Democracia no cardápio

Um grupo de empresários chegando a um restaurante sentou-se em uma mesa bem arrumada e confortável a fim de discutirem assuntos de negócios. Logo solicitaram ao metre o menu (cardápio), ao abri-lo verificaram que a comida oferecida por aquele restaurante tinha nomes bem diferentes classificadas como formas de regimes e de governos políticos diversos como monarquia, oligarquia, república, tirania e democracia que seguia a lista.

Achando isso bastante inusitado um dos empresários chamou o metre (garçom) e pediu que este lhe explicasse o que era a democracia, o garçom de pronto começou a lhe explicar o prato de uma maneira particularmente diferenciada também.

Muito bem Senhor a Democracia consiste em um prato que mistura vários ingredientes necessários ao bom funcionamento da vida coletiva que deve estar pautada em um novo princípio de compromisso e de crença como, por exemplo: Um Estado organizado por leis e por instituições onde a vida pública do cidadão é entendida como uma res pública representada por vínculos de associação, compromisso mútuo que existem entre pessoas que não estão unidas por laços de família ou de associação íntima, antes a res pública representa o vínculo de uma multidão, de um povo, de uma sociedade organizada, mais do que vínculo de família ou de amizade. Participar dessa res publica é uma questão de estar de acordo. O empresário gostando da conversa pediu aquele garçom que continuasse nas suas explicações solicitando que este lhe desse algum exemplo, e o garçom lhe ofereceu como exemplo um livro cujo tema era “A Multidão Solitária” de autoria de David Riesman onde o autor contrastava uma sociedade voltada para dentro, na qual os homens executavam ações e firmavam compromissos baseando-se em objetivos e sentimentos que traziam dentro de si mesmos, a uma sociedade voltada para o outro, ou seja, eles tratam em termos de sentimentos pessoais os assuntos públicos.

A Democracia requer a existência de espaços públicos que possam oferecer visibilidade de encontros e vida política, não podem servir apenas com a finalidade de passagem, seu sentido próprio está voltado para a experimentação das relações sociais de um povo de uma sociedade, que ao contrário de uma multidão solitária como constatou David Riesman, possa se evidenciar nesses espaços uma multidão acompanhada porque tem em comum uma vida coletiva e não compartilha o silêncio como uma forma de proteção. A democracia consiste na igualdade das condições, a essência da democracia está na igualdade social que significa a inexistência de diferenças hereditárias de condições, o que quer dizer que todas as ocupações, todas as profissões, dignidades e honrarias são acessíveis a todos e requer de forma incondicional um sentimento de pertencimento à comunidade política criando uma cultura política a qual refere-se a uma variedade de atitudes, crenças e valores políticos como: respeito pela lei, participação e interesse por política, tolerância, confiança interpessoal e institucional visando afetar o envolvimento das pessoas com a vida pública. Por isso um país com baixa escolaridade de sua população não oferece as condições necessárias para que a democracia se consolide e alcance patamares maiores de qualidade. Nesses termos preparar as novas gerações para que possam se inserir de forma mais preparada e melhor qualificada em termos de credenciais escolares representa um dos principais meios de efetivar uma vida democrática realmente transformadora e com qualidade, sendo este um caminho eficaz para que a vida democrática siga como principal forma do homem moderno prevalecer contra suas vontades individuais. Nesse sentido, a vida democrática, continuou explicando aquele garçom, expressa um caráter enquanto valor ético, e caminha sempre na seguinte constatação desenvolvida pelo filosofo Paul Ricoeur “como alguém conta comigo, eu sou responsável por minha ação perante outro”. Nisso reside um dos valores éticos da democracia saber que sou responsável por minha ação perante outro, fora isso respondeu o garçom a aquele homem que já se virava em sua cadeira de olhos estatalados: Fico com o que disse Richard Sennette professor de uma universidade em Nova York “Um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar a sua legitimidade por muito tempo” e perguntou em tom de finalização para o homem empresário: então, vai uma democracia aí?

Márcia Meireles de Assis – Dra Em Ciências Sociais – Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre – UFAC. [email protected]