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Boca do Acre

Líder da comunidade Marielle Franco diz que a prisão só o fortaleceu

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A M A Z Ô N I A REAL | Depois de 51 dias preso, o líder da comunidade rural Marielle Franco, Paulo Sérgio Costa de Araújo, fala pela primeira vez. De volta à casa, o agricultor e ativista atendeu ao pedido de entrevista da Amazônia Real e momentos após o início da gravação já disparou: “Isso aí [a prisão] só me fortaleceu”, diz. Ele não só avisou que não vai recuar, como contou detalhes da prisão, o histórico de conflitos com a vizinhança e os sonhos pelos quais não desistirá de lutar.

“O que eles fizeram comigo [prisão], eles já fizeram com várias pessoas. Calaram essas bocas. Não é fácil… É difícil provar o contrário com esses caras, que os bandidos são eles”, desabafa. “A gente se sente um nada com uma situação dessa. [A gente se questiona] se vale a pena viver. Cadê a lei?”

O agricultor foi preso no dia 5 de março em Boca do Acre (AM), logo depois de denunciar um caso de tortura contra quatro membros da comunidade Marielle Franco, que fica no município de Lábrea, no sul do Amazonas. Paulo Sérgio mantém a acusação de que esse crime de tortura teria sido encomendado pelo fazendeiro Sidnei Zamora, proprietário da fazenda Palotina, que nega ser o mandante. A fazenda se tornou o epicentro de um conflito que, ao longo dos últimos oito anos, já rendeu vários episódios de violência e tentativas de reintegração de posse.

De Boca do Acre, o líder comunitário foi transferido para a cadeia pública do município de Humaitá. No dia 25 de março foi levado para a capital do Amazonas, onde ficou por mais um mês.

Ele disse que já se encontra com a tornozeleira eletrônica, mas sequer foi ouvido. “Eu quero saber por que estou sendo monitorado. Temos muito mais provas do fazendeiro armado, atirando tentando matar a gente, policiais trabalhando para o fazendeiro, tudo isso foi constatado”, diz Paulo.

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As autoridades podem ter se convencido de que o líder comunitário seria uma ameaça a partir da manipulação de um vídeo, que Paulo Sérgio descreveu em detalhes o seu contexto à Amazônia Real. No dia 11 de janeiro, ele foi abordado por Sidnei Zamora Filho, herdeiro da Fazenda Palotina. “Eu estava quebrando castanhas e limpando um ramal. Do nada apareceu um carro. Pedi para baixar o vidro e virei a espingarda para o outro lado para que eles não se sentissem ameaçados. Ele [Zamora Filho] levou aquilo para as autoridades como se fosse uma ameaça”, relembra. O encontro teria sido filmado pelos jagunços da fazenda e o vídeo na íntegra, segundo Paulo, ainda não foi divulgado.

A luta pela terra
Apesar da prisão, das ameaças, Paulo Sérgio garante que continuará liderando os agricultores da comunidade Marielle Franco. “Essa terra aí que a gente está tentando arrecadar vai ficar na história. É para as famílias que estão precisando. Eu acredito que estamos dando um grande passo para que tudo possa ser resolvido e as famílias possam ficar em paz”, afirma.

Hoje, as famílias da comunidade vivem do cultivo de banana, arroz, macaxeira e café. “Tem vários plantios lá dos agricultores. Era para estar mais avançado, mas eles [da fazenda Palotina] entram lá e destroem tudo e ainda colocam veneno nas plantações”, acusa, novamente.

Colocado em liberdade, no último dia 25 de abril, Paulo Sérgio conta que os membros da comunidade quiseram fazer uma carreata em homenagem a ele, tanto em Boca do Acre, quanto em Rio Branco, mas que foram desencorajados por ele. “Falei para eles que o advogado disse que isso não seria bom. Vão inventar outras coisas, a gente preferiu deixar quieto”, disse.

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