Como fenômenos climáticos afetam o agronegócio em 2021

Geadas e seca levam a previsão de queda de safras. O ‘Nexo’ mostra quais produtos estão entre os mais impactados e como eles pesam no bolso dos brasileiros

Os alimentos são um dos principais responsáveis pela inflação alta no Brasil em 2021. Em meio à alta do dólar – que estimula a exportação e reduz a oferta interna de produtos – e ao ciclo internacional de commodities, bens da agropecuária estão com o preço elevado.

Outro fator que ajuda a impulsionar os preços são fenômenos climáticos. O Brasil vive um momento de seca histórica. Ao mesmo tempo, o país registrou geadas fortes desde julho, que também prejudicaram a produção agropecuária.

Neste texto, explica como os fenômenos climáticos afetam o agro em 2021 e como isso se traduz em menor oferta de alguns produtos e maior pressão no bolso dos brasileiros.

2021, ano de seca e geadas


O período de chuvas entre 2020 e 2021 (de outubro a abril) foi historicamente seco. Desde o segundo semestre de 2020, o Brasil registra a pior escassez hídrica em 90 anos. A falta de chuvas é pior nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Além de prejudicar a agropecuária pela menor disponibilidade de água, a crise hídrica tem outro impacto indireto. Com o baixo nível de chuvas, reservatórios de usinas hidrelétricas chegaram a níveis historicamente baixos, encarecendo a produção de energia e levando a um aumento da conta de luz. Com isso, os produtores rurais, que – embora não utilizem tanta energia quanto indústrias e comércios – vêem seu custo de produção aumentar.

Outro fenômeno climático registrado em 2021 são as geadas intensas. As três ondas de geadas em julho foram consideradas as mais fortes no país desde ao menos 1994. As geadas podem ocorrer de duas formas: a geada branca, na qual se forma uma camada de gelo sobre as folhas; ou a geada negra, na qual as plantas congelam por dentro e ficam com aspecto parecido ao queimado – por isso o nome.

Independentemente do tipo, as ondas de geada estragaram plantações de diferentes produtos pelo Brasil desde julho. Somadas à crise hídrica, os fenômenos devem levar à primeira queda da safra agrícola – que inclui cereais, grãos e leguminosas – em três anos, segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgadas na quinta-feira (9).

1%

é a queda prevista para a safra brasileira em 2021, na comparação com 2020.

Produtos mais afetados


MILHO

Segundo o IBGE, o milho foi o produto mais afetado pelos eventos climáticos em 2021. Mesmo com aumento de mais de 6% na área plantada em relação a 2020, a safra do grão deve vir 15,5% menor em 2021 na comparação com 2020, sobretudo por causa das geadas. Além da oferta interna menor, o milho também é pressionado pela alta do preço no mercado internacional. Somando esses fatores, o preço do milho vendido no mercado acumulou alta de 13,7% em doze meses até agosto de 2021, com perspectivas de novas altas até o final do ano.

FEIJÃO

O feijão é outro produto que foi bastante afetado pelos fenômenos climáticos. Bastante dependente de água, o plantio do grão ficou prejudicado pela falta de chuvas, em especial no Paraná, principal estado produtor. Segundo o IBGE, a expectativa é de queda de 7,4% na oferta de feijão no mercado brasileiro em 2021, na comparação com o ano anterior. Até agosto de 2021, o feijão fradinho subiu mais de 40% em doze meses no mercado, a maior parte da alta concentrada no final de 2020, já durante a crise hídrica. O feijão preto, por sua vez, subiu quase 18% no mesmo período. A expectativa é de novas altas no final de 2021.

CAFÉ

Os produtores de café foram fortemente atingidos pelas geadas de julho de 2021, que já chegaram em um momento ruim para as plantações, dada a falta de chuvas. A “queima” causada pelas geadas negras levou produtores a reduzirem as plantações ou desistirem de plantar café, migrando para outros produtos. O Brasil é o principal produtor e exportador de café do mundo – e segundo maior consumidor. O impacto da redução da oferta já é sentido nas prateleiras dos mercados pelo país: segundo o IBGE, só nos primeiros oito meses de 2021, o café em pó ficou em média 17,7% mais caro.

AÇÚCAR

A cana-de-açúcar depende de umidade e calor para crescer. Com a seca, as geadas e as temperaturas baixas do inverno, a safra teve queda em 2021 em relação a 2020. Com menor produção da cana, o açúcar também teve oferta reduzida, afetando o valor do saco que é vendido nos mercados. Em média, o açúcar refinado subiu 37,7% de setembro de 2020 a agosto de 2021 no Brasil.

O efeito para a população
Junto com a conta de luz e os combustíveis, os alimentos são um dos motores da inflação alta em 2021. E os produtos citados acima ajudam a puxar para cima o nível de preços do grupo.

Entre setembro de 2020 e agosto de 2021, os preços de todos os produtos, em média, aumentaram 9,7% no Brasil. Os alimentos subiram mais que isso no mesmo período.

13,9%

foi o aumento dos preços de alimentos de setembro de 2020 a agosto de 2021, segundo o IBGE.

A inflação de alimentos impacta principalmente as famílias de mais baixa renda, que gastam proporcionalmente maior parte de seus rendimentos com comida do que as famílias que ganham mais. Em 2021, isso agrava a situação de vulnerabilidade de pessoas que já são afetadas pelo alto desemprego, pela renda em baixa e até mesmo pela fome, em meio à crise econômica da pandemia do novo coronavírus.

Os impactos indiretos das altas


No caso do milho, há ainda um impacto indireto sobre o preço de outros alimentos. Como o grão serve de base para a ração usada na criação de bovinos, o milho mais caro significa ração mais cara. Isso, por sua vez, leva a maiores custos dos produtores da pecuária.

Com a produção mais cara, a tendência é de aumento ainda maior do preço da carne no Brasil – que já está alto. Ou seja, os fatores climáticos que afetam a produção de milho podem ajudar, indiretamente, a elevar os preços da carne, que subiram 30% entre setembro de 2020 e agosto de 2021.

Há também um efeito cascata no caso do açúcar, mas com outro caminho. A cana-de-açúcar é usada para produzir o etanol, um dos combustíveis mais usados no Brasil. Além disso, a gasolina comum é uma mistura que contém, por lei, 27% de etanol anidro – também produzido a partir da cana-de-açúcar.

Com as safras de cana afetadas por fenômenos climáticos, o etanol fica mais caro. E esse impacto é sentido também no mercado de combustíveis – uma das frentes da inflação em 2021. Portanto, os fenômenos climáticos que prejudicam a produção da cana-de-açúcar também ajudam a alimentar a alta dos combustíveis em um momento de inflação alta.

nexojornal