Covid-19: Com velocidade de infecção acelerada e vacinação lenta, Acre ainda está longe de se estabilizar na pandemia

Sexta-feira tem aumento vertiginoso no número de novas contaminações: quase 900 pessoas somente nas últimas 24 horas, e alta também no número de mortes: 11 no total

REPÓRTER OPINIÃO

Informações constantes nos boletins do Departamento de Vigilância em Saúde (DVS), da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), apontam que o Acre ainda está longe do ideal para que as pessoas não se contaminem facilmente e se reduzam os óbitos por Covid-19.

O estado, que na quinta-feira, 1, chegou a estar em queda no número de mortes, sendo um dos três únicos estados a ficar em azul – junto ao Amazonas e Roraima – voltou à faixa amarela nesta sexta-feira, 2. E na noite deste sábado, 3, já poderá estar retornando à vermelha, com a divulgação de mais 11 óbitos na sexta, um dos mais fatídicos dias da pandemia desde o início de 2021.

O número de novos infectados registrados em um único boletim, o desta sexta-feira, assusta: foram incríveis 863 novos casos de infecção pelo novo coronavírus nas últimas 24 horas. O estado já registra 1.280 mortos desde março de 2020.

“[A velocidade de infecção] está alta ainda. Atualmente, estamos com algo entre 1,6 a 1,8 de taxa de contaminação”, alerta Karolina Sabino, coordenadora do Comitê Estadual de Combate à Covid-19, o ‘Pacto Acre Sem Covid’, instituição que reúne uma série de entidades públicas, incluindo o Governo do Estado do Acre e o Ministério Público do Estado do Acre.

As estimativas da velocidade de contágio são feitas a partir de um indicador chamado R, que mostra para quantas pessoas cada infectado transmite a doença. No caso do Acre, neste momento, a taxa R, de 1,8, signifca que cada pessoa contaminada transmite a doença para aproximadamente outras duas.

“É uma velocidade de transmissão do vírus ainda muito alta se compararmos com a que pelo menos deveria ser uma margem mais amena, que é abaixo de 1, entre 0,6 ou 0,8”, pontua Sabino.

Esse índice de mais de 1 é o que está sobrecarregando o sistema de saúde, com colapso nas UTIs destinadas a pacientes com Covid-19, neste momento. Em Rio Branco, nesta sexta-feira, 2, o Hospital de Campanha do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Acre, o Into-AC, estava com 100% das suas 50 UTIs ocupadas.

Apenas uma das 30 vagas de UTIs do Pronto Socorro estava sem paciente, mas mesmo assim por pouquíssimo tempo, já que pelo menos 16 pessoas estavam na fila de espera por um leito de terapia intensiva. Em síntese, na capital acreana, onde se concentra o maior número de casos de Covid-19, das 80 UTIs disponíveis, apenas um leito esteve vago, mas por um breve momento. O número de infectados, desde que a pandemia se instalou no estado, em março de 2020, subiu de 69.988 para 70.851, entre a quinta e o sábado.

Por conta deste colapso, a Sesacre informa que, “diante da taxa de ocupação de leitos sobrecarregada no Sistema Único de Saúde, o Estado segue agora trabalhando, com apoio do governo federal, com a transferência de pacientes para outras localidades onde há disponibilidade de leitos para tratamento da Covid-19”.

Contaminações hoje vão reverberar daqui a 20 dias

Quinze ou 20 dias. Esse é o período que leva para que as autoridades em saúde possam dimensionar quão foi a intensidade de contaminação. Segundo o Comitê Estadual de Combate à Covid-19, a analogia que se faz é a de que a pandemia é como um trem em movimento, cujo maquinista deve acionar os freios muito antes da estação para que possa parar adequadamente na plataforma de embarque e desembarque.

“As pessoas precisam entender que o seus comportamentos hoje, se vão respeitar ou não as medidas de isolamento social, determinam o futuro em 15 ou 20 dias. Somente nos conscientizando de que é preciso um esforço coletivo para conter o avanço do vírus, nós conseguiremos”, explica Karolina Sabino.

Acre segue com uma das mais baixas taxas de vacinação

Apesar de já ter recebido pelo menos 163.540 doses de vacinas contra a Covid-19 até o momento, o Acre segue entre os que menos aplicaram as doses do antídoto em suas populações.

Até este sábado, o consórcio de imprensa formado por vários veículos de circulação nacional, apontava 47.044 pessoas vacinadas com a primeira dose, o equivalente a apenas 5,26% da população total do estado, e 33,24% das doses recebidas pelo estado.

O número de pessoas que receberam a segunda dose ainda é menor: 11.926 vacinados, representando apenas 1,33% de toda a população e 8,43% das doses que chegaram.

Nesta quinta-feira, 1, chegou o décimo primeiro lote, uma nova remessa de 20 mil doses da Coronavac, produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, e 2 mil doses da Oxford/Astrazeneca, fabricada no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz.

Segundo informa o governo do Estado do Acre, “a distribuição aos municípios acontece na segunda-feira, dia 5 de abril, tendo em vista o início da próxima etapa de vacinação, segunda dose do público-alvo, previsto para o dia 15 de abril”.

Ainda de acordo com o governo do estado, com base nas prioridades estabelecidas pelo Ministério da Saúde, 21 mil doses serão para dar continuidade ao esquema de vacinação de quem já recebeu a primeira dose do imunizante, ou seja, idosos e trabalhadores da saúde, enquanto que as demais, mil doses, serão destinadas a antecipação da vacinação dos profissionais das forças de segurança e salvamento”.

Renata Quiles, coordenadora do Programa Nacional de Imunização da Sesacre, enumera uma série de situações que refletem nos números reduzidos de imunizados no Acre, entre eles o fato de as prefeituras ainda estarem vacinando populações ribeirinhas que estão distante dos pontos com internet, onde é feito o registro de vacinação diretamente para o sistema do Ministério da Saúde. Essa argumentação vem sendo dada desde o início do ano, quando as comunidades prioritárias eram também as comunidades indígenas.