precisamos reforçar as medidas que todo mundo já sabe, que é lavar as mãos, usar a máscara adequadamente, quais as máscaras que são adequadas (como a moda da máscara de tricô, que ficou famosa inclusive entre atores globais: é uma máscara bonitinha, mas que não protege absolutamente nada), a frequência com que devemos trocar a máscara. Nesse momento da pandemia, ela não é só um equipamento de proteção individual, mas um equipamento de proteção coletiva, porque quando a gente usa a máscara, a gente se protege e protege também os outros.

Com as comemorações de fim de ano precisamos retomar as campanhas de conscientização para que as pessoas não frequentem e não promovam festas com muitas pessoas, em local fechado. Como você tem que fazer? Você vai comemorar com a sua família, qual a forma mais adequada de fazer isso? Em um lugar aberto, com poucas pessoas, com espaçamento, todos de máscara, disponibilidade de álcool gel, lugar para as pessoas lavarem as mãos frequentemente, inclusive até indicações de menu, não fazer o famoso bufê.

Observar se as medidas de proteção estão sendo cumpridas em seu ambiente de trabalho, no supermercado, reforçar a necessidade dessas medidas a amigos e colegas. E também o essencial, que é ter a responsabilidade social para entender o seu papel. Se apresentar sintomas leves, se isole.

PLINIO TRABASSO Não deixar de lado e ser muito rigoroso na adoção das medidas de interrupção da cadeia de transmissão: higiene das mãos com álcool gel ou água e sabão, etiqueta respiratória, não promover ou participar de aglomerações, manter distanciamento social, utilização correta da máscara (sobre o nariz e a boca). É facilmente possível encontrar pessoas com a máscara sem cobrir o nariz, por exemplo.

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Se leilão do 5G atrasar mais, Brasil vai ficar em situação complicada, diz presidente da Ericsson

Eduardo Ricotta, presidente da fabricante de equipamentos de telecomunicações Ericsson no Brasil, considera preocupante um atraso do leilão do 5G no ano que vem. Se ficar para 2022, a situação do país em inovação se complica, afirma ele.

O executivo da multinacional sueca evita falar da pressão política contra a participação da Huawei no Brasil. Segundo Ricotta, o país precisa de um plano do 5G que inclua questões tributárias e confiança tecnológica, além da proteção de dados.

Apesar da decisão anunciada pela Suécia na terça (20) de banir os chineses Huawei e ZTE das redes do país, o executivo diz é preciso focar os negócios porque o mercado continua competitivo.

Retrato de Eduardo Ricotta, presidente da Ericsson
Eduardo Ricotta, presidente da Ericsson – Divulgação

Como o sr. vê a pressão para deixar a Huawei fora do 5G no Brasil? Eu posso falar da Ericsson, não dos concorrentes. Para ter o 5G no Brasil, primeiro, temos de concluir a questão das regras do leilão. Isso é fundamental para sabermos como vai funcionar cobertura, obrigações, etc.

Temos que saber se vai ser arrecadatório ou de infraestrutura. O leilão com viés de infraestrutura ajuda a população porque possibilita uma cobertura melhor. Precisamos de um plano do 5G no Brasil, com aspectos como a inovação, a disponibilidade de espectro, a cadeia de impostos. Hoje, em telecom, a carga tributária é comparável a tabaco, bebida e joia.

Temos de ter confiança tecnológica, porque são redes críticas. Isso pode parar um sistema de transporte e energia. Tem de ter confiança que não vai ter ciberataque e que vai ter proteção de dados. No 4G, uma gama de serviços foi criada. Acredito que no 5G vai ter inovação com diversos setores da economia. São esses os pontos que temos que olhar.

Mas o viés arrecadatório ganhou importância neste momento? Não, porque no leilão de infraestrutura, o governo consegue arrecadar mais do que no arrecadatório. Temos de olhar a cadeia inteira de impostos. Nós olhamos quanto a frequência vai trazer para o governo.

Em vez de olharmos isso, vamos perceber que, se colocamos o 5G no país, vem um número maior de pessoas falando nessa rede. Tem novos produtos e serviços que geram uma arrecadação maior do que a do leilão.

Estamos falando de coisa de R$ 20 bilhões a mais de arrecadação para o governo em cinco anos. Em vez de olhar só o custo da frequência, temos de ver todo o ecossistema.

E esse leilão sai quando? Vocês ficam frustrados? Eu acho que vai sair no meio do ano que vem, que é o que está programado. A preocupação é ficarmos para trás em inovação. No ranking dos dez maiores países em inovação, tem uma correlação com a tecnologia. Nesses países, a Ericsson tem 17 redes 5G já funcionando.

Acho que ainda dá tempo. Não está nada perdido. Está começando o 5G no mundo, mas não pode passar do ano que vem. Se passar para 2022, aí sim a gente fica em uma situação mais complicada.

Em 2019, vocês anunciaram aporte de R$ 1 bilhão em São José dos Campos. Já está produzindo? Está quase. Não mudamos os planos. Continuamos com o investimento de R$ 1 bilhão nos próximos cinco anos para pesquisa e desenvolvimento e fabricação de 5G no Brasil. A fábrica está praticamente pronta. A princípio, provavelmente, eu vou produzir o 5G aqui para exportar e depois para o mercado local.

A pandemia não atrasou? Atrasou pouco. Tivemos muito problema de componente, de testes. Atrasou importação. Mas a gente quer, até o fim do ano, terminar toda a instalação da linha e começar a produção no inicio do ano que vem.

Nem foi por causa da pandemia. Se a gente quisesse antecipar, até conseguiria. Mas vamos olhando o leilão também e vai fazendo um sincronismo nas datas. Está de acordo com o planejado. A gente sempre deixa seis meses, mais ou menos, de janela. É difícil ter uma precisão.

A Ericsson produz para a China? Não. Nós instalamos equipamentos na China. A Ericsson tem uma participação de mercado importante. Nós somos uma das empresas que detêm a tecnologia 5G e também vendemos para a China.

A Ericsson é uma empresa sueca, que trabalha com a China. Mas a Suécia decidiu banir as chinesas Huawei e ZTE no país. Como vocês receberam isso? Não entramos na questão geopolítica. Está fora da nossa esfera. O que a gente quer é continuar trabalhando e prover a tecnologia com foco nos nossos clientes.
Sempre tivemos um mercado muito competitivo. Vai continuar, independentemente de onde estivermos brigando, inclusive nos Estados Unidos, que são um mercado bem competitivo. Queremos ficar fora dessa discussão geopolítica. Tem muita tensão hoje no mundo inteiro e nós temos que focar os negócios.

Como foi a pressão da demanda no começo da pandemia e como está agora? E o home office? A internet explodiu no Brasil. Tivemos um incremento no tráfego por volta de 30% durante a pandemia. A infraestrutura de telecomunicações nunca foi tão crítica. O tempo de tela aumentou.

Telecom subiu nas prioridades das famílias. Sobre o home office, em dois dias, nós colocamos 82% da empresa em casa em cinco países. Só que a volta é bem mais complexa porque cada país tem uma regra.

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