A crise envolvendo o FrigoRaça de Boca do Acre ganhou uma nova dimensão após a manifestação de produtores rurais que levou à interdição da BR-317 na terça-feira (22). Pecuaristas cobraram pagamentos que, segundo relatos divulgados sobre o protesto, estariam atrasados havia dias.
Mas, além da cobrança dos produtores, os registros empresariais ajudam a entender a estrutura por trás do frigorífico que atualmente ocupa a antiga unidade do Frizam no município.
O FrigoRaça não aparece como razão social independente nos registros consultados. A unidade de Boca do Acre está vinculada à Falcão Indústria de Alimentos Ltda., empresa cuja matriz fica em Iranduba, no Amazonas, e que possui estabelecimentos registrados em diferentes estados brasileiros.
Quem é a empresa que opera o FrigoRaça
A unidade de Boca do Acre está registrada sob o CNPJ 11.958.002/0005-38 e teve sua abertura registrada em 20 de novembro de 2023. O estabelecimento aparece como filial da Falcão Indústria de Alimentos Ltda. e utiliza o nome fantasia Frigorífico Frigoraca.
A atividade econômica principal registrada é o abate de bovinos. O capital social declarado pela empresa é de R$ 9,8 milhões.
A filial está localizada na BR-317, km 09, no Platô do Piquiá, em Boca do Acre, no mesmo complexo industrial que durante décadas esteve associado ao Frizam.
A empresa tem matriz no Amazonas
A Falcão Indústria de Alimentos não surgiu em Boca do Acre. A matriz está registrada em Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus, sob o CNPJ 11.958.002/0001-04, com abertura em 18 de maio de 2010.
O registro empresarial indica uma sociedade empresária limitada, também com capital social declarado de R$ 9,8 milhões.
No quadro societário consultado aparece Raimunda Maria Pizano Miranda como sócia-administradora, condição registrada desde 12 de abril de 2018.
Falcão possui unidades em diferentes estados
Outro aspecto que chama atenção é a quantidade de estabelecimentos vinculados ao mesmo CNPJ-base.
Os registros atuais indicam 13 estabelecimentos, entre matriz e filiais. Além da unidade de Boca do Acre e da matriz de Iranduba, aparecem registros em Manaus, no Amazonas; Alenquer, no Pará; Porto Velho, em Rondônia; Humaitá, no Amazonas; Taquaritinga e São Paulo, em São Paulo; Juruena, no Mato Grosso; Brasília, no Distrito Federal; Horizonte, no Ceará; e Colorado, no Paraná.
A estrutura mostra que o FrigoRaça de Boca do Acre faz parte de uma operação empresarial mais ampla e não deve ser analisado como uma empresa local independente.
Entre os registros mais recentes está a unidade de Colorado, no Paraná, aberta em 5 de julho de 2026. A filial de Juruena, no Mato Grosso, também aparece atualmente vinculada ao CNPJ-base da Falcão.
O caso de Juruena também chama atenção
A expansão da marca FrigoRaça para outros municípios ganhou destaque em abril de 2026, quando houve mobilização de pecuaristas em Juruena, no Mato Grosso. Na ocasião, produtores reclamaram de pagamentos relacionados à comercialização de gado.
Há, porém, uma ressalva importante na comparação entre os dois episódios. Relatos publicados sobre a mobilização de Juruena associavam parte dos débitos à BMG Foods, empresa que anteriormente operava a unidade. Por isso, não é possível atribuir automaticamente aqueles valores como dívida comprovada da Falcão Indústria de Alimentos.
O episódio, ainda assim, integra o contexto da expansão da marca e merece ser considerado porque a unidade de Juruena está atualmente formalmente vinculada ao mesmo CNPJ-base da empresa que opera o FrigoRaça de Boca do Acre.
Em Boca do Acre, crise chegou à BR-317
Em Boca do Acre, a situação ganhou repercussão pública com a manifestação de pecuaristas realizada na terça-feira (22). A BR-317 foi interditada durante o protesto, segundo informações divulgadas sobre o episódio.
Os produtores reclamavam de pagamentos atrasados pela comercialização de gado. Conforme relatos publicados sobre a manifestação, havia pecuaristas que afirmavam estar aguardando os valores havia 11 dias.
A mobilização levou o conflito para além das relações comerciais entre produtores e frigorífico. Com o bloqueio da rodovia, uma questão envolvendo pagamentos passou a interferir também na circulação pela principal via de acesso à região.
A estrutura do Frizam continua no centro da história
O frigorífico atualmente associado ao FrigoRaça possui uma história anterior à chegada da atual operadora.
O complexo industrial está historicamente relacionado à Agropam – Agricultura e Pecuária Amazonas S/A, empresa que utiliza o nome Frizam e possui registro empresarial desde 1983.
Os registros empresariais associam a companhia ao endereço da BR-317, km 09, no Platô do Piquiá, onde funciona a estrutura frigorífica de Boca do Acre.
Assim, embora a operação atual esteja vinculada à Falcão Indústria de Alimentos, o empreendimento industrial possui uma trajetória que antecede a chegada do FrigoRaça ao município.
Uma eventual crise pode afetar toda a economia local
A preocupação provocada pelos atrasos não se limita aos produtores que aguardam pagamentos.
O funcionamento de um frigorífico movimenta uma extensa cadeia econômica, que envolve pecuaristas, transportadores, caminhoneiros, trabalhadores da indústria, fornecedores, postos de combustível, oficinas, comércio e prestadores de serviços.
Por isso, uma paralisação prolongada ou uma crise financeira que comprometa a operação pode produzir efeitos em diferentes setores da economia de Boca do Acre.
Há relatos no município sobre centenas de pessoas ligadas direta ou indiretamente à atividade e sobre obrigações que poderiam alcançar dezenas de milhões de reais. Esses valores, porém, ainda precisam ser individualizados e comprovados por documentos para que possam ser tratados como dívida efetivamente reconhecida da empresa.
O que já é público é que a insatisfação dos pecuaristas deixou de se restringir às negociações individuais. A manifestação de 22 de setembro, com a interdição da BR-317, colocou a crise do frigorífico no centro do debate em Boca do Acre e ampliou a pressão por respostas sobre pagamentos e sobre a continuidade da operação.


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