Por que a meta de 1,5ºC é fundamental nas discussões da COP26

Estudos mostram que impactos da mudança climática são inevitáveis, mas permitir que temperaturas aumentem mais que patamar estabelecido no Acordo de Paris pode trazer consequências graves

A COP26 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que acontece até 12 de novembro em Glasgow, na Escócia, tem como principal objetivo manter viva a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC até 2100, como propõe o Acordo de Paris.

Estudos mostram que frear o aumento das temperaturas a 1,5ºC é o mais seguro para evitar os efeitos mais severos da mudança climática no futuro. Apesar disso, os atuais compromissos climáticos dos países, se mantidos, devem tornar o mundo mais quente que o proposto.

1,09ºC

foi quanto a temperatura média global já aumentou em relação ao período pré-industrial, segundo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) de 2021

O Nexo explica qual a origem da meta de 1,5ºC, o que os estudos apontam sobre o tema e o que os países devem fazer para limitar o aquecimento global a esse patamar. Mostra também o debate na COP26 sobre o assunto.

O que o Acordo de Paris propõe


A proposta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC até o fim do século teve origem nas negociações para o Acordo de Paris, primeiro tratado universal de combate à mudança do clima, assinado em 2015 por 195 países no encerramento da COP21, que aconteceu na capital francesa.

O acordo diz mais precisamente que os países signatários devem se esforçar para frear o aumento das temperaturas a menos de 2ºC, mas, idealmente, ao limite de 1,5ºC, por meio de medidas para redução de emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono.

Um grande maquinário em área deserta. Atrás, o céu está azul, e o sol brilha.

O acordo foi considerado histórico, por representar a primeira vez em que todos os países na COP assumiram compromissos para o clima. Em 2015, todos tiveram que criar metas nacionais para chegar à meta de 1,5ºC, chamadas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas).

O tratado que estava em vigor até o Acordo de Paris era o Protocolo de Kyoto, que restringia aos países desenvolvidos a responsabilidade de conter o aquecimento global. O acordo foi assinado em 1997, mas não foi bem-sucedido por conta de regras rígidas e adesão insuficiente.

Um homem calvo, vestindo roupa social, ergue os braços e dá as mãos para duas mulheres, uma de cada lado, como num gesto de vitória.

Outra mudança do Acordo de Paris em relação ao tratado anterior foi definir que as NDCs dos signatários são voluntárias, não obrigatórias. Apesar disso, as metas devem ser revistas a cada cinco anos, e após cada revisão os países devem propor compromissos mais ambiciosos.

Em 2015, a meta de 1,5ºC foi puxada por negociadores de pequenos países insulares, mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global por conta do aumento do nível do mar. Considerada ambiciosa por cientistas na época do acordo, hoje ela está amplamente consolidada.

O que estudos dizem sobre o tema


Os principais dados sobre os impactos do aquecimento a 1,5ºC estão em dois relatórios publicados em 2018 e em 2021 pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas da ONU), considerado a maior autoridade científica sobre o tema.

Encomendado após o Acordo de Paris, o relatório especial sobre aquecimento global de 1,5ºC do IPCC em 2018 mostrou que, com as emissões no ritmo atual, é inevitável que o mundo chegue ao cenário de 1,5ºC até 2040, dentro da expectativa de vida de boa parte da população.

À direita, visto do alto, em tamanho pequeno, um homem caminha enquanto carrega dois baldes, um em cada lado do ombro. Abaixo dele, aparece um grande solo branco e seco, como se estivesse partido em cacos.

A publicação também apontou que com o aquecimento de 1,5ºC o mundo deve sentir impactos que antes se imaginava que só ocorreriam em cenários mais graves – como aumento de secas, inundações, avanço do nível do mar e da pobreza, entre outros.

Os impactos, porém, devem ser ainda mais graves em um mundo mais quente. Segundo o IPCC, o cenário de 1,5ºC é mais seguro que o de 2ºC, e permitir que a temperatura suba acima desse patamar pode trazer consequências como a perda de habitats naturais e de espécies.

Em um cenário de aquecimento a 1,5ºC, por exemplo, ondas de calor seriam comuns no mundo, as chuvas torrenciais e os furacões aumentariam cerca de 7%, as safras de milho teriam 10% de perda e o gelo no Ártico reduziria 15%, segundo projeções do relatório.

Uma mulher, segurando um peixe, se equilibra sobre uma minúscula pedra em meio ao enorme oceano em volta.

Em um cenário de 2ºC, porém, os furacões cresceriam 15%, o gelo no Ártico reduziria 30% e as safras cairiam 20%. Em um cenário de 3ºC a 4ºC, Itália, Espanha e Grécia passariam a ter clima desértico. Com 5ºC a 6ºC, os furacões cresceriam em 37%, e o gelo reduziria em 75%.

Para impedir um aquecimento de 1,5ºC, as emissões de gases do efeito estufa precisam cair em 45% até 2030 em comparação com o nível de 2010, e em 100% até 2050, segundo o relatório. A publicação foi baseada em mais de 6.000 estudos publicados até 2018.

Vacas pastam em campo perto de incêndio na Ilha Kangaroo, na Austrália. Cerca de dez vacas comem em chão aparentemente seco, com floresta pegando fogo ao fundo e muita fumaça no ar

Em 2021, outro relatório do IPCC mostrou um novo dado: segundo o texto, o mundo deve chegar à marca de 1,5ºC em 2030, antes do previsto. O patamar deve ser atingido no cenário mais ambicioso de corte de emissões. Caso haja mais emissões que o projetado, a alta pode ultrapassar 2ºC nesta década.

Nesses cenários, eventos climáticos extremos devem crescer no Brasil, onde o IPCC prevê mais precipitações intensas no Sudeste e no Sul e aumento da seca no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O quadro pode comprometer a atividade agropecuária e o sistema elétrico do país, baseado em hidrelétricas.

A crise do clima


CAUSAS

A mudança climática começa com atividades que emitem grande quantidade de gases que agravam o efeito estufa, fenômeno responsável por tornar o planeta mais quente. Entre os gases emitidos estão o CO2 (dióxido de carbono), o metano e o óxido nitroso. A maior parte das emissões é causada por atividades dos setores de energia, transporte e alimentos.

EFEITOS

A emissão de gases como o CO2 agrava o efeito estufa e, como consequência, causa o fenômeno que tem sido chamado de aquecimento global. A principal consequência desse aquecimento é o aumento das temperaturas. Entre outros efeitos, há também a elevação do nível dos mares e o aumento de eventos climáticos extremos. A expressão mudança climática é um sinônimo abrangente de aquecimento global.

PROJEÇÕES

As projeções do clima mostram que o aquecimento global pode ultrapassar 2ºC ou mais até o fim do século 21 se o ritmo de emissões de gases do efeito estufa não diminuir. Para reduzir esse ritmo, são necessárias transformações em setores como o de energia e transportes. Em um futuro mais quente, a mudança do clima deve afetar (em grau maior ou menor) a economia, a saúde pública e o meio ambiente.

Qual o estado das metas atuais


Apesar da meta de 1,5ºC estabelecida no Acordo de Paris, estudos apontam que os atuais compromissos climáticos dos países que assinaram o acordo estão longe de reduzir emissões o suficiente para manter o mundo no patamar mais seguro de aquecimento.

Em 2021, um relatório da ONU mostrou que, com base nas NDCs apresentadas até setembro deste ano, as emissões de efeito estufa devem aumentar em 16% até 2030, o que coloca o mundo em um caminho certo para aquecimento de 2,7ºC até o fim do século, em vez de 1,5ºC.

Três pessoas usam roupa social e galões de petróleo na cabeça, com olhos e boca desenhados. Nas mãos, seguram mais galões.

Outro relatório da consultoria britânica Energy & Climate Intelligence Unit sobre as emissões dos países do G20 mostra que suas metas nacionais mais atualizadas cobrem apenas metade de suas emissões. Os países do G20 são os maiores poluidores do mundo.

76%

das emissões anuais globais de gases de efeito estufa vêm de países do G20, segundo relatório da consultoria Energy & Climate Intelligence Unit; cerca de 3% vêm do Brasil

Segundo o Acordo de Paris, todos os signatários deveriam ter apresentado novas NDCs em 2020, quando o tratado completou cinco anos. Parte deles, porém, não havia divulgado metas atualizadas ou que fossem ambiciosas o suficiente antes da COP26, como Austrália, Rússia e Índia.

O que está em jogo na COP26


Com a divulgação dos estudos mais recentes sobre a meta de 1,5ºC, os negociadores da COP26 buscam impulsionar um acordo entre países para que reavaliem suas metas climáticas e se comprometam com planos para reduzir suas emissões significativamente até 2030.

A conferência também deve decidir sobre pontos ainda não definidos do Acordo de Paris e decidir pontos importantes para o combate à mudança climática nos próximos anos, como meios de financiamento para países mais vulneráveis à crise e o fim do uso de fontes poluentes, como o carvão.

Entre domingo (31), primeiro dia da COP26, e esta quarta-feira (3), países que participam do evento assinaram acordos para reduzir as emissões do gás metano e acabar com o desmatamento até 2030. Outras decisões devem ser anunciadas até o fim da conferência, no dia 12.

Quatro pessoas estão penduradas por cordas em frente à fachada de prédio público. Elas seguram um grande pano, que diz "COP: invest in a plant based future" - COP: invista em um futuro à base de plantas, em português. Um policial gesticula no primeiro plano.


Segundo organizações da sociedade civil, a década atual, cujo cenário começa a se desenhar em Glasgow, é crucial para garantir que as temperaturas globais não aumentem a um nível que não seja mais considerado seguro e ao qual os países não consigam se adaptar.

Em 2021, eventos climáticos extremos, como ondas de calor, inundações, secas e incêndios florestais em países como Canadá, Alemanha, Grécia e Brasil têm mostrado como os efeitos da mudança do clima podem se intensificar nos próximos anos.

Os eventos climáticos extremos são fenômenos intensos e atípicos, como grandes secas, chuvas ou incêndios florestais. Com a mudança climática, esses eventos se tornaram mais frequentes nos últimos anos, e a tendência é que fiquem ainda mais frequentes, segundo cientistas.

nexojornal