Senador Aécio Neves recebeu R$ 9 milhões de caixa dois

Aque ponto chegou o cinismo de Aécio Neves e de todo o sistema corrupto nacional. Os partidos e os políticos de uma facção hoje imputam aos outros fatos que eles praticaram ontem. É muita cara de pau. Todos os velhos partidos (PT, PMDB, PSDB, DEM etc.) estão contaminados.

Temos que implodir todos eles (“erga omnes”). Nos escombros vamos ver quem sobreviveu ao furacão Lava Jato e aí vamos reconstruir o Brasil.

A chapa Dilma-Temer, diante de todas as provas colhidas, tem mesmo que ser cassada pelo TSE por abuso de poder econômico e político. Mas saber que o pedido de cassação foi feito por quem pediu R$ 9 milhões de doação em caixa dois para a Odebrecht é uma hipocrisia sem paralelo.

Benedicto Júnior (funcionário da empreiteira) disse ao corregedor-geral do TSE que a empresa doou, a pedido de Aécio, R$ 9 milhões em caixa dois a campanhas políticas do PSDB (Folha, 2/3/17).

Seis milhões foram para Pimenta da Veiga, Anastasia e Dimas Toledo Júnior, filho do ex-diretor de Furnas, que teria pago em outras ocasiões muitos milhões em propinas para Aécio, a partir das receitas dessa estatal. Três milhões foram para o marqueteiro Paulo Vasconcelos, que coordenou a campanha nacional do PSDB em 2014.

A cassação da chapa Dilma-Temer é mais um passo na nossa luta pela implosão do sistema corrupto, que é protagonizado por um covil de ladrões que explora o Brasil há vários séculos.

As revelações da Odebrecht, como já se imaginava, são mesmo “tsunâmicas”. Mas estão expondo, antes de tudo, a hipocrisia e o cinismo do crime organizado que tomou conta do País. Aécio ainda está sendo investigado no caso de “Furnas” (propinas recebidas dessa empresa) e da construção da Cidade Administrativa em BH (teria levado propinas de até 3% dos contratos com as empreiteiras).

Que seja superada a lerdeza da Lava Jato no STF (sobretudo quando se trata dos tucanos). Mas se Aécio não for processado e condenado, de acordo com o Estado de Direito, antes das eleições de 2018, a tarefa do voto faxina estará nas nossas mãos. Faxina com cidadania vigilante, o que significa faxinar o sujo e colocar na presidência da República uma nova liderança comprometida com o combate à corrupção, às desigualdades hediondas e às injustiças, respeitando o Estado de Direito e a democracia.

A história do exercício do poder no Brasil é uma história de bandidagem político-governamental-empresarial (praticada pelo clube dos donos clepto-plutocratas dirigentes).

Hipócritas (falsos) são os que dissimulam suas intenções, que ocultam a realidade por meio das suas máscaras, fingindo que possuem boas qualidades; falam (só) da corrupção dos outros (há políticos hipócritas, jornais e televisões hipócritas etc.).

Quando os hipócritas discursam eleitoralmente, são uns demagogos estelionatários.

Quando debocham da corrupção alheia, quando atacam os vícios dos outros (dissimulando os próprios), são cínicos (repletos de fingimentos).

Nós, eleitores, temos que suspender momentaneamente nossas preferências ideológicas e partidárias para promover uma grande união em torno da implosão do sistema.

O sistema político-eleitoral-partidário e empresarial brasileiro continua chafurdado na corrupção sistêmica em virtude da inércia da cidadania vigilante, que tem que atuar nas ruas, nas redes e nas urnas. A bomba relógio da implosão final do sistema está em nossas mãos.

Luiz Flávio Gomes – Doutor em Direito pela Universidade Complutense de Madri. Mestre em Direito Penal pela USP. Jurista e cientista criminal. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Foi Promotor de Justiça, Juiz de Direito e Advogado.